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Full text of "PROBLEMA DE ARCHITECTURA CIVIL, DEMONSTRADO POR MATHIAS AYRES RAMOS DA SYLVA DE EÇA"

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le ne fay rien 
sans 


Gayeté 


(Montaigne, Des livres) 


Ex Libris 
José Mindlin 

















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p Dra fio ksa 


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fu lb oracs pa 139/40 


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Al 


PRO B L EM A 
ARCHITECTURA 


Cir, 
DEMONSTRADO 


POR 


MATHIAS AYRES RAMOS 
DA SYLVA DE EÇA, 


Provedor , que foi da Caza da Moeda defla Corte: e author 
das Reflexoens fobre a Vaidade dos Homens, 


QUE DEDICA, E OFFERECE 
A o, SENHOR Ê 
GONCALO JOZÉÊ 
DA SILVEYRA PRETO, 


aeee da Caza de Sua Mageftade , do feu Confelho , do e fua Real 
Fuzenda, Chanceller, e Deputado da Sereuiflima Caza de Bragan. 
qgà, do Confelho, e Eítadio da Rainha Mãi N, Senhora, Procu. 
xador da Fazenda da Repartiçaô do Ultramar, Senhor Donatario 
da Villa de S. Miguel de Acha, Alcaide Mór de Monçaõ , Com. 
mendador das Commendas de Santa Maria dos Anjos da meíme 
Villa , e da do Cazal do Bogalho , ambas na Ordem de Chrif« 
to Xc. Sc. 


MANOEL IGNACIO RAMOS 
DA SYLVA DE EÇA. 


LISBOA 


Na Offc. de ANTONIO RODRIGUES GALHARDO, 
Impreflor da Real Meza Cenforia, 
MDCCLXKXVIL 
Com licença da mefma Real Mexa, 


SENHOR 
GONÇALO JOZE 


DA SILVEYRA PRETO. 


O... » que me atrevo a 


dedicar aWV S. be do mefmo auétor 
que compoz o da Vaidade dos Ho- 
mens. O unico objecto, que me obrie 

de “ga 


ga aimprimillo, be a gratidao de fi- 
lho , que quer levantar das fombras 
da fepultura onome de quem lhe deo 
ofer, e afortuna, fazendo durar a 
Jua memoria nefe eferito publico, 
confagrado à utilidade da patria. 
Temendo, que abrangeffe ao li- 
vro a difgraça , em que acabou o feu 
auétor , quiz bufcar-lhe bum azylo fe- 
guro, bum nome refpeitado, que pof= 
to na faxada da obra'preveniffe o 
pêblico a favor della. 
co amizade, com que V. S.bon- 
rou o pui;e os beneficios com que fe 
digna proteger o filho , uitidos à jujta 
reputaçao, que tem adquirido o fem 
refpeitavel nome ; fizeraô , que eu por 
obrigaçao, e por interefje bufcafe o 
amparo de V S. para fer bem a- 
ceita aobra de bum Cidadad; a quem 
os aggravos da fua patria naô pu- 
deraô arrancar do coraçaõ os fagra- 
dos direitos , que ella nos impoem , de 
dbe fer-mos uteis ; quanto as nofas 


for- 


forças o confentem“ Os altimos tema 
pos da difgraça » que encurtaraôd os 
“dias do auétor defie livro, talvez 
confirmado , quecelle era bum Cida- 
dao benemerito: V.:S. be.a melhor 
prova, de que as difgraças às vem 
mes feguem mais a quem be menos 
digno dellas. 

A razad ,.e o merecimento » 
que nem fempre faô o efcarneo da 
fortuna, chamaraô a V S..aos em- 
pregos, e aos applauzos da.Gorte; 
e as jujtas providencias dos nofjos 
Soberanos ; unidas aos votos: do pu- 
blico naô quizerad deixar enterrado 
hum talento, que pojfo no commer- 
cio da vida" cival daria tanta ubilix 
dade: à noffa naçaô. 

Se be da nutureza, que a fim 
Ibança.de fortunas faz mais folidas 
as vamizades ;xV So, que fempre 
mereceo fer feliz, mas que nem fem- 
pre o tem fido, queira. dignar-fe de. 
proteger nefte livro a memoria pof 

thuma 


sbuma de bum homem, a quem vio, 
correr amefma fortuna, que pertur- 
bou o focego de V. S. He obra de 
hum homem de'letras , deve achar. 
acolhimento nos olhos de outro. V.. 
S., que tem confagrado os feus. pre- 
ciozos annos ao efêudo fublime de 
manejar as leis, que [Jaó a alma 
do Eftado , nad fe deve defprezar 
de proteger buma arte , que ainda 
que muito inferior pela fua materia , 
concorre notavelmente para a poli- 
cia das Cortes, e dá aos Reinos as 
mefimas ventagens , que o ornato dá. 

ao corpo. e ak 
Eu unindo efe benefício aos 
mais, com que PV. S. fe tem digna 
do honrar-me , olharei para todas 
as profperidades, que baô de encher 
a eftimavel vida de V. S., como 
para outras tantas provas de juffiz 
ga dos nofos Soberanos , que ar 
rancaô das trevas , e do efquecimen- 
to homens provados , em cujas maôs 
de- 


depozitad os premios , e os caftigos 
dos feus povos Estes votos faz Liss 
boa toda ; porém com mais obrigar 
çaô, e com mais zelo os faz 


De V S. 


O Criado mais humilde, c obrigado 


Manoel Ignacio Ramos. da 
Sylva de Eça, 


PROBLEMA 


DE 
ARCHITECTURA 
CIVIL 


PARTE I 


EFE E O E VESTE AS Ge 
| e—em ema meira sem aaa emana 


ELPITULO E 


O problema de Architectura Civil, que 
devemos refolver , e demonftrar , 
be o feguinte. 


Porque razaô os edifícios antigos tinhaô , e 
tem mais duraçaô do que os modernos ? 
eeftes porque razad refitem menos ao 
movimento da terra quando treme ? 


Sta queítaô parece facil de 
refolver ; porque cômummen- 
te fe diz que a diuturnida- 
de do tempo faz caldear as pare- 
des ( como os Artifices fe expli- 
A cad ) 


2 Problema 


caô ) fazendo-as mais conglutina- 
das para poderem fuftentar o pe- 
zo do edificio , e para refiftirem 
ao impulío extraordinario que faz 
tremer a terra. 

Efta foluçaô, fundada fó na 
divturnidade do tempo , parece me- 
nos bem eftabelecida : porque , ain- 
da que-o tempo contribue muito 
para folidar os muros de que os 
edificios fe compoem , com tudo, 
io he afim quando preexiftem 
as circumflâncias , por meio das 
quaes fica tendo lugar a acçaô do 
tempo : porém, fem a concurren- 
cia daquellas circumíftancias , ne- 
nhum tempo baíta para fazer for- 
te hum muro defpois de fabrica- 
do contra a regra dos principios. 

Os artifices antigos: conhece- 
raô muito bem efta verdade; e os 
modernos tambem a conhecem : 

porém 


De Arcbiseltura Civil. 3 


porém eftes pouco attentos á du- 
raçaô dos edificios , e com eco- 
nomia menos juíta, tem mais pot 
objecto a conclufaô da obra, do que 
a duraçaô della; e fendo efcrupu- 
lofos na ordem da perfpettiva, e 
em outras partes menos importan- 
tes, faô faceis na eleiçaô dos max 
teriaes com que fabricaô. O ponto 
principal eftá nos materiaes,; de cu- 
ja bondade , e fimplicidade depen- 
de a fortaleza ainda mais, que de 
outro artifício algum. De forte 
que a permanencia naô vem do 
ferro , nem do bronze que fe ajun- 
ta; eftes metaes devem fer confi- 
derados como adjutorios auxilia- 
res, e adventicios. A duraçaô pro- 
vém da propria fubftancia do edi- 
ficio, naô do remedio que fe buf- 
ca para o fazer forte : devemos 
prefuppôr a pureza da fubítan- 


Au cia, 


4 Problema 


cia, ilto he dos materiaes; entad 
contribue o tempo , o ferro , eo 
bronze. 

Porém fe o muro he feito com 
materiaes incongruentes, que per- 
manencia póde ter para fuftentar o 
feu mefmo pezo, e para refiftir ao 
movimento ? Aquelle vicio origi- 
nal fempre lhe ferve de obítaculo 
invencivel; e nefte calo nenhum 
tempo , ou artifício póde extrahir 
do muro o vicio interior, introdu= 
zido deíde os primeiros rudimen- 
tos da fua conftrucçaõ : os annos 
naô o fortalecem , antes o debili- 
taô; porque a natureza do mal he 
progrefliva ; raras vezes fe diminue, 
e quafi fempre fe augmenta. 

Nos edificios antigos obfer- 
vamos huma exaétiflima uniad en- 
tre as pedras, e mais materiaes, de 
que os feus muros fe compunhaõ; 

e to- 


De Architectura Civil. 5 


e todos taô confolidados entre fi, 
como fe foflem caminhando para 
de muitas pedras formarem huma 
fó: e com effeito vemos que nel- 
les he mais facil quebrar a pedra, 
que defunilla ; e que mais de pref- 
fa fe confegue o deftruir o muro 
pelo coraçaô das meímas pedras , 
que pela juntura dos feus angulos: 
e quando o movimento da terra; 
ou de outro accidente tal, induz a 
fatalidade da ruina , o muro naô 
cahe desfeito em pequenas partes; 
mas precipita-fe dividido em lanços; 
nem fe desfaz como moído em pó, 
mas abate-fe em troços, confer- 
vando de algum modo a fua figu- 
ra. Daqui vem que os edificios an- 
tigos bem moftraô que foraô fei- 
tos para muitos feculos. 
Naô fe fegue porém que 
os antigos tivellem melhores ope- 
A mi rartos; 


6 Problema 


rarios; porém fabiaô efcolher me- 
lhor. Os artifices modernos dif- 
penfaô facilmente na bondade, e 
regularidade dos Ífeus materiaes ; 
por vifto que os tenhaô promptos, 
e menos difpendiofos : contentaô- 
fe de fabricar para o Íeu tempo, 
fem fe embaraçarem do futuro ; ba- 
fta-lhes que a obra dure em quan- 
to elles durarem , deixando para 
os que haô de vir a trifte occupa- 
çaô de reconftruirem. 

Por iflo vemos tantas vezes 
que os edificios novos, apenas aca- 
bados da maô do meítre , logo 
daô finaes de fentimento : por hu- 
ma parte perdem as paredes o Ífeu 
equilibrio vertical ; por outra fa- 
zem aberturas ; e por outra cof- 
pem os ingredientes que lhes faô 
contrarios. E fe fobrevém á terra 
algum movimento irregular , fazem- 

fe 


De Arebiteltura Civil. q 


fe perceptíveis os defeitos , e vaô 
moftrando indícios infalliveis de 
ruína. 

Pelo que fica expofto pode- 
mos inferir que a razaôd , porque 
os edifícios antigos eraô duraveis, 
he por haverem fido feitos com 
bons materiaes: ea razaô, porque 
os modernos naô tem a mefma du- 
raçaô, he porque faô cômummen- 
te fabricados com materiaes impro- 
prios. Efta he a refoluçaô do pro- 
blema : e para a demonítrarmos he 
precifo examinar quaes faô os'ma- 
teriaes, de que os muros fe com- 
poem; quaes faô as qualidades que 
tem os com que hoje fe fabrica, e 
as que devem ter , para que a 
obra fique permanente, e para que 
refifta mais ao movimento da terra 
quando treme. 


Av CA- 


8 Problema 








He eme mete eee ret es pe mm 


CAPITULO I. 
i t 
À bondade dos materiaes de- 
pende inteiramente a firmeza 
das paredes ( fuppondo fempre fe- 
rem feitas com arte, e como a 
arte pede) : o tempo as faz confo- 
lidar , quando os materiaes fe naô 
oppoem á Ífua acçaô. Hum com- 
poífto de barro , ou de qualquer 
terra commua , em nenhum tempo 
póde admittir firmeza. Ainda que 
a hum compoiíto tal fe lhe ajunte 
a melhor pedra, nunca de huma tal 
compoliçaô fe ha de formar hum 
corpo Íolido; porque o barro con- 
ferva fempre propenfaô para deí- 

unir-fe , ou desfazer-fe na agua. 
“Toda a duraçaô de hum com- 
pofto 


De Architetura Civil. <q 


poíto confie em naô render-fe 
ao combate aétual dos elementos, 
A agua, e o ar faô os dous inimi- 
gos poderozos , que trabalhaô per- 
petuamente, e efficafmente a for- 
mar, e a defunir; a unir, e a fes 
parar; a fazer, e a desfazer. Ef- 
tes Íaô os dous agentes naturaes s 
contra os quaes fe deve oppor 
ou huma força proporcionada , ou 
huma materia, em que naô poílaô 
ter ingreflo. 

O diamante he o corpo mais 
folido , e duravel; porque nenhum 
dos elementos fe póde introduzir , 
nem fazer mudança em alguma 
das fuas partes; nem os licores 
corrofivos, nem a agua, terra, ou 
ar podem caufar-lhe a mais leve 
alteraçaô : o fogo o mais que faz 
he embaciarlhe a fuperficie, fi- 
cando a fua uniaô intacta, e fem 

ceder 


10 Problema 


ceder por modo algum a aquelle 
devorante univerfal. 

Depois do diamante fegue-fe 
o ouro, ea prata. Contra eítes 
dous metaes naô tem acçaô os ele- 
mentos: o fogo aétivo os funde; 
mas, depois de fundidos , ficaô co- 
mo eraô, e inalteraveis na fua fubf- 
tancia : e fe fundidos eftivellem 
até o fim do mundo, fempre ef- 
tariam, e feriaô os mefmos tanto 
em pezo certo, e caraéteriítico , 
como nas Íuas qualidades proprias, 
e eflenciaes. Iíto porém fe enten- 
de fó a refpeito do ouro, e prata 
propriamente ditos; porque, fe a 
fi tiverem outros corpos miftura- 
dos, eftes haô de diflipar-fe inteira- 
mente, 

O ouro póde fer volatilizado, 
e tambem a prata, fe no acto da 
fundiçaô fe lhe deita algum fal 


vola- 


De Architeétura Civil. II 


volatilcom miftura de algum com- 
pofto, que tenha propenfaô para 
levar configo, ou exaltar aquelles 
metaes adjuntos; porém eítes, de- 
pois de volatilizados , infallivelmen- 
te confervad as Íuas propriedades 
naturaes; e depois de reduzidos a 
metal, tornaô a fer o mefmo me- 
tal, fem mudança, fem falta, e 
fem differença alguma. 

Os outros metaes todos fe al- 
teraô, e fe perdem com a acçaô 
continua de qualquer dos elemen- 
tos; e de tal forte, que já mais po- 
dem tornar a fer inteiramente o 
que de antes foraô, O ar caufa no 
ferro a ferrugem importuna; ao 
chumbo reduz em pó; ao cobre 
em azinhabre; e ao eftanho em 
materia pulverulenta , e irreduéti- 
vel: o azougue refifte mais; po- 
rém batido tambem em agua, ou 

ainda 


12 Problema 


ainda por fi fó, a mefma continua 
concuflad o muda em hum pó ne- 
gro de difficil reducçaô , mas nun- 
ca de todo reduzivel. 

As pedras , cômummente cha- 
madas preciofas, feguem a natu- 
reza do vidro, mas com a diffe- 
rença de naô poderem fer fundi- 
das; e de naô poderem unir-fe de- 
pois de divididas como fuccede nos 
metaes por meio da fundiçaô. O 
vidro he o primeiro compoíto ar- 
tificial, contra quem os elementos 
nao tem força. E com effeito a vi- 
trificaçad he o ultimo termo, ou 
o ultimo apparato , a que a nature- 
za, e a arte chegaôd. Nem cada 
hum dos elementos, nem todos 
juntos podem caufar no vidro a 
menor mudança ; porque os corpos, 
depois de vitrificados, ficaôd de tal 
forte unidos em hum corpo fó, 


que 


De Árchitetiura Civil. 13 


-que efte, ainda que compofto feja 
de dous ou mais ingredientes , naô 
admitte feparaçaô alguma, e com 
uniaô muito mais indifloluvel, do 
que feriaô as aguas de fontes dif- 
ferentes, confundidas; ou miftura- 
das entre fi em hum fó vazo. 
Depois da vitrificaçad , ou fe- 
ja artificial, ou feja natural ("co- 
mo a que fe nota em todos os crif- 
taes) feguem-fe outras mais com- 
pofiçoens, que fegundo a qualida- 
de das fuas partes , ou fegundo a 
qualidade que receberaô do artifi- 
cio, ficaô mais ou menos aptas pa- 
ra refiftirem à acçaô “dos elemen- 
tos. As paredes conftituem huma 
das mais uteis compofiçoens ; ellas 
fe dirigem em primeiro lugar para 
fuftentarem o Íeu proprio pezo; e 
tambem para fuftentarem o pezo 
dos edificios. Eftes Íad os feus dous 
) obje- 


14 Problema 


objeêtos ordinarios ; os quaes fe ve- 
rificaô pouco , quando as paredes 
fe fazem fem arte na ordem da 
conftrucçaô, ou fe faô feitas fem 
conhecimento dos principios, iíto 
he dos materiaes. 
Pedra, cal, arêa, e agua, 
Jaô os quatro ingredientes de que 
as paredes commummente fe com- 
poem : porém nem toda a cal, 
nem toda a pedra, nem toda a 
arêa , nem toda a agua faô pro- 
prios para aquelle miniíterio ; to- 
dos faô proprios para fazer pare- 
des , mas naô paredes folidas , e 
duraveis. Todos fabem que ha mui- 
ta differença entre as pedras, aí- 
fim como a ha tambem entre as 
caes, entre as atêas, e entre as 
aguas. À arêa, a pedra, e a agua 
achaô-fe feitas naturalmente ; fó he 
neceflario conhecellas, para as ef- 
colher. 


De Architectura Civil. ag 


colher. A cal he producçaô da ar- 
te, porém tambem necefita parti- 
cular conhecimento para fazer del- 
la huma eleiçaô jufta. SERA 
Para a eleiçaô das pedras , 
bata faber que ellas naô exiftem 
como hoje eftaô deíde o principio 
do mundo, como alguns quizeraôd 
entender, e alguns afim o enten- 
dem ainda hoje; porque verdadei- 
ramente a natureza as fórma len- 
tamente, ecom arte, que Íó a ella 
confiou o Divino Architeéto do Uni- 
verfo. Os Chimicos difcorrem eru- 
diamente Íobre a materia da pe- 
trificaçad ; porém nenhum. houve 
até o prefente, que com fublime en- 
genho , ou com fegredo raro po- 
defle confeguir fazer huma imint- 
ma porçaô de pedra de qualquer 
efpecie, ou genero que foífe. 
As pedras tem ( como todas 
as 


16 Problema 


as mais coufas ) hum principio de 
nafcer, ou ( para melhor dizer ) 
de formar-fe ; a bafe da fua for- 
maçaô he provavelmente huma » 
ou mais terras unidas entre fi por 
meio de algum licor proprio , e pro- 
porcionado para aquella formaçaô; 
e de que para efta concorre hum 
liquido, tambem he muito verofi- 
mil; porque fe fe fizer huma abo- 
bada fechada de pedra em foço 
( como os operarios dizem ) dei- 
xando-lhe fómente huma pequena 
abertura lateral, e adminiftrando- 
lhe hum fogo fucceflivo e forte, 
ha de ver-fe começarem as pedras 
a fuar, ou a deftillar per defcenfum 
hum liquido, alchalino. Efte tal vez 
que naô fofle daquella qualidade 
na fua primeira origem , quando 
começou a fazer-fe a petrificaçad ; 
e entaô poderia fer hum licor aci- 


do, 


De Architettura Civil. 17 


do ; alchalizado depois pela acçad 
do fogo ; aflim como Íuccede ao 
nitro, e ao fal commum , os quaes, 
fendo acidos , certamente alchali- 
zaô-fe, fe eftando cobertos e fun- 
didos em valo proprio, paílao al- 
gum tempo pela violencia do ca- 
lor. 

O mefmo fe vê nas cinzas dos 
Vegetaes, os quaes no feu eftado 
natural, naô moftraô , nem daô 
indício algum de conterem fal al- 
chalino fixo, e o que defcobrem 
faô faes acidos volateis; porém de- 
pois de queimados , e reduzidos a 
cinzas , eftas fó daô hum fal al- 
chalino fixo, e de nenhum modo 
fal acido volatil. E aflim fe mani- 
fefta que na formaçaô das pedras , 
entra com effeito hum corpo liqui- 
do, porque ou feja acido volatil, 
ou alchalino fixo , cada hum def- 

B tes 


18 Problema 


tes he hum liquido verdadeiro ; 
corporizado com as terras, de que 
as mefmas pedras fe compoem. 
Sempre porém he muito in- 
certo o modo, com que as terras 
fe petrificad; e da melma forte o 
tempo, que gaftaô primeiro, que fe 
petrifiquem. A natureza efconde 
efte fegredo ( como outros mui- 
tos ) e apenas deixa ver alguma 
luz pouco perceptivel-, para que; 
podendo difcorrer fobre a materia 
da petrificaçaô , fiquemos fempre 
duvidofos ; moltra-nos os inftru- 
mentos de que ella fe ferve, mas 
naô o modo de fe fervir delles; 
moltra-nos o caminho aberto, por- 
que em mil partes vemos a terra 
Já petrificada , porém aquelle mef- 
mo caminho, he o que quafi fem- 
pre nos conduz a hum laberinto 
vago, e errante, 
E com 


De Architeétura Civil. 19 


'* Ecom effeito nem fempre pó- 
de fer feliz a noffa applicaçaô ; po- 
rém que importa que difcorrendo 
erremos muitas vezes , fe acerta- 
mos alguma vez ? Nem em tudo 
he avara a natureza. Muitas cou- 
fas uteis tem achado o eftudo ; por 
Mo diffe bem o que primeiro diffe: 
Dii laboribus omnia vendunt. Da- 
qui vem que experimentando Íuc- 
cede achar effeitos raros, e eítes 
naô fendo conhecidos à priori; o 
meímo inventor fica confufo , e 
interdito com a fingularidade do 
que acha; devendo ordinariamente 
mais ao acafo, do que á premedi- 
taçaô. À invençad da polvora, da 
vitrificaçao artificial, da feparaçaô 
dos metaes confundidos entre fi, do 
quadrado dos tempos, e de outros 
muitos defcobertos admiraveis, faô 
artes que a natureza vendeo pelo 

B ii pre- 


26 Problema 


preço de huma indagaçaô conftan- 
te. E aflim nem fempre fe póde di- 
zer dos artiftas applicados , e inf- 
truidos o que o Poeta difle do in- 
feliz agricultor : 


| Sed illos 
Expeélata feges vanis elufit ariflis. 


Havendo pois na petrificaçad hum 
tempo de começar , para edificar 
naô faô proprias as pedras que fó 
começaô a fer , mas fim aquellas 
que eftaô feitas; porque tanto na 
petrificaçad , como na vegetaçaõ 
das plantas , e ainda na formaçaõ 
dos animaes , obferva a natureza 
a mefma regra , e ordem progreí- 
fiva. À primeira materia , ou pri- 
meiro elemento de todas aquellas 
producçoens , fempre he molle, in- 
digeíta , infórme , e rude; he co- 
mo hum cahos feminal, preparado 

para 


Da Archizeétura Crvil. 21 


para o fim, aque a natureza dirige 
a fua obra : e depois de ter dife 
póftos os rudimentos iniciaes, ou 
primordiaes, recebe a mefma obra 
do tempo , e do calor a fua ver- 
dadeira, e ultima perfeiçaô. 

Por iflo as pedras molles naô 
faô as que convém ao architeéto ; 
porque ainda naô faô pedras, haô 
de fer; he huma petrificaçaô dif- 
poífta, mas naô acabada ainda ; 
nem baífta que aquellas pedras te- 
nhaô adquirido algum tal, ou qual 
grao de dureza , mas devem ter 
aquella toda a que as pedras duras 
coftumaô chegar ordinariamente ; 
porque em naô fendo aflim , mal 
podem, fem quebrar , fuftentar qual- 
quer pezo fobrepofto. Além de que, 
naô fó para Íuftentarem o pezo de- 
vem fer as pedras duras, mas tam- 
bem para que, fendo folidas , e com- 

Bi pactas, 


22 Problema 


paítas, naô poflaô fer penetradas 
pela agua , e pelo ar. Se a agua 
chega a penetrar os interíticios da 
pedra , facilmente a desfaz, co- 
mo por huma efpecie de diflolu- 
çaô; e fe naô tem dureza refiften- 
te, o acido doar a vai lentamen- 
te confumindo , e fazendo divifi- 
veis as Íuas partes , e ficando em 
termos de ceder ao primeiro im- 
pulfo da gravidade , ou do movi- 
mento. 

Ifto fe obferva tambem no 
corpo humano , donde hum acido 
degenerado, corrozivo, e cauítico 
de tal forte corroe os oflos, que fi- 
caôd eftes frangiveis perdendo a fua 
contextura natural. Efte he o efta- 
do deploravel , e immedicavel da- 
quellas partes offendidas , quando 
o humor , ou acido viciofo fe ex- 
tende por ellas geralmente. Entaô 

chega 


De Arcbitetura Civil, 23 


chega a hora fatal que fe efpera- 
va mais tarde; a economia animal 
perde entaô as funçoens vitaes; 
porque nenhum compoíto póde 
tubfiftir , em lhe faltando os foli- 
dos principaes fobre que fe eftabe- 
lece, e firma a fua organizaçao 
material. 

Ito fe vê tambem nas pare- 
des que fe defmanchaõ, e nas que 
fe achaô de algum modo demoli- 
das, nas quaes as pedras que eraô 
proprias para edificar, (ainda de- 
pois de paífados feculos ) exiftem 
com a mefma dureza com que po- 
diaô eftar no tempo em que fe fa- 
bricou o edificio; outras desfazem- 
fe ao primeiro toque, outras já fe 
achaô desfeitas , deixando conca- 
vo, ouvazio, O lugar em que efti- 
veraô. Nas Íuas fuperficies planas , e 


exteriores nbferva-fe melhor aquel- 
Biy la 


24 Problema 


la falta; porque na parte de donde 
cahe o emboço , ou reboço , que 
fervia de defenfa ás pedras , tendo 
neftas o ar hum accéilo immediato, 
e livre, em menos annos as pene- 
tra, e as reduz em pó groffeiro , 
deixando disfórmes , e corcomidas 
as paredes, | 
Naô fuccede aflim nas partes 
em que aflentaô as pedras chama- 
das de enxelharia , porque efta he 
feita commummente de pedra dura ; 
ealém difto, o lavramento da pe- 
dra, tambem a faz mais defenfa- 
vel contra o acido do ar; porque 
efte faz mais preza em huma fu- 
perficie tofca , efcamofa , e irre- 
gular , do que naguella cuja fu- 
perficie tem regularidade , ou efta 
feja plana, convexa, ou concava : 
por 1ffo na pedra polída nenhuma 
acçaô tem aquelle acido , e paíla 
pelo 


De Aribiteltura Civil. as 


pelo polimento fem fazer impref- 
faô nelle. Ifto procede tambem a 
refpeito dos metaes. O ferro po- 
lído dura mais tempo intaéto, do 
que aquelle que o naô he, o ouro, 
ea prata para fe diflolverem prom- 
ptamente nos efpiritos corrozivos , 
que os disfolvem , neceflitad ferem 
granulados , ou limados , entad fen- 
do combatidos por huma immenfi- 
dade de lugares, cedem facilmen- 
te ao corrozivo agente, e por hum 
principio femelhante , os faes piza- 
dos , ou em pó derretem-fe na agoa 
de improvizo , e fe eftaô em maça 
folida, refiftem mais. 

Temos dito que para edificar 
naô fervem de nenhuma forte as 
pedras molles , mas fim aquellas que 
tem dureza competente para ferem 
impenetraveis á agoa , e principal. 
mente ao acido do ar. Porém que 

acdo 


26 Problema 


acido he efte, ou com que fe pro- 
va a exiftencia delle, para nelle 
fundarmos huma parte da ruina de 
certas pedras que faô certamente 
reprovadas em toda a arte de edi- 
ficar ? Talvez que aquelle acido 
naô feja mais do que hum ente de 
razaô, e que, exiftindo fó no dif- 
curfo dos Chimicos ( como outros 
muitos) naô tenha exiftencia algu- 
ma na realidade. 

Aflim parece fer , porque o 
acido do ar he invifivel , e impal- 
pavel, e por confequencia , in 
appreheníivel; e regularmente aquil- 
lo que fe naô vê, que fe naô acha, 
que fe naô toca, he immaterial, e 
o que he immaterial ; naô póde pro- 
duzir effeito phyfico , de que os 
fentidos fe percebem , e como as 
pedras, de que tratamos, mudaõ de 
figura ; e perdem inteiramente a 

fua 


De Architeitura Civil. ár 


fua confiftencia, devemos afirmar 
que huma tal mudança provém de 
hum agente corporeo, e material, 
e naô de hum agente metaphyíico. 
Com tudo no capitulo feguinte 
moftraremos que o acido doar. he 
hum agente phyfico , ainda que de 
facto Ífeja invifivel ; porque bem 
póde fer invifivel, e inapprehenfi= 
vel, eainda aflim fer material, 
phyfico, e corporeo, 





Eae eee 
mam rate 





E 
memememeçem 


CAPITULO NI. 


Ar he hum elemento fluido, 
diafano, compreflivel, elaíti- 

co, grave. Todas eftas proprieda- 
des fe tem achado, e demonítrado 
muitas vezes , e por muitos mo- 
dos naquelle elemento ; nem he ne- 
cefla- 


58 Problema 


ceflario moftrallo com mais expe- 
rimentos do que com aquelles mef- 
mos que fe fabem vulgarmente, e 
de que já ninguem duvida hoje. He 
porém menos fabido, que no cor- 
po, ou atmosfera do ar, fe efcon- 
de , conferva , e exifte realmente 
huma immenfidade de córpos , ou 
entes invifiveis que fó fe manifef- 
taô , e fazem: perceptíveis pelos 
feus effeitos, e em certas, e deter- 
minadas circumítancias. 
“No meímo atmosfera do glo- 
bo terraqueo fe fórmaõ , tem acçaõ, 
e reaacçaô os differentes meteóros ; 
a materia deítes he certamente ma- 
terial,e fenfivel; porém em quan- 
to circúla, e gira dividida em ato- 
mos, ou partes minutillimas , he 
invifivel, naô fe acha, nem fe to- 
ca, e nefte eftado he inapprehenfi- 
vel. E com effeito no ar circula 
huma 


De Architelura Civil. 29 


huma immenfidade de corpuículos 
terreos , Íulfureos , e oleofos ; .e 
Íobre tudo gira a agoa na figura 
de huma humidade invifivel; e if. 
to em toda aeftaçaô, ou fria, ou 
calorofa, ou humida, ou fecca. 
Nem fe póde duvidar que no 
tempo mais fereno, claro, e cali- 
do, fempre o ar contém huma por- 
çaô immenfa de agoa ; efta em 
quanto eftá vagando difperfa na 
atmofphera he invifivel, e inappre- 
henfivel , e fó por meio de algum 
artifício fe conhece a Ífua exilten- 
cia actual, e verdadeira. O artifi- 
cio confifte todo na expofiçaôd de 
qualquer fal alchalino fixo : efte 
attrahe avidiflimamente a agoa que 
o ar ambiente , e proximo contém; 
e com tanta força, que he preci- 
fo cuidado grande, e algum enge- 


nho para confervar qualquer fal al- 
chali- 


30 Problema 


chalino fixo inteiramente izento de 
humidade , a qual em breves ter- 
mos fe faz liquida , e corrente. 

O Tartaro ( que he o farro 
do vinho vulgarmente conhecido ) 
depois de eftar alguns minutos em 
fufaô perfeita , e em fogo que 
o pofla fundir perfeitamente, ape- 
nas tirado da maior ardencia do ca- 
lor, logo entra na continua attrac- 
çaô da agoa , ou humidade aerea, 
e aflim, e fem ceflar vai caminhan- 
do para hum deliquio , a que os 
artiftas chamaô commummente : 
Oleum tartari per deliquiums 

O oleo do vitriolo, e tambem 
o efpirto Íulfureo , chamado /pj- 
ritos fulpburis per campanam , tem 
a mefma infeparavel propriedade , 
de attrahirem , e incorporarem a fi 
a agoa, e com a notavel , eme- 
nos bem entendida ainda fingulari- 

dade , 


De ArcbiteEhura Cívil. 3x 


dade , que tanto o oleo de vitrio- 
lo; como o efpirito fulfureo , aque- 
cem confideravelmente quando en- 
traô na acçaô de attrahirem a hu- 
midade; de que refulta fempre o 
phenómeno admiravel, e tambem 
muito pouco intelligivel , de que 
dous licores limpidiflimos , e frios 
quando eftaô feparadamente, em 
fe ajuntando ambos , entraô em 
calor taô afpero , e fenfivel, que 
a maô, que Íuítenta o valo, naõ 
o póde tolerar; e quanto mais pu- 
ro, e concentrado he cada hum da- 
quelles dous licores , tanto mais for- 
te, e intoleravel he o calor ao pri- 
meiro contacto da agoa fria. 

Naô fó por aquelle experi- 
mento fe indica , e fe conhece a 
immenfidade de agoa elementar 
que fe encerra no ar mais puro , 
mais fereno , e calido , mas tam- 

bem 


32 Problema 


bem por outros muitos, por meio 
«dos quaes fe defcobre infallivelmen- 
te que na vaga regiaô da atmoÍphera 
fe dá, e exite invifivelmente o cor- 
po phyfico da agua ondulando em 
partes minutiflimas, e impercepti- 
veis, que fó fe fazem vifiveis , e 
apprehenfiveis, quando por algum 
artifício , ou ainda naturalmente 
condenfadas., e juntas as mefmas 
partes tomaô corpo apparente , e 
manifefto , em que os noflos fen- 
tidos o podem diftinguir , e pers 
ceber. 

Defte principio póde dedu- 
zit-fe huma efpecie de paradoxo ; 
e vem a fer, que em viagens dila- 
tadas fobre o mar, e ainda por ter- 
ra, e por lugares aridilimos , e 
faltos totalmente de agoa , eta nun- 
ca póde faltar em havendo lenha; 
porque fem outro provimento , nem 


appa- 


De AribiteéiuraCiuil. 33 
apparato mais que o de hum lam- 
bique., e de certa porçaô de qual- 
quer fal alchalino fixo , ou de hum 
efpirito vitriolico , ou fulphureo , 
em qualquer parte do mundo, eem 
todo o tempo, fe póde ter agua pu- 
riflima, limpiflima , e clariflima , 
por meio da deftillaçad bem orde- 
nada , porque neíta fó fe adquire 
a agua que o fal alchalino fixo, ou 
o efpirito vitriolico attrahio , fican- 
do eftes feparados no fundo do vas 
fo deftillador , e ficando fervindo 
fempre de iman perpetuo , incor- 
ruptivel , e proprio para o mef- 
mo ufo. 

Bem he verdade que efte ex- 
pediente naô póde ter lugar, nem 
he de faéto praticavel, quando fe 
neceflita de agoa para muitos ; por- 
que a operaçaô de deftillar, que exi- 
ge indifpenfavelmente carvad , ou 

lenha, 


34 Problema 


lenha ; feria impraticavel neffe ca- 
fo ; e commumente o meímo he 
naô poder fer, que poder fer com 
muita difficuldade. Porém como tu- 
do póde ter lugar , e fer util em 
certas, e determinadas circunitan- 
cias; fe fuccedeíle o fer hum Prin- 
cipe , para quem fofle a agoa ne- 
ceffaria , facilmente poderia exe- 
cutar-fe aquelle expediente ; por- 
que o que he impoflivel para os 
mais homens , muitas vezes nado 

he para os homens Principes. 
Aqui podemos difcorrer tran- 
fitoriamente fobre a queítaô tantas 
vezes debatida , de fazer a agoa do 
mar potavel. Eíta queítad tem fi- 
do com efeito o trabalhofo obje- 
Cto da maior indagaçaô ; porém 
fempre com a infelicidade de fer 
infruétuofa ; e por mais que os 
maiores engenhos, e que os artif- 
tas 


De Arcbitettura Civil. 35 


tas mais experientes fe tenhaô ap- 
plicado ; nunca o Íuccello corref- 
pondeo ás efperanças. Nem o pre- 
mio promettido por hum Parlamen- 
to heroico , illuítre , e formidavel 
(fallo do Parlamento de Inglater- 
ra) nem a gloria de huma inven- 
çaô taô util, e defejada ; nem a 
vaidade de achar o que tantos tem 
bufcado inutilmente , nada tem bafs 
tado para confeguir-fe aquelle fim, 
a difculdade eftá toda em feu vi- 
gor. 

Os que entenderaô haver def 
atado o nó allucinarad-fe a fi mef» 
mos, e a agoa do mar fempre fe 
tem moftrado invencivel , e indo- 
mavel. Por iflo os Philofofos antigos 
indicaraô o Oceano na figura de 
hum leaô feroz, e rugiente; ecom 
effeito a fortaleza das agoas do mar 
naô confifte fó na intumefcencia , 
C ii e vaf- 


36 Problema 


e vaítidad das fuas agoas , mas tam= 
bem no vinculo indiffoluvel das fuas 
partes , ou de alguns dos feus prin- 
cipios. Só o fal dá o mar liberal- 
mente, e fem fadiga, ficando infu- 
peravel o nexo da fua parte ethe- 
rea, bituminofa , e inflammavel; 
nefta refide pertinazmente a impo- 
tabilidade das fuas agoas. O ele- 
mento aqueo de tal forte fe acha 
unido eftreitamente , e individua- 
mente .ao elemento fulphuréo , e 
bituminofo , que deftes dous Íujei- 
tos fe póde dizer : Eritis duo im 
carne una. Rota 
E para mais admiraçaô, deve- 

mos refletir que, exceptuando as 
-pedras preciofas , raros faô os cor- 
pos em que a Chimica inftruida nad 
pofla analyzar os feus principios ; 
dividindo-os , e feparando-os , igme 
duce » e tornando-os a ajuntar de- 
pois. 


De Architeclura Civil. 37 


pois. Em prova difto, fupponha- 
mos huma maça compofta de to- 
dos os metaes , a que a fundiçao 
reduzio a hum fó corpo , e eíte uni- 
do exaétamente como o poderiad 
fer entre fi as aguas de diferentes 
rios , de differentes fontes , e de dif- 
ferentes regioens. Aquella maça fa- 
bricada de fete metaes diverfos ad- 
mitte-feparaçaô , e defuniaõ de to- 
dos; tornando cada hum delles a 
recobrar a fua propria condiçaô , 
o feu proprio pezo ; e a fua propria 
indole. 
) Os mineraes, que já da terra, 
donde concrefcerad , vem aflocia- 
dos, ou mifturados entre À, e ain 
da com outros corpos naô mineraes 
tambem admittem divifaô , ou fe- 
paraçaô , e cedem facilmente ao 
artifta que os fabe feparar. A agoa 
do mar; porém renite, ou refifte 
O ui a toda 


38 Problema 


a toda a arte, a todo o engenho , 
ea toda a inveítigaçao ; a Íua par- 
te bituminofa , fegue obltinada- 
mente a parte volatil, e puramen- 
te aquoza ; huma, e outra fe acom- 
panhaô em todo o tempo, em to- 
do o lugar, e em todo o eitado. 
O fogo , que volatiliza a parte aquo- 
fa, tambem volatiliza a bitumino- 
fa, e por mais que feja adminif- 
trado brandamente , e com calor 
fummamente diminuto, nem afim 
fe póde feparar da agoa aquelle bi- 
tume natural. Nefte confifte a im- 
potabilidade , e naô no fal; porque 
efte he feparavel fem trabalho. E 
aflim fe vê que, ainda que pareça 
facil a intençaô de fazer a agoa do 
mar potavel , he com tudo empe- 
nho de execuçaô difficultofa , e he 
talvez o que naô ha de confeguir-fe 
nunca. 

Afen- 


De AÁrcbiteélura Civil. 39 


Affentando pois, que o ar 
contém realmente em fi, e invifi- 
velmente huma immenfa , e inex- 
haurivel porçaô de agoa , devemos 
moftrar que tambem , e do mef- 
mo modo encerra outros muitos, e 
diveríos corpos. O fumo dos vege- 
taes queimados , entraô continua- 
mente na efpaçofa regiaô do ar, e 
nelle fe vai dividindo, ou efpalhan- 
do fubtilmente até que fica invifi- 
vel, e inappreheníivel; e neíta fitua- 
çaô naô o podemos ver, nem to- 
car, nem diftinguir; e fe advertir- 
mos, ou fizermos reflexad fobre as 
partes, de que o fumo fe compoem, 
acharemos certamente que o fumo 
leva comíigo naô fó os principios 
phlegmaticos, unétuofos , e vola- 
teis , mas tambem os principios 
terreos , e fixos. 

líto fe comprova com o que 

Civ cha- 


40 Problema 


chamamos commumente ferrugem 
de chuminé ; efta fempre contém 
(ainda que feparados ) todos os 
principios que continha o vegetal 
queimado ; ifto he, humor aqueo ;; 
fal volatil, oleo effencial , terra; 
efta fe acha na ferrugem volatili- 
zada com os mais principios, a que 
eftava unida; condenfando-fe nos 
lados , e alto das mefmas chumi- 
nés. Se depois que extrahirmos a 
ferrugem a pozermos ao fogo ar- 
dente em vafo proprio, diflipada 
com o fogo a unétuolidade da fer- 
rugem, lixiviando-fe o refiduo, acha- 
remos hum fal alchalino, fixo ; e 
extrahido efte, o que fica he ter- 
ra pura , a que alguns chamaraõ 
terra virginal. 
Quando hum vegetal fe quei- 
ma em lugar defembaraçado , e 
fem o preceito da chuminé , nem 
de 


De Architeélura Civil. qr 


de outro qualquer , todos os feus 
principios fe diffipaô no ar intei- 
ramente (exceptuando as mais pe- 
zadas, de que a cinza fe compoem ) 
ficando invifiveis nelle naô fó o fal 
volatil, e oleo eflencial, mas tam- 
bem a maior parte da terra fixa; 
entaô a tenuidade fumma das mef- 
mas partes terreas as faz inappre- 
heníiveis, e fem o corpo neceíla- 
rio para fazerem fenfaçaô nos nof- 
fos olhos ; e defta forte a terra, re- 
duzida a átomos leviflimos , acha- 
fe como fufpendida , e vagando em 
toda a capacidade da atmoíphera. 
Os corpos mineraes, e metallt- 
cos faô certamente os mais compa- 
étos, e pezados que conhecemos ; 
e ainda fendo aflim , recebem (por 
varios modos) huma tal divilaô , e 
attenuaçad, que, depois de volati- 
lizados , ficaô pezando menos do 
que 


42 Problema 


que a columna de agoa que os fuf- 
tenta. Iíto fuccede , geralmente 
naô fó por operaçaô da natureza, 
mas tambem por obra da arte. Da- 
qui vem que o ouro diflolvido na 
agoa , a que os artiftas chamaô ré- 
gia (por fer o diflolvente proprio 
daquelle régio metal), e a prata 
diflolvida em agoa forte ; os ou- 
tros metaes, e mineraes, diflolvi- 
dos tambem nos feus diflolventes 
particulares , ficad adquirindo hu- 
ma divifad taô grande, que podem 
eftar fufpendidos , e invifiveis nos 
menítruos em que fe diflolveraõ , e 
fó fe fazem perceptiveis, e mani- 
feftos por meio da percipitaçaô ; 
porque nefta o corpo, que faz a pre- 
cipitaçaô , occupando o lugar do 
corpo diflolvido , efte entaô fe 
precipita ao fundo do valo, e tor- 
na a tomar fórma vifivel. O mef- 

mo 


De drcbitetlura Civil. 43 


mo fe confegue em fe enfraquecen- 
do, ou deftruindo por algum mo- 
do a força, e vigor do menítruo ; 
porque perde aflim a actividade, que 
tinha para Ífuftentar em fi o pezo do 
corpo diflolvido ; e o deixa cahir ao 
fundo. 

Além de outros exemplos , que 
fervem de provar o que fica expof- 
to , temos hum na difloluçaô da 
prata em agoa forte. Efte corrozi- 
vo depois de diflolver aquelle me- 
tal fica diáphano , e confervando 
a fua mefma tranfparencia. À pra- 
tasque he hum dos corpos mais com- 
paítos , e pezados ( exceptuando 
fómente o ouro, eo azougue ) af- 
fim que fe diflolve naquelle diffol- 
vente, fica fufpendido nelle, e in- 
viífivel, e para manifeftar-fe, e to- 
mar corpo perceptivel, he precifo 
diflolver-fe outro qualquer corpo 

com 


44 Problema 


com que a agoa forte tenha mais 
analogia : para efte intento ferve 
o cobre , o qual diflolvendo-fe tam- 
bem na mefma , agoa que já tinha 
em fi diílolvida a prata, efta tor- 
nando a tomar o feu pezo caracte- 
ríftico, promptamente fe precipita 
ao fundo. 

Todas as agoas vitríolicas con- 
tém naturalmente hum ferro diílol- 
vido, o qual fe moftra em fe eva- 
porando as agoas que o contém; e 
do mefmo ferro provém as virtudes 
medicinaes, que a aquellas agoas fe 
attribuem. Quando fe evaporaõ , 
alguma porçaô de ferro tambem 
com ellas fe evapora ; e entaô en- 
tra o ferro a exiltir, e a ter a lua 
fubfiftencia na atmofphera, Aflim 
mudaô de patria , e de lugar os 
corpos mais pezados , rolando na 
esféra mobiliflima do Ar aquelles 

mef- 


De Arcbitetiura Civil. às 


melmos , que em eftaçaô immobil, 
e permanente , rnafceraô nas entra- 
nhas concavas da terra.' Naquella 
mefma habitaçaô , e por modo fe- 
melhante, fe acha também o ouro, 
a prata, e todos os metaes. Pare- 
ce que tudo fe encontra em cada 
hum dos elementos , e que: cada 
hum deítes he patria commua. 
-: Os metaes concrefcem na ter- 
ra5-mas ainda fe naô fabe-com cer- 
teza , fe he a Terra que os produz; 
ou fe mais verdadeiramente os pro- 
duz aiÃgoa, o Ar, ou oFogo; 
defte fabemos que procedem varios 
corpos, que a terra ( ao noílo ver) 
coftuma produzir. Quanto he para 
admirar 'que qualquer vegetal quei- 
mado fica em breve efpaço redu- 
zido a cinzas, e que neítas fempre 
«achamos terra pura, vidro, pedra, 
ferro, chriftaes opacos , fal a 
ino 


46 Problema 


lino fixo. Que materias diferentes 
provindas de huma .fó , e identica 
materia! Que pouco tempo foi pre- 
cizo para fazer mudanças taô di- 
verfas! Daqui parece que fe fegue 
que tudo, quanto o fogo produz; 
he de repente; os outros elemen- 
tos naô tem acçoens taô vigoro(as, 
e aprefladas. 

Quem diflera que ina cinza 
Cfimplicifima ao noflo parecer) fe 
acha fal alchalino fixo , chriftaes 
opacos , ferro , pedra., vidro, e 
terra pura ? porém achaô-fe com 
effeito; porque a agoa defcobre o 
fal alchalino fixo; o iman moftra 
certamente o ferro; e por meio do 
fogo fe conhece infalivelmente o 
chriftal opaco , o vidro, a pedra , 
eaterra pura; ofogo, que produ- 
zio todos eftes mixtos, he o rigo- 
rolo ; e perpetuo examinador da 

natu- 


De drchivectura Civil. 47 


natureza de cada hum delles; por« 
que tudo, o que fe funde , e adquire 
tranfparencia , he vidro, tudo o 
que fe naô funde, e recebe efpiri- 
tos igneos em feus poros, he pedra, 
tudo o que tambem fe naô funde ; 
nem recebe efpiritos alguns , he 
terra; e tudo o que nad fe funde , 
e conferva tranfparencia , he chrif- 
tal. Algumas excepçoens padecem 
eftas regras; porém as regras fem- 
pre ficaô fendo taes, naô obftantes 
as Ífuas execepçoens. 
As agoas vitriolicas ( como 

Já diflemos ) contém ferro, e elte 
fendo o principio da côr efcura , 
negra , ou, parda acha-fe involvido 
naquellas agoas fem lhes commu- 
nicar a menor côr. À evaporaçad 
manifefta huma parte do ferro , 
porque efte fica no fundo do valo 
evaporante; a outra parte do mef- 
mo 


48 Problema 


mo ferro fobe com o fumo, ou va- 
por da agoa que fe exhala ; .e nef- 
ta fórma temos efte metal grofTei- 
ro, e tambem pezado vagando fuf- 
pendido na atmoíphera; e ifto por- 
que ficou .dividido'de tal forte por 
meio da difloluçaô , que cada hu- 
ma das fuas minutiílimas porçoens 
ficou pezando menos que a colum- 

na da atmofphera que as fuítenta. 
Acontece o mefmo a todos os 
metaes, e ainda. ao ouro, com fer 
o corpo mais pezado que conhece- 
mos; porque fe ao ouro na fundi- 
çaô lhe juntarmos o fal chamado 
armoniaco , efte incitado pelo fo- 
go, unindo-fe eltreitamente ás par- 
ticulas do metal; Íuccellivamente 
o vai arrebatando , Ífublimando-fe 
hum, e outro até defapparecerem 
na vaga regiaô do ar. Os Chimicos 
antigos, que efcreviaô fempre para- 
bolica- 


De Architettura Civil. 49 


bolicamente, chamaraô a aquelle 
fal Aquila Ganimedis , alludindo á 
propriedade que tem de levar com- 
figo naô fó todos os metaes, mas 
tambem muitos outros mixtos ; a que 
fe junta. 

O. meímo intento fe verifica 
com efle experimento meu. Se fe 
fundir o ouro com oito ou mais 
partes de antimonio em hum ca- 
dinho Hefliaco coberto com outro 
cadinho igual, tapadas as junturas 
exactamente com qualquer compo- 
fiçaô glutinofa e forte, confervan- 
do fempre o ouro, e antimonio 
fundidos no Athanor, ( ou forna- 
lha a que os Artiftas chamaô piger 
henrricus , porque adminiftra hum 
calor continuado , e fempre: igual 
no meímo grao de actividade ) e 
ifto por tempo de hum mez, ou 
mais; canfórme o pedir a exigen- 

cia 


so Problema 


cia da operaçaô, e fegundo a maior, 
ou menor quantidade de ouro fun- 
dido , deftapando-fe depois o tal 
cadinho, nelle fe naô ha de achar 
nem ouro, nem antimonio algum, 
nem ainda veftigios de haverem ef- 
tado alli; ficando além diíTo illefos 
os cadinhos , tanto na regularidade 
da figura , como na ordem dos feus 
póros. Com tudo pelos mefimos pó- 
ros fe evaporarad inteiramente o 
ouro , e o antimonio depois de vo- 
Jatilizados pela continua acçaô do 
fogo, 

Que fe volatilizem os faes pe- 
netrando , rompendo , e fahindo 
dos vafos em que fe fundem , naô he 
para fe admirar ; porque os faes 
tem commumente a propriedade 
conhecida de lacerar , e de rom- 
per qualquer corpo folido ; aílim 
como naô he tambem para admi- 

rar 


De Architettura Civil, sr 


rar que a agua pafle , ou fe filtre 
pelos póros do vafo terreo em que 
fe acha; porque tanto aagoa , co- 
mo os faes ( exceptuando os alcha- 
linos fixos ) naô faô entidades que 
refiftaô , por ferem volateis por 
fi mefmos, e ajudados pelo ardor 
do fogo entraô facilmente em to- 
tal defuniaô, e exaltaçaô das fuas 
partes. 

O ouro porém he hum corpo 
compaétiflimo , e fixillimo , e por 
io naô paíla nem ainda pelos pó- 
ros da cupella , por onde aliás (ex- 
ceptuando a prata) todos os me- 
taes, e mineraes paílaô prompta- 
mente , e da melma forte que a 
agoa penetra, e fe imbebe nos pó- 
ros de huma efponja. O Virrum Sam 
turni ( e à fua imitaçaô todos os me 
taes, e mineraes vitrificados ) pe- 
netra quando eftá fundido, e paíla 

li os 


É Problema 


os vafos, de qualquer compofiçad 
que feja6 ; nem fe tem achado meio 
para lhe tirar, ou impedir aquella 
força: porém nefte calo o Vitrum 
Saturni , e outros femelhantes, dei- 
xaô lefos , e como rôtos os cadinhos, 
ou outros quaeíquer vafos , naquel- 
le lugar determinado em que os pe- 
netraô , e por onde fahem. E aflim 
naô he facil de defcobrir qual feja 
a razaô phyfica por onde o ouro 
junto ao antimonio foge, e feex- 
hala totalmente do cadinho , fican- 
do efte illefo , e fem a menor ro- 
tura, ou abertura. O phenómeno, 
porém he certo; porque o ouro fe 
exhala , e no ar defapparece. 

O mefmo intento fe compro- 
va com a luna cornea, a qual tam- 
bem fundida fe evapóra em gran- 
de parte. O eftanho, e o cobre, fe 
eftando fundidos ; fe lhes junta o ni- 

to, 


De Architetlura Civil. 53 


tro, tambem fe diflipaô igualmen- 
te » deixando hum pequeno reíiduo, 
a que chamaô os artiftas , Capat 
mortuum. O azougue, que he o cor- 
po mais pezado depois do ouro, e 
prata, por meio de hum calor bran- 
do, e fucceflivo, tambem fe difli- 
pa, e evapóra totalmente fem dei- 
xar veítigio , ou fignal algum da 
fua exhalaçaô. Em todos os referi- 
dos corpos , o que o calor (mais, 
ou menos forte ) faz he rareficar 
as fuas partes, e reduzillas a parti- 
culas, como indivifiveis, e por con- 
fequencia tenuiílimas , e levifli- 
mas ; neíte eftado de divifaôd , ou 
de defconjuncçaô , bufcaô aquel- 
las meímas partes o ar, ficando nek- 
le fufpendidas ; e ifto pelo princi- 
pio univerfal, de que pezaô menos 
do que as colunas do ar, em que 
fe fuftentad. 


E + 


54 “Problema 


Daqui póde inferir-fe , e tirar- 
fe a explicaçaô de alguns phenó- 
menos hiftoricos, quando fe con- 
ta que nefta regiãô chovera ferro , 
naquella cobre , em outra pedras, 
&c. Fides fit penes auétorem; po- 
rém a pollibilidade de faétos feme- 
lhantes; póde deduzir-fe facilmen- 
te pela certeza que ha de outros 
phenómenos, ou naturalidades, que 
fendo verdadeiros, ainda faô mais 
difficeis de explicar. E com efeito 
póde talvez chover azougue, quan- 
do fe evapóra efte metal ao fogo, 
ou quando os calores fubterraneos o 

x =” . . 
evapórad nas minas proprias, em 
que aquelle metal fe cria ; entaô 
fubindo os vapores mercuriaes , e 
achando em certa altura humidade 
fufficiente que os ajunte, e conden- 
fe, a chuva ha de arraftar precifa- 
mente , e trazer comfigo o azou- 


gue 


De ArchitelluraCivil. ss 


gue já unido com algumas das fuas 
partes , e tendo já pezo maior , e 
mais proporcionado para nao poder 
fubfiftr no ar. 

Efte azougue porém 'naô he 
producçaôd do ar, nem he propria- 
mente chuva de azougue ( como fe 
diz ) mas he o mefmo que exha- 
lando-fe da terra, ou já por calor 
artificial, ou por fogo fubterraneo, 
adquirindo,pela conjuncçaô das fuas 
partes divididas, maior volume, e 
por confequencia maior pezo , ca- 
he como precipitado fobre a terra, 
de donde fe havia exhalado antes. 
Ifto he poflivel que fucceda a ou+ 
tros corpos diferentes ; e deve fuc- 
ceder aílim naquellas mefmas , e 
fuppoftas circunftancias ; ficando 
por efte modo muito facil de ex- 
plicar aquelles taes phenómenos , de 
que a Hiftoria faz mençaô ; fican- 


D iv do 


56 Problema 


do com effeito naô Íó explicaveis » 
mas provaveis. 

Sempre he certo , que todos 
os corpos, que admittem hum certo 
grao de divifaô, e attenuaçaô, e 
que além difto podem fer impellt- 
dos por algum meio a elevar-fe 
ou fubir ao ar , ficando nelle fuí- 
pendidos, e em continua agitaçaô; 
por outras caufas , e por outros 
movimentos tornad a entrar, e'a 
bufcar a fuperficie, do globo terra- 
gueo , de donde fahiraô; Íucceden- 
do aílim em muitos, e diverfos cor- 
pos, huma perpetua -circulaçaõ , 
ou circumvoluçaô de hum elemen- 
to para outro. 

Naô he porém facil de perce- 
ber, nem de explicar o modo fa- 
bido , e certo, porque em muitas 
regioens fuccede em alguns tem- 
pos, choverem fapos. Deita natu- 

ralida- 


De Anbireliura Civil. 37 


ralidade ninguem duvida, ao me- 
nos aquelles: que tiveraô occafiad 
de vers: e viraô com effeito muitas 
vezes aquella repentina producçaô, 
e nafcimento : com tudo o calo 
naô he menos verdadeiro, e fuc+ 
cede regularmente aílim. , 

Em eftaçaô ferena, e eftiva, 
quando a fuperficie da terra fe acha 
quente , e a meíma fuperficie em pó 
fubtil, fe fobrevém fubitamente hu- 
ma trovoada, e a efta fe fegue lo- 
go chuva , no meímo inftante, que 
as primeiras pingas de agoa cahem 
fobre a terra, vê-fe entaô huma im- 
menfidade de fapinhos, faltando de 
huma parte para outra, e buícan- 
do os lugares abrigados , como faõ 
os encôitos das paredes nas partes 
em que asha; e ifto para evitarem 
a moleftia das agoas: que haô de vir 
a correr por alli meímo. Examina- 

dos 


s8 Problema 


dos eftes animalejos , abhad-fe fer 
verdadeiros fapos naô Íó na figura 
exterior, mas em todas as fuas pro- 
priedades , gerados , e naícidos ao 
primeiro contaéto da agoa na ter- 
ra pulverulenta. Naô Ífendo efte fa- 
Eto ambiguo , ou duvidofo , com tu+ 
do he de explicaçaô ardua , e ter-fe- 
hia por fabulofo, e impoífivel (co- 
mo outros muitos de que fazem 
mençaô os naturaliftas ) fe naô fo- 
za vifto , e obfervado infinitas ve- 
zes nas partes em que coftuma acon- 
tecer.) 

E na verdade faz-fe violento 
o crer que hum animal pofla pro- 
duzir-fe fem a concurrencia de hum 
principio feminal antecedente. Hum 
contaéto momentaneo parece que 
naô póde formar muículos perfei- 
tos, arterias, vêas , fangue , iní- 
tinto. Neíte cafo a poflibilidade 


veri- 


De Architeciura Civil. 9 


verifica-fe 4 pofteriori ; é nunca 
poderia: conhecer-fe por outro mo- 
do , nem por raciocinio algum. Pa- 
ra aquella producçaô devemos en- 
tender que concorre o ar, a agoa, 
e a terra , modificados , ou difpoftos 
eítes elementos para femelhante 
creaçaô ; a fórma porém, com que 
aquelles elementos fe difpoem, e 
modificaô , feria trabalho perdido o 
inveftigar. 

Nefte cafo nad podemos di- 
zer propriamente que chovem fa- 
pos, nem que eftes fe fuftentem no 
ar, de donde cahem; porque na- 
quellas mefmas agoas, recebidas em 
vafos, naô fe encontraô fapos, 
mas precifamente quando cahem fo- 
bre o pó da terra quente. À rari- 
dade eftá em receberem aquelles 
a fua fórma perfeita, e difiinétiva 
no mefmo inftante , ouadto de naf- 

cer; 


do Problema 


cer, e de nafcerem fem dependen- 
cia alguma de outro animal da mef- 
ma eípecie. 

Se quizermos dizer que huma 
producçaô tal he parto da corrup- 
çaô, contra illo teriamos o modo 
com queraquella meíma producçaô: 
fe faz; além de naô fer ainda muito 
certo o axioma de que a corrupçaô 
de hum he geraçad de outro. No 
facto mencionado obfervou-fe fem-. 
pre; que o nafcimento dos fapos 
fó provém quando a terra eftá fum- 
mamente fecca , e reduzida a pó 
na fuúperficie por caufa da mefma 
fequidad; e nefte eftado naô pó- 
de haver corrupçaô na terra; por- 
que nenhum corpo fe corrompe: 
fem a prefença de humidade , e 
donde a naô ha naô póde ter lugar 
a corrupçaôd ; antes para efta fe: 
impedir he feguro meio o impe-: 

dir 


De Architeétura Crvil. 61 


dir todo o commercio de humida- 
de com o corpo que fe quer prefer- 
var de corrupçao. 

E ainda fem fer por aquelle 
fundamento, he tambem certo que 
nenhuma corrupçaô fe faz em hum 
inftante ; a natureza naô corrompe; 
nem produz fem tempo , ou mais ou 
menos progreflivo , fegundo a qua- 
lidade da producçaô ou corrupçad» 
Hum inftante verdadeiramente nad 
he tempo , ainda que o tempo fe 
compoem de inftantes; cada hum 
deftes podemos confiderar como 
hum ponto mathematico, em que 
naô ha partes algumas, ainda que 
de pontos fe fórma qualquer parte. 
E aíflim do nafcimento momentaneo 
daquelles animaes immundos , o que 
podemos dizer he fer hum phenó- 
meno do numero daquelles que fe 
nãô podem explicar phyficamente ; 
; dos 


62 Problema 


dos quaes ha muitos que, para fe 
explicarem , he neceílario entrar 
em fuppofiçoens gratuitas , ainda 
menos explicaveis, e nunca de- 
monitraveis. 

Outros phenómenos admira- 
veis ha, que fe entendem fer pro= 
ducçoens dos meteóros , e que tem 
no ar o Ífeu nafcimento proprio ; 
hum deiles he a pedra chamada de 
corifco , a qual o vulgo crê fer hu- 
ma pedra verdadeira que cahe da 
nuvem ao mefmo tempo que o raio 
a rompe ; porém efta credulidade 
fó fe funda em hum abufo popular; 
porque nunca fe obfervou que fe- 
melhantes pedras vieflem do ar, ou 
defceffem delle com o raio : elfte 
naô he mais do que hum globo de 
fogo de huma intençaô , ou aétivi- 
dade immenfa ; por iflo penetra ra- 
pidiflimamente os corpos mais cora- 


paétos, 


De Arcbirettura Civil. 63 


paftos, deixando apenas hum fig- 
nal breve no lugar em que os pene- 
tra , e naquelle por onde (ahe; e 
quando acha mais forte refiftencia , 
quebra ; até que ondulando diver- 
famente, perde a força do movi- 
mento , porque fe extingue a ma- 
teria em que confiftia a fua inflam- 
maçaô. 

Bem he verdade que na terra 
fe encontraô muitas vezes humas 
pedras chamadas de corifco ; eftas 
fomentaraô o abufo commum de 
que tinhaô cahido com o raio; mas 
eita idéa naô fubíifte já, ( ainda 
que alguns a querem fuftentar ain- 
da ) porque a Phyfica inftruida 
defpreza tudo aquillo que naô tem 
na experiencia hum fundamento cer- 
to ; admitte as raridades que po- 
dem fer examinadas, naô aquellas 
que, naô podendo examinar-fe , o 

e 


64 Problema 


fe eftabelecem em huma tradiçaô 
«mal entendida , recebida ligeira- 
mente, e fem exame. E com effei- 
to a pedra que vemos, e a que 
chamaôd de corifco, he mui folida, 
e pezada para proceder de huma 
repentina formaçaô. dos meteóros : 
ella he producçaõ da terra , naô do 
ar; porque nefte fó podem ter fir- 
meza aquelles corpos , cujas partes 
admittem huma fumma divifaô fem 
perder em cada huma dellas a Ífua 
figura natural, e que juntando-fe 
depois humas com as outras, retém 
aquella mefma figura em maior vo- 
lume: as pedras naô faô alim; por- 
que, fe forem reduzidas a partes mi- 
nutifimas , eftas, ainda que venhad 
a ajuntar-fe, nunca tornada tomar a 
figura antecedente , Íolida, e com- 
paéta. E aflim quem difler , que 
vio cahir huma pedra de corifco , 

ou 


De Architeélura Civil. 65 


ou o medo o fez allucinar , ou quer 
que os outros fe allucinem. 











—emeames remeter re me rem 


CAPITULO IV. 


E tudo , o que fica expoíto af- 

fima ; fe conclue que na at- 
mofphera, ou regiaô doar fe acha 
hum grande numero , e grande 
quantidade de corpos invifiveis , e 
inapprehenfiveis, entre os quaes de- 
ve contar-fe o acido que corróe as 
pedras que lhe naô refiftem por fal- 
ta de dureza Íufficiente. E fuppofto 
que tenhamos já moftrado com al- 
guns experimentos , que no ar fe 
achaô com effeito muitos corpos fo- 
lidos que fó fe manifeítaô em cer- 
tas circumítancias , e por certos mo- 
dos; com tudo ainda naô moftrá- 
E mos, 


66 Problema 


mos que entre aquelles corpos in- 
vifiveis fe ache tambem hum acido 
invifivel. Naô faltaô provas, de que 
poífa inferir-fe com probabilidade 
bem fundada, que no ar naô exif- 
te acido algum material que caufe 
defuniad na contextura das pedras 
molles , que como fica dito, faô 
Juftamente reprovadas para toda a 
forte de edificios. 

À primeira , e principal prova 
confifte na certeza que temos,de que 
expondo-fe algum, ou muito tem- 
po ao ar qualquer vafo aberto , e 
cheio de agoa , efta examinada de- 
pois tanto pelo fabor , ou gofto, 
como por outro qualquer meio , 
nenhum indicio de acido fe ha de 
achar na agoa , aflim expolta ao ar; 
fendo ( ao que parece ) indubita- 
vel, que fe o ar contiveíle acido al. 
gum material , efte paflando con- 

tinua- 


De Architeblura Cívil. 67 


tinuamente , e immediatamente fo-- 
bre a Íuperficie da mefma agoa, 
nella fe diflolveria, e a agoa ficaria 
logo recebendo o fabor do fal, e 
efte fe acharia em fubftancia folida, 
e vifivel em fe evaporando a agoa. 
Efte argumento he de foluçaõ diffi- 
cil, e feria decifivo contra o acido 
doar, fe naô tiveílemos outros de 
igual, ou maior força para eftabe- 
lecer a inexiftencia delle. 

A fegunda prova, e da melma 
natureza que a primeira, he tirada 
de todos os faes alchalinos fixos, 
ou volateis; os quaes fendo expof- 
tos ao ar, ou feja em fórma folida; 
ou em fórma liquida , fe no ar pre- 
exiftifle qualquer acido que foffe , 
efte fe incorporaria , e introduzi- 
ria naquelles faes , e de alchalinos 
os faria neutros: o que porém naô 
fuccede aflim ; porque a expoliçaô 

E ii ao 


68 Problema 


aoar, naô muda a qualidade dos 
alchalicos, ficando eftes confervan- 
do os feus proprios caraétéres , e 
todas as Íuas qualidades efpecificas. 

Em terceiro lugar, a diflolu- 
çaô diáphana de qualquer fal alcha- 
lino fixo, ou ainda volatil, ver-fe- 
hia turvar-fe , e perder a tranfpa- 
rencia , fe houveíle qualquer act- 
do no ar; o que porém nunca fuc- 
cede aflim; porque aquella diflolu- 
çaô , expoíta muito tempo ao ar em 
vafo aberto, e defcoberto fempre , 
nem poriflo fe turva, e guarda a 
mefma claridade fempre ; e iíto fer- 
ve de indício claro de que o ar 
naô contém particulas acidas em fi: 
Eftas faô as objecçoens mais fortes 
que induzem a inexiftencia total da- 
quelle pretendido , acido de que fe 
fuppoem abundante o ar, e de que 
entendemos proceder a corrofaô das 
pedras. Naô 


De Architeetura Civil. 69 


Naô obítantes porém aquel- 
las objecçoens fundamentaes , nem 
por iflo fica vacillante a exiftencia 
do acido propoíto ; porque efte bem 
póde eftar no ar, fem que fe diflolva 
nas agoas que encontrar, e fem que 
mude os alchalicos em faes neutros. 
Etta propofiçaô póde demonftrar-fe 
por varios modos. E com effeito fe 
em huma camera fechada fe evapo- 
rarem os efpiritos falinos do fal com- 
mum, do nitro, do vitriolo , e outros, 
eítes acidos haô de eftar ( depois 
de exhalados) no ar ambiente da 
meíma camera, fem que por io fe 
incorporem, ou embebad nas agoas, 
que eltiverem dentro em vafos deí- 
cobertos ; e da mefma forte os al- 
chalinos pela juncçaô dos meímos 
acidos fe naô haô de mudar para 
faes neutros. 

Bem he certo que a exhalaçaô 

E in (pre- 


zo Problema 


(preza em lugar determinado ) e 
provinda de licores corrofivos, ha 
de offender os orgaôs da refpiraçad 
nos animaes que eftiverem incerra- 
dos no mefmo , e identico lugar, 
como ás vezes fe faz para deftruir 
alguns infeétos; mas iflo vem, por- 
que os infeétos, e todos os animaes 
continuamente infpiraô , e refpirad, 
e nefta acçad attrahem os corrofivos 
que o ar contém , e na attracçaô de 
vapores infeétos fe fuffocad. Poref- 
ta mefma caufa he infalutifera to- 
da a vizinhança de agoas eftagna- 
das, e paludo(as, 

Além dito o ar involve em 
fi huma materia fubcilillima, mobi- 
hílima, e unétuofa que fe incorpo- 
ra com todos os acidos , e com to- 
dos os vapores que no ar fe encon- 
traô; e por iflo ficaô os acidos ( em 
quanto giraô no ar) indiffoluveis 

na 


De Architeélura Civil. 1 


na agoa ; porque todo o corpo dif. 
foluvel perde efta aptidaó todas 
as vezes que fe une a qualquer un- 
étuofidade ; e aflim ficaô os acidos 
indifloluveis na agoa, e fem aéti- 
vidade a refpeito dos corpos alcha- 
linos. E de fato todas as materias 
oleofas retundem efficazmente a fo= 
lubilidade dos faes, e infringem a 
erofaô actual de todos os corro- 

fivos 
Daqui vem o conhecimento 
pratico fobre os remedios opportu- 
nos contra a acçaô dos corrofivos 
no ventrículo de todos os animaes , 
cuja acçaô fe naô póde impedir me- 
lhor que com a prompta applicçaô 
de mixtos oleofos , os quaes que- 
brando de algum modo as pontas 
dos efpiculos falinos,naô fó os fazem 
como rombos, e debilitados , mas 
tambem coadjuvaô muito para os 
E iv lan- 


72 Problema 


lançar fóra, eftimulando o meímo 
ventriculo para o vomito. O ufo 
dos leites , que depois fe applicad fe- 
lizmente, tendem para o meímo fim 
de adoçarem , e enfraquecerem o 
vigor dos corrofivos, pelo funda- 
mento de conterem os leites grande 
parte de huma materia oleofa , e 
anodina, cuja unétuofidade mode- 
ra, e impede a força de todos os 
faes, e compoltos corrofivos. 
Além difto confta por muitos, 
e infalliveis experimentos , que no 
ar exifte realmente hum acido pri- 
mogenito, que he o principio ori- 
ginal de todos os faes que conhe- 
cemos : as matrizes , ou diverlos 
corpos, a que aquelle fal fe une, fe 
concentra, e aflocia, faô o donde 
vem, e donde procedem as diffe- 
renças de cada hum delles, fegun- 
do a qualidade dos memos corpos 
a que 


De Architelura Civil. 3 


aque fe juntaô ; porque com al- 
guns corpos fe une aquelle fal mais 
intimamente , com outros menos; 
recebendo varias propriedades ef- 
pecificas , naô fó de fi , mas dos 
corpos, ou Íujeitos , a que natural- 
mente fe in corpora. 

Alguns quizeraô dar ao fal do 
mar a primogenitura, ou o princi- 
pio dos faes todos ; outros quizerad 
dar aquella preferencia ao acido vi» 
triolico, ou fulphureo, porque ef- 
te fal, ou acido liquiforme fe acha 
no ar abundantemente, donde jun- 
tando-fe com efpiritóe ,: ou materias 
oleofas fórma hum verdadeiro en- 
xofre, como fe obferva ao cahir do 
raio; porque na parte em que cahe, 
ou por onde pafla, fica hum chei- 
ro infupportavel de enxofre acezo ; 
fendo que nenhum enxofre póde 


dar-fe naturalmente , nem compôr- 
fe 


“4 Problema 


fe por arte alguma , fem fer por 
meio , e por intervençaô daquel- 
le acido que lhe he proprio. Efte 
mefmo acido fe acha tambem , e 
bem conhecidamente nas entranhas 
da terra, e em todas as partes della; 
porque apenas ha mineral algum , 
em que o enxofre fe naô manifefte 
claramente. O fal commum naô he 
izento daquelle acido , como fe ad- 
verte na decrepitaçaô, em que o aci- 
do fulphureo fenfivelmente fe per- 
cebe. E aflim aquelle acido fe en- 
contra fempre na terra , no mar, no 
ar; por iflo muitos lhe daô a pri- 
mazia, e o fazem principio infor- 
mante de todos os outros acidos. 

- Tambem fe acha no ar o acido 
nitrofo , o qual fe obferva nas aguas 
tonitruofas , as quaes, fe fe evapo- 
rao, ou deftillad lentamente, dei- 
xaô no fundo kum refiduo terref- 

tres 


De ArchiteéluraCivil. &s 


tre, e falino daqualidade daquelle 
acido. Todos os vegetaes, fem ex- 
ceptuar algum, contém hum acido, 
o qual fóô lhes póde provir do ar, 
eflencificado à natureza de cada ve- 
getal; como fe colhe do fumo que 
exhala cada hum delles na occa- 
fiaô em que o fogo os faz arder, 
cujo fumo, por caufa do mefmo aci- 
do, offende os olhos dos que fe ex- 
poem a elle. 

A induraçaô , e incorrupçad 
das carnes, expoítas livremente den- 
tro das chuminés, procede tambem 
do mefmo acido ; porque efte con- 
ferva, e livra da corrupçaô muito 
mais eflicazmente do que o acido 
do [al commum. Aquelle acido, que 
todos os vegetaes contém, naó pro- 
vém da terra onde o vegetal fe cria; 
porque a fuperficie da terra naô tem 
fal algum que fe manifeíte, ou fe 

confer- 


76 Problema 


conferve nella indifloluvel nas agoas 
que paífaô pela mefma Íuperfície 
continuamente. Iíto fe juftifica , por- 
que fe em qualquer terra bem lava- 
da, e por confequencia izenta de 
todo, e qualquer fal, fe em tal terra, 
digo, fe femear alguma planta , ef- 
ta , examinada depois , ha de dar; e 
moltrar infallivelmente o fal que 
lhe for proprio. As flores, que arti- 
ficiofamente nafcem na agoa (ain- 
da que efta foffe primeiro deftilla- 
da > tambem, e fem intervençad 
de terra alguma, haô de dar aquel- 
le fal, ou aquelle acido que lhes 
for ellencial ; o qual naô podem as 
flores, no cafo propoito , tirar de ou- 
tra alguma parte , nem de outro lu- 
gar, fe nad do ar. 

O acido nitrofo nad he con- 
creçaô da terra , porque no inte- 
rior profundo della nunca fe achou 

, aquel- 


De Architeiura Civil. 7 


aquelle fal ; como alguns entende: 
raô ,ve ainda entendem hoje com 
menos bem fundada experiencia. He 
certamente producçaô do ar, for- 
mada na Íuperficie de huma terra 
particular , e apta para receber, é 
concentrar em fi aquelle acido ad 
miravel, e verdadeiramente efpan- 
tofo pelos Íeus rariílimos , e tre- 
mendiflimos effeitos, 

Daqui vem que a maior parte 
do falitre , ou nitro que nas fabri- 
cas da polvora fe confome , todo 
he artificial, cujo artifício naô con- 
fifte em mais do que em efpalhar 
fobre a fuperficie da terra outra 
terra calcária ,- ageregando-fe fu- 
perfluidades de animaes ,. e vege- 
taes fummamente putrefaétos ;' cu- 
ja mifturaiexpofta ao ar ( e. prin- 
cipalmente.ao vento Norte , de que 
relultou -dizer-fe fallando-fe do ni- 

tro é 


78 Problema 


tro: Pentus in urero portavit) com 
o tempo fe incorpora a ella o aci- 
do do ar ,-de que provém hum ver- 
dadeiro nitro, concorrendo para a 
mefma producçaô outras circunf- 
tancias que acceleraô , e promó- 
vem a geraçaô , e appariçad da- 
quelle fal. Por caufa dos ingredi- 
entes que concorrem para a for- 
maçaô do nitro, .e pelo ingreflo 
que tem nos mineraes, chamaraô- 
lhe os artiftas fal animal, vegetal; 
e mineral, + 
O mefmo fuccede ás terras 
aluminofas, e vitriolicas , das quaes 
depois de extrahidos aquelles aci- 
dos, que tem naturalmente ; tornan- 
do-fe a expor ao ar livre, o cons 
curfa -do melmo ar faz tornar a 
concrecer nas mefmas terras ou- 
tros novos acidos da mefma natu» 
reza , e de igual qualidade dos pri- 
meiros; 


De Árchiteltura Civil. vó 


meiros ; ficando as terras fervindo 
aílim de matriz perpetua para efta- 
rem fempre attrahindo do ar ou- 
tras femelhantes producçoens. 

Os Cirurgioens methodicos 
tambem conhecem a exiftencia do 
acido do ar; por iflo na cura das 
feridas attendem com cuidado a 
defendellas do contaéto immediató 
do ar ambiente que circúla; e ifto 
taô porque o at como fimples ele. 
mento poíla' fer nocivo, mas ports 
que o acido ; que contém , retarda à 
cura, e aggrava mais as partes of- 
fendidas; e quanto mais fenfivels 
e dé mais exquifito fentimento he 
a parte, em que a ferida eftá, tan- 
to mais fenfivel he tambem nella 
a impreílao do ar; porque efte 
juntando-fe aos humóres já defor- 
denados, ow degenerados por qual- 
quer cafo natural óu accidental, 

entaô 


80 Problema 


entaô, o acido do mefmo ar, aug- 
mentando o mal, perturba a in- 
tençaô de quem o quer remedear. 
Por iflo na cura das feridas, o ob- 
jeéto primeiro , e principal, con- 
fifte em as cobrir exactamente ;: de- 
pois de applicado o remedio pro- 
prio. E com effeito muitas feridas 
faraô por fi mefmas fem. mendigar 
os foccorros da arte , mas Íó- por 
virtude, e forfa medicinal da na- 
tureza ; porém difficultofamente fa- 
raô eftando delcobertas., e expoí- 
tas ao rigor , impulfaô , ou aci- 
do do ar. e. E dido cf 
Com o que fica ponderado fe 
convence que no ar ha hum aci- 
do exiftente , perpetuo , phyíico , 
appreheníivel, e em certas circunf. 
tancias tambem vifivel; e que efté 
mefmo acido he como hum Pro- 
theu; a quem a natureza -faz to- 
mar 


De Architeitura Civil. 81 


mar infinitas fórmas , infinitas fi- 
guras, e infinitos modos. Efte he 
talvez o verdadeiro Mercurio, que 
os Philofóphos antigos indicaraô , fi- 
gurado na apparencia de huma in- 
domita ferpente , e outras vezes na 
de hum dos feus deofes fabulofos , 
armado do famofo caducêo , e azas 
talares. A efte acido do ar chamaô 
nitrofo os Philofophos modernos , 
e a elle atribuem, como privativa- 
mente, a fabrica, ou acçaô de ve- 
getar ; porém nefta propriedade , 
graciofamente concedida ao acido 
nitrofo., talvez que tambem haja 
fabula; fó com a diferença de fer 
menos antiga, e por confequencia 
menos refpeitavel, 


82 Problema 








CAPITULO V 


a pois certo que ha hum 
acido no ar , efte acido paí- 
fa por conftante fer nitrofo; e tan- 
to, que fundados alguns naquelle 
principio incerto, entraraô a idear, 
ou inventar compofiçoens diverfas 
com o título de fegredos , nas quaes 
o nitro he ingrediente principal, e 
por meio delle pertendem promo- 
ver fingularmente todas as forfas 
feminaes em cada hum dos tres 
reinos da natureza; no reino mi- 
neral entrou o nitro a fazer as mais 
fauítuofas efperanças , como ma- 
teria que devia fer da celeberrima 
pedra Philofophal; e efta entrou 
tambem a fer o objeéto das mais 


obfti- 


De drcbiteblura Civil. 83 


obitinadas indagaçoens , ainda que 
fempre infruétuofamente, e talvez 
nunca com o fruto defejado da cha- 
mada pedra por excellencia ; ori- 
gem porém de muitos inventos uti- 
hífimos, curiofiflimos, e admiraveis; 
porque, buícando-fe huma coufa 
que fe naô achou, acharad-fe ou- 
tras que fe naô bufcavad. 

No reino Animal, devia o 
nitro fazer reculcitada a raça dos 
Gigantes , e prolongar confidera- 
velmente a vida : porém fuccedeu 
o contrario, porque o invento da 
Polvora; parece que fó veio para 
fazer mais diminuta , e breve a du- 
raçaô dos homens. No reino Vege- 
tal devia o nitro forçar a terra a 
dar muitos mil por hum, augmen- 
tando-lhe o vigor para produzir 
abundantemente ; porém tambem 
naô fuccedeu aflim ; porque qe 

u a 


84 Problema 


la mãy univerfal ficou com a mef- 
ma fecundidade que teve fempre, 
nem fe fez mais liberal por fer aju- 
dada pelo nitro, antes efte he ca- 
paz de a fazer efteril, e infe- 
cunda, 

As minhas proprias experien- 
cias, enaô as dos outros, em que 
confio poucas vezes pela multidad 
de apparatos menos finceros , de 
que os livros eftad:cheios , e em que 
os Authores com menos fincerida- 
de elcreveraô na Phyfica Chimica , 
eifto, ou foffe por falta da inftruc- 
çaõô neceflaria a refpeito dos prin- 

«<ipios daquella preciofillima, e uti- 
hífima Íciencia, ou fofle por que- 
rerem occultar a verdadeira mani- 
pulaçaô de muitas operaçoens que 
defcreveraô ; as minhas experien- 
cias, digo ,o que me moftrarad ana- 
-Jyzando o nitro (que he o mefmo 

que 


De ArchitelluraCivil. 8s 


que o falitre vulgarmente conhéci- 
do) foi, que efte fal he producçaõ 
do ar, mas naô do ar unicamente; 
e que contém dotes admiraveis , ne- 
gados inteiramente a todos os ou- 
tros faes , tanto naturaes , como 
compoftos: porém naô pude defco- 
brir nelle os effeitos portentofos (ex- 
ceptuando a fua elafticidade ) de 
que fazem mençaô Joaô Rodolfo 
Glauber , Paracelío , Becher, e 
outros, 

- Achei aquelle fal inutil , e con- 
trario para promover, incitar, oume- 
lhorar a vegetaçao das plantas; por» 
que as fementes vegetantes naô ad- 
quirem vigor algum na infufad do 
nitro, antes de algum modo o per- 
dem, quando a infufaô he prolonga- 
da, e faturada com maior porçaô 
de fal. A infufaô das melmas fe- 


mentes em outros quaelquer faes, 
F in ou 


86 Problemã 


ou fejaô fixos, ou volateis, ou fes 
Jaô alchalinos, ou acidos, naô tem 
mais efficacia que a do nitro fim- 
ples. 

Naô obfta o fer doutrina in- 
veterada, e. feguida commumena 
te pelos melhores: naturaliftas , e 
ainda por muitos Phyficos moder- 
nos, e bem inftruídos , em que afr 
fentaô «todos que: o acido nitrofo 
he o verdadeiro. agente univerfal, 
e unico promotor da vegetaçaô; naô 
ebfta, digo, efta doutrina. porque 
nas materias Phyficas naô fe cons 
fidera a authoridade dos antigos , oú 
modernos; .e Íó fe attende para a 
authoridade da experiencia ; efta he 
a que decide o ponto , e naô os que 
trataraô delle: tudo, o que nad conf 
ta por huma experiencia conftante, 
e reiterada , he o meímo que nad 
fer, ou naô conftar por modo algum. 

E com 


De Architeétura Civil. 87 


E com efeito a experiencia 
moftra que nenhum acido he, pro- 
prio para excitar a vegetaçaô ; ifto 
fe entende ,.naô depois de eftar cor- 
porizado , e determinado nefte, ou 
naquelle: genero de fal, mas fim 
tomado , ou entendido, no eftado. 
como primitivo , em que o acido 
do ar pende indeterminado ; e em 
que. fendo como huma materia , ou 
enteuniver(al.; eftá difpoíta , e apta 
para informar todas as materias par> 
ticulares,: que. tambem tem aptidad 
para receberem-, e tomarem-efta 
ouaquella fórma, : 

! IRo fe comprova com o exem- 
plo de qualquer fal alchalino fixo 3 
efte: por fi mefmo ,'e fegundo a fua 
idole natural, attrahe a humidade 
todas as vezes que fe expoem ao ar; 
fermenta.com os.acidos, e com elles 
fe reduz a hum fal, a que chamaô 

Fiv neu- 


88 Problema 
neutro; abforbe os meímos acidos, 
e os deftroe ; diffolve-fe em todos 
os licores , exceptuando os oleofos ; 
delle refultaô as compofiçoens fa- 
ponarias ; diflolve promptamente 
todas as materias fulphureas, e un- 
Etuofas ; e depois de as diflolver , as 
larga, e faz precipitar ao fundo do 
valo , todas as vezes que fe intro- 
duz algum acido na difloluçaô. 
Porém depois que hum fal al- 
chalino fixo fe acha vitrificado com. 
qualquer arêa, ou terra, jáfica per- 
dendo todas aquellas qualidades que 
lhe faô eflencialmente proprias ; e 
com effeito já entad naô faz effer- 
vefcencia com os acidos , nem póde 
mudar-fe com elles em fal neutro; 
Já naô póde diffolver os mixtos oleo- 
fos para formar hum coagulo, ou 
fabaô; já naô póde diflolver-fe na 
agoa , nem attrahir a humidade aé- 
rea; 


De Architeltura Civil. 89 


rea; Já naô póde fazer corrofaô al- 
guma ; e de hum corpo cauítico veio 
a reduzir-fe a hum corpo infulfo, 
impenetravel a todos os efpiritos, 
e licores corrofivos. E afim veio o 
fal alchalino fixo .a perder todas as 
fuas propriedades , e ifto facilmen- 
te e para fempre ; e-fem já mais 
poder tornar a fer, o que tinha fi- 
do, nem poder recobrar nunca os 
feus primeiros dotes; e por iflo fe 
lhe póde applicar o que o Poeta 
ie : 
o facilis defcenfus Averni; 
Noctes , arque dies patet atri janta 
Ditis : 
Sed revocare gradum , fuperasque 
evadere ad auras » 


Hoc opus , bic labor ef. 


E aflim , o dizer-fe que o acido ni- 
trofo contribue. para. todas. as ve- 
geta- 


98 Problema 


getaçõens , he hum entender divis 
natorio ; porque por nenhum «exi 
perimento fe faz certo ; ou verifi- 
fas que feja aquelle acido, e naô 
outro : antes parece que aquella tal 
prerogativa devia dar-fe ao acido 
fulphureo. vitriolico.; porque defte 
he fummamente abundante o ar; 
como. fe obferva commumente nos 
diverfos meteóros que fe fórmaõ, 
e:acóntecem na atmoíphera , don- 
de aquelle meímo acido fe mani- 
fefta por varios , e diverfos modos, 
E fe com efeito o acido nitrofo co- 
opéra para aquella maravilhofa ac- 
çaô da naturaza, póde fer; fe mais 
provavelmente entendermos, ou to- 
marmos o acido nitrofo na fua pri- 
meira indeterminaçaô , ifto he-no 
eftado potencial, mas naô depois 
de corporizado , ou realizado em 
actual, e verdadeiro nitro ; porque 

“4 


Ja 


De Architetlura Civil. gr 


jáneite grao ,,e depois de efpeci- 
ficado , fica certamente inhabil pa- 
ra vegetar, nem fazer vegetar. O 
referido Poeta o achou aflim na fua 
materia, e excellente inftrucçao da 
agricultura : 


Semina vidi equidem multos media 
care ferentes 

Et nitro prius, & Era put 
dere amurca: 

Grandior ut fetus filiquis follasi- 
bus eljes. 

Es quamois igni exiguo properãs 
ta maderent , 

Vids leéta diu , de multo fiectara 
labore » 

Degenerare ramen , ne vis bumas 

" na quotannis pe 

Maxima queque manu legeret : fi 
omnia fatis 

Inpeius ruere , ac retro fublapfa 
referri. To- 


92 Problema 


Todos os Authores, que efcreverad 
com methodo fobre a Agricultura , 
e que quizeraô difcorrer com mais 
provaveis fundamentos , aflentarad 
em que os faes da terra faôd os que 
a fertilizaô ; por iflo dizem que a 
terra depois de repetidas , e conti- 
nuadas producçoens , vem final- 
mente a canfar, ficando confide- 
ravelmente diminuta no vigor, por 
lhe faltarem aquelles faes que foi 
fucceflivamente empregando nas 
producçoens antecedentes , fican- 
do para os mais annos como hu- 
ma terra ufada ,.e pouco vigorofa. 
- Porém aquelles fuppoitos faes 
nunca os pude defcobrir ; e por 
mais que examinafle varias terras , 
e por varios modos, naô achei nel- 
Tas o fal de que fe diz depende a 
fua fecundidade : oque fe encon- 
tra fempre he huma materia inflam- 
a mavel, 


De Archite&tura Cyvil. 93 


mavel, e unfluofa, e ella analy- 
zada exaétamente , nad moltra fal 
de qualidade alguma , nem fixo, 
nem volatil, nem nitrofo, nem ful- 
phureo : dei que fe fegue que o fal, 
que na terra fe fuppoem » he Mi 
ente, que a imaginaçaô creou; e 
ainda que todos os Efcritores fazem 
mençaô delle, he porque huns fo- 
raõ elerevendo º mefmo que outros 
tinhaô efcrito já , admittindo to- 
dos fem exame hum Íyftema que a 
experiencia contradiz. 

E de faéto naô ba fal > que 
naô feja oppofto à vegetaçaô, co- 
mo póde facilmente convencer-fe 
quem o quizer experimentar ; e if- 
to pelo fundamento de que todo o 
fal faz fufpender as acçoens ulte- 
riores, a que os corpos tendem na- 
turalmente ; 3 das quaes (fem fallar 
na vegetaçaô ) huma he a fermen- 

taçaô e 


94 Problema 


taçaô, ea outra a corrupçad; def- 
ta todos Ífabem que o fal a impe- 
de, e nelle eftá o melhor meio de 
a impedir: a fermentaçaô tambem 
fica fufpendida pela introducçaô de 
qualquer fal, e em porçaô conve- 
niente, no corpo do liquido fermen- 
tavel. De forte, que naô fó os faes 
falitos (que faô os acidos) impe- 
dema vegetaçad, acorrupçaôd, ea 
fermentaçaô, mas tambem os Íaes 
dulciformes , como he oaflucar, e 
outros femelhantes. 

Naô fó os faes em fubltancia 
fervem para impedir efficazmente 
aquellas tres operaçoens ; ou acções 
principaes da natureza, mas tam- 
bem o vapor delles faz o meímo 
effeito; porque o vapor, ou efpiri- 
to, que exhalaô o fal commum, o 
nitro, o enxofre, e todos os mix- 
tos que contém falacido ; impedem 

a cor- 


De Architeltura Civil. gs 


a corrupçao , a fermentaçaôd , eain- 
da a melma vegetaçaô; efta total- 
mente fe fufpende , como fe ob- 
ferva nos montes, e lugares mine- 
raes, donde os vapores fulphureos, 
que dos mefmos mineraes fe exha- 
laô, fazem a terra efteril para fem- 
pre, porque os effluvios vaporo(os, 
falinos , e corrofivos , reduzem a 
mefma terra a huma qualidade cauí- 
tica, e infecunda. 

O vapor do enxofre inflam- 
mado , fendo agitado em valo 
proprio com qualquer liquido fer- 
mentavel tambem (fuffoca inteira- 
mente a acçaô de fermentar. Def- 
te principio tem nafcido compofi- 
çoens diverfas ; e huma dellas he 
a que chamaô vinho Íurdo , o qual 
naô he outra coufa mais do que o 
mofto batido , ou mifturado com 
o vapor do enxofre acezo; € E 
Eca e 


96 Problema 


he o que enerva a aptidaô que to- 
do o moíto tem para fermentar , fi- 
cando por efte modo fem poder 
mudar-fe , confervando a doçura, 
que tem naturalmente a qual por 
outro nenhum artifício conhecido 
fe póde confervar melhor, nem re- 
ter a mefma doçura taô conftante- 
mente. 

“- Eaffim de nenhum acido po- 
demos afirmar com probabilidade 
raciônavel , que feja proprio para 
incitar, e promover a acçaô de ve- 
getar; porque antes por muitos ar- 
gumentos, e experimentos fe con- 
vence que todos os acidos impedem, 
e fuffocaô aquella mefma acçaõ, 
deftruindo os efpiritos feminaes de 
que toda a vegetaçaõ procede: e if- 
to , ou feja por caula da corrozad 
dos acidos, ou por outro qualquer 
principio que lhes feja natural o fa- 


éto 


De Architeilura Civil. oz 


éto de impedir, e enervar inteira- 
mente a vegetaçaô , he certo, co- 
mo a experiencia moftra facilmente. 
Só temos huma objecçaõ con- 
fideravel , que favorece o Ífyítema 
aa temos reprovado , de que o aci- 
o nitrofo he agente progenitor 
de toda a vegetaçaô ; e vem a fer 
que o nitro Íó porfi, e em fi mef- 
mo, parece que vegeta , fem de- 
pendencia de outro algum corpo , 
ou femente vegetal. E com efeito, 
fe puzermos a difloluçaõ do nitro; 
feita em agoa fimples em qualquer 
vafo de vidro, de barro, ou de me- 
tal, deixando eftar a difloluçaõ fem 
a mover-por eípaço de alguns dias, 
( contendo a agoa todo o nitro que 
derreter ) veremos fem fallencia , 
começar o nitro a fobir pelos lados 
do vafo que o contém, fazendo ra- 
mificaçoens diverlas , e.à iii 
de 


98 Problema 


de hum arvoredo criftallino , em que 
fe diftingue admiravelmente a figu- 
ra das raizes, troncos, folhas , for- 
mando tudo a imagem agradavel 
de hum boíque variado por mil mo- 
dos, e em que o acido nitrofo, co- 
mo unico architeéto , fez em pe- 
queno efpaço, e em ana tempo 
aquella meíma reprefentaçaô que 
a natureza faz em grande , e depois 
de muito tempo. 

O fal commum, tratado pelo 
mefmo modo , faz tambem as mef- 
mas apparencias ; mas naô com 
tanta fubtileza , nem com tanta fe- 
melhança , nem com tanta graça; 
affeclando fempre a fórma cubica 
que lhe he propria, e que affeéta 
fempre. Outros faes compoítos imi= 
taô tambem aquellas reprefenta- 
çoens falinas , tomando cada hu- 
ma dellas a indole ou figura natu- 

ral 


De dribiseciura Civil. 99 


ral dos mefmos faes. Porém o ni- 
tro fimples excede a tudo , tanto 
na variedade dos paizes que re- 
prefenta viftofamente , como na 
promptidaô , e propriedade com 
que os imita. 

E fendo afim , como havemos 
de negar aos acidos , e principal- 
mente ao acido nitrofo , a potencia, 
ou alma. vegetativa , naô fó para 
vegetar , mas tambem para exci- 
tar vigorofamente a vegetaçad em 
todos os fujeitos vegetaveis ? Com 
que razaô havemos de difputar a 
aquelle acido huma acçaô maravi- 
lhofa, e fingular de que tantos EL- 
critores eruditos o fizeraô (empre 
author, cuja opiniaõ , feguida uni. 
formemente ha tanto tempo, pa- 
rece que tem preícrito; fe he que 
nas materias phyficas tem lugar a 
prefcripçaô ; e ainda que o naó te- 

il! nha, 


100 Problema 


nha, he fem duvida que tanto he 
erro o idear hum fyftema mal fun- 
dado , como em arguir fem jufto 
fundamento aquelle que eftá ple- 
namente recebido. 

Com tudo nem por iflo de- 
vemos affentar que o nitro he ve- 
getavel, nem que tem particular 
propriedade para promover qual- 
quer vegetaçao. Os faétos aflima 
deduzidos, e ainda outros que fe 
poderiaô expender a favor do mef- 
mo intento, naô induzem mais do 
que a apparencia de hum fyítema 
verdadeiro , mas naô verdadeiro 
com effeito. Alim Ífaô outros fyf- 
temas, que introduzidos ha muito 
tempo, e eftabelecidos tambem em 
plaufiveis fundamentos , e corro- 
borados com experimentos fingula- 
res, nem poriflo faô mais certos; 
porque de muitos phenómenos ad- 

mira- 


De Architeetura Civil. 101 


miraveis refultaô confequencias in- 
certas e falliveis ; porém depois que 
fe examinaô maduramente , entad 
a verdade fe deícobre, e a illufaô 
defapparece. 

O nitro he hum dos mixtos 
que tem exagitado todos os enge- 
nhos, pelos Íeus rariflimos effeitos, 
fervindo de bafe , e argumento pa- 
ra nelle fe fundarem muitos dog- 
maticos difeurfos ; deítes alguns fe 
fuftentaôd ainda , e com razaô plau- 
fivel ; outros a experiencia def- 
mentio, e moíftrou o contrario do 
que. parecia : entre os-que fubfif- 
tem, hum he o'que dá ao nitro a 
virtude vegetante ; porém talvez. 
que mal fundadamente ::e fuppof- 
to que eíta materia feja de algum 
modo alheia do prefente aflumpto, 
com tudo, como feja util a fua dif 
cuíflao, bom ferá que naó deixe- 

G ii mos 


10% Problema 


mos indecifo o ponto, ainda que 
naô foíle mais que para defabu- 
zar os que inutilmente crem que 
o nitro he bom para promover a 
vegetaçaô das plantas, e que aílim 
períuadidos trabalhao infruétuola- 
mente na preparaçaô daquelle fal, 
para com elle excitarem a força 
das fementes vegetaes. 








CAPITULO VL 





Sfima diflemos que o nitro 
vegeta por fi mefmo, como 

fe verifica na diffoluçaô defte fal em 
qualquer agoa : porém a verdade 
he, que a chamada vegetaçaô do 
nitro , naô he mais do que huma 
fimples configuraçaô , ou fublima- 
çaô do meímo fal, procurada pela 
exha- 


De Architelura Civil. 103 


exhalaçaô , ou evaporaçaõ da agoa 
que o contém : daqui vem a appa- 
rencia de vegetar que o nitro faz; 
apparencia viftofa com effeito, fe- 
melhante á arte do pintor , que 
imita tudo , fem dar realidade a 
nada ; fórma a figura, naô a cou- 
fa; debuxa hum corpo fem lhe dar 
fubftancia alguma ; tudo fica para 
a vifta, e nada para o fer. 

O nitro pela. exhalaçaô da 
agoa entra a criftallizar-fe fuccelli- 
vamente; e nefta acçaô ;-em que fe 
aparta da agoa , donde eftava , vai 
ficando pelos lados do valo que o 
contém , tomando ao melmo tem- 
po a fórma de hum fal configura- 
do por diverfos modos. À irregu- 
laridade das fuas:partes, encadea- 
das humas' pelas outras , faz o ap- 
parato de hum bofque criftallino 5 
ou de muitas arvores juntas entre 


G iv fi. 


104 Problema 


6. Efta femelhança he fó fuperfi- 
cial, provinda das particulas do 
nitro unidas diverfamente; naô de 
efpirito vegetal que as configure ' 
nem que as informe precifamente. 
A mefma confufad , com que o nit- 
tro tende a criftallizar-fe ,. le a que 
vai difpondo as fuas partes para 
formarem huma efpecie «de labe- 
rinto ou! vegetaçad:: 

O que moíftra:fobre tudo que 
aquella concrefcencia naô provém 
de efprrito vegetante ,vhe que O 
nitro, depois de vegetar por aquel- 
le modo, naô adquire maior pe- 
zo , e conferva o meímo que ti- 
nha fem augmento algum; fendo 
que a verdadeira vegetaçaô fempre 
induz pezo maior , e maior volu- 
me no fujeito que vegeta ; porque 
o vegetar he hum principio de cref- 
cer , até chegar ao tamanho pros 

prio 


De Arcbiteblura Civil. ros 


prio do corpo vegetante; e tudo o 
que .naô crefce ; naô adquire: mais 
volume nem mais pezo , e por con- 
fequencia: nad vegeta ; porque a 
vegetaçaô Ífuppoem- precifamente 
hum tal ou. qual augmento de ma- 
teria, e de fubltancia, e donde o 
naô ha, tambem naôd ha verdadeis 
ra, e formal vegetaçaô. À corrup- 
çaô diminue hum corpo, a vege- 
taçaô: o augmenta .;. faô duas' ac- 
goens'contrarias; huma tende a fa- 
zer, e outra a desfazer. 
- — "Temos a arvore, aque os ar- 
tuftas chamaô de Diana, a qual naô 
he outra:coufa maisc do: que huma 
fimples difloluçaô do. azougue na 
agoa forte ; nefta fe fórma huma 
ramificaçaô perfeita , que reprefen- 
ta huma arvore com frutos, e com 
tanta fingularidade , que caufa ad- 
miraçaô a quem nunca. a vio, nem 
conhe- 


106 Problema 


conhece o artifício. Parece com 
effeito huma vegetaçaô metallica ; 
porque tudo , quanto a vifta póde 
deftinguir , naô he mais do que 
hum metal perfeitamente vegeta- 
do.. Porém nada diflo he; porque 
o mais leve movimento desbarata 
a arvore ,re o metal fe precipita 
ao fundo do valo que o contém ; 
e além difto, o pezo do mercurio 
he fempre o mefmo, cuja circunf- 
tancia indica claramente , que na- 
quella operaçaôd naô ha mais do. 
que huma vegetaçaô illuforia, e 
apparente. 
Por outro modo, e naô fabi- 

do ainda, fe póde fazer vegetar a 
prata em breve tempo; para o que 
tome-fe huma porçaô arbritraria de 
prata pura , e granulada , e pondo- 
fe em retorta de vidro forte, por fi 
ma fe lhe deite o azougue em por- 
“çaõ 


De drcbiteélura Civil. 10% 


çaô dobrada a reípeito do pezo que 
a prata tinha ; ponha-fe a retorta 
em fogo de reverbero, e na boca 
della fe lhe applique hum vafo de 
vidro, ou barro, com agoa fimples 
até ametade da fua cavidade inte- 
rior. Adminiftre-fe hum fogo len- 
to no principio , e depois fe aug- 
mente em fórma , que todo o azou- 
gue paíle por deftillaçaô ao reci- 
piente. A operaçaô fe faz dentro 
em duas , outres horas. Ficará a 
prata na retorta 'fingindo hum ad» 
miravel boíque compoifto de. arvo= 
res diverfas , tanto no tamanho , 
como na figura; em humas partes 
argentinas, e brilhantes , em ou- 
tras de hum branco .efcuro; e em 
outras como de hum pallido: dou- 
rado. 
*  Affim parece que a natureza 
fe diverte a illudir os noflos olhos, 
eá 


108 Problema 


e a nofla arte, moftrando-nos o que 
naô he , em figuradas, e fingidas 
reprefentaçoens, à maneira de hum 
fonho dilatado ; em que entendemos 
ver mil imagens diferentes , mil ca- 
fos, e fucceílos raros, fendo. tudo 
unicamente effeito de huma fanta- 
fia turbada , e delirante, ou de hu- 
ma idéa vaporofa, e defordenada. 
Aflim fe enganaô os fentidos no ef- 
paço que dura hum fono turbulen-= 
to; e fe enganad, da mefma forte 
que os noflos olhos acordados fe 
allucinaô com objeétos' parecidos, 
mas nem por io verdadeiros ; tan- 
to-he: certo, que apenas podemos 
diftinguir a verdade da illufao , a 
imagem natural, daquella que naô 
he mais do que apparente. 

Ifto vemos naquella vegeta- 
çaô da prata, em que efte me- 
tal; incapaz de vegetar, como os 

* outros 


De Architeélura Civil. 109 


outros todos, e tambem como to- 
dos os mineraes , toma com effei- 
to huma fórma vegetante , finge 
hum prado, hum jardim, hum bof. 
que; e com taô viftofa fingularida- 
de, que oartifice fe admira a pri- 
meira vez que a vê, como Íucce- 
deo ao expertifimo Grofle alumno 
da Academia Real das Sciencias de 
Pariz meu Meftre nos experimen- 
tos Chimicos , e a quem devo os 
primeiros elementos daquella admi- 
ravel arte, cuja memoria me ferá 
refpeitavel fempre naô fó pelas vir- 
tudes moraes , de que era ornado , 
mas tambem pela candidez, e def- 
interefle com que quiz tomar o tra- 
balho de inftruirme : foi Alemaô 
de nafcimento, e o moflrou fer na 
finceridade do feu animo, imitan- 
do as qualidades generofas, que (ad 


proprias, e naturaes naquella eru- 
diuffi- 


TIO Problema 


ditifima naçaô. Recordo-me do il- 
luftre nome daquelle Academico fa- 
mofo , cujas obras fazem o feu elo- 
gio mais permanente ; e neíta lem- 
brança fundo o faudofo modo de 
moftrarme agradecido á amizade fiel 
que fempre lhe devi. 

Tinha fido o meu intento o 
purificar o azougue de algumas fe- 
zes fulphureas, que o acompanhaõ 
muitas vezes; ea prata me pareceo 
hum corpo idoneo para aquelle fim; 
entendendo que as partes Íulphu- 
reas, e unctuofas do azougue ha- 
viaô de unir-fe à prata, e que O 
azougue na deftillaçao pallaria pu- 
ro. Porém a experiencia defmen- 
tio o difeurfo ; porque o azougue 
naô ficou adquirindo mais pureza 
que aque tinha, ea prata, que fi- 
cou no fundo da retorta, tomou a 
figura vegetal, como temos dito ; 

mas 


De drchiteélura Civil. 11 


mas nem por illo a prata vegetou, 
como parecia; porque pezada de- 
pois continha o mefmo pezo fem 
augmento algum : e fegundo o prin- 
cipio que temos eftabelecido , nad 
ha verdadeira vegetaçao , donde 
naô ha augmento de pezo, e devos 
lume. 

Ha outro experimento raro; 
que indica com mais probabilida- 
de , que em hum corpo incapaz 
de vegetar, póde encontrar-fe hum 
efpirito formador, e femelhante a 
aquelle, de que refulta a vegetaçaôd. 
Deftille-fe o azougue doze vezes 
fobre o eftanho puro de Cornualha; 
na ultima deftillaçao ficará o efta- 
nho fundido no fundo da retorta ; 
efta fe quebre , e fe lime o eftanho. 
Etfte eftanho limado deitando-fe fo- 
bre o azougue deftillado, no mef- 
mo inftante as particulas do metal 

fe 


IIZ Problema 


fe juntad , e formaô muitos corpos 
Íolidos, e regularmente cubicos. À 
figura folida, regular , e formada 
em hum inftante, naô tem exem- 
plo em outro experimento algum , 
e parece que denota hum efpirito 
agente, e vegetante. Os Phyficos 
poderad indagar attentamente a 
caufa daquella .configuraçaô metal- 
lica : eu defeubro a operaçaôd; ou= 
tros poderãd dar a razaô della, 
porque eu a naô fei ; por cafuali- 
dade a encontrei, bufcando outra 
coufa mui diverfa; agora facile efê 
inventis addere. 

Com tudo o phenómeno pro- 
poíto naô deve perfuadirnos que 
o eftanho vegete por aquelle mo- 
do ; porque examinado depois da 
referida operaçaô naô tem aug- 
mento algum no pezo, e fica com 
as meímas qualidades , e proprie- 

dades 


De Architeétura Civil. 113 


dades efpecificas de hum tal metal; 
a mudança fó confifte na figura, 
e naô no pezo , e no volume: e 
em quanto naô virmos que hum 
corpo crefce , naô podemos dizer 
que vegetou ; porque a mudança 
de figura naô he vegetaçaô ; as 
partes devem crefcer em volume , 
e pezo, fem o que naô fe póde 
afirmar que vegetaraô. Temos vif- 
to que os metaes naô tem facul- 
dade vegetativa. Continuemos a 
moftrar a mefma conclufad a ref- 
peito dos faes que conhecemos. 








CAPITULO VI. 
T Odos os Authores , que efcre- 


veraô da Agricultura , a ffentad 
commumente em que os Íaes da ter- 
ra 


114 Problema 


ra faô os que a fertilizad ; por io 
dizem que a terra, depois de repe- 
tidas producçoens, canfa, por lhe 
faltarem aquelles faes que foi em- 
pregando nas producçoens antece- 
dentes , ficando para os mais annos, 
fendo huma terra ufada, e pouco 
vigorofa. Porém aquelles faes nun- 
ca os pude achar, nem ver; e por 
mais que examinafle com cuidado 
varias terras, naô encontrei nellas 
os faes de que fe diz depende a fua 
fecundidade : talvez que outros fi- 
zeflem melhor exame ; porém na 
Phyíica cada hum eftá pelas fuas 
proprias experiencias, e difcorre fe 
gundo o que acha nellas. 

O que de fa£to fe encontra 
na terra quafi fempre he huma ma- 
teria inflammavel, e unétuofa; de 
que refulta que muitas terras ex- 
poftas ao fogo ardem como o car- 

vaõ ; 


De Archisektura Civil. 115 


vaô; e o melmo carvad de pedra 
naô he mais do que huma terra, em 
que abunda o principio fulphureo, 
e inflammavel que a faz arder, co- 
ma denota bem fenfivelmente o chei- 
ro ingrato , e pouco faudavel do 
carvaô de pedra. Outras terras ar- 
dem com menos fortaleza, porque 
nellas naô abunda tanto aquelle 
principio inflammavel , que he de 
donde procede a inflammabilidade 
do enxofre, e de outros mixtos fe- 
melhantes. 

Além difto, todo o fal, de qual- 
quer genero que feja,he fummamen- 
te oppofto a toda, e qualquer ve- 
getaçaô, como facilmente fe póde 
experimentar; e ifto porque faz fuf- 
pender as acçoens.ulteriores, a que 
es corpos tendem naturalmente , ca- 
mo (ad (além da vegetaçaõ ) a fer- 
mentaçaà, e acorrupçao; porque 

Hi todos 


116 Problema 


todos eftes tres movimentos natu- 
raes ficad como prezos , e fem ac- 
çaô, todas as vezes que algum fal 
compofto , ou natural fe junta a el- 
les: com o que fe verifica que ne- 
nhum acido he proprio para fecun- 
dar a terra. 

Porém fe o acido do ar, de- 
pois de efpecificado , e corporizado 
em nitro, he inutil, e contrario a 
toda a vegetaçaô; com tudo tem vit- 
tudes fingulares , e efpantofas em 
outras occafioens, e em outras ac- 
çoens da natureza. Na Medicina 
naô fe dá hum melhor refrigeran- 
te, nem mais benigno, nem mais 
feguro; e das compofiçoens Phar- 
maceuticas, que tem por bafe o ni- 
tro, faô efficazes ( fendo applica- 
das congruentemente ) o Antiphlo- 
giftico , ou criftal mineral , cha- 
mado tambem Sz/ Prunelle. O fal 

Poly- 


De Architectura Civil. 117 


polycreíto he excellente febrifugo , 
principalmente nas febres intermit- 
tentes. O nitro nitrado naô he de 
menos efficacia nas febres arden- 
tes. 

Todas eftas compofiçoens,que 
nos feus principios foraô achadas, 
e reveladas em fegredo , depois de 
fe haverem vulgarizado foraô ef. 
quecendo de algum modo , ficando 
menos indicadas na pratica; talvez 
por naô terem Ífucceilo igual em to- 
dos os calos , e em todas as occa- 
fioens; fendo que, fe os mefmos pra- 
ticos ufaflem de juntar o nitro ás 
preparaçoens de kina, entaô veriad 
feliciflimos fuccellos ; e fe ilto he 
hum fegredo , eu o revelo aqui, 
fem que me embarace a razaô in- 
jufta , em que fe fundaô os artiftas 
quando , para occultarem algumas 
coufas uteis que defcobriraô , alle- 

H ii gaô 


,18 Problema 


ga” como axioma aquelle que diz : 
«drcanum revelaram vilefcit. 

No artefacto da polvora fe vê 
hum dos mais poderozos, e fubli- 
mes effeitos do nitro; o qual imi- 
tando a luz repentina dos relampa- 
gos , o ruidofo eftrepito dos tro- 
voens, o eftrago inevitavel dos raios, 
moftra fer o agente principal da- 
quelles corufcantes meteóros, e ló 
com a notavel diferença de fer a 
polvora , e juntamente o nitro hu- 
ma obra das mãos dos homens, e 
poder fer adminiftrado , e dirigido 
tambem pela maô dos mefmos ho- 
mens, em lugar que aqueles phe- 
nómenos tremendos , os elementos 
faô os que os compoem, e lhes daô 
o movimento. 

Compoem-fe a polvora de nt- 
tro, de carvaô, e enxofre ; eftes 
dous ingredientes podem fer fubfti- 

tuidos 


De Architectura Civil. 19 


tuidos por outros , igualmente in» 
flammaveis, e de qualidade igual : 
fó o nitro naô póde fer fubftituido 
por outro nenhum fal; porque ne- 
nhum ha, que tenha a fua nature- 
za, nem que poíla entrar em feu 
lugar naquella compofiçaõ ; de for- 
te, que ainda que naô houvefle en- 
xofre, nem carvaô, fempre pode- 
ria haver polvora , mas de nenhum 
modo a pode haver fem nitro. 

Os Philofophos antigos ; ainda 
fem conhecerem a qualidade defte 
fal, chamaraõ-lhe Jupiter fulmi- 
nante, porque viraô que, eftanda 
junto a tados os corpos inflamma- 
veis, ou foflem animaes, vegetaes; 
ou minerães , em fentindo o ardor 
do fogo fazia a mefma deflagra- 

aô que o raio faz. Até que hum 
Religiofo Chimico (fegundo a tra- 
diçaô commua ) querendo extrahir 
H iv do 


120 Problema 


do nitro hum efpirito mais forte, e 
mais activo, mettendo em retorta os 
tres ingredientes , eftes apenas fen- 
tiraô o calor do fogo , quando em 
acçaô repentina rompendo o car- 
cere da retorta , fe exhalaraô in= 
flammados , deixando o Chimico 
fem o efpirito forte que buícava , 
e talvez por milagre com o que 
tinha. 

Defte phenômeno veio a naf- 
cer depois a polvora , naô bufca- 
da entaô, mas achada por acafo ; 
e por mais que os Phyficos fe te- 
nhaô empenhado na explicaçaô dos 
feus tremendiflimos effeitos, dedu- 
zindo eftes da elafticidade , expan- 
fibilidade, e incoercibilidade do ar 
que o nitro tem como comprimi- 
do em fi; efta explicação he: pou- 
co intelligivel , porque em todos 
os mais corpos fe dá hum ar elaf, 

tico 


De Architeetura Civil. 121 


tico , expanfivel , e incoercivel, fer 
que em nenhum delles fe obferve o 
movimento , e acçaô local que o 
nitro tem todas as vezes, que eftan- 
do involvido em materias inflam- 
maveis chega a fentir o calor do fo- 
go. E aflim de outro principio de- 
vem de refultar as fuas proprieda- 
des eflenciaes; e Ífuppoíto que até 
agora fe: naô tenha defcoberto; o 
tempo o defcobrirá talvez, & da- 
bit dies, quod bora negat. 
Em quanto diícorremos fobre 
o nitro , juíto ferá dizer que naô 
ha para que execrar, nem abomi- 
nar o invento fingular da polvora 
com o pretexto de fer hum artifício 
ideado para ruina, e extincçaô dos 
homens ; porque refpondendo a ef- 
ta preoccupaçaô vulgar , póde af- 
firmar-fe com verdade que a pol- 
vora naô foi mais inventada para ex- 
tincçad 


IZ2 Problema 


tincçaô dos homens , que para a 
confervaçaôd delles ; aflim como ou- 
tros muitos artifícios, de que o ufo 
commum nos faz conhecer o bem; 
e o abufo nos faz tambem conhecer 
o mal, 
- Aquelle, que primeiro defco- 
brio o modo para dar ao ferro iner- 
to a figura de hum inftrumento agu- 
do ; foi tambem o primeiro que en- 
finou a tirar a vida com aquelle du- 
rilimo metal: efte na fubltancia he 
innocente , e ainda na figura pro- 
pria para o mal: a culpa fó póde 
eftar na maô que dirige o golpe, 
naô no inftrumenro que executa. 
À terra, que produz a rofa faluti- 
fera, tambem produz o opio ver 
nenofo; mas quem ha de culpar a 
terra pela qualidade que tem de 
fer mãi univerfal? Tudo, o que ha 
no mundo , he proprio para a vi- 
da, 


De Arcintectura Civil. 14 3 


da, eparaa morte: ascoufas, que 
tem huma propenfaô nociva , efta 
lhes vem mais da applicaçaô de 
quem fe ferve, que da fua-natus 
ral malignidade. A vibora mortal 
he antidoto de fi meíma:: tanto 
he certo que o bem, eo mal tem 
a mefma origem , o mefmo naf- 
cimento , e fe criaô no mefmo 
berço. 

O ferro tanto conduz para of- 
fender , como para defender ; he 
como hum remedio, que repercúte 
os feus proprios accidentes ; e tu» 
do , o que he remedio , he permittis 
do quafi fempre , em lugar que o 
impulfo do aggreflor raras vezes 
tem difeulpa. Que triíte feria a con- 
diçaô dos homens fem o ufo daquel- 
le guerreiro , e tambem pacifico me- 
tal! O mefmo deftino tem'a pol 
vora ; ella fe ide, tambem de- 


fende. 


124 Problema 


fende. Louvemos a providencia na- 
quelle sartificio facil, por meio do 
qual quiz igualar as forças def- 
iguaes. Hum homem ainda meni- 
no, ou já triftemente annolo , ou 
já valetudinario , e debil , que defe- 
za póde ter contra o que for robuf- 
to, mancebo, eforte? Outro de 
eftatura inferior , e de membros de- 
licados, como póde refiftr à força 
de hum gigante ?- Nefte cafo quem 
vence he a natureza , naô o esfor- 
go; e o render-fe fica fendo parti- 
do neceflario : os opprimidos ac- 
cufariaô juftamente o desfavor do 
feu mefmo fer; e injuftamente os 
oppreílores entenderiaô dever á re- 
foluçad do animo o que fó deve- 
riaô ao pezo do volume ; fendo 
que o valor ainda vencido tem 
mais eftimaçaô , do que o venci- 
mento fem valor A polvora veio 

fazer 


De Archivektura Civil. 125 


fazer iguaes , a força a eftatura, 
a idade. 
Nos combates grandes ferve 
a polvora para as mefmas circunf- 
tancias, para que ferve nos comba- 
tes particulares ; porque fuccede 
ás vezes o defenderem-fe poucos 
contra os aflaltos de muitos: fe fe 
lerem as hiftorias antigas , ha de 
achar-fe que os confliétos entaôd du- 
ravad mais, e eraô mais fanguino- 
lentos , e nunca fe acabavad fem 
deftroço univerfal. Depois que a 
polvora entrou tambem a militar , 
os combates naô faô .taô obítina- 
dos ; como fe aquelle artifício hor- 
rendo fizefle: o furor dos homens 
mais civilizado : ao menos póde 
confiderar-fe a polvora como hum 
inimigo , cuja acçaô he de mais 
longe; aquele, que eftá perto, he 
formidavel até pelos fignaes de o 
em- 


TZá Problema 


femblante irado. E com efeito a 
artelharia bem difpofta , e elcon- 
dida, em fe deixando ver decide o 
dia :. os batalhoens contrarios, con 
tra quem ella fe dirige, faô os pri- 
meros que baixando as armas , e 
eftandartes acclamaô a vitoria. Que 
felicidade de vencer ,' e tambem 
que felicidade de ficar vencido ! a 
empenho fe conclue antes que as 
lanças cheguem: a medir-fe, e an- 
tes que as eípadas cheguem a to» 
car-fe. 

Bem fei que nem fempre fe 
compra a vitória taô barata ; po- 
rém bafta que fe compre alguma 
vez por aquellepreço ; por efte mef- 
ma a procura alcanfar o Capitaô 
experimentado.;; e efle he todo o 
fen-objetto ; porque fá a barbarida- 
de Grega media pelo fangue a qua- 
dade das emprezas ; hoje mede-fe 

pelas 


De Arcbitebtwra Civil. 127 


pelas confequencias que fe feguem, 
naô pelos eitragos antecedentes; 
e tem-fe por defaire da vitoria o ha- 
ver cuftado muito. 

“Tambem fei que aquelle arti- 
ficio impetuofo he prompto, e ar- 
rebatado , e que ainda dura me- 
nos, que hum abrir , e fechar de 
olhos ; porém na guerra que im- 
porta que a morte feja breve, ou 
efpaçofa ? taô leves fad as fuas amar- 
guras, para que fe haja de querer 
tomar-lhe algum fabor? Ao menos 
o mórrer de preíla he morrer fem 
dor», ou com muito menor. dor ; 
porque aflim como nada fe faz fem 
tempo , tambem fem tempo nada 
fe fente; e que fe póde .fentir no 
imperceptivel efpaço de hum imf- 
tante? O raio quando fere dá tem- 
po para penar? O accidente mor- 


tal, que de improvifo chega , deixa 
os 


128 Problema 


os fentidos com viveza para fentir ? 

ue infeliz fituaçaô he a de hum 
Soldado valerofo , quando , ferido 
mortalmente, ainda reípira; e que 
fervindo de theatro, ou chad, pa- 
ra os que vaô paílando , outros ca- 
daveres fobrepoítos, apenas o dei- 
xaô palpitar ! Só para adquirir a vi- 
da eterna póde conduzir hum tal 
tormento ; porque todo o genero 
de tormento, fe fe applica bem, con- 
duz para ditofo fim; ainda que quan- 
do fe padece, fó por infpiraçaô , e 
favor celefte póde haver lembran- 
ça de outra vida que fe efpera ; 
porque naturalmente quem fe acha 
agonizando , já eftá morto para tu- 
do , e até para faber que morre ; 
entaô o ter dor de haver pecca- 
do , fó fuccede a aquelles , de quem 
difle elegantemente, ainda que fa- 
bulofamente o difereto Mantuano: 


Quos 


De Architeélura Civil, 119 


OQuos equus amavit 
- Suppiter, aut ardens evexit ad 
«tbera virtus. 


Temos difcorrido fobre os effeitos 
do nitro na compofiçaõ da polvora: 
refta-nos dizer tambem as virtudes 
daquelle mefmo fal a refpeito dos 
metaes, ou ao menos huma das mais 
confideraveis. O nitro deftillado por 
meio dos intermedios competentes, 
dá o famofo efpirito corrofivo cha- 
mado efpirito de nitro; e quando 
o vitriolo, ou a pedra hume ferve 
de intermedio , o efpirito , que pro- 
vém na deftillaçaô , he aquelle a 
que chamamos agoa forte , cuja 
ferventia naô fó fe eftende ao uío 
das artes mechanicas vulgares, mas 
tambem tem lugar quotidiano na 
pratica da Medicina. 
Na agoa forte fe funda intei- 
I ramen- 


130 Problema 


ramente a Docimaíftica, ou arte de 
enfaiar o ouro. Enfaiar quer di- 
zer (nos termos daquella arte ) co- 
nhecer os quilates que o ouro tem, 
e conhecer tambem os dinheiros que 
tem a prata; e ifto a fim de fe fa- 
ber o valor de cada hum deítes 
metaes, cujo valor he derivado dos 
quilates do ouro , e dos dinheiros 
da prata. Da operaçaô do enfaio de- 
pende aquelle tal conhecimento de 
forte , que fem o nitro, de que fe ex- 
trahe a agoa forte , difhcil feria, por 
naô dizer impoflivel, o faber verda- 
deiramente, e com exaétidad o va- 
lor daquelles dous excellentifimos 
metaes: o exame, que delles fe faz, 
a que chamaô pelo toque, he con- 
Jeétural, incerto, e duvidofo , por- 
que pende mais da perfpicacia , e 
agudeza da vifta, que de outra al- 
guma regra certa; e tudo o que 


depen- 


De ArchitetiuraCivil. 131 


depende de hum arbitrio regulado 
pelos olhos, he fallivel muitas vezes, 
porque igualdade naô a póde haver 
entre olhos diverfos : Ífendo que 
quando a queítaô he determinar 
qual feja o valor de algum metal, 
o mais leve engano [empre induz 
prejuizo grande; e por iflo às ve- 
zes naô fe julga bem quanto valo 
ouro, e quanto a prata val, fe o ar- 

tita. fó fe guia pelo toque. 
Devemos pois ao nitro o fer a 
rimeira , e indifpenfavel bafe em 
que fe eftabelece , e funda a arte 
de enfaiar ; a propriedade, que tem 
o feu efpirito de diflolver perfeita- 
mente a prata, e deixar o ouro in- 
tafto, he fómente o de que reful- 
ta huma taô eftimavel , e util in- 
vençaô. Porém naô faô muitos os 
artífices que praticad aquella arte 
com conhecimento de principios ; 
Li exer- 


132 “Problema 


exercitaô como por tradiçaô , fe- 
guindo a fórma que viraô exerci- 
tar a outros. Vem que a agoa for- 
te diflolve a prata, e o ouro naô ; 
mas naô inquirem o porque aflim 
fuccede. Sabem v. g. que efta agoa 
forte he debil, e que outra tem a 
actividade neceflarta; mas faô me- 
nos curiofos na indagaçaô do fun- 
damento,porque acontece aflim. Sa- 
bem o methodo de extrahir da agoa 
forte a prata diflolvida nella , mas 
naô examinaô fempre fe a aprovei- 
taraô toda. Eftas, e outras muitas 
circunftancias faô com tudo eflen- 
ciaes , e ainda mais precifas do que 
podem parecer. 

Porém fallando finceramente, 
nad fe póde culpar , nem arguir por 
modo algum a menos perícia do ar- 
tifice neíta arte, naô fó porque ha 
poucos meítres que tenhaô cabal in= 

telli- 


De Árchitetlura Civil. 133 


telligencia della , mas tambem por- 
que os meímos metres raramente 
enfinaô tudo quanto fabem , como 
fuccede vulgarmente em todas as 
mais artes que tem os metaes por 
objecto principal; refervando para 
fi, e em fegredo o modo de obrar 
mais facil, e mais certo : a efte mo- 
do de obrar chamaô os Latinos: 
Manipulatio, e os Francezes com 
energia mais fignificativa chamaô 
a aquelle meífmo modo: Letour de 
main. 
Os meftres, que enfinaô por 
obrigaçaô, julgaô ( naô fei fe bem) 
que cumprem a obrigaçaô, enfinan- 
do fó aquillo , de que foraô enfina- 
dos, e naô o que alcanfaraõ por fi 
mefmos: Quod accepi , id ipfúm do. 
Se enfinaô mais do que aquillo de 
que forad inftruidos , entendem que 


nefla parte ufaô de huma mera li- 
Liu bera- 


134 Problema 


beralidade. E além difto, nem to- 
do o Jurifcunfulto póde faber para 
enfinar ex Cathedra ; nem todo o 
Medico fabe diftinguir a enfermida- 
de que he dificil de curar ; nem to- 
do o Militar fabe difpôr bem a fór- 
ma de hum ataque ; e da mefma for- 
te nem todos os artiftas podem co- 
nhecer a arte por principios, e pro- 
fundamente ; a materialidade baíta. 
Todos, e cada hum nas fuas profif- 
foens parece que cumprem com 
aprenderem ; o faber menos com- 
mumente naô he culpa; devem ef. 
tudar para faber; porém fe eftudan- 
do o naô confeguem , ficaô incul- 
paveis, porque entad o vício he (ó 
da natureza, naô do Íujeito. O de- 
lito provém do animo , ainda mais 
que do faéto do deligto meímo: e tal- 
vez que o erro fó venha da mali- 
cia, e nunca da ignorancia ; por- 

que 


De Archireélura Civil. 135 


ue o mal confifte em fer conheci- 
E e feito. 

De tudo, quanto temos pon- 
derado , a conclufaô para o noílo 
intento , he, que no ar ha hum 
acido verdadeiro ; ou feja de qua- 
lidade nitroza , vitriolica , ou de 
outra qualquer , fempre he certo 
que efle memo acido corróe , dif- 
folve, penetra , e altéra todas as 
pedras que naô tem dureza capaz 
de lhe refiftir. Os edificios, que ef- 
taô nas vizinhanças do mar , ou 
de outras agoas correntes, ou pa- 
ludofas , faô os mais expoítos; por 
io fe ha de ver, que as pedras 
menos duras , de que os feus muros 
fe compoem , facilmente contra- 
hem concavidades, perdendo pri- 
meiramenre a uniao exterior das 
Íuas partes, ficando eftas divifiveis, 
e como pulverulentas, e aflim vaô 

Liv conti- 


136 Problema 


continuando até que pela fuccef- 
faô do tempo vem a ficar desfei- 
tas todas as daquella qualidade. A 
vizinhança das agoas , enchem a 
atmofphera vizinha da humidade 
dellas, e entaô o acido do ar tem 
hum vehiculo continuo , e proprio 
que o conduz, e o faz como fub- 
fiftente nos corpos em que tem 
acçaô. 

Naô fó nas pedras fe verifica 
aquella propofiçaô ; em outros cor- 
pos fuccede o mefmo , e tem a 
mefma Íujeiçaô; e no ferro a ve- 
mos praticada muitas vezes , e mais 
promptamente que em outro cor- 
po algum; por iflo para o defen- 
der do acido do ar, coftuma pin- 
tar-fe , ou olear-fe o ferro; por- 
que geralmente toda a materia un- 
étuofa repelle eficazmente o aci- 
do, por fer impenetravel a corro- 

faôd 


De ArchiteluraCivil. 137 


faô mordaz daquelle agente, eim- 
penetravel tambem a toda a forte 
de humidade. Daqui vem que o 
ferro defcoberto , e fem defenfa, 
mais fe inficiona no tempo humi- 
do, e chuvofo, que no tempo fec- 
co; naô porque nefte efteja O ar 
fem acido, mas porque entaô lhe 
falta , ou tem menos vehiculo de 
humidade. 

Alguns ferros vemos em gra- 
des antigas, e em fituaçaô perpen- 
dicular , que tem a parte inferior 
roida, e reduzida em ponta agu- 
da, confervando inteira , e illefa 
a parte fuperior, e com a meíma 
figura que teve fempre. A cauía 
defta diferença naô he taô facil 
de encontrar como parece, ainda 
que o faéto he certo, e perma- 
nente, como póde obfervar-fe fa- 
cilmente nas grades das Tercenas, 

deita 


138 Problema 


defta Corte ; na figura oblonga , 
e perpendicular, achaô-fe algumas 
propriedades que outra qualquer 

configuraçao, e fituaçad naô tem. 
Fe bem fabido que o ferro 
fem artificio algum mais, que o 
de certo tempo, adquire todas as 
virtudes magneticas, mas ha de fer 
naquella mefma configuraçao , e 
fituaçaô ; de forte que pofto em 
mafla efpherica, quadrada , trian- 
gular, ou outra qualquer, já naô 
adquire nenhum dos dotes fingulares 
que o Iman tem. Quantas quef- 
toens, e indagaçoens phyficas po- 
deriaô excitar-fe , fundadas naquel- 
le phenómeno vulgar , e fimples ! 
He vulgar no que refpeita a magne- 
tizar-fe o ferro; mas naô o he na 
circunftancia , de que o ferro oblon- 
go , e perpendicular , fica a Íua par- 
te inferior mais expoíta à acçaô do 
ats 


De Architeélura Civil. 139 


ar, do que a parte Íuperior. Dei- 
xo ao Leitor eftudiofo o cuidado 
litterario de indagar a caufa. 

Os edifícios, que eftaô mais 
chegados às agoas falgadas , faô os 
que padecem mais , quando faô for- 
mados de pedra menos dura; por- 
que o ar mais falino daquellas agoas 
faz huma atmofphera quafi corrofi- 
va, emais propria para penetraras 
pedras em que a falta de dureza fa- 
cilita a penetraçaô ; por iflo em cer- 
tos caíos, e em certas enfermida- 
des he mui conveniente que o in- 
fermo naô perfifta em lugar mari- 
timo , e efteja apartado delle o mais 
que puder fer , porque a exhala- 
çaô falgada he naquelles cafos co- 
mo hum veneno que continuamen- 
te fe reípira, e que faz aggravar 
o mal confideravelmente. Peg 
vem que alguns quizeraô inferir que 

a nau- 


140 Problema 


a naufea que importuna aos que 
começaô a navegar , procedia do 
fal do mar vellicando as fibras efto- 
machaes : porém cuido que injuf 
tamente fe attribue ao fal do mar 
hum tal effeito ; porque o mais cer- 
to he que o devemos attribuir uni- 
camente ao movimento ondulante 
das agoas que fe movem ; o qual 
perturbando de algum modo as par- 
tes nervolas da cabeça , efta he a 
que faz comprimir o eftomago, de 
cuja compreflaô refulta o vomito ; 
porém deixemos efte: ponto ao Me- 
dico erudito, para que naô fe diga 
que em tudo mettemos a fouce em 
feara alheia. 


De Architeltura Civil. 14x 


CAPITULO VIL. 


À fabrica dos edificios entraô 
muros , e madeiras ; deítas 

naô tratamos , porque a prefente 
difcuflaô fó tem as paredes por af- 
fumpto : ellas fuftentaô o pezo do 
edificio; e da fortaleza dellas de- 
pende a duraçaô ; todas as mais par- 
tes faô de menos confequencia , e 
podem fer menos efcrupulizadas 
fem prejuizo irreparavel.-Os mu- 
ros devem fer formados com mate- 
riaes finceros , e naô fophifticados: 
qualquer ingrediente improprio faz 
que o muro fique contrahindo hu- 
ma qualidade caduca , e fempre im- 
peditiva da fua perfeiçao. O mate- 
rial inficionado he como hum mal 
inte- 


T42 Problema 


interior, e perpetuo que contami- 
nando a fubltancia toda, naô póde 
admittir remedio. Logo veremos o 
em que confifte aquelle mal. 

A pedra, com que fe fabrica 
nefta Corte (exceptuando alguma 
de qualidade branda , e conhecida- 
mente má ) he excellente, nem fe 
póde dar melhor, nem que condu- 
za tanto para a duraçaô; e fea if- 
to accrefcentarmos a abundancia 
della , diremos com razaô que a 
Providencia quiz favorecernos , an- 
ticipando a exiftencia , e bondade 
da pedra para repararmos as ruinas 
nas occafioens de terremotos. As 
pedreiras, que contém a ribeira de 
Alcantara, podem baftar , naô fó pa- 
ra reedificar-fe huma Cidade popu- 
lofa,mas para fe edificarem outras de 
novo. Da melima pedra fe faz a me- 
lhor cal, cuja força excede a todas; 

e com 


De Architeétura Civil. 143 


e com efeito, fe fe examinalle a qua- 
lidade da cal com que fe fabrica 
em Londres , em Pariz, e em ou- 
tras muitas partes , achar-fe-hia que 
nenhuma dellas póde comparar-fe 
com a noffa tanto em aétividade, 
como na brancura. 

Naô he menos perfeita a arêa, 
nem em menos abundancia ; por- 
que temos montes inexhauriveis 
e terrenos dilatados , dunde póde 
extrahir-fe facilmente aquelle ma- 
rial indifpenfavel. A aréa, que a 
“Trafaria tem, he moralmente in= 
extinguivel. Naô importa que haja 
de exigir mais cal; porque defta de- 
pende a liga , ou uniaô dos mate- 
riaes. Seja embora com mais algum 
difpendio ; a fortaleza da obra pa- 
ga tudo largamente. Huma defpe- 
za maior naô aflombra a quem quer 
edificar com fegurança, Que dif- 

golto 


144 Problema 


gofto naô tem o proprietario quan- 
do logo depois de acabada a obra 
a vê mal fegura , e defeituola ? No 
principio todos querem edificar com 
economia ; porém depois o arre- 
pendimento he certo; e entaô he 
que confideramos que, por fogir a 
alguma maior deípeza , vimos a def- 
pender mais. 

A boa economia nad confifte 
em defpender pouco; mas em naô 
tornar a defpender na mefma coufa. 
Seja Íordida a economia na fabri- 
caçaô de huma barraca, ou de ou- 
tra qualquer obra humilde ; mas 
naô deve fer aílim nos edifícios fum- 
ptuofos ; eftes fazem a decoraçaô 
das Cortes, e Cidades; e toda a 
decoraçaô ha de algum modo pro- 
metter a meíma duraçaô da coufa 
condecorada. O ornato tranfitorio 
ou he feminil,ou de theatro. Os tema 

plos, 


De Architeélura Civil. 145 


plos, as habitaçoens Reaes, osmo- 
numentos , e edificios publicos , fen- 
do feios para em quanto durar o 
mundo , devem fer fabricados neíla 
intençao. 
He certo que nefta Corte, 
e para os edificios della, temos ex- 
cellentes materiaes ; e fendo aflim, 
porque razaô os edificios modernos 
naô tem a duraçaô que os antigos 
tinhaô? Será por ferem fabricados 
mal? Tambem naô he por efla 
cauza ; porque de faíto temos of- 
ficiaes peritos, architeétos admira- 
veis que fazem executar tudo com 
notavel perfeiçao , e fegundo .as 
regras mais exactas. A obra, verda- 
deiramente Real, de Mafra., foi 
huma efcola, ou academia univera 
fal, de donde fahiraô os metres 
mais feleétos. Defde aquelle tem» 
po até o prefente naô tem perdi- 
K do 


146 Problema 


do nada aquella arte, antes vai 
fempre florecendo com augmento 
conhecido , animada pelo Auguf- 
tifimo Monarca , que a protege. 
Sendo bem conftante que as ar- 
tes, e as ciencias protegidas ad- 
quirem mais vigor, e fe adiantad 
confideravelmente, a mefma protec- 
çaô parece que as inípira. Qual 
he pois o principio infaufto, por- 
que em tantos edificios naô cor+ 
refponde a duraçaô a tantas felices 
circunítancias ? 

Já diflemos que o fegredo to- 
do eftá na eleiçaô dos materiaes, 
e em fe advertir de que importan- 
cia feja a pureza, e fimplicidade 
delles. Das pedras já diflemos tam- 
bem que devem fer aquellas que 
tenhaô a dureza neceflaria para re- 
fiftir à corrofad elementar. A pe- 
dra, que chamaô verdadeira lioz, 

tem 


De Architelura Civil. 147 


tem aquella qualidade ; outras há, 
commumente, e injuftamente re- 
provadas, como faô todos os fei- 
xos das praias, e humas que pa- 
recem vidro, e daô fogo fendo to- 
cadas com o aço. Eltas pedras, que 
alguns artífices condenaôd dizendo 
que naô caldeaô por ferem frias, 
naô merecem femelhante reprova- 
çaô; porque a frialdade he qualt- 
dade puramente imaginaria nas pe- 
dras; e o naô caldearem prompta- 
mente naô he por ferem frias, mas 
porque afigura liza uniforme, e 
de alguma forte regular em todas 
as fuas fuperficies, faz que a cal 
naô tem donde pegue facilmente, 
nem donde faça preza, como faz 
nas outras. pedras de figura efca- 
broza e impolida. Porém aquellas 
mefmas pedras , depois de haver 
paíflado o tempo conveniente, e 

K ii depois 


148 Problema 


depois de fecca aagoa , com que a 
cal foi amaflada, ficam taô exa- 
Etamente caldeadas, que naô he 
facil feparar dellas a aréa, e a cal 
com que fe fabricou o muro. 

Nem póde deixar de fer ; por- 
que aquellas mefmas pedras, fendo 
lizas, e roliças, ficad como mol- 
dadas entre a cal, e a arêa queas 
circunvolve por todas as partes igu- 
almente , em lugar que as outras 
cujas figuras faô irregulares, em 
cada huma dellas fe daô varios, e 
differentes interíticios, donde tem 
vaons; e eftes, naô eftando cheos, 
ficaô as pedras menos prezas, e 
ligadas: e aflim parece que naô he 
Jufto o reprovar pedras femelhan- 
tes; quando aliás fad as mais pro- 
prias para fazer fortes, e duraveis 
as paredes. Só tem contra fi o fe- 
rem commumente mais ds 

o 


De Arcbiteétura Civil. 149 


do que as outras; e por illo leva- 
rem mais porçaô de material; po- 
rem por iflo mefmo fazem a obra 
mais fortificada. Títo fe obferva nos 
maílames ordinarios , que fe fazem 
nos tanques para fuftentarem , e 
vedarem agoa , nos quaes os bons 
artifices naô querem pedras gran- 
des, mas buífcaô, e efcolhem as 
pequenas. 

Temos vifto a qualidade que 
as pedras devem ter: paílemos ago- 
ra á cal, e depois paílaremos tam- 
bem á arêa, que faô os tres ingre- 
dientes indifpenfáveis na conftruc- 
çaô dos muros. À pedra boa ou má 
facilmente fe conhece ; porque nel- 
la naô fe exige outra circunflancia 
mais do que a dureza. A cal de- 
pende de maior exame. Compo- 
emfe a cal de pedras, que faô pro- 
prias para ferem calcinadas; por- 

K ui «que 


Iso Problema 


que nem de toda a pedra fe póde 
fazer cal. As que faô fummamen- 
te brandas faô inuteis; as que faô 
brandas, mas com talou qual du- 
reza, fazem cal inferior , e parda; 
e as que faô excelfivamente rias 
naô admittem calcinaçaô alguma. 
O diamante , e as outras pedras 
preciofas naô «fe pódem calcinar ; 
por mais que o fogo Íeja violento; 
e dinturno. As partes, de que a na- 
tureza as fabricou, faô taô umi- 
das, e compaétas entre fi, que os 
poros. com que ficarad , fó daô paí- 
fagem à materia fubtil, e etherea, 
mas naô aos corpuículos do fogo ; 
fendo que a calcinaçaô provém de 
huma certa delunad de partes , 
caufada pela introducçad violenta, 
e fuccefliva das particulas igneas , 
que entraô a occupar os poros, 
ou interíticios do corpo que fe cal- 
cina, À pe- 


De Architetimra Civil. 131 


A pedra faxatil tambem naô 
fe calcina, mas hum fogo conti- 
nuo, e forte a vitrifica; pot fer 
repra certa que todo o corpo; 
que fe vitrrfica nao fe calcina ; e o 
que fe calcina naô fe vitrifica. Ou- 
tras. pedras ha que fahem já da 
terra vitrificadas; eftas' faô total- 
mente inuteis, e o maior fogo nad 
as póde reduzir a cal; porque a 
vitrificaçad he o ultimo periodo a 
que a natureza chega, e tambem a 
arte; vííto que depois de hum cor- 
po eftar vitrificado, ou feja artifi- 
cialmente,: ou feja naturalmente; 
nefle termo ' permanece fempre, 
fem admittir: mudança ou altera- 
çaô alguma. 

Ko porém fe entende na ver- 
dadeira vitrificaçaô, mas naô na im- 
propria ; porque o chumbo; e o 
eftanho , depois de vitrificados , fe 

K iv fe 


Içã Problema 


fe lhes junta qualquer materia un- 
étuofa, e inflammavel;da qual aquel- 
les metaes tornem a recobrar a par- 
te pghlogiftita que na fundiçaô per- 
derad, tornaô a apparecer, ea 
fer o metal que tinhaô fido. Tito 
aílim procede nos metaes inferio- 
res, e em algum dos mineraes, 
como o antimonio, mas naô no 
ouro, nem na prata, porque a per- 
feiçaô deltes metaes os defende 
fempre contra toda a acçaô do fo- 
go, e nelle fó fe purificaô ; de for- 
te, que o fogo , que deitroe tudo » 
exceptuando o vidro, e as pedras 
preciofas, que formaô huma efpe- 
cie de vitrificaçaô natural, deixa 
illefa a propria fubftancia daquel- 
les dous metaes; por iflo he axio- 
ma chimico: Quod facilins fit aurum 
confiruere » quam defêruere. 
Os metaes inferiores ie 
e 


De Architeclura Civil. 153 


fe podem calcinar, e fe calcinad 
com effeito facilmente, ainda que 
em imperfeita calcinaçad. O azar- 
caô naô he outra coufa mais do 
que o chumbo calcinado , e expof- 
to ao fogo até que tome a cor ver- 
melha. O eftanho, e ocobre tam- 
bem recebem a mefma alteraçaô ; 
porém a cal deftes metaes, ou ou- 
tros mineraes 5 de qualquer genero 
que fejaô, fó conduz para a con- 
feiçao das tintas, ou outros artes 
factos Ífemelhantes; e muitas vezes 
tambem para varios ufos medici 
naes, chirurgicos, ou mecanicos ; 
porém. de nenhuma forte para o 
noílo intento. 

“Os artífices da cal conhecem 
muito bem quaes faô as pedras 
proprias para aquelle minifterio , e 
tambem as que o naô faô; por iflo 
efcolhem humas , e rejeitaô a 5 

e fe 


154 Problema 


e fe por acafo as que faô improprias 
fe introduzem com as outras na 
operaçaô do cozimento , depois ao 
fahir do forno ainda eftaô na mef- 
ma fórma com que entrarad ; ape- 
nas ficaô mais quebradiças do que 
eraô; mas nunca reduzidas a cal, 
por mais que o fogo feja activo, e 
longo. À eftas pedras, fahidas aflim 
do forno,chamaõ os operarios cruas, 
para as diftinguir das que fahem co- 
zidas, ou calcinadas. 

À fragilidade,que as pedras fa+ 
xatiles adquirem por aquelle modo, 
deu lugar ao engano dos que que- 
tem fingidamente oftentar maiores 
forças, que as que commumente os 
homens tem; para o que pondo ao 
fogo alguns dos mais duros feixos, 
e depois de excandecidos, ou fei- 
tos como em braza , os deitaô logo 
em agoa fria. Eftes feixos ficad con- 

fervan- 


De Architelura Civil. gs 


fervando a fua propria, e natural 
figura; e quando fe afferece a oc- 
eafiaô de moftrar a pertendida for- 
ça, os taes fingidos alentados intro- 
duzem aquelles meímos feixos , pre- 
parados antes por aquelle modo ; 
e pondo qualquer delles fobre hu- 
ma banca forte fuftentando-o com 
a maô efquerda , para que o feixo 
naô chegue immediatamente à ban- 
ca ; dando-lhe com o outro punho 
cerrado huma pancada, o feixo fe 
defpedaça logo ; naô pela força da 
pancada que recebe , mas porque 
o fogo, e a agoa fria o tinha. já dif- 
pofto. para dividir-fe ao menor im- 
pulfo. Quantas artes. naô bufcad os 
homens para moftrarem com enga- 
no , e eftrategema , fuperioridade 
de força , fuperioridade de enge- 
nho , fuperioridade de poder! Mas 
que importa que façaô illufaô aos 

outros, 


156 Problema 


outros , fe a naô podem fazer a fi? 
Seria habilidade rara fe a fi mefmos 
podeflem enganar ; entaô eftando 
livres da importunidade da confcien- 
cia propria, que os accufa , a per- 
fuafad interior lhes ferviria como 
de hum fonho viftofo , e agrada- 
vel; fó entaô teriaô goíto de fe 
imaginarem fortes , fendo fracos ; 
de fe crerem engenhofos, fendo ru- 
des ; e de ferem poderofos , fem 
poder. 

A pedra lioz he a de que 
commumente fe faz cal, nos fubur- 
bios deíta Corte; e a cal que del- 
la provém , he de excellente quali- 
dade, como já diflemos : porém os 
mefmos homens , que a fabricaô, a 
perdem; naô por ignorancia na ma- 
nufaétura, mas por evitarem a def- 
peza, de que a mefma pedra necef- 
fita depois de calcinada, Bem fa- 

bem 


De Architeélura Civil. 1 57 


bem os artifices que perdem aboa 
qualidade daquella cal , mas nem 
por iÍlo deixaô de a perder ; e iíto 
porque allim meímo a vendem, e 
aílim mefmo achaô quem a compre; 
vejamos o em que confifte a perdi- 
çaõ. 





CE E EEE o A re, 
e a as eme eee um eee er, 


CAPITULO JX. 


Bas de calcinada a pedra 


deve fer pulverizada; porque 

fo depois de reduzida a pó , he que 
fica em termos de fer amaflada, ou 
mifturada com arêa. Efta pulveri- 
zaçaô fe faz por hum de dous mo- 
dos: O primeiro he expondo as pe- 
dras já cozidas ao ar ; aflim que 
fe tiraô do forno em que fe cozem; 
nefte eftado as particulas igneas 
con- 


158 Problema 


concentradas, e como introduzidas 
por força nos interíticios, ou póros 
Invifieis das pedras,vaô-fe lentamen- 
te difpondo , e como pondo-fe em 
liberdade ; para o que concorre a 
a humidade do ar que vai fuccefli- 
vamente occupando o lugar que as 
particulas de fogo vaôd deixando ; 
começando fempre eíta acçad pe- 
las fuperficies das mefmas pedras ; 
as quaes por efte modo fe pulve- 
rizaô inteiramente. A mobilidade do 
ar, e a humidade que contém, faô 
os agentes infalliveis deíta obra; e 
para mais a accelerar , fe vai com 
hum inftrumento , a que chamaô 
rodo, movendo as pedras de huma 
parte para a outra, e apartando a 
que eftá já pulverizada , para que 
efta naô impeça o contaíto imme- 
diato do ar nas fuperficies das pe- 
dras que ainda naô eftaô pulveriza- 

das. 


De Architeilura Civil, 159 


das. Segue-fe daqui que aquellas 
pedras , em que o ar naóô tiver con- 
taéto immediato , refifte ao inten- 
to da pulverizaçao; de forte, que 
mettida huma pedra de cal em vafo 
proprio, que a defenda do ar, ou 
da humidade, tapado exactame o 
vafo , conferva-fe a pedra inteira 
fem divifaô alguma nas fuas partes, 
e fem perder nada da fua força. 
Daquelle primeiro methodo 
naô fe fervem os operarios nunca; 
naô porque faibaô a razaô funda- 
mental porque naô devem ufar del- 
le; mas porque tem outro metho- 
do melhor , mais facil, e mais prom- 
pto. Tiradas as pedras da fornalha, 
e eftendidas , entraô a deitar-lhe 
agoa por cima paulatinamente, me- 
xendo fempre as pedras que fe vaô 
alternativamente desfazendo , ere- 
duzindo em pó. Efte fegundo meio 
he 


160 Problema 


he com effeito o mais conveniente, 
naô fó pela facilidade , e prompti- 
daô com que fe executa, mastam- 
bem porque as pedras , pulverizadas 
unicamente ao ar , perdem quafi 
toda a Íua força , ficando a cal co- 
mo huma terra branca, inerte, e 
fem vigor: em lugar que as pedras, 
desfeitas com agoa pelo modo re- 
ferido , daô huma cal forte, e vi- 
gorofa , e com requifitos neceflarios 
para com ella fe fabricar fegura- 
mente. 

A razaô Phyfica daquella dif- 
ferença, deve fer tirada do nafei- 
mento, e formaçaô da mefma cal: 
efta o que a faz fer cal, e o que lhe 
dá todas as propriedades que a cal 
tem, faô as particulas, ou corpuf- 
culos de fogo entranhadas exaétif- 
fimameute pelos póros, e interfti- 
cios das pedras quando fe cozem, 

como 


De ArchiteéturaCrvil. 161 


como já diffemos ; de forte, que; fe- 
paradas as partes igneas totalmen- 
te; o pó da pedra, que chamamos 
cal, naô he com effeito mais do que 
huma terra defanimada , e fem efi 
pirito igneo , e já inhabil para o 
ufo que deve produzir. Aflentado 
efte princípio , devemos tambem af 
fentar em outro, e vem a fer que 
as pedras quanto mais de prefla , ou 
repentinamente fe pulverizaô , tan- 
to mais confervaõ as partículas ig- 
neas, de que depende o vigor da cal; 
e pelo contrario quanto mais lenta- 
mente fe pulverizaô, tanto mais fe 
diflipaô as fuas partes igneas, que 
faô as que a fazem vigorofa , e cau- 
tica. 

Defta hypothefis fe fegue que as 
pedras pulverizadas efpaçofamente 
ao ar;neftefe diflipaõ,e tem lugar, ou 
tempo pára fe difliparem as parti 

L culas 


162 Problema 


culas de fogo involvidas nas mefr 
mas pedras; e as que faô pulveri- 
zadas com agoa, efta por huma 
acçaô repentina , e prompta com- 
prehende , e liga em fi aquellas 
mefmas particulas, que de outra 
forte fe haviaô de diflipar, e como 
evaporar, Nem pareça que as pare 
ticulas de fogo faô fuppoftas, e fó- 
mente imaginadas, como muitas 
vezes fuccede , quando fe quer ex- 
plicar phyficamente algum phenó- 
meno, cuja caufa naô he patente, 
Nem fe duvide da exiftencia daquel- 
les corpuículos igneos, fó porque 
fe naô demonitraô vifivelmente; por 
quanto de muitas coufas fe nad 
póde negar a exiftencia, ainda que 
fe naô vejad; e bafta que fejad vif- 
tas pelos feus effeitos. E no que 
refpeita á cal, que maior demonf- 
traçaô, nem mais vifivel fe póde 

dar 


De Architeétura Civil. 163 


dar dos corpuículos igneos que con- 
tém, do que o effeito material, 
e fenfivel, de fazer ferver aagoa, 
fem intervir outro algum calor, 
que o da mefma cal? E de que o 
calor manifeíta a prefença do fogo , 
ou feja activo, ou potencial, he 
certo. 

Por muitos, e varios experi- 
mentos fe verifica a exiftencia das 
partículas igneas embaraçadas , e 
detidas naquelles corpos que tem 
difpofiçaô para as receberem, e 
reterem algum tempo , e ainda fem 
o mais leve indicio de calor; como 
fe obferva no mimium , chamado 
vulgarmente azarcaô. Efte he uni- 
camente chumbo. derretido, e ex» 
pofto ao fogo até que fique reduzi- 
do em pó vermelho , ficando de- 
pois com maior pezo do que tinha 
o chumbo empregado na opera» 

Li çaõ; 


164 Problema 


çaô; cujo pezo accreícido torna a 
diminuir, quando o mefmo azar- 
caô, depois de reduzido a metal, 
torna a fer chumbo. Ifto mefmo fe 
obferva em outros corpos depois 
de haverem paílado pela acçaô do 
fogo; e o mefmo fe ha de achar 
tambem em qualquer pedra, fe fe 
pezar antes, e depois de calcinada. 
À compofiçaô chamada Mer- 
curius precipitatus. per fe, naô he 
mais do que hum azougue reduzi- 
do a hum pó rubicundiflimo: do 
fogo lento, e continuado fem in- 
terrupçaó , procede aquella cor, e 
tambem o maior pezo com que fi- 
ca; porém tanto o pezo, como a 
cor defapparecem em o Mercurio 
precipitado tornando a fer azougue 
por meio da reducçaôd. O oleo de 
vitriolo conferva fempre, e fem in- 
dicio exterior ; as particulas de fogo 
que 


De drchiteetura Civil. 165 


que tem concentradas em fi; e fó 
por alguns effeitos fe conhece a ex- 
iftencia dellas no corpo daquelle 
liquido corrofivo , e cauítico. Quem 
diflera que hum fogo aétivo podia 
unirfe eftreitamente, e confervarfe 
permanente em hum liquido fali- 
no? E que, naô tendo o vitriolo por 
fi caufticidade alguma, logo a ad- 
quire, quando o fogo reduz huma 
parte delle em efpirito concentra- 
do ! O mefmo fuccede a outros 
faes nativos, e ainda com mais 
promptidaô , e facilidade. 

E de que as pedras calcinadas, 
fendo pulverizadas com agoa, con- 
fervad muita parte do feu vigor (o 
que naô fuccede aflim ás pedras , 
que faô pulverizadas pelo ar fó- 
mente, e fem concurrencia de agoa) 
tambem he certo. E com efeito as 
pedras calcinadas podem fer confi- 

Li deradas 


166 Problema 


deradas em tres tempos; e emca- 
da hum deftes tem differente forfa : 
No primeiro , que he logo quando 
fahem do forno depois de acabada 
a operaçaô do cozimento, entaô 
tem as pedras a maior força que pó- 
dem ter, e a que pódem chegar 
ordinariamente. O fegundo , que he 
quando as mefmas pedras fe achaó 
pulverizadas ao ár, a efle tempo 
Já tem perdido a maior aétividade. 
O terceiro, que he quando forad 
pulverizadas logo com agua , entao 
tem o vigor precizo, e todo aquel- 
le, que a boa cal coftuma, e de- 
ve ter. 

Defte conhecimento refulta a 
utilidade no ufo pratico da cal; 
porque efta, quando he precizo 
traníportar-fe para partes remotas, 
donde a naô ha, nem commodida- 
de para a fazer, he neceflario naô 

a tranf- 


De Architelura Civil. 167 


a tranfportar em faccos , como fuc- 
cede ás vezes ; mas devem metterfe 
as pedras quando fahem do forno 
em caixoens, ou em barriz muito 
bem vedados , na fórma que fe pra- 
tica com outros generos, que he 
precizo defender da agoa, e da hu- 
midade. E ifto porque as pedras de 
cal, que fe tranfportaô em faccos , 
quando chegaõ ao lugar , para don- 
de fe encaminhaô, achad-fe redu- 
zidas totalmente a pó; e neíte ef- 
tado, fendo o ár, que paíla livremen- 
te pelos faccos , o que faz a pulveri- 
zaçaô das pedras ,a cal, que dellas 
provém, fica inhabil, e debilitada 
das fuas forças para poder fervir 
congruentemente ; cujo inconveni- 
ente he para evitar , fegundo a 
importancia , e confequencia da 
obra para que a cal deve fervir; A 
Phyíica naô fó fe occupa em obje- 

ly étos 


168 Problema 


étos pompofos, e fingulares; em 
inveftigar o que fe pafla nas entra- 
nhas da terra, ou porque modo fe 
formaô os meteóros na efphera im- 
menfuravel que defcrevem; mas 
tambem fe emprega nobremente em 
aflumptos humildes, e em indagar 
tudo quanto he util para a econo- 
mia civil; e talvez que feja mais 
proprio, e racionavel o apprender 
a conftrucçaô de huma parede fim- 
ples, do que enfinar a fórma por- 
que giraô os orbes celeítes na vaf- 
ta regiaô do Firmamento. 

Nefta conformidade devemos 
aflentar que a cal, para fer per- 
feita, e para fazerfe com ella edi- 
ficios permanentes, deve fer def- 
feita com agoa, e naô ao ar. Os 
antigos conheceraô bem a regra, 
que de qualquer leve circunftancia 
defprezada , naô fó fica fruítrado o 

effei- 


De Architetlura Civil. 169 


effeito que fe procura , mas tam- 
bem refulta o contrario efeito, 
Quem vêa cal desfeita, e já redu- 
zida em pó , embaraça-fe pouco do 
modo porque foi desfeita; porque 
a cal naquelle eftado toda he hu- 
ma na figura exterior, mas he mut- 
to diverfa na compofiçad que deve 
produzir ; e efta diverfidade , ainda 
na Ífubftancia interior , verifica- 
fe por muitos experimentos cer- 
tos. Vejamos alguns exemplos, que 
comprovaô aquella propofiçao. 

A cal desfeita ao ar he im- 
propria para o artefacto do fabãô ; 
he precifo tomalla ainda em pedra , 
para a ter com toda a fua força. So- 
bre aquella pedra calcinada fe dei- 
taô os faes alchalinos fixos, para 
que eftes fe liguem com os corpuf- 
culos igneos da meíma pedra; de- 
pois ; lixiviando-fe eftes dous in- 

gre- 


170 Problema 


gredientes , a agoa , que refulta 
delles , fica com a qualidade neceí- 
faria para a feitoria do fabãô ; de 
forte , que fem intervir a circunftan- 
cia de ler a cal tomada com toda a 
fua força, naô adquire a agoa, à 
que chamaô meftra , a precifa aéti- 
vidade para diflolver perfeitamente 
a materia cebacea , ou oleofa de que 
o meímo fabãô fe faz. Daqui vem 
que alguns operarios algumas ve- 
zes naô confeguem a perfeiçad da 
obra que adminiftrad, porque def. 
prezaõ algumas leves circunítancias, 
que lhes parecem defpreziveis fem o 
ferem. Por iflo em outros artefa- 
£tos acontece muitas vezes achar-fe 
delufo o artífice, naô confeguin- 
do o intento que tinha confeguido 
infinitas vezes; e ilto por falta de 
obfervancia de hum pequeno requi- 
fito , que aliàs naô he pequeno, 

por- 


De Architeétura Civil. tzr 


porque delle depende o bom exito 
da obra. 

A pedra, a que chamaô infer- 
nal Alchalica , tambem naô póde 
fabricar-fe com a pedra de cal pul- 
verizada ao ar; porque nefte eíta- 
do (como temos dito ) tem perdi- 
do a fua maior força , de que aquel- 
le cauítico neceflita. E da mefma 
forte para fazer-fe o efpirito vola- 
til de fal armoniaco , he precifo que 
a pedra de cal feja pulverizada com 
agoa , e de frefco, e nad com mui- 
ta antecedencia. O mefmo fe re- 
quer para o celebrado Phofphor de 
Homberg. Para caiar deve fer cal- 
dada a pedra repentinamente , e 
em grande quantidade de agoa; por- 
que toda a cal, depois de pulveriza- 
da » Já fica ineficaz , e impropria pa- 
ra aquelle ufo. 

E de faéto he certo que qual-: 

quer 


172 Problema 


quer circunftancia leve, e que pa- 
rece de muito pouca confequencia, 
he com tudo eflencial em alguns ca- 
fos; e de ferem omittidas procede o 
erro de huma operaçaõ aliás bem 
dirigida. Exemplifiquemos ifto. A 
fermentaçaô do moíto exige que 
o vafo, que o contém, tenha na par- 
te Íuperior huma abertura efpheri- 
ca, chamada vulgarmente batoque; 
eíte fe he demaziado , por elle fe 
diflipaô os efpiritos melhores , e mais 
fortes; de que refulta ficar o vinho 
fraco, e de pouca duraçaô ; e ou- 
tras vezes provém hum liquido fem 
fabor ,a que os Latinos chamaô va- 
pa. Se o batoque he mais pequeno 
que o que deve fer, fegundo a ca- 
pacidade do vafo, e da quantida- 
de do moíto que fermenta, entaô, 
naô tendo o ar ingreflo , e egreflo 
Jivre , e facil; a fermentaçaô fica im- 


perfei- 


De Architetura Cívil. 173 


perfeita, e o vinho, que procede 
della ; fempre'eftá com difpofiçad, 
e inclinaçaô para mudar-fe , e alte- 
rar-fe; porque lhe faltaô os efpiri- 
tos vinofos , de que depende a fua 
confervaçad. Sero batoque he pes 
queno exceflivimente , ou fe fe fe- 
cha de todo: por acafo , ou impru- 
dencia de quem cuida naquella for- 
te de trabalho, refulta exploíaô vio- 
lenta com fracçaó do vafo;ou do to- 
nel em que o moto eftá, De qual- 
quer deftas circunftancias , que aliãs 
parecem. de entidade pouca. pro» 
xém efeitos (ad diverlos ; e cons 
traros, 


CA- 








CAPITULO X. 


a FE pois fammamente necefla- 
Hi que as pedras de cal fejaô 
pulverizadas com agoa , na fórma 
que commumente fe pratica ; mas 
naô com agoa falgada , nem falo- 
bra, como alguns fazem , e de que 
fuccede infallivelmente a perdiçaô 
da melhor cal; porque o fal , intro- 
duzido nella por aquelle modo , faz 
perder inteiramente à boa qualida- 
de della, por fer o fal hum mate- 
rial improprio , e incapaz de forta- 
lecer-fe em tempo algum ; vifto que 
tudo , o que attrahe humidade a fi, 
impede confideravelmente a uniaõ 
intrinfeca das partes , as quaes fó fe 
confolídaô , ou conglutinaô, depois 

de 


De Architetlura Cívil. gs 


de expellida a humidade toda ; mas 
quando contém algum principio hu- 
mido , efte fempre eftá fazendo as 
partes divifiveis , e feparaveis. 

E fendo aflim, como ha de ti- 
rar-fe da cal o fal depois de introdus 
zido nella, e por confequencia in- 
troduzido tambem na fubítancia da 
parede? O fal fempre tende a hu- 
medecer (em quanto conferva a na» 
tureza de fal); e por mais efcon-» 
dido , e abforbido entre outros mix 
tos, fempre fe humedece , e efta ten- 
dencia natural por nenhum artifício 
fe lhe póde remover. 

Poderá dizer-fe que as paredes, 
que contém fal, fempre o cofpem 
para fóra fucceflivamente , como 
fe obferva em huma leviflima lanus 
gem albiforme, de que as paredes 
fe reveftem commumente nas fuas 
partes exteriores, e Íuperficiaes ; e 

que 


176 Problema 


que aflim pelo decurfo do tempo 
ficaô as paredes perdendo o fal que 
contraétaraô por meio da agoa fal- 
gada ; com que as pedras de cal fe 
pulverizaraô. Efta objecçaô he me- 
nos concludente ; porque aquella 
materia falina , ealbicante , que ás 
vezes fe manifefta nas fuperficies 
das paredes, naô he o fal que ellas 
tem em fi, mas outro mui diverfo 
que o ar cria. Iífto fe comprova 
pelo fundamento verdadeiro de que 
o fal do mar, introduzido por aquel- 
le modo no groílo das paredes, he 
hum fal quafi fixo , e decrepitante ; 
em lugar que o fal, que vemos na 
parte exterior de qualquer muro , 
he de qualidade nitrofa, que pen- 
de para alchalina. 

E com effeito ha muita diffea 
rença entre hum fal decrepitante 
e hum fal nitrofo ; efte deflagra 

quan- 


De Architeciura Civil. 77 


quando o deitaô fobre o fogo, e 
intuméce quando propende para al- 
chalino; aquelle, fe o deitaô fobre 
o fogo ardente , eftala fucceíliva- 
mente , e faz eftrepito , e a ilto 
chamaô os artiftas decrepitar. Só o 
fal do mar , ou que tenha a fua 
mefma qualidade, decrepita ; ne- 
nhum dos outros faes nativos, ou 
compoftos , tem aquella proprieda- 
de; e da mefma forte fó o fal ni- 
trofo deflagra. Aílim fe diftinguem 
os faes pelos feus caracteres effen- 
ciaes, e diftinétivos: e da melma 
forte os mixtos , ou naturaes, ou 
artrficiaes , tambem faô reconheci- 
dos pela indole , e genio proprio 
de cada hum. E aflim quando o ar- 
tifta vê decrepitar hum fal, julga 
com certeza que he fal do mar, ou 
procede delle ; e quando vê de- 
flagrar outro , tambem julga com 

igual 


178 Problema 


igual certeza que he nitrofo. Que 
admiravel arte, que com mais juí- 
to titulo tem por inflituto o co- 
nhecer os effeitos pelas fuas caufas, 
e as caufas pelos feus efeitos , e 
em que Íó a experiencia tem voto 
decifivo , e em que as regras, e 
preceitos naô vem de humana, ou 
pofitiva inftituiçaô , mas de huma 
ordem permanente, e indefeétivel! 
nella naô tem os fyftemas authori- 
dade alguma , e os fyllogifmos nad 
concluem quando a prova naô con- 
fifte em faéto vifivel, e conftante. 
Efta he a Chimica inftruida , ou 
Phyfica por excellencia. 

Além da decrepitaçaô fe co- 
nhece o fal domar (a que chamad 
fal commum ) por meio da analyfe ; 
efta fe deriva da circunftancia , e 
propriedade , que daquelle fal fe 
exrrahe hum efpirito Íalino, que, 

fendo 


De Architebtura Civil. 179 


fendo concentrado , he o verdadei- 
ro diffolvente do ouro ; e efte me- 
tal, que regularmente refifte , e per- 
fifte indifloluvel em todos os ou- 
tros acidos , cede facilmente ao do 
fal commum ; e para que os mais 
acidos o poflaô diflolver he precifo 
Juntarlhes certa porçaô daquelle fal, 
ou de fal armoniaco, que he hum 
falcompofto, e tem por bafe o fal 
commum. 

O fal porém que as paredes 
coípem , he de diverfa natureza, e 
inteiramente contraria á do fal do 
mar. Aquelle fal ( como fica dito ) 
henitrozo, porque deitado fobre a 
braza, ou carvaô accelo , deflagra 
e arde como huma eÍpecie de pol- 
vora, e delle fe faz a meíma pol- 
vora depois de purificado , e crif- 
tallizado em nitro; o que aliás fe 
naô póde fazer de nenhuma forte 

M ú com 


180 Problema 


com o fal commum, porque efte 
naô tem a elafticidade que no outro 
fe confidera : defte fal fe compoem 
a agoa forte, e de nenhuma forte 
do fal commum; antes, efte fe por 
acafo , ou por impureza do nitro 
fe encontra nelle, ainda que feja em 
minima porçaô, fica a agoa forte 
que provém com diverfa qualida- 
de, e fempre impeditiva da acçaô 
que deve produzir o mefmo efpiri- 
to do nitro. 

Por iflo nas fabricas, em que fe 
compoem a polvora, primeiro fe 
purifica exaétamente o nitro, cuja 
purificaçaô confifte em apartarfe 
delle qualquer pequena porçaô que 
poíla ter (e que ordinariamente 
coftuma ter ) do fal do mar; por- 
que o nitro , em que fe acha alguma 
parte daquelle fal, deflagra fem 
promptidad , e fracamente á ma- 

neira 


De ArchitetluraCivil. 181 


neira de huma lenha verde, ou hu- 
mida ; que fe quer queimar; e fe 
a parte do fal commum he grande, 
impede totalmente a deflagraçaõ 
do nitro, a que chamaô os artiftas 
Detonaçaõ: fuccede tambem infalli- 
velmente que a prata diflolvida em 
agoa forte, fe fe lhe deita qual- 
quer porçaô do fal commum, a 
prata fe precipita ao fundo do va- 
fo que contém a difloluçaô; com 
o que fe verifica a repugnancia, ou 
differença efpecifica que ha entre 
hum, eoutro fal. 

Além de que impropriamente 
fe diz que as paredes cofpem para 
fora o fal que tem, porque efte 
certamente naô fahe do groflo ou 
fubftancia interior dos muros , mas 
cria-fe nas fuas Íuperficies exterio- 
res, a modo de huma vegetaçaõ 
falina , e filamentoza, e á maneira 


M ini de 


182 Problema 


de outro qualquer nitro, que todo 
fe cria na Íuperficie da terra, quan- 
do acha na qualidade della algu- 
ma matriz propria para conçentrar- 
fe, ou embeber-fe o efpiritonitro- 
zo, que eftá como nadando em to- 
do o ambito do ár; por cuja razad 
falando do nitro alguns differaô : 
Portavit eum ventus in utero. 
E com effeito as paredes nad 
cofpem, nem lançaô de fi o fal 
commum: efte eftá taô ligado, e 
entranhado com os mais materiaes 
de que os muros fe compoem , que 
por nenhum modo fe póde defem- 
baraçar delles. Ifto fe prova com 
o efpirito, que fe extrahe daquelle 
fal; para o que depois de decrepi- 
tado fe miftura com certa porçad 
de qualquer terra argiloza, e me- 
tendo-fe em vafo proprio para a def- 
tillaçaô, e adminiftrado gtadual- 
mente 


De Aribiteélura Civil. 183 


mente hum fogo aftivo, naô fe fe- 
para do fal commum, fenaô huma 
limitada quantidade do feu efpirito 
falino , ficando a maior parte delle 
fem mudança na retorta , donde 
rezifte immobil ao fogo mais vio- 
Jento. 

E fendo aflim ( como he na 
verdade ) como póde feparar-fe o 
fal commum fó por fi do groflo da 
parede, e fahir della , fe ainda hum 
fogo forte o naô póde reduzir a 
flo? O fogo he o melhor fepara- 
dor de todos quantos há; e o cor- 
po» que fe naô fepara das partes, a 
que eitá conjunto, por meio daquel+ 
le agente, naô póde fepararfe fá 
por fi. Daqui vem que qualquer 
parede, em cuja cal entrafle agoa 
falgada , o fal ha de permanecer 
nella fempre, ou até que a parede 
fe desfaça , € as agoas a lavem in- 

iv teira- 


184 Problema 


teiramente extrahindo-lhe o fal que 
em fi continha ; porque a agoa 
he o diflolvente natural, e univer- 
fal dos faes, quando eítes naô ef- 
taô alflociados a algum principio 
oleolo , que impeíla a acçaô da- 
quelle diflolvente: de que fe fe- 
gue que em toda a parede, expolta a 
hum fogo ardente , fempre o fal 
fica confervado, e adherente a el- 
la; porque fó a agoa he capaz de 
o defentranhar , derretendo-o , € 
levando-o comfigo fempre. 

Com outros mais experimen- 
tos fe póde verificar evidentemente 
que o fal, que as paredes cofpem , 
naô he o fal commum da agoa fal. 
gada, com que as pedras de cal fe 
pulverizaraô , mas he outro adven- 
tício novamente creado nas fuas fi- 
perficies, e produzido pelo ar am- 
biente da atmofphera ; e he como 

huma 


De Archireétura Civil. 185 


huma florificaçad, ou bolor que fe 
fórma em modo vegetante na fu- 
perficie de todos os corpos humi- 
dos. Daqui tambem refulta que as 

aredes, que contém fal , fempre 
taó mais humidas do que aquellas 
que o naô tem ; e.ifto conforme 
o tempo, e qualidade da eftaçaõ. 
Aquella mefma humidade attrahe 
avidamente o fal aereo que fe con- 
denfa, e toma corpo; porque re- 
gularmente o fal, e a humidade 
faô correlativos de algum modo ; 
e aílim como o fal attrahe a humi- 
dade, tambem a humidade attrahe 
o fal, 

O afucar v. g. em quanto ef 
tá fecco naô póde crear bolor ; 
mas fe eftá fummamente humido ou 
por fi, ou por algum mixto adjun- 
t0, logo na parte fuperior começa 
à formar-fe aquella têa an 

d> 


136 Problema 


fa, a que coftumamos chamar bo- 
lor; efta naô he mais do que hum 
principio de vegetaçaô , produzida 
pelo concurfo da humidade propria, 
e da humidade do ar exiftente em 
todo o tempo na vafta capacidade 
da atmofphera. Por iílo para evitar 
aquelle bolor defagradavel ( que na 
verdade he hum principio de cor- 
rupçaô) o remedio he guardar a 
coufa, que fe pertende prefervar ; 
em lugar fecco, e menos expoíto 
à humidade , como todos fabem. 





DS e oe remos | 


CAPITULO XI. 


Aô muitos os danos , que re- 
fultaô do fal entranhado nas pa- 
redes por meio da cal feita com 
agoa falgada ; ou ainda falobra, 
como 


De Archisectura Civil. 107 


como em muitas partes fe pratica 
ordinariamente. O primeiro dano 
conhiíte em ficarem as paredes com 
huma propenfaô perpetua para hu- 
medecerem, naô fó nas fuas fuper- 
ficies, mas tambem no interior del- 
las. Efta humidade impede que as 
paredes poflaô nunca caldear , nem, 
adquirir aquelle grao de fequidad, 
que he precifo para ficarem Íolidas, 
e para fazer de muitas partes ag- 
gregadas hum fó corpo bem uni- 
do. 

Devemos aflentar que a cal; 
aarêa, e a agoa faô os pregos (cos 
mo os artífices fe explicado ) que 
fervem de juntar as pedras, de que 
hum muro fe compoem ; fe aquel- 
les chamados pregos forem molles, 
ou tiverem difpofiçaô para amolle- 
cerem, e para fe naô feccarem to- 
talmente, que firmeza póde ter o 

muro? 


188 Problema 


muro? Os meímos materiaes tam- 
bem fe podem comparar à cola ; el- 
ta fetiver difpofiçaô para naô fec- 
car de todo, como havemos de efi 
perar della algum effeito perma- 
nente? A obra grudada naô fica 
com vigor ; fe naô depois que a 
cola fécca; a coufa pregada tam- 
bem naô dura , fe o prego foi defei- 
tuofo. 

Temos hum exemplo na fabri- 
caçaô da telha ; e do tijolo. Eltes 
compoem-fe de hum barro argilofo , 
amaçado bem com agoa. Aquelle 
barro aílim preparado, depois que 
os operarios lhe daô a figura de te« 
lha , de tijolo , ou de outra qualquer 
coufa, entraô a feccalla lentamente 
ao Sol, até que a cozem na forna- 
lha, propria para iflo, a fim de ex- 
pulfar della toda a agoa, e humi- 
dade ; que tnhaõ entrado no com» 

poíto. 


De Architeétura Civil. 189 


polto. O cozimento he indifpenfa- 
vel, e nelle confifte a bondade, ou 
a perdiçaô da obra. He neceflario 
que a humidade feja expulfa intei- 
ramente ; porque , naô o fendo , em 
chovendo na telha, ou no tijolo, 
tornaô a desfazer-fe em barro , e 
lhes fuccede o mefmo que fuccede 
ao homem por decreto inevitavel : 
Pulvis es, & in pulverem reverte- 
ris. 
De forte, que o barro nad fe 
conglutina , nem adquire eftado fo- 
lido, fe naô depois que o fogo faz 
exhalar delle a humidade toda que 
fervio a difpollo para tomar efta, ou 
aquella fórma ; antes diflo eftá im- 
perfeita a obra, e fó como debu- 
xada , porque o barro, ainda re- 
tém huma propenfaô perpetua pa- 
ra desfazer-fe ; a perfeiçaô depen- 
de da exaéta fequidad. E por io, 


fe 


190 Problema 


fe o barro for falgado , ou fe for 
falgada a agoa com que de prin- 
cipio fe amaçou , por mais que o 
fogo o feque, em fe apartando del- 
le, torna o barro a humedecer de 
novo em todas as Íuas partes, e ef- 
tas entraô de novo a defunir-fe , e 
a perder infenfivelmente a uniad que 
tinhad, e vem a fer como fe tor- 
nafle a derreter-fe a cola , oua que- 
brar-fe o prego. 

Porém poder-fe-ha dizer que 
atelha, ou tijolo naô fe desfazem 
na agoa : ifto aflim he; mas por- 
que ferá? he porque huma, e ou- 
tra coufa depois de cozidas perfei- 
tamente adquiriraô huma uniaõ tal 
em todas as fuas partes difgrega- 
das, que já a agoa as naô póde di- 
vidir, nem apartar. Pelo cozimen- 
to adquírio o barro differente natu- 
reza que a que tinha. Antes de co- 

zido 


De Architethira Civil. 191 


zido exaftamente póde o barro tor- 
nar a fer o que de antes era; mas 
depois naô póde retroceder. Às ac- 
çoens da natureza caminhaô fuc- 
ceflivamente para hum fer diverfo. 
A folha de huma planta já naô pó- 
de tornar a fer humor; o fruto já 
naô póde tornar ao eftado de ver- 
dura. 

O vidro v. g. compoem-fe de 
hum fal alchalino fixo, e dearêa 
pura. Eítes dous ingredientes fen- 
do mifturados , e expoítos algum 
tempo ao rigor do fogo, vitrificad- 
fe, e fazem a materia do vidro que 
vemos commumente. Quem dirá, 
a naô fer conftante, e bem vulgar 
o artefato , que hum fal alchalino 
fixo podefle entrar na compofiçaã 
do vidro? Aquelle fal, e arêa faô 
corpos naturalmente opacos ; O Vie 
dro he clariflimo , e diáphano , e 

póde 


192 Problema 


póde refleQir os objeêtos por meio 
da interpofiçaô de qualquer corpo 
lucido; aarêa, e o fal naô tem fe- 
melhante propriedade. Que diffe- 
rença naô vai de hum vidro crif- 
talno a huma arêa ingrata ! À agoa 
Forte diílolve a aréa, mas O vidro 
refifte fempre a toda a actividade 
dos licores corrofivos. O falalcha- 
lino fixo contém huma pungentiffi- 
ma acrimonia; o vidro naó tem fa- 
bor algum; he infipido totalmente, 
Para onde foi a acrimonia daquelle 
fal depois de vitrificado ? 
Se alguem differ que o fogo foi 
o que tirou a aquelle mefmo fal a 
fua acrimonia cauítica, engana-fe; 
porque todos os faes alchalinos fi- 
xos , fem exceptuar nenhum , quan-= 
to mais tempo eftaô ao fogo, e em 
fufaô , tanto mais fe fazem acrimo- 
niofos ; e de tal forte, que ainda os 
faes 


De Architelura Civil. 193 


faes unicamente acidos, excitados 
continuamente pelo fogo , mudaô- 
fe para alchalinos, mas nunca de al- 
chalinos para acidos. Da perfeira 
uniaô daquelle fal com arêa re(ul- 
ta o vidro, e defte os ingredientes 
receberaô , fó pela acçaô do fogo, 
propriedades contrarias ás que ti- 
nhaô antecedentemente , e natural- 
mente, 
A farinha, depois de cozida em 
paô , recebe novas propriedades ; 
e perde as que antes tinha ; era 
hum corpo fermentavel, depois fi- 
ca incapaz para nunca mais entrar 
em femelhante alteraçaô ; a difpo- 
fiçaô, que tinha para fermentar, fe 
lhe acabou, e difipou aflim que 
fermentou huma fó vez. O mofto 
antes de ferver naô dá na deftilla- 
çaô nem huma pinga de liquido 
inflammavel, a que chamamos ef- 
pirito 


191 Problema 


pirito de vinho; porém depois dê 
fermentado, o mefmo mofto exhi- 
be copiofamente aquelles efpiritos 
admiraveis. Que eftupendas diffe- 
renças naô notamos no molto fim= 
ples, e no efpirito que procede 
delle depois de fermentado ! antes 
diflo he hum liquido doce, e inca- 
paz de inebriar; depois de fermen- 
tar perde confideravelmente aquella 
doçura natural , e tem aétividade 
para fobir á cabeça promptamente 
por caufa dos efpiritos que adqui- 
rio na fermentaçao ; porém elles 
mefmos efpiritos que, em quanto ef- 
taô no vinho, fazem titubear, ow 
inebriar , depois que fe feparaô 
delle, já naô tem a mefma força 
para perturbar o cerebro, nem mo- 
ver defordenadamente os efpiritos 

animaes. 
Aflim he o tijolo, atelha, e 
outros 


De Architeétura Civil. 19s 


outros váfos de femelhante compo- 
fiçaô. Antes do feu perfeito cozi- 
mento conferva o barro a pro- 
penfaô que tem para desfazer-fe 
na agoa; mas, depois de huma vez 
cozido , perde aquella primeira qua- 
lidade ; póde entaô quebrar-fe, mas 
desfazer-fe naô; conferva a fragi- 
lidade, naô a deliquefcencia. E 
he para notar que quando a te- 
lha, ou o tijolo fahem do forno 
mal cozidos , já naô tem remedio 
aquelle mal; porque, ainda que tor- 
nem para o forno, já mais podem 
receber o perfeito cozimento que 
faltava; a remiflãõ, ou intercaden- 
cia do fogo , faz arruinar a obra; 
nem fe póde melhorar, ainda que 
depois feja adminiftrado hum fogo 
aétivo, e continuado; elte devia 
fer fuccelivo, e naô interpolado ; 
por huma mefma acçaô, e naô por 

u mui- 


196 Problema 


muitas intercadentes. E nelte efta- 
do ficou o barro , de que a telha, ou 
o tijolo fe compoem , confervando 
a aptidaô nativa para desfazer-fe 
na agoa. 

O mefmo fuccede na calcina- 
gaô da pedra; fe nefta, depois de 
excandecida , o calor remitte, e O 
forno algum tanto esfria, já da- 
quella pedra fe naô póde fazer cal, 
ainda que o calor, que depois vier; 
feja ainda mais violento , e forte. 
He neceflario que o fogo feja igual 
continuadamente , e naô fufpenda 
a fua actividade; porque fe chega 
a embrandecer confideravelmente , 
Já a pedra fica inutil, e perdida 
para aquelle minifterio. Os artifi- 
ces conhecem efta regra , porém 
naô fabem a razaô theorica por- 
que aflim fuccede ; e para a dar- 
mos aqui, feria neceflario apar- 

tar- 


De Architeétura Crxil. 197 


tarmo-nos muito do [ujeito. 

Só diremos para utilidade com- 
mua, que toda a pedra que pelo 
modo referido , fica inutil para a 
fabricaçaô da cal tambem fica in- 
util totalmente para a fabricaçaô dos 
edificios, e geralmente para toda , 
e qualquer obra; porque a pedra, 
de qualquer genero que feja, de- 
pois de excandecida ao fogo , fica 
<ontrahindo huma tal fragilidade , 
que logo quebra, e cede ao me- 
-nor impullo, e abaixa com qual- 
quer pezo fobrepofto ,» e fe desfaz 
em pequenas partes todas as ve- 
zes que a agoa, ou a humidade 
chega a penetralla. Daqui vem que 
toda a pedra, que paílou por al- 
gum incendio, em que chegou a ex- 
candecer, fica inhabil, e incapaz 
de fervir para outros nfos femelhan- 
tes; Íó póde fervir como arêa pu- 

Ni rã, 


198 Problema 


ra, fe for pizada, e reduzida em 
pó groffeiro. 
Parece que fica manifeíto que 
o fal commum introduzido na pare- 
de por meio da agoa falgada , com 
que as pedras “de cal fe pulverizaõ, 
he o que impede que a parede fe- 
que inteiramente, e he o que a tem 
em hum eftado continuo de mudan- 
ça, ifto he de mais; ou menos hu- 
midade; e à maneira de hum ba- 
rômetro fegue as mutaçoens atmo- 
fphericas do anno; e fe altéra à pro- 
porçaõ das eftaçoens. Ito vem, co- 
mo já diflemos, da qualidade inven- 
civel que o fal tem para attrahir o 
humido do ar ; e de faéto o attrahe 
com mais forçado que o iman o 
ferro. Digo com mais força, por- 
que o iman para attrahir o ferro, 
he neceflario que efteja , ou ache 
ferro dentro da efphera da fua aéti- 
vidade; 


De Architeétura Civil. 199 


de; em lugar que o fal nunca ef- 
tá fóra da efphera da actividade 
do ar. 

E com effeito o fal ainda que 
dividido em partes minutiflimas , e 
involvido em outros corpos , pelos 
póros defles mefmos corpos attrahe 
o at, e juntamente a humidade 
que o ar contém; e como oar he 
hum fluido , cuja humidade he infe- 
paravel , e inexhaurivel , por iflo 
o meímo he attrahir o ar, que at- 
trahir a humidade delle; e he certo 
que naô ha ar fem humidade, nem 
humidade fem agoa. Afim o en- 
tendeo o excellente Adepto Sendi- 
vogio quando dife : Ef in acre 
eccultus vite cibus , quem de nodte 
rorem, de die vero aquam appella- 
mus rarefaétam. 

- Bem me lembra que poderá 
dizer-fe que a humidade pretendi- 
N iv da 


aco Problema 


da naô exilte, porque naô fe vê, 
mec cadit in fenfus ; vilto que em 
huma parede defmanchada, ainda 
que efta foíTe fabricada com cal pul- 
verizada com agoa do mar , nem 
por illo fe obferva humidade algu- 
ma na caliça de huma tal parede. 
Efta objecçaô parece mais confide- 
ravel do que na verdade he; por- 
que aqui naô fe diz , nem fe fuí- 
tenta que hum muro femelhante ef- 
teja por dentro com agoa manifef- 
ta, nem que a caliça delle muro 
moftre vifivelmente a humidade que 
em fi tem; o que fe diz, he, que 
o fal do mar incorporado na pare- 
de, e poíto nella por meio da cal 
feita com agoa falgada , ou falo- 
bra fimplefmente , efla tal parede 
fempre eftá mais, ou menos humi- 
da , fegundo o temperamento , e ef- 
taçaô do tempo, 

Para 


De Architeclura Civil. 201 


Para prova do referido , tome- 
fe a caliça daquella tal parede de- 
molida em quantidade arbitraria, e 
poíta em retorta chalibeada , efta fe 
accommode em forno de reverbero; 
e applicado o recipiente, lutadas as 
Junturas , adminiftre-fe hum fogo 
proporcionado fegundo a arte;e con- 
tinuada a deftillaçaô , entaô fe ve- 
rá a porçaô de humidade , ou agoa 
vifivel, e manifefta , que eftava 
como efcondida no corpo da caliça. 
Depois defta operaçaô , tire-fe a 
meíma caliça da retorta, e depois 
de eftar alguns dias expofta ao ar, 
tepita-fe com ella a mefma opera- 
çaô , e (empre feha de achar agoa 
no recipiente, por mais que a deftil- 
laçaô fe repita mil vezes com a mef- 
ima caliça ; porque o fal, que ella 
contém , fempre attrahe a humida- 
de, por ter no ar huma fonte per- 

petua 


202 Problema 


petua donde fempre a acha. O Poe- 
ta o diífe a outro intento femelhan- 

te, uno avulfo, non deficit alter. 
Naô fuccede a operaçaô por 
aquelle modo, fe fe quer praticar 
com caliça, cuja cal naô foi pulve- 
rizada com agoa falgada ; porque 
effa tal caliça nad moftra na ope- 
raçaô humidade , ou agoa alguma: 
e ainda a caliça , que tem verdadei- 
ramente fal, fe efte fe lhe tira por 
meio da infufad , já naô attrahe hu- 
midade alguma; e nefte eftado , ain- 
da que depois de fecca efteja largo 
tempo expofta ao ar, nem por illo 
ha de dar na deftillaçaô a agoa que 
dava antecedentemente quando ti- 
nha fal , porque com efte perdeo 
a parte aétiva, e attraétiva , por on- 
de tinha difpofiçaô para attrahir. 
Além defte methodo vulgar , ha ou- 
tros que daô a conhecer que hum 
corpo 


De Árchitetura Civil. 203 


corpo quando parece izento de hu- 
midade,nem por iflo deixa dea con- 
ter abundantemente , naô por cau- 
fa da attracçad ; mas por outros 
principios igualmente naturaes. 

À ponta do veado he hum cor- 
po folido, e tad compaéto, que ad- 
mitte polimento , e luítro; e ainda 
fendo afim, de trinta e duas on- 
ças de ponta de veado fe tiraô tre» 
ze onças de licor a que chamao Aqua 
cornu cervi. O papel tambem he hum 
corpo, que, ao parecer, he defti= 
tuido de humidade , e com tudo de 
vinte e quatro onças de papel fe ti- 
ra ordinariamente duas onças e meia 
de oleo, e treze onças e meia de 
efpirito phlegmatico , além da quan- 
tidade de humor aqueo que na ope- 
raçaô fe exhala. O marfim tambem 
he corpo duro, e baftantemente foli- 
do ; e que parece naô conter hu- 

mida- 


204 Problema 


midade alguma , mas com tudo del- 
le fe extrahe o oleo, e o efpirito a 
que chamaô Elephantino. Todos os 
oflos dos animaes, por mais feccos 
que pareçaô , tambem largaõ de fi os 
mefmos principios oleofos , e efpi- 
ritos empireumaticos. 

Do reino mineral fe tira humi- 
dade copiofa de alguns mixtos , don- 
de naô ha apparencia de a achar. 
A caparofa , depois de fecca exadta- 
mente, e reduzida em pó fubtil def- 
tillada a hum fogo violento de re- 
verbero, lança de fi o efpirito con- 
centrado a que chamaô Oleum vi- 
trioli. O enxofre , que pela fua un- 
Etuofidade repelle de fi toda a hu- 
midade., e a naô póde receber em 
feus póros, com tudo fe fe faz arder 
o enxofre debaixo de algum valo 
concavo, larga tambem o licor aci- 
do a que chamaô Spiritus fulpbu- 


Vis 


De drchiteetura Civil. 205 


ris per campanam. O fublimado 
mercurial,que he hum compotfto fec- 
co, compaéto , Íolido, e pezado , 
depois de moido , e mifturado com 
o regulo de antimonio , moítra, e 
tambem larga a humidade criftalli- 
na, ecauftica , a que chamaô Bati- 
rum Antimonti. 

Por eftes, e outros muitos ex- 
perimentos fe manifefta , que'ainda 
que a humidade neíte, ou naquel- 
le corpo fe naô faça diftinguir vi- 
fivelmente, nem por iffo deixa de 
exiltir nelles, e em porçaô notavel, 
preexiftindo com effeito naquelles 
corpos, donde parece naô eftar. Po- 
rém o que fe efconde á vifta, naô 
fe efconde ao fogo : efte agente 
voraz, impetuolo , e examinador 
fevero , naô deixa nada occulto, 
e faz appareçer o que era invifivel 
totalmente, : 

É E Que 


206 Problema 


Que outra coufa fad os me- 
taes todos, fe naô a humidade con- 
Junéta á parte terrea que entra na 
compofiçaô natural daquelles cor- 
pos? Os dous metaes perfeitos tam- 
bem naô faô outra coufa mais do 
que a mefina humidade metallica , 
tenacilima, fixiflima, e adherente 
com uniaô mais forte ao principio 
terreítre, que os defende pertinaz- 
mente de toda a acçaô dos ele- 
mentos; Íó hum fogo aétivo os faz 
correntes na fundiçad ; entad mof- 
traô que procedem precifamente de 
huma humidade oleofa , porém re- 
duzida a hum perfeitiflimo grao de 
fixidaôd; o como, fó a natureza o 
fabe ; nós fabemos os materiaes da- 
quella admiravel obra, porém o 
modo de os compor, e preparar, 
naô faberemos nunca. 

Por aquella maneira fe co- 

nhece 


De Architectura Civil. Soy 


shece quea caliça tem humidade 
em fi, ainda que naô feja humida- 
de vifivel, e palpavel:.e fem buf» 
car argumentos Chimicos , bafta 
que fe faiba 4 priori que na calis 
ça ha fal, para que diflo fe cons 
clua com certeza que tambem ha 
humidade nella; e ilto da meíma 
forte com que fe conclue que don- 
de ha humidade ha agoa , e que 
donde ha agoa naô deixa de ha- 
ver ar. Ê: 
Porém ainda haverá quem di- 
ga que naô he facil de: perceber 
que, eftando o fal dentro na pare- 
de, e incorporado a outros mixtos; 
poíla lá mefmo penetrallo o ar, e 
imfundir-lhe a humidade que dizes 
mos. Efta objecçaô naô he confi- 
deravel ; porque fabido he que o 
ar penetra validamente os corpos 
todos; e affim he fem duvida, por- 

que 


208 Problema 


que como naô ha corpo (em pó- 
ros, e eftes Ífejad permeaveis, por 
elles pafla , e repafla o ar conti- 
nuamente ; e por mais que hum 
mixto efteja confundido, e miftu- 
rado com outros de diver(a natu- 
reza, nada impede o ar para ins 
troduzir-fe nelle. 

O ar com effeito penetra to- 
dos os corpos , e vai como circu- 
lando pela immenfidade de póros 
de cada hum. A luz, ou a mate- 
ria (ubtil faz o melmo; e da di- 
recçaô, ou obliquidade dos póros , 
por onde a luz pafla, relulta a va- 
riedade , e diferença das cores; 
porque a cor naô tem fubftancia 
propria, e naô he mais do que hu- 
ma modulaçaô , ou ondulaçaô da 
luz, tranfmittida pelo ar fubril; e 
efte pallando direéta, ou obliqua- 
mente, caufa na retina dos noilos 

olhos 


De Architeétura Civil. 209 


olhos huma certa vibraçaô, de que 
refulta a fenfaçaô defta , ou da- 
quella cor. 

Na parte ofloza dos animaes 
valetudinarios fe obferva em cer- 
tos tempos a impreílaô do ar nas 
dores que padecem , e que com- 
mumente fervem de indício certo 
de que o tempo fe muda, ou eftá 
para mudar-fe. Iíto, ou feja por- 
que o ar naquellas occafioens fique 
mais, ou menos pezado; ou feja 
porque, fazendo-fe mais denfo , fi- 
que como embaraçada a fua per- 
meabilidade, e faça entaô mais ni- 
fo, ou força para paflar por aquel- 
las partes , obítruidas talvez, e 
caloficadas ; fempre he certo que 
aquelle effeito vem do ar, e que 
efte attinge os oflos, ou mufculos 
fenfitivos , de que refulta a dor» 
naô obftante eftarem defendidos ; e 

co- 


a1o Problema 


cobertos com todas as mais partes 
do animal. 

O ar pois, e a humidade con- 
juntamente paíla , e penetra aílidua- 
mente os corpos todos ( exceptuan- 
do aquelles que eftaô vitrificados , 
ou que tem femelhante natureza ; 
porque efles taes fó fe deixaô pe- 
netrar pela materia da luz, a que 
chamaô etherea propriamente ) .e 
por confequencia penetra qualquer 
muro , por mais groflo , e folido 
que feja : fe dentro defle muro achar 
particulas de fal, ainda que eftejaô 
divididas em partes minutiflimas , 
ha de humedecellas precifamente ; 
porque os mais mixtos;a que fe achaô 
encorporadas , e como confundi- 
das, naô as livra da impreflaô do 
ar, nem da humidade que contém. 
Naô digo que as humedeça na mef- 
ma fórma, e no meímo efpaço de 

tempo 


De Archite&tura Civil. 11 


tempo em que o fal humedeceria, 
fe eftivelle (ó , e fe eftivefle livre- 
mente expoíto á acçaô do ar, eda 
humidade ; porque entaô correria 
liquido, Fluerer in deliquium , co- 
mo fe explicaô os artiftas; mas re- 
cebe a humidade fufficiente para im- 
pedir que a cal fe conglutine , e de 
algum modo fe petrifique com a 
aréa. 

Porém antes que paílemos a di- 
ante, moftremos por alguns expe- 
rimentos que o ar, e a humidade 
penetrad as paredes com effeito ; 
o que melhor conheceremos por al- 
guns exemplos , ou argumentos bem 
fabidos. ar he hum fluido, ou 
vehiculo univerfal; elle nad fó le- 
va a humidade por onde pafla, ea 
vai transmittindo aos corpos que tem 
aptidaô para a receberem , mas até 
conduz os átomos invifiveis,que con- 


Oii fidera- 


bt) Problema 


fideramos fahir da pedra magneti 
ca. Sobre huma mefa fe efpalhem 
algumas agulhas de ferro, ou aço, 
ou tambem a limalha de cada hum 
daquelles dous metaes ; e paflando- 
fe pela parte inferior da banca hu- 
ma pedra magnetica vigoro(a , ver- 
fe ha que asagulhas, ou limalha fe- 
movem fegundo o movimento in- 
ferior da pedra. Nefte experimen- 
to quem he que conduzio os áto- 
mos magneticos para darem aquel- 
le movimento ao ferro , fe naô o ar, 
atraveílando para iflo, e vencendo 
o obftaculo da madeira interpoíta 
entre huma coufa , e outra? Por- 
que o ferro naô podia mover-fe, 
fem fer pela força exterior, e con- 
taéto immediato de hum agente cor- 
poreo (mas invifivel) que o fizelTe 
mover, € lhe imprimiffe de fa£to a 
acçaô de hum movimento local. N E 

tural- 


De Architettura Civil. 213 


turalmente nenhum corpo fe move, 
fem primeiro fer movido pelo en- 
contro, ou choque de outro corpo 
Já pofto em movimento : aliás o re- 
pouío, ou inacçaô he naturaliflimo; 
e nenhum corpo fe moveria , fe naô 
houveflem outros que o movellem. 
Os átomos magneticos faô com ef- 
feito corpos já poítos em movimen- 
to, e deite refulta o movimento do 
metal que eftava em defcanço , e ef- 
taria fempre em quanto o naô mo- 
veílem. 

Porém aquelles átomos, que 
confideramos moventes , quem he 
que os leva até chegarem ao ferro 
que fazem mover? Quem he que 
os traníporta, e os introduz pelos 
póros invifiveis da madeira até que 
encontrem o ferro, para o fazerem 
mudar de lugar , e de direcçaô? Só 
o ar tem movimento perpetro ; € 

O sn por 


214 Problema 


por io tudo aquillo que o ar con- 
tém, ou que fe póde fuftentar no 
ars gira perpetuamente ; porque o 
ar, que fe move, faz mover tudo 
quanto fe acha nelle, fe o pezo naô 
he defproporcionado , porque en- 
taô o pezo tem mais força para fuf- 
tentar-fe immobil, do que o ar tem 
para o fazer mover. Mas porque fe- 
rá perpetuo o movimento do ar, 
naô o fendo o das outras coufas? 
Parece que a razaô he, porque o 
movimento do ar provém daquelle 
primeiro impulfo que o Divino Ar- 
chiteéto do Univerfo imprímio em 
todos os principios na ordem da 
creaçaô; o movimento pois,que vem 
de huma origem poderoza infinita- 
mente , naô póde ceflar , fe naô cef- 
fando tambem a ordem da nature- 
za; e fó o mefmo Architeéto , que 
infundio no ar a acçaô de fe mo- 

ver, 


De Architeélura Civil. 215 


ver, he quem a póde fufpender ; 
porque o corpo, que fe move, fem- 
pre he á proporçaô da força, que o 
faz mover : e quando a força he in- 
finita , como ha de parar o movi- 
mento ? O fim das coufas foppoem 
hum principio limitado; e naô aquel- 
le, que naô tem limite, 

Daquelle experimento da pe- 
dra magnetica , a que chamaô com- 
mumente de cevar , abuzaraô mui- 
tos fazendo crer aos inexpertos que 
o movimento das agulhas procedia 
de caufa fobrenatural , naô proce- 
dendo fe naô naturalmente. Aflim 
veio a meíma Phyfica a fervir pa- 
ra introduzir erros populares ; e foi 
precifo, para os conhecer , naô Íó 
que as fciencias fe adianta flem , mas 
que ficaffem de algum modo mais 
commuas ; porque para defabuzar 


a todos he neceflario que todos fai- 
O iv baô 


216 Problema 


baô o em que confie o abufo. A 
tinta chamada fympathica , tam- 
bem faz hum effeito femelhante , e 
raro, fendo que exige mais arte pa- 
ra a compôr. Em tudo tem o ar ac- 
sad, e dirige (como temos dito) 
os átomos da pedra magnetica (fe 
he que os tem como fe diz) e mo- 
ve os feus effluvios , ou turbilhoens 
(fe he que os ha.) à 

O oleo de vitriolo deflegma- 
do, e poíto em parte fummamente 
refguardada , e fecca, fempre cref- 
ce em pezo pela humidade que at- 
trahio do ar. O tartaro alchaliza- 
do , ou qualquer fal alchalino fi- 
xo, tem o meímo creícimento, e 
pela mefma caufa. O infbramento 
chamado Thermômetro indica o pe- 
zo, e variaçoens do ar, por mais 
que aquelle mefmo utiliflimo inf- 
trumento , elteje bem cerrado , e 


delene 


De Árchiveétura Cívil. 217 


defendido exatamente contra as 
imprefloens da atmofphera , ou ar 
exterior. 

Fica pois conftante que o fal 
entranhado nas paredes, por meio 
da cal pulverizada com agoa do 
mar, attrahe a fi continuamente a 
humidade aerea ; cuja humidade 
impede que a cal fe petrifique com 
a arêa, e que faça com ella hum 
corpo folido ;-e por confequencia 
as pedras , de que os muros fe com- 
poem , naô podem achar na cal 
hum ligamento forte que as con- 
tenha. Daqui vem, que em fe mo- 
vendo a terra, ainda que as pedras 
fe naô moaô , moem-fe porém a cal, 
e a aréa que ferviaô de as prender, 
e ligar eftreitamente , ficando por 
io mefmo as pedras como foltas, 
e divifiveis, e juntamente em efta- 
do de fe fepararem humas das ou- 

tras» 


218 Problema 


tras, arruinado aílim, e cahido o 
muro que Íuftentava o edificio. 





CAPITULO XII 


C Hamei petrificaçad a aquella 


uniad exacta que fe fórma en- 
trea cal, ea arêa, de que reful- 
ta hum concreto duro, continuado 
nas fuas partes , impenetravel à 
agoa , e que em muitas circunf- 
tancias tem huma natureza feme- 
lhante á da mefma pedra. E com 
effeito, fe fe amaçar huma parte de 
cal, pulverizada com agoa doce, 
com duas partes de arêa fina, que 
naô tenha barro, nem participe de 
agoa falgada , ver-fe-ha que a agoa, 
com que aquelles dous mixtos fe 
amaçaraô , em breve tempo fécca; 
e de- 








De drcbnetura Civil. 41 g 


e depois de poucos dias fica tudo 
reduzido a hum corpo Íolido , re- 
fiftente á agoa , e apartando-fe 
della ; como fe fofle huma pedra 
verdadeira. Aflim o notou o dou- 
tilimo , e experientifimo artifta 
Jorge Ernefto Stahl na fua Phyfica 
ca Mechanica pag. 137. $. 5. em 
que diz: 


Communiter enim notum ef? , quod 
calx tanta aque portione, ut pul- 
tis confifentiam referar perfufa » 
aqua bac fuccefione exfpirante, in 
Japideam duritiem concrefcat. Con- 
tras fiplurima aqua perfundatur , 
illaque decanterur , aut lento fal- 
tem aeris tepore divaporet, calx 
slla plane friabilis, é pulverm- 


lenta remaneat. 


Porém fe a referida compofiçaô fe 
praticar com algum daquelles ma- 
teriaes, 


220 Problema 


teriaes , em que entre de algum 
modo o fal commum , ou outro 
qualquer , ver-fe-ha que em todo 
o tempo a agoa a ha de penetrar , 
ou mais ou menos , fegundo a 
quantidade , ou qualidade de fal 
que tiver em fi; porque o fal, de 
qualquer natureza que Íeja, impe- 
de efficazmente aquella efpecie de 
petrificaçad artificial. 
E naô fó a refpeito da cal, e 
a arêa impede a humidade de qual- 
quer fal ( ou outra humidade al- 
guma ) a uniad perfeita entre al- 
guns mixtos, mas tambem em ou- 
tras compofiçoens , e operaçoens 
fuccede o mefmo , como já diffe- 
mos da telha , e do tijolo, nos quaes 
em quanto lia humidade na maça 
do compoíto , e em quanto o fogo 
a naô expelle inteiramente, naô pó- 
de atelha fuítentar, nem refiftir á 
agoa. 


De ArchiteturaCivil. ar 


agoa. He neceflario que naô haja 
humidade:no interior das partes, e 
que neftas naô haja coufa que fe- 
ja capaz de a attrahir. 

Ifto he , porque de todas as 
coufas conhecidas nenhuma ha , 
que pofla attrahir a agoa, e a hu- 
midade tanto como o fal; efte he 
o feu verdadeiro Iman ; nem ha 
arte alguma, por onde fe lhe tire 
aquella propriedade , fem o' def- 
truir primeiro, ejá entaô abiit na- 
tura falis. Daqui procedem varios 
artifícios economicos. V g. quan- 
do o azeite he mais liquido do que 
deve fer na fua commua, e mais 
propria confiftencia ( o que proce- 
de de conter em fi muita humida- 
de aquofa , e fuperflua ) para o me- 
lhorar , e reduzir a confiftencia me- 
lhor; deita fe-lhe fal decrepitado ; 
e mifturado tudo , deixa-fe defcan- 

çar 


23 Problema 


car a maça do azeite, e fal; efte 
entaô attrahe a humidade fuperflua 
do azeite, ficando o mefmo azeite 
mais groflo , e mais proprio para os 
feus uzos. 

O fal porém naquella conjun- 
çaô naô attrahe a fi oazeite; por- 
que a propenfaõ attraétiva, que o 
fal tem, he fó a reípeito da agoa, 
ou humidade aquofa , mas naô pa- 
ta attrahir humidade oleofa algu- 
ma. Daqui tambem procede , que 
quando o azeite eftá coinquinado 
com particulas falinas , e terreftres 
que o fazem impuro , e menos cla- 
ro, o remedio he deitar-lhe agoa 
quente ; efta diflolve o fal, e o con- 
ferva diffoluto fobre o azeite, e por 
“aquelle modo fe fepara inteiramen- 
te o fal; entaô as partes terreítres, 
feparadas tambem do fal, precipi- 
taô-fe ao fundo da vafilha , ficando 

o azet- 


De Archirectura Civil. 223 


o azeite livre tanto de hum agore- 
gado impuro , como de outro Ítper- 
fluo. 

He verdade que o azeite fó 
por fi he incapaz de diflolver o fal, 
mas efte he o que fe diflolve na hu- 
midade fuperflua do azeite, e com 
elle fe miftura de algum modo, e 
como fuperficialmente ; mas quan- 
do fobrevém maior quantidade de 
agoa exterior, eta juntando-fe com 
a que.o azeite tem demais, entaô 
fe feparaô ambas facilmente. Tudo 
vem da propenfaô invencivel que 
o fal tem para attrahir a agoa.; cu- 
3a propenfaô fe naô tira ao fal fem o 
deftruir inteiramente, como fica di- 
ta; ede tal forte, que o fogo, que 
deftroe tudo , e que tem força pa- 
ra mudar a natureza de muitos cor- 
pos , naô a tem para tirar ao fal 
aquella mefma propenfaõ , antes lha 

aug- 


224 Problema 


augmenta em grao fuperior ; daqui 
procede que hum fal, de qualquer 
genero que feja , que fegundo a 
fua indole natural attrahia a agoa 
fracamente , e de vagar , depois 
que pafla pelo fogo , e fe funde 
nelle, fica adquirindo mais aétivi- 
dade para attrahir a agoa, e mais 
promptamente. 
No mefmo fal commum te- 

mos hum exemplo.. Efte fal attrahe 
a humidade, e fe derrete nella, co- 
mo todos fabem, mas naô he ra- 
pidamente, e com tanta velocida- 
de, que naô neceflite de algum con+ 
fideraravel intervallo. Porém fe de- 
crepitarmos o fal commum , ou o 
fundirmos ao fogo , entaô veremos 
a brevidade com que attrahe a hu- 
midade aerea, e com que cahe em 
deliquio totalmente. Em qualquer 
fal alchalino fixo fe obferva o mef- 
mo. 


De Architeélura Civil. às 


mo. Ponhamos por exemplo o fal 
das cinzas; eftas lixiviadas, e por 
efte meio extrahido dellas aquelle 
fal, fim humedece como todos os 
outros ; mas fe o fizermos paflar fe- 
gunda vez pela acçaoô do fogo, en- 
taô veremos que attrahe a humida- 
de muito velozmente, e á maneira 
de huma efponja que fe embebe na 
agoa. ã 
O nitro tambem attrahe a hu- 
midade, porém muito lentamente , 
e confervando fempre huma tal, 
ou qual confiftencia dura ; mas fe 
o fundirmos ao fogo alchalizando-o 
por efle modo , veremos que o ni- 
tro, mudando o feu primeiro genio, 
attrahe a humidade brevemente, e 
com ella corre deliquado. Alim fe 
moftra que nem o fogo, que aliás def- 
troe , e muda as propriedades effen- 
ciaes dos mixtos , póde mudar , nem 
Pp deftruir 


226 Problema 


deftruir a aptidad que nos faes fe 
encontra para attrahirem a humida- 
de, e fe incorporarem nella. 











CAPITULO XII. 


O: corpos regularmente faôd 


mais , ou menos Íolidos , á pro- 
porçaô que contém mais, ou me- 
nos humidade ; porque efta intro- 
mettida nos interíticios porofos , im- 
pede a exacta conjuncçaô ; por iflo 
vemos, que os corpos mais Íolidos, 
que ha faô aquelles de que fe naô 
póde extrahir humidade alguma. 
Do mefmo principio refulta o ma- 
ior, ou menos pezo. De nenhum 
dos metaes fe póde tirar humida- 
de alguma vifivel , e verdadeira- 
mente tal; daqui vem ferem os cor- 
pos 


De Architetura Civil. 217 


pos mais pezados que conhecemos. 

O ferro depois de fundido pa- 
rece que fica abfolutamente izen- 
to de humidade , naô obltante fer 
compofto de terreftreidades fulphu- 
reas; porém eftas, Íuppolíto tenhad 
propenfaô para attrahirem a humi- 
dade por caufa do acido vitríolico, 
que contém , efte , depois que o fo- 
go de fundiçaô o expelle , parece 
que fica a parte metallica continua- 
da toda, e que adquire a folidez, 
e compacçaô que he propria do 
metal. 

Com tudo naô he aílim como 
parece; porque o ferro , por mais 
vezes que fe funda, nunca póde fi- 
car fem a parte fulphurea vitríolicas 
e efta he a que attrahe a humidade 
a fi, de que vem a ferrugem de que 
o ferro fe revefte fempre na fuper- 


ficie que fica expofta ao ar; e por 
Pi io 


228 Problema 


lo fe cobre o ferro , para que a 
humidade o naô penetre tanto, ou 
tambem fe lhe applicaô materias 
oleofas , as quaes tambem fervem 
de defeza , para que a humidade 
do ar naô chegue a fazer tanta im- 
preflao. 

Os metaes depois de excan- 
decidos ao fogo, ficad mais mallea- 
veis; e obedecem melhor á força 
do martello, do que eftando frios. 
Ifto procede naô fó porque ocalor 
difpoem os metaes para a fufaô, e 
os faz mais brandos , paflando o 
fogo rapidiflimamente pelos feus pó- 
ros ; mas tambem porque expelle 
exactamente o ar que nelles fe con- 
tinha, e expellido o ar, fica expel- 
lida a humidade toda, em quanto 
o calor dura. E com effeito em quan- 
to a humidade fubfite, tem o metal 
difpofiçaô para quebrar , e naô pa- 

ra 


De Architeilura Civil. 229 


ra fe eftender ; nem as partes do 
metal fe juntaô, em quanto a hu- 
midade fe naô retira totalmente ; 
porque tem as mefmas partes como 
feparadas entre fi, e com obítaculo 
para fe unirem. ; 

Ha porém algumas humidades 
tenaciílimas que refiftem pertinaz- 
mente ao fogo ; por iflo os corpos; 
que as contém, faô frageis fempre , 
nem podem fer malleaveis por mo- 
do , nem artifício algum. O vitrio- 
lo he hum daqueles corpos , o qual 
fendo agitado na retorta por hum 
fogo activo; e longo, nunca che- 
ga a ceder , nem a largar toda a hu- 
midade, ou licor corrofivo que em 
fi tem; e fe a operaçaô períilte 5 
fahe'o oleo congelado , e criftalli- 
no, mas nunca inteiramente. Do 
azougue naô fe póde feparar a hu- 
midade que vifivelmente moftra, e 

Pai que 


230 Problema 


que o faz mobil, e corrente ; por 
cuja razaô fe dife que o azougue 
era huma agoa fecca que naô hu- 
medece: qua manus non madefa- 
crens. 

Se fe differ que todo o corpo 
vitrificado he fragil, naô conten- 
do alias humidade alguma , ref- 
ponder-fe-ha que aflim' como ha 
hum ar fubuil, e incoercivel, e ou- 
tro coercivel , e elaftico , tambem 
ha humidade groffeira, corporiza- 
vel, evifivel. Além de que o vidro 
naô he fragil por conter algum ge- 
nero de humidade , mas ( fegundo 
fe entende) porque a materia da 
fua compofiçao naô he de huma na- 
tureza Íó; ea diverfidade de fub”- 
tancias, que entraô na compofiçaô 
de hum mixto (ou a compofiçaõ 
feja natural , ou artificial) he de 
donde provém a fragilidade era 

s 


De Architeélura Civil. 231 


Os dous metaes perfeitos fad 
fummamente malleaveis, por ferem 
compoítos de huma Íó , e unica 
fubftancia ; porque a analyfe nad 
tem achado nelles diverfidade algu= 
ma de materia, e nelles procede a 
regra: Ductilitas ex bommogenei- 
tate partium, frangibilivas ex bete- 
rogoneitate. Iíto he fe ha no mun= 
do verdadeira hommogeneidade, 
Sempre he certo , que os corpos 
terreos em fi contém humidade 
aétual, ou potencial; e neíta hypo- 
thefis naô podem coalefcer, nem in- 
durar-fe fortemente; porque ainda 
nos corpos Íolidos a humidade fó 
deve intervir na primordial miftura 
da compofiçad ; ie depois, pará que 
os feus ingredientes fe confolidem, 
ou petrifiquem , he precifo que a 
“humidade coníponente fe afaíte in- 
teiramente , e ifto á proporçaô da 

Iv con- 


232 Problema 


confiftencia , ou induraçaô que de- 
ve fer propria no compoito. 

Porém fe algum daquelles in- 
gredientes tem propençaô innata 
para humeder , já mais póde con- 
feguir-fe delles concrefaô alguma 
lapidofa ; porque a humidade ac- 
tual, e perhiftente , Íó ferve para 
amollecer os corpos, naô para os 
endurecer; ferve para os fazer di- 
vifiveis facilmente, naô para os fa- 
zer com dificuldade feparaveis. 





O 


CAPITULO XIV 


O: corpos, por mais Íolidos que 
fejaô, e ainda que na fua pri- 
meira formatura Ífejaô hommoge- 
neos (ao noílo ver ) todos faô di- 
vifiveis por alguma humidade pro- 


pria, 


De Architetura Civil. 233 


pria, e tirada de outro algum cor- 
po reduzido a hum eftado fluido : 
e he para admirar que para cada 
corpo haja hum licor, a que cha- 
mamos proprio, que o divide , refi- 
fiftindo , ou naô cedendo a outro 
algum licor. O ouro he o corpo 
mais compacto , e hommogeneo de 
todos quantos produz a natureza , e 
de todos quantos póde fabricar a 
arte; compofto de partes fimilares, 
cuja aggregaçaõ faz o corpo do me- 
tal, naô o compofto; porque com- 
pofto verdadeiramente fó he aquil- 
lo, em cuja formaçaõ fe diftinguem, 
ou podem diftinguir-fe partes con- 
junétivas, mas entre fi diverfas, e 
de diverfa natureza. 

Por iflo os que efcreverad, e 
differad que o ouro fe formava de 
enxofre, mercurio , e fal, parece 
que naô acertaraô , ou naô quize- 

raõ 


134 Problema 


raô que os outros acertaflem: por- 
que, confideradas as imperfeiçoens 
repugnarites entre fi daquelles tres 
princípios , nunca poderemos en- 
tender que delles refulte o mais 
perfeito dos metaes. O ouro pois 
refifte a todos os licores corrofivos, 
ou eftes fejad acidos , ou alchali- 
nos, como fica apontado aflima ; e 
fó cede ao acido do fal commum. 
À agoa forte deixa o ouro intaéto, 
e nefte naô tem acçaô alguma, por 
mais que feja efficazmente forte, e 
concentrada : porém fe á agoa for- 
te fe junta huma certa porçaô de 
fal commum, ou feja em fubftan- 
cia, ou em efpirito, fica fendo o 
que os artiftas experientes chamaô 
aqua regia, que he o proprio , e na- 
tural diffolvente daquelle regio me- 
tal. Só por aquella fimples addi- 
gaô perdeo a agoa forte a proprier 

dade 


De Architeélura Civil. 235 


dade fingular que tinha para diffol- 
ver a prata, e adquirio a que nad 
tinha para diffolver o ouro. 

Os outros metaes diflolvem-fe 
igualmente em efpiritos mais, ou 
menos corrofivos ; porque alguns 
refiftem aos acidos vigorofos e 
cedem aos que faô mais brandos ; 
aflim como tambem alguns cedem 
promptamente aos fortes, e refif- 
tem aos que faô menos aétivos. Po- 
rém depois de diflolvidos em qual 
quer diffolvente liquido , naô po- 
dem reduzir-fe a corpo folido me- 
tallico , nem tomar fuzaô perfeita, 
fe naô depois de eftar inteiramente 
expulfa a humidade do liquido que 
os continha: a mais leviflima por- 
çaô do mefmo liquido diflolvente 
impede a corporizaçaô , e reduc- 
çaô de tados os metaes; porque, 
como temos dito tantas vezes, a 

humi- 


236 Problema 


humidade pghlegmatica , e fuperfi- 
cial, ferve de obítaculo invencivel 
para que os corpos tomem confif- 
tencia exaétamente dura, e perma- 
nente ; e á proporçaô da mais, ou 
menos humidade , que contém , faô 
mais, ou menos Íolidos , e tem 
mais, ou menos confiftencia. 

De forte, que a humidade fó 
deve fervir de liga para unir os ex- 
tremos, ifto he, para unir os cor- 
pos que devem fazer hum corpo 
fó , ou hum fó compoíto. Porém 
depois de feita a uniaô propofta , 
ou pelo artifice, ou pela natureza, 
deve apartar-fe a humidade toda , 
fem deixar refto, nem veítígio al- 
gum de que ainda exifte alguma 
parte della no compofto. 

He porém bem certo, que fe 
de qualquer mixto terreo, vegetal, 
mineral, ou animal, lhe apartar- 

mos 


De Árcbiteelura Civil. 237 


mos a humidade totalmente , diflo 
meímo ha de refultar, ficar o mix- 
to reduzido em: pó : iíto fe oblerva 
ainda nos metaes inferiores ; por- 
que, poíto o chumbo, ou o efta- 
nho em qualquer valo ao fogo , fe 
eíte for diuturno , e o que bafte 
para fundir aquelles dous metaes , 
entraô a fumarem, ou lançarem de 
fi huma humidade volatil de natu- 
reza mercurial, que fe diflipa ; e 
o que fica depois he hum pó fub- 
til, feparado em todas as Íuas par- 
tes, e fem a mais pequena uniad 
entre ellas. Ifto meímo acontece 
na manufaétura da cal; em que fe 
vê que primeiro, que a pedra fe 
ponha em eftado de poder pulveri- 
zar-fe, o fogo aparta della a humi- 
dade, ou parte liquifiavel, a qual 
fe precipita ao fundo da fornalha, 
ou forno em que fe coze a pedra , 

cuja 


238 Problema 


cuja humidade junta com as partes 
terreas , falinas, alchalinas da lenha 
Já queimada, faz huma certa ma- 
ça a que os operarios chamaô ef. 
coira, ou efcoria. 

O memo fuccede aos veges 
taes: neítes , depois que a parte in- 
flammavel fe diflipa em chama, e 
depois de exhalada a humidade to- 
da, fica o vegetal de tal forte dif 
Junéto em todo o feu compofto , 
que o que defte permanece he a 
cinza que vemos commumente: a 
meíma alteraçaô fuccede , e tem lu- 
gar nos animaes. Os oflos, que fa- 
zem a parte mais Íolida, e compa- 
éta, fe o fogo fepara delles a humi- 
dade , ficaô naô fó fummamente 
frageis, e fem dureza, mas redu- 
Zidos a verdadeira cinza : o meímo 
fuccede ás partes folidas dos pei« 
xes, ea todo o genero de conchas, 

a que 


De Archisetlura Civil. 239 


a que os Latinos chamaõ offraco- 
dermata. 

Para darmos foluçaô a todas 
aquellas duvidas, que parecem de 
algum modo encontrar o que afli- 
ma temos amplamente deduzido , 
he neceflario faber , que ha dous 
generos de humidade ; huma fim- 
plefmente phlegmatica , que deve 
defamparar o compofto depois de 
haver fervido para o formar ; e deve 
feparar-fe exactamente para ter lu- 
gar a coalefcencia , e adhefad in- 
tima das partes entre fi: outra hu- 
midade que he unétuola, e ellen- 
cial, e como primogenita em cada 
hum dos corpos naturaes; efta fe 
fepara com violencia, ou por for» 
ça de qualquer agente forte, fica 
o corpo disjunto , e perdendo a 
uniaô das mefmas partes , de que 
provém a cinza. Eftas duas humi- 


dades 


240 Problema 


dades diferem tanto na razaô dos 
feus principios, que (empre confer- 
vaô propenfaô para fe adverfarem, 
e como fugirem huma da. outra , 
pelas fuas diverías naturezas , e fes 
gundo as fuas primeiras, e diftina 
étivas compofiçoens elementares. 
Aquella humidade unétuola 
he o meímo, a que os Philofophos 
antigos chamaraô humido radical 
inato, para a diftinguirem da ou- 
tra que entra como materialmente 
na organizaçaô dos mixtos; e en« 
tra com effeito mais como vehiculo 
ferviente, do que como parte ef- 
fencial; como inftrumento , e nad 
comoartifice. Da mefma humidade 
unétuofa , ou humido radical, fe 
dife: Ef? in aere ocenltus vita ci- 
dus» cujus fpíritas invifibilis com- 
gelatus melior ef? quam terra uni- 
verfa, 
E 


De Architeblura Civil. sat 


E de facto o alimento da vida 
naô confifte fó na humidade phle- 
gmatica que vemos; mas na humi- 
dade unétuofa , que naô vemos : ef- 
ta he inflammavel em certas circunf- 
tancias, etherea, lucidiflima; naô 
admitte compreflao na machina 
pneumatica ; nenhum corpo refifte 
“á fua acçaô, e circulaçaô; penetrá 
todos os corpos petrificados , vi- 
trificados, ou metallizados , e he 
comparavel á materia de que fe 
fórma o raio; e he talvez o efpi- 
rito que na creaçaô do mundo fe- 
rebatur fuper aquas , ou incubabar 
aquis , fegundo a verfad Grega. 

Oar, e a agoa faô os dous 
lugares, ou matrizes proprias em 
que aquella humidade , ou humido 
radical refide mais copiofamente ; 
por iflo naô fe póde viver fem 
agoa, nem tambem fem ar. Em 


Q cada 


242 Problema 


cada porçaô exigua deítes elemen- 
tos eftá huma porçaô indetermi- 
navel daquella humidade etherea. 
Ifto fe moftra por varios experimen- 
tos conhecidos. Supponhamos hum 
animal qualquer, pofto em parte 
eftreita, e em fórma tal que o ar 
exterior naô pofla ter communica- 
çaô alguma dentro; o animal in- 
clufo ha de viver algum efpaço ; 
mas depois que tiver como exhauri- 
do por meio da infpiraçaô aquelle 
alimento, ou humido vital, que o 
lugar contnhis ha de morrer in- 
fallivelmente. 

O mefmo fuccede, e mais 
promptamente na machina pneu- 
matica ; porque nefta , além de 
naô ter ingreflo o ar exterior, tam- 
bem fe lhe extrahe aquelle que ti- 
nha dentro; por iílo morre o ani- 
mal por tres principios: O primeiro 

por- 


De Arcbiteltura Civil. 243 


porque lhe falta o humido vital, ou 
o alimento que o ar continha no 
concavo do valo: o fegundo por- 
que o meímo humido , que o animal 
tinha dentro em fi, tambem fe lhe 
extrahe , por meio da efpanfibili- 
dade, ou dilataçaô que o ar rece- 
be na operaçad da machina; de 
que refulta o entrar o animal a fuar 
extraordinariamente , e morrer em 
convulfaõ : o terceiro, porque fi- 
cando o ar do concavo fem o pezo 
proporcionado, naô fe póde o co- 
raçaô contrahir, nem dilatar, ea 
circulaçaô do fangue fe fufpende 
á maneira de hum rologio , em que, 
tirados os pezos, pára o movimen- 
to do artefato. As fuffocaçoens 
externas , coftumaô proceder da 
mefma caufa. 
O mefmo fe obferva em qual- 
quer lugar fechado, em que ha fo- 
Qui go 


244 Problema 


go de carvad accefo: o animal que 
eftiver dentro, perde os fentidos , 
e cahe como eltuporado, e mor- 
refle promptamente fe naô dá en- 
trada, por onde o ar de fóra fe 
communique. Iíto Íuccede menos 
pela qualidade nociva , e acido ful- 
phureo do carvaô , como porque 
efte acefo atrahe a fi a humida- 
de unétuofa que o lugar contém, 
e o deixa exhauíto daquelle ali 
mento primeiro , e precifo para a 
vida. 

Por outros muitos experimen- 
tos fe conhece que ha duas humi- 
dades oppoltas entre fi, e contra- 
rias nas fuas qualidades primiti- 
vas; huma puramente phlegma- 
tica Zgnem extinguens ; outra un- 
étuola , igmem promovens. Eltas 
duas humidades fe obfervaõ na agoa 
do mar: eíte he talvez o abyímo 

origi- 


De Architelura Civil, 245 


original, e univerfal de donde pro- 
manaô todas quantas humidades há 
no mundo ; porque, por mais que a 
agoa do mar nos pareça hum cor- 
po fimples, he porém compofto de 
muitos corpos unidos, e allociados 
entre fi; e fem fallar no fal, que a 
mefma agoa tem deíde a Ífua pri- 
meira creaçaô (fe he que logo te- 
ve fal no inftante da fua creaçaô ) 
encerra tambem aquellas duas hu- 
midades oppoítas, e nunca perfei- 
tamente feparaveis. 

A materia luminofa , ou phof- 
phor natural, que as agoas do mar 
moftraô ao ferir dos remos, e ain- 
da com o movimento das mefmas 
agoas agitadas, tem fido eftuda- 
da pouco; tanto he certo, que as 
coufas que eítamos vendo , por 
mais fingularidades que contenhaô, 
naô excitaô a noíla indagaçaô : 


Q iii olha- 


246 Problema 


olhamos com defprezo para tudo 
quanto vemos; fempre a nofla cu- 
rolidade, e attençaô fó fe dirige 
para as couzas defufadas; tudo, o 
que he vulgar, parece-nos indigno 
da nofla reflexad; para fazermos 
pouco calo de alguma couza baf- 
ta que nos pareça facil ou de co- 
nhecer, ou de alcançar; he necef- 
fario que a concideremos em fi- 
gura difficultofa ; fó entaô fe ani- 
ma o noflo empenho, a noíla cu- 

riofidade, o noflo eftudo. 
Segue-fe pois ( e he a con- 
clufaô do que fica expoíto ) que 
para hum corpo fer folido, e per- 
manente, neceflita a expulfao to- 
tal da humidade phlegmatica que 
entrou na fua compofiçao (ou efta 
feja natural, ou artificial) e que a 
humidade unétuofa póde , e deve 
fubfiftir fem caufar imperfeiçaô 
na 


De Architeciura Crvil. 247 


na obra, antes he neceffaria para 
a perfeiçaô della ; ifto fe enterde 
a refpeito das compofiçoens com- 
paétas, e que tem a pedra, outer- 
ra por bafe principal. E ah a pa- 
rede fabricada com cal pulveriza- 
da com agoa falgada , ou ainda 
falobra , nunca póde adquirir con- 
fiftencia competente para fer dura- 
vel; nunca ha de achar-fe nella 
aquella efpecie de petrificaçaô que 
deve refultar da uniaô perfeita 
entre os materiaes de que fe fór- 
ma a Íua conftrucçaõ. 

Diflemos que a agoa falobra 
era impropria tambem para com 
ella fe pulverizar a pedra da cal; 
e he certo ; porque a agoa falobra 
naô dire da agoa do mar , fe naô 
na quantidade do fal que tem; ou ef- 
te fal venha do mar immediatamen- 
te por conduétos fubterraneos : ou 

eja 


248 Problema 


feja extrahido da terra por onde as 
agoas paílaô ; a qualidade he com- 
mumente a melma, e naô differem 
mais do que na maior, ou menor 
porçaô. He fem duvida que o in- 
terior da terra he abundantifimo 
daquelle fal; e tanto, que alguns 
difleraô que as agoas do mar eraó 
falgadas , naô originariamente def- 
de a (ua creaçaô, mas pelo fal da 
terra que tinhaô diflolvido, e in- 
corporado a fi. 

As minas de falno Reino de 
Polonia, fazem prova incontefta- 
vel da immenfa quantidade de fal 
que a terra tem, etaô abundante- 
mente naquella parte, que parece 
inexhaurivel, e de qualidade tal, 
que he denominado com o termo 
de falgema, pela figura de pedra 
preciofa que fe obferva nelle, e 
fó differe do fal do mar na razaô 

de 


De Architeélura Civil. 249 


de fer mais puro, maiscriftallino , 
e mais compaêto ; em tudo o mais 
tem os meímos dotes fem differen- 
ça alguma; porque com effeito 
delle fe extrahe o efpirito acido 
que he o diflolvente proprio do ou- 
ro, e que precipita a prata diffol- 
vida na agoa forte; e além deítas 
duas propriedades, por onde o fal 
do mar fe diftingue de todos os 
outros faes, tem o falgema todas 
as mais circunítancias ou requifitos 
do fal commum , ainda que as poí- 
fue em grao Íuperior. 

As agoas falobras, ou fejaô 
de fontes, ou de poços, ou de 
outros quaeíquer lugares em que fe 
achaô, faô da mefma qualidade, 
e com ellas fe fazem os memos 
experimentos que fe pódem fazer 
com o fal do mar; exceptuando 
algumas agoas mineraes , age 

or 


aço Problema 


bor eftiptico propende mais para 
alumino(o , vitriolico, e metallico, 
que para falino. Outras agoas ha 
que faó naturalmente faponaceas , 
e alchalinas, e todas juftamente re- 
provadas na arte de edificar, e if- 
to naô Íó pelos fundamentos ex- 
pendidos já, mas tambem pela re- 
gra geral, e limitaçaô de que fó 
a agoa pura, e fimples he capaz 
de unirfe intimamente com a cal, 
e formar com ella hum corpo fo- 
lido, e duravel. 


Fim da primeira Parte. 


PROBLEMA 
DE 
ARCHITECTURA 


GIVYIL 
PARTE H. 





Co a Corps ste 
manera eme trema, 


CAPITULO LI 


Emos difcorrido fobre os 

dous materiaes precifos pa- 

ra a conítrucçaô dos muros : 

da pedra diflemos que devia fer a 
que fole rija, bem continuada, 
e compacta em todas as fuas par- 
tes; fem ter veas de materia bran- 
da, e naô petrificada ainda : da 
cal tambem diílemos que devia fer 
a que foífe fabricada com pedra de 
qualidades femelhantes; com tanto 
Part. II. A que 


p) Problema 


que feja calcinavel; porque , como 
todos fabem, nem de toda a pe- 
dra fe póde fazer cal, vifto que 
algumas ha que totalmente fad im-= 
proprias para aquelle minifterio , 
e que refitem conftantemente ao 
fogo mais violento, de que reful- 
ta o naô poderem fer calcinadas 
por artifício algum. E fobre tudo 
moitrámos que as pedras, depois 
de calcinadas, naô devem fer pul- 
verizadas ao ar, mas fim pela fim- 
ples aíperfaô da agoa, com tanto, 
que efta naô Íeja falgada, nem fa- 
lobra, nem que contenha a mais 
leve porçaô de qualquer genero de 
fal; porque efta circunftancia, que 
parece de pouca confequencia , he 
eflencial todas as vezes que for 
queítaô de edificarfe em fórma, 
que o edificio fique perduravel; 
e que como tal pofla refiftir mais 


algum 


De Architeélura Civil. 3 


algum tanto ao movimento da ter- 
ra quando treme. Ifto fe entende 
de huma refiftencia momentanea 
oppoíta a hum movimento tambem 
momentaneo ; porque contra o que 
durar hum certo numero de minu- 
tos, e que além diflo for rapidif- 
fimo, e forte, ou feja na ondula- 
çaô, ou feja na pulfaçaô da terra, 
muito poucas couzas, e talvez ne- 
nhuma póde refiftir naquelle cafo. 
Os mefmos montes, e penhafcos 
folidilimos , cujos fundamentos 
vem do centro, muitas vezes cor- 
rem, mudaô-fe, abrem-fe, deí- 
penhaô-fe, ou fe fubmergem. 

He porém verdade que nos 
edificios, os que forem fabricados 
com mais regularidade, e arte, 
haô de fer os que cedaô em ulti- 
mo lugar, fazendo a ultima parte 
da ruina, naô a primeira; ceden- 

Au do 


4 Problema 


do ao impulfo grave, e extraordi- 
nario, naô ao que for fupportavel, 
e mediocre ; e ilto depois de refif- 
tir, naô fem refiftencia; feme- 
lhante ao combatente, que fe ren- 
de à força fuperior, naô à commua , 
depois de fazer a oppofiçaô pofli- 
vel, naô antes; quando o eftrago 
he inevitavel, e naô em quanto o 
póde evitar humanamente; por- 
que entaô naô fe póde precaver 
huma ruina que parece forçoza, e 
neceflaria ; como difle o enthufi- 
afmo de Lucano. 

Pracipites aderunt cafus: properana 

te ruina 
Summa cadunt. 
ht nunc femirutis pendent quod ma- 


nia teélis 
Urbibus Italie , lapfisque ingentia 
muris 


Saxa jacent, mulloque domus cujto- 
de tenentur. He 


De Árcbiteklilia Crvil. x 


“He certo pois, que os edificios re- 
“fiftem mais, ou menos, fegundo a 
fortaleza regular com que foraô fa- 
bricados; porém efle pouco mais, 
que podem refiftir, he de confe- 
quencia grande. No cafo dos ter- 
remotos , quantos perdem a vida 
por hum minuto de menos ; quan- 
tos morrem porque naô tiverad hum 
imíitante de mais * Sendo o tempo 
«preciofo , quanto naô ferá aquelle, 
«le que depende a morte de muitos; 
ou a vida ! Os antigos illuftravad 
com eftatuas as acçoens famofas 
que tinhaô produzido a conferva- 
çaô de algum cidadad Romano , 
andicando a infcripçad Ob ferva- 
tum civem ; fendo que aquella mef- 
ma famofiflima naçaô no defpre- 
go da vida fundou o feu bellico, 
ou pacifico heroifmo. 
Nós por principio bem diver- 
Part. II A ui fo» 


6 Problema 


fo , devemos evitar toda a morte 
accidental , e precipitofa; porque 
para nós, ainda depois da morte, 
he queítaô da vida, e de viver em 
gloria , ou de viver em pena. E 
com effeito a verdadeira vida nad 
tem fim; porque no mefmo ponto, 
em que acaba a temporal, come- 
ça a que ha de fer eterna, ea que 
ha de durar eternamente , ou em 
dor ; ou em felicidade, Que terri- 
vel argumento he o que tem por ob- 
Je£to hum daquelles dous modos de 
viver! Nem fortuna, nem a defgra- 
ça decidem a nofla forte; nós mef- 
mos havemos de mover a machina 
de que depende o noflo bem, ou o 
noflo mal: e como fem tempo nada 
fe move, que cuidado naô devemos 
pôr para termos algum breve ef 
paço quando houvermos de acabar 
temporalmente? eífe efpaço nos pro- 

mette 


De Architeélura Civil. 


imette o edifício bem fundado ; po- 
rém mais, que tudo, a fabia, e 
mifericordiofa providencia. 











DP 


CAPITULO II. 


Arêa he o terceiro , e indif- 
penfavel ingrediente de que 

fe fórma o compofto da parede ; 
e por iflo he precifo conhecer aquel- 
la materia commumente conheci- 
da , mas naô conhecida, ou bem 
entendida cômumente. Muitos qui- 
zeraô fuftentar o paradoxo de que 
a arêa naô era outra coufa mais do 
que huma terra como outra qual- 
quer , fó diftinéta na figura , mas in- 
diftinéta nos effeitos. Porém, como 
nas verdadades phyficas fó fe-eftá 
por aquillo que phyficamente fe de- 
A iv monf- 


g Problema 


moftra , nunca fe poderá dizer com 
prova certa que a arêa feja terra 
fó diftinéta na figura ; porque tam- 
bem o he em todos os feus effei- 
tos; e ifto fe deduz de varios ex- 
perimentos ; de que alguns faô os 
feguintes. 

A arêa fó por fi fe vitrifica , 
fem neceffitar da conjuncçaõ de ou- 
tro corpo algum vitrificavel; e de-. 
pois de vitrificada, fica fundida per-. 
ferramente ; e nefte eftado recebe 
a fórma , ou configuraçad que o 
artifice lhe quer dar , fegundo o 
ufo, para que o vidro he deftina- 
do, O mefmo vidro fica impenetra- 
vel á agoa, e ainda a todos os li- 
cores corrofivos ; naô fermenta com 
os acidos , nem com os alchalinos ; 
além difto faz hum corpo umdo 
entre todas as Íuas partes, e dia- 
phano quando a aréa he pura, e 

clara ; 


De Architechira Civil. 9 


clara; e em hum certo grao de ca- 
Jor, he malleavel ad inftar metalis. 
À terra tem qualidades con-. 
trarias a aquellas todas ; porque fem 
a conjuncçaô de algum fal alchalino 
fixo , naô fe vitrifica, nem fe fun- 
de, efica fempre defunida , e dif- 
gregada feparadamente em cada 
huma das fuas partes, fem admit- 
tir cohefaô entre ellas , por mais 
Roe o fogo feja forte , e diuturno. 
e penetravel á agoa , ea todos os 
licores, e fermenta com osacidos, 
fazendo as vezes de qualquer al- 
chalica materia; e quando da ter- 
ra fe fazem alguns vafos para cer- 
tos minifterios, fempre vai aflocia- 
da com alguma porçaô de arêa , de 
que recebe alguma tal, ou qual fir- 
meza , fem poder adquirir nunca 
tranfparencia , ou diaphaneidade ; 
antes impede totalmente a ds 
aõ 


ro Problema 


çaô da luz; e quando he vifta pe 
lo microícopio , moftra fer hum 
corpo irregular , e fem affettaçaõ 
para eta , ou aquella fórma ; em 
lugar, que a arêa, fendo obfervada 
por aqueile inftrumento , moftra fer 
hum corpo criftallino , e que affe- 
éta huma fórma, ou figura de an- 
gulos certos, e determinados, co- 
mo , alémde ouros, notou o infignif- 
fimo Boerrhave. : 

Que a arêa primeiro fo ffe ter- 
ta, e que deíta procedeíle origina- 
riamente como todas as coufas fu- 
blunares , /is adbuc ef? fub judice; 
porque de faéto naô tem fido de- 
monftrado que todas quantas coufas 
ha no globo, que habitamos, te- 
nhaô a terra por origem, ainda que 
na terra recebaô a Íua formaçaô, 
por alguma natural elaboraçaõ ; fer- 
vindo a terra de lugar Feninento 

na 


De Architelura Civil. II 


naô de contento; ou como de vas 
fo em que a coufa fe compoem, 
naô de materia componente ; de 
receptaculo em que a meíma cou- 
fa fe fabrica, naô de corpo fabri- 
cante, 

E com effeito ha muitos cor- 
pos em que por modo algum fe pó« 
de demolftrar que a terra preexife 
tiffe, ou entrafle na fua original, 
e primeira formaçaô. De todos os 
animaes, e dos vegetaes todos , fa- 
cilmente fe extrahe huma terra pura, 
e verdadeira , de que fe póde inferir 
(com probabilidade , naô com certes 
za ) que a terra entrou em qualquer 
daquellas compofiçoens ; porém na 
maior parte dos mineraes he difficul. 
tofa empreza o moltrar que a ter- 
ra foffe hum dos feus princípios. 

Nem do ouro , nem da prata, 
nem do azougue fe póde extrahir 

por 


12 Problema 


por experimento algum, que feja 
conhecido , a mais pequena porçaó 
de terra ; e ainda que o azougue 
por fi fó, pela acçaô da concuflaõ, 
ou movimento, fe pofla reduzir a 
hum pó minutiflimo , como relata 
o meímo doutilimo Boerrhave , 
com tudo aquelle pó naô he ter. 
ra certamente, mas o mefmo me- 
tal fummamente dividido, e fubti- 
lizado , como Ífuccede tambem ao 
chumbo , e ao eftanho por meio de 
hum fogo lento. Eftes metaes po- 
rém tornaô a tomar a fua primei- 
ra, e antiga fórma, com todas as 
fuas naturaes propriedades , fó pe- 
la fimples addiçaô de qualquer ma- 
teria inflammavel, febacea, ou oleo- 
fa, da qual recebem a parte phlo- 
giftica que o fogo tinha diflipado ; 
de que fe infere que naô era ter- 
ra o pó fubtil a que aquelles me- 
: taes 


1 


De Architeélura Civil. 13 


taes eltavad reduzidos , vilto fica- 
rem fempre reduétiveis ao primeiro 
eftado de metal. 

Bem he verdade que ha va- 
rias compofiçoens , cujos ingredi- 
entes fe naô podem depois moitrar 
feparados , e diftinétos huns dos ou- 
tros, ainda que à priori feja certo, 
e fe faiba que entraraô com efeito 
neita, ou naquella compofiçaõ ; co- 
mo fe obferva em qualquer terra 
depois de bem vitrificada por meio 
de algum fal alchalino fixo. Porém 
neíte cafo naô he impoflivel o fe- 
parar-fe , e haver a terra depois de 
vitrificada, defunindo-a do fal al- 
chalino que a tinha como diflolu- 
ta, e incorporada em fi , de que 
refultou a vitrificaçaô , cuja def- 
uniaô fe vem a confeguir , ainda 
que naô por methodo vulgar. 

Mais dificil parece a defuniad 

de 


I4 Problema 


de varios , e differentes licores en- 
tre fi, mifturados confufamente em 
hum fó valo; porém feparaô-fe exa- 
étamente , cuja feparaçaô procede 
por razaô do pezo efpecifico de ca- 
da hum, e fegundo o grao de vo- 
latilidade que he proprio a todos 
os licores. Supponhamos hum licor 
compoito v. g. de agoa commua, de 
efpirito de vinho, de oleo de vitrio- 
lo, de efpirito de nitro, e do efpi- 
rito do fal do mar. Todos eftes li- 
cores mifturados , e em porçoens 
arbitrarias, feparaô-fe diftinétamen- 
te por meio de huma fó , e fimples 
deftillaçaô ; porque póítos na res 
torta, e adminiftrado o calor con- 
veniente , o primeiro licor que fahe 
he o efpirito do vinho; o qual fe 
conhece pela nota diftinétiva de fer 
hum licor diaphano , e inflamma- 
vel; de forte, que em quanto fahir 

pela 


De Archstectura Civil. Is 


pela boca da retorta hum licor cla- 
ro , e traníparente, e que chega- 
do ao fogo fe accenda em cham- 
ma, he efpirito de vinho infallivel- 
mente. 

Depois fegue-fe logo a agoa 
commua , a qual fe conhece tam- 
bem, e com igual certeza, em fer 
hum liquido fem fabor algum. Em 
terceiro lugar fe fegue o efpirito do 
nitro , o qual igualmente, e com 
a mefma certeza Íe conhece pela 
circunftancia , e nota eflencial de 
entrar no recipiente em fórma de 
exhalaçaô rubioundiflima , cujo va- 
por, depois de condenfado em hum 
liquido diaphano , tem a proprie- 
dade de diflolver a prata, e outros 
metaes, deixando o ouro intacto ; 
de forte, que em quanto fahir hum 
liquido, que tenha aquela proprie- 
dade, podemos concluir infallivel- 

mente 


16 Problema 


mente que he efpirito do nitro. 
Em quarto lugar vem o ef. 
pirito do fal do mar, o qual fe 
conhece ao entrar do recipiente em 
fumo, ou vapor branco, a que 
os artiftas chamaô ordinariamente 
aquila alba , cuja denominaçaô 
convém a outras mais compofi- 
çoens. Conhece-fe aquelle licor 
pela nota efpecial de fer o verda- 
deiro diflolvente do ouro, e em 
que a prata fica indifloluvel. Ulti- 
mamente fica na retorta o oleo de 
vitriolo, o qual fenfivelmente fe 
conhece; porque ao primeiro con- 
taéto de qualquer agoa elementar 
entra logo em calor tal, que naô 
póde a maô fupportar o vafo que 
o contém. Aflim fe feparaô aquel- 
les licores confufos, e mifturados 
entre fi; e com tal regularidade, 
e precifão ; que nenhum fica con- 
tendo 


De Architeétura Civil. 17 


tendo porçaô alguma de qualquer 
dos outros ; confervando cada hum 
as qualidades naturaes que lhe faô 
proprias, e fem diminuiçaô , ou 
alteraçaô alguma. 

O mefmo fe verifica a reípei- 
to dos faes tomados em fubftancia ; 
porque depois de diflolvidos em 
qualquer agoa , fe efta chega a 
evaporarfe ao ponto, em que os 
faes fe criftallizem, o primeiro de 
todos, que de fato fe criftalliza, 
he o nitro, affeftando (empre hu- 
ma fórma piramidal: logo depois 
fe fegue o fal do mar, o qual fem- 
pre toma huma figura cubica; e 
da mefma forte todos os outros. 
faes, ou fejaô naturaes, ou compof- 
tos, que em fe criftallizando, af- 
feetad figuras fingulares , unifor- 
mes, e proprias á indole de cada 
hum delles. 


e dArEs LI B Os 


I8 Problema 


Os metaes tambem admittem 
femelhantes feparaçoens , ainda 
que nelles naô fe obfervad figuras 
regulares; e quando as tomaô, 
ou fe encontra nelles efla tal con- 
figuraçaô, provém dos licores corro- 
fivos em que fe achaô diflolutos , 
e principalmente dos faes de que 
os mefmos licores fe compoem. 
Saô porém aquellas feparaçoens 
menos vulgarizadas, porque com- 
mumente as efcondem os artiftas, 
fazendo dellas fegredos feus parti- 
culares, occultando os verdadeiros 
méthodos, e as verdadeiras ope- 
raçoens, para que vulgarmente fe 
naô faibaô, e fó elles as prati- 
quem; e alguns com ciume tal, 
que nunca querem revelar a ma- 
nipulaçaô de que depende o arti- 
ficio. Aflim fe acabou o conheci- 
mento de muitos artefactos utilifli- 

mos; 


De Archiseélura Civil. 19 


mos, de que faz mençaõ a Hiftoria, 
e de cuja exiftencia apenas nos fi- 
cou huma noticia hiftorica. 

E com effeito huma maça 
compoíta de todos os metaes, fe- 
mimetaes, e de alguns dos mine- 
raes com que muitas vezes fe 
achaô mifturados na mina donde a 
natureza os fórma, he de fepara- 
çaô difficil; e ainda quando fe fe- 
paraô, fempre fe perde huma gran- 
de parte daquelle metal que fe in- 
tenta confervar. O fogo adminifa 
trado fem regra, os materiaes ap- 
plicados fem tempo, e fem conhe- 
cimento das fuas propriedades aéti 
vas ou paílivas, e dos cazos em 
que fervem, ou naô fervem; o 
eftarem tapados ou defcobertos os 
vafos em que as operaçoens fe fa- 
zem; e outras muitas circunitan-s 
cias que devem, ou nad devem 

- B inter- 


20 Problema 


intervir no modo de operar, tudo 
contribue muitas vezes para que 
venha a perderfe aquillo mefmo 
que fe quer aproveitar. 

Aquella arte, a que chamaô fe- 
paratoria, tem uío pratico, e fum- 
mamente neceflario nos proprios 
Jugares em que os metaes, e mi- 
neraes fe criaô , que he donde con- 
vêm o feparallos diftinétamente, em 
outra qualquer parte he fómente 
curiofidade phyfica ; exceptuando 
o cafo dos incendios, em que fuc- 
cede confundiremfe os metaes em 
maça Íolida; e fem arte naô fe fe- 
paraô facilmente; e quem os quer 
feparar fem mais inteligencia que 
huma noticia fortuita, e fem co- 
nhecimento dos principios, preci- 
famente perde muito do que buf- 
ca; porque os metaes parece que 
zombaô de quem os quer tratar, ou 
domeíticar fem arte. Naô 


De Architeélura Civil. 21 


Naô he pois a aréa terra 
actualmente, nem efpecie alguma 
della: a duvida: fó póde fubfiftir 
em fe foi terra antes de fer arêa. 
A parte afirmativa feguem mui- 
tos; porém a opiniaô commua al- 
gumas vezes .fuccéde feria menos 
certa ; e nas materias praticas o 
numero de: votos naô conclue. 
Bem -he' verdade: que o entender 
de muitos leva comfigo huma au- 
thoridade authentica, com a qual 
Os poucos fe devem conformar ; 
porém. nas confas naturaes Íó a 
natureza:he meftre, e devemos fe- 
guir a fua voz, enunciada nos 
feus effeitos. 

"Tudo, oque concluímos fun- 
dados em experimentos certos, in- 
variaveis, e conftantes, tem cara- 
éter de verdade phyfica ; ao menos 
na parte vifivel, e effeftiva, ainda 

: Part. TI. Bi que 


22 Problema 


que o naô tenha na parte cauzal, 
e produétiva. De quantos, e innu- 
meraveis erros naô he Íufceptivel 
o raciocinio humano , quando dif- 
corremos fundados fó nas conje- 
Eturas ? Ainda naô fabemos (eu 
principalmente ) que ecouía ifejaô 
efpiritos animaes , de donde dizem 
procede-a força mufcular, o movi- 
mento voluntario, e involuntario ; 
a femfibilidade da dor ; a voluptuo+ 
fidade do gofta. | 
O que fabemos he que def: 
efperados de entender o verdadei- 
ro fentido daquelles termos, bufca- 
mos outros ainda mais efcuros, e 
ainda menos intelligiveis. Recor- 
remos a hum orgafmo, a hum 
archeo, a hum efpirito Íylveítre. 
Conhecemos, ou ouvimos eftas vo- 
zes ; mas naô conhecemos, nem 
vemos a fubftancia do que ellas fi- 
gnifi- 


De Architetturá Civil. 23 


gníficad. Vemos certos effeitos, mas 
naô. quem os caufa», nem como 
faô caufados. Melhor; feria. ignos 
rarmos as palavras, já que naô 
podemos faber o que-eilasdizem; 
porque ás vezes naignorancia ha 
mais faber, do que ha na (ciencia 
mefma: 

- À Phyfica, cuja verdade he in- 
fallivel, he aquella .que coníta da 
Sagrada: Hiftoria. Efta nos enfina 
que a origem material do:homem 
foi a terra ,:e defta "huma porçaô 
fubtil,:chamada limo eftando” hu- 
mida", "e chamada pó depois de fec- 
ca; humilde origem. na materia; 
fublime pelo. artifice que a com- 
poz; ruftica na fua primeira fór- 
ma ou creaçaô; inteligente depois 
de creada ; e formada fegunda 
vez; vilno feu principio em quan- 
to terra inerte; illuítre depois, em 

Biv quan- 


44 Problema 


quanto terra animada e racional, 
Que eftupenda diferença entre 
huma, e outra terra ! 

Naô fe podendo extrahir da 
arêa terra alguma verdadeira , naô 
podemos affirmar com probabilida- 
de juíta que a arêa fofle algum 
tempo terra, E por mais que naô 
poflamos perceber que haja corpo 
algum que naô tenha a terra por 
bafe principal; com tudo o con- 
trario fe moftra por muitos expe- 
rimentos. E com efeito , fe excep- 
tuarmos o ar puro, os outros ele- 
mentos todos tem fuas produc- 
çoens proprias, e producçoens cor- 
poreas. em que a terra naô podia 
fervir de bafe. 

O fogo, com fer hum puriílimo 
elemento, tambem fe corporiza , 
quando acha algum fugeito pro- 
prio), e adequado para nelle fe in- 

cluir 


De Architeclura Civil. 2 


clur, e ficar ageregado a elle, 
como hum corpo coadjunto a ou- 
tro. O mefmo fogo corporizado fe 
manifefta pela razaô do pezo em 
alguns corpos calcinados ; nos quaes 
naó intervindo outra coufa mais do 
que a acçaô do fogo, ficad mais 
pezados, e crefcem no pezo confi- 
deravelmente ; cujo augmento naô 
póde proceder fenaô daquelle agen- 
te, reduzido a materia corporal ; 
porque naô podemos ter idéa de 
algum pezo, fem a ter tambem do 
corpo de donde vem; e da mefma 
forte a naô podemos ter do corpo 
fem pezo correfpondente: faô dous 
correlativos, que prefuppoem a ex- 
Htencia de ambos, vifto que naô 
póde haver corpo fem pezo, nem 
pezo fem corpo. 
A .agoa tambem fe corporiza, 
e toma hum corpo Íolido ; tanto nos 
ani- 


26 Problema 


animaes, como nos mineraes , e ve- 
getaes : neftes facilmente fe demo- 
ftra a exiftencia da agoa, transfor- 
mada em-corpo folido. Vanhelmont 
cuido foi o primeiro que obfervou 
aquella verdadeira metamorphofe , 
pondo hum pequeno arbufto com 
as raizes na agoa , fem intervençaô 
de terra alguma , renovando fem- 
pre a agoa á proporçaô que dimi- 
nuiá ; de que refultou o ir crefcen- 
do o arbuíto tanto em figura , co- 
mo em muito: maior pezo; de que 
veio juftamente a concluir que da 
agoa unicamente procedia. tanto 
o corpo, como o pezo daquelle ve- 
getal, 
Contra aquelle experimento 
alguns difleraô que o augmento 
do pezo, e da figura, naô proce: 
dia da agoa, mas dos corpufcu- 
los terreftres que a agoa tem em fi 

intro- 


De Architectura Civil. ed 


introduzidos , e transformados no 
corpo vegetante por meio da mef- 
ma vegetaçaô; fervindo a agoa de 
vehiculo adminiftrante, nad de ma- 
teria transformavel. Porém efta ob- 
Jecçaô fundada nos corpuículos:, ou 
atomos terreítres que a agoa com- 
mumente tem , e que de falto fe 
achaô invifiveis nella, por mais pu» 
ra, e fimples que pareça, naô pó- 
de fubfiftir, porque por outros ex- 
perimentos fe defvanece. E 
»: E com effeito , fe em. lugar da 
agoa commua nos: fervirmos na- 
quella operaçaô de agoa deftillada, 
a vegetaçad da arvore fuccede da 
meíma forte ; naô obítante haver 
deixado a agoa no fundo do vafo 
deftillante todas as particulas ter- 
reftres que podia ter. E fe fe difler 
anda, que por mais que a agoa 


feja deftillada, fempre leva comfi- 
go 


28 Problema 


go aquelles meímos atomos vola- 
tilizados com o vapor da agoa , naô 
fe póde provar huma tal fuppofi- 
çaô com experimento algum que 
indique a prefença de quaefquer 
atomos terreftres na agoa depois 
de deltillada na fórma que deve 
fer, Nos animaes, fe exceptuarmos 
os oflos, todas as mais partes naô re- 
conhecem fe naô a agoa por princi- 
pio transformante , e transformado; 
porque fegundo a analyfe de cada 
huma dellas he em pequena porçaô 
o que fegundo a melma analyfe dei- 
xaô de terra verdadeira ; tudo o 
mais, ou he liquido phlegmatico, ou 
oleofo. Ainda os melmos oílos, o 
que delles fe tira de terra fixa, con- 
tém pezo menor,que a parte unétuo- 
fa, e inflammavel que fe exhala. 
O mefmo fe obferya facilmen- 
te nos vegetaes ; eites depois de 
quei- 


De Architetura Civil. 29 


queimados, a cinza, que fica com 
nota de verdadeira terra, naõ faz 
nem a decima parte do pezo , e do 
volume que o vegetal fazia antes 
da fua combuftad ; por ilo, fe ad- 
vertirmos bem, á agoa he que de- 
ve dar-fe a faculdade transforman- 
te , e transformavel; porque com 
effeito entra na compofiçaô dos cor- 
pos como agente principal, de que 
refultou chamarem-lhe os Philofo- 
phos: Elementum Catholicum , id 
ef» univerfale. A 

: Efta . denominaçaô foi juíta- 
mente impofta á aquelle benefico , 
e gratiflimo elemento ; porque tu- 
do quanto ha na mundo, e que fe 
moftra ou em fórma liquida, ou 
coagulada , tudo parece que tem a 
agoa por principio efpiritual, e cor- 
poral ; à differença dos mixtos pro- 
vem da porçaô anatica, com que 

os 


30 Problema 


os outros elementos concorrem pa» 
ra a formaçaô individual delles ; de 
forte, que a agoa parece fer como 
hum panno appropriado , e apare- 
lhado fempre para nelle debuxarem 
os outros elementos huma immen- 
fidade de fórmas , e figuras. 

He certo que depois daquel- 
le portentofo Fiat, com que o So- 
berano Architeíto delineou, e com- 
poz perfeitilimamente a fabrica do 
Univerfo, todos os elementos fica- 
raô com invencivel propenfaô pa- 
ra fe bufcarem mutuamente, e pa- 
ra formarem a multidaô de mixtos 
que o mundo encerra ; e ifto por 
meio da attracçaô , e repulfaô , da 
acçaô , e reacçaô. O movimento 
proprio, e particular de cada hum 
dos mixtos ; O pezo, ou tendencia 
para o centro; o grao de efpefli- 
daô , ou liquidez ; a elafticidade , a 

aétivi- 


De Arcbiteétura Civil, 31 


Cividade, ( etambem a inercia) 
uma certa porporçaô de cada hum 
os elementos , Ífad os operarios 
e innumeraveis , e admiraveis pro- 
lucçoens. À terra denfa, pafliva, 
* em repouío ; o fogo mobililimo, 
aéhiviflimo ; o ar inconftante, com- 
reflivel, e dilatavel; a agoa inter- 
1ediaria fempre , e fempre promp- 
a para unir os extremos , e paz 
a concordar as qualidades contra- 
Ias. 

E com efeito que maior con- 
rariedade, ou que qualidades mais 
ontrarias, que as que fe daô entre 

agoa , e o azeite ? Elte inflam- 
iavel, aquella incombuftivel; eíta 
úimiga de toda a inflammaçad ; 
quelle naturalmente proprio para 
ervir de alimento ao fogo; huma 
elo feu pezo efpecifico buíca fem- 
re a parte inferior ; o outro pela 

mef- 


32 Problema 


mefma caufa fempre fe fuftenta na 
fuperficie ; e por mais que a concuf- 
faô continuada os una de algum 
modo, em ceffando o movimento, 
tornaô a entrar no eftado de repul- 
faô reciproca. Porém a addiçaõ de 
qualquer fal alchalino fixo concilia 
facilmente toda aquella oppofiçaô , 
perdendo a agoa , e o azeite a fór- 
ma liquida, e tomando a figura cor- 
poral, unctuofa , e fecca. 

Pelo que fica expoíto devemos 
aferir que a arêa naô he, nem 
foi nunca terra , mas huma pro- 
ducçaô , ou compofto particular de 
outro elemento. E fe houvermos 
de indagar ainda , qual dos ele- 
mentos feja a que com mais racio- 
navel, e melhor titulo fe haja de 
attribuir aguella mefma producçaô, 
e taó neceflaria indifpenfavelmente 
para tantos ulos utilifimos , e de 

que 


De Archiseélura Civil. 33 


que a conftrucçaô dos edificios he 
hum dos principaes , talvez que 
achemos que a agoa fimples he a 
que produz a aréa, e fem concur- 
fo, ou dependencia de outro cor- 
po algum. Efte argumento nos fer- 
virá para idear hum Íyftema novo, 
e ainda naô ventilado ( quod fciam ) 
entre os Phyficos naturaes ; porém, 
por fer o fyítema novo, nem por if- 
fo ficará menos provavel. 








CAPITULO II. 


Ada hum dos elementos tem 
fuas producçoens particulares, 
como já diflemos , ou ao menos do- 
mina mais neíte, ou naquelle cor- 
Po; ou entra em proporçaô maior 
neta, ou naquella compofiçaô, Tal- 
Part. II. C vez 


34 Problema 


vez que os elementos fejaôd com- 
vertiveis huns nos outros , como 
alguns Philofophos quizerad : Coy- 
verte elementa ; quod queris, in- 
venies. Porém naô he facil de per- 
ceber a poflibilidade de que a terra 
fe converta em agoa ; a agoa em 
fogo; efteemar, aut contra. An- 
tes parece repugnante á natureza 
de elemento o deixar de fer hum 
para fer outro; porque tudo , o que 
he principio primordial, deve fer 
conftante, e immutavel na fubftan- 
cia, ainda que o naô feja nos acci- 
dentes ; nem nos mixtos, que aliás 
faô já corpos compoftos, podemos 
idear mudança de huns para os 
outros. 

Porque fe poffivel foffe mudar- 
fe eflencialmente a terra em agoa;, 
eíta mefma fe poderia outra vez 


mudar em terra, e viria a dar-fe 
huma 


De Architellura Civil. as 


huma perpetua circulaçaô, ou mu- 
dança de elemento para elemento: 
o que fó miraculofamente póde ter 
lugar ; porque , ainda que na de- 
compofiçaô dos corpos fe dê hu- 
ma reallumpçaô prifline natura, 
ifto he quando os elementos , de 
que hum corpo foi formado , pela 
divifaô, ou (eparaçaô de cada hum, 
tornaô a entrar, ou a tomar a fim- 
plicidade elementar que tinhaô ; 
mas naô a mudar-fe de hum ele- 
mento para outro. O em que pare- 
ce podemos aflentar he , que ver- 
dadeiramente naô ha elemento pu- 
to, ou ao menos , naquelle grao de 
pureza, e fimplicidade phyfica em 
que fó intelleétualmente os pode- 
mos entender. 

Naó fer fe diga que cada hum 
dos elementos he elementado ; 1f- 
to he; que cada hum delles contém 

Cii certa 


36 Problema 


certa porçaô dos outros. E com ef- 
feito em qualquer terra havemos de 
achar o fogo na porçaô de mate- 
ria inflammavel que todas as terras 
tem tambem : acharemos a agoa 
na porçaô de humidade difperfa , 
e entranhada na melma terra ; e 
na humidade fe encontra o ar in- 
fallivelmente, porque nenhum licor 
fe dá naturalmente fem a conjunc- 
çaô de huma grande parte de ar, 
como fe obferva na machina pneu- 
matica. Aflim fe demoftra com evi- 
dencia , que no elemento da terra 
fe encontraô unidos todos os ou- 
tros elementos. Só com a differen- 
ça, de que na terra, efta he o ele- 
mento que predomina; os outros 
eftaô incluidos , e como fubordi- 
nados á fua acçaõ, 
ue outra coufa faô os Íaes; 
fe naô o elemento do fogo predo- 
minan- 


De Arebiteltura Civil. 37 


sminante neíte, ou naquelle genero 
:deterra? de cuja predominaçaõ re- 
“ulta hum corpo acrimoniofo ; e dif- 
Áoluvel. Efte mefmo corpo , em que 
he maior a porçaô do fogo , e que 
or iflo he mais fenfivel o feu ef- 
feito, fe o diflolvermos, e o coa- 
gularmos muitas vezes ao fogo , in- 
fenfivelmente vai perdendo a uniaô 
daterra, e fe diflipa, deixando a 
terra livre , e por io infipida, e 
Indifoluvel.. O fal do mar fe fe 
derrete-em agoa., e efta fe evapo- 
rar ad fi veitatem falis » repetida r mui- 
tas vezes efta mefma operaçaô, e 
por ella diflipado o elemento igneo, 
perde o fal inteiramente a acrimo- 
nia, ficando huma terra-infulfa, e 
fem a nota mais levillima de fal, 
Efte experimento fez dizer a hum 
famofo Philofopho Hollandez: Ne- 
fcio ubi Jalcedo falis mei devenit. 
Pare. II. Cii Nos 


38 Problema 


Nos vegetaes domina a agoa: 
e ele elemento nutritivo he o que 
entra em maior porçaô no corpo de 
todo o vegetal, e tambem no cor- 
po de todos cs animaes; porque, 
depois da combultad , a terra, que 
fica, he limitada, e pouco propor- 
cionada ao pezo , e ao volume de 
qualquer animal, ou vegetal quei- 
mado ; a cinza refidua naô parece 
correfponder á quantidade do. fu- 
Jeito, de que veio a refultar. Po- 
rém aflim deve fer precifamente ; 
porque depois de exhalada na agoa 
“a parte conftitutiva, a porçaõ con- 
fervada naô póde fer fe naô exi- 
gua. 
“Tem pois cada hum dos ele- 
mentos fuas producçoens particu- 
lares: naô que hum elemento Íó 
poíla produzir; porque iílo feria o 
meímo que huma verdadeira con-, 
verfão 


De Architeflura Civil. 39 


verldô; e regularmente huma cou- 
fa fó naô póde fazer mudança que 
naô feja para fi meífma. A mudan- 
ça de compoíto fuppoem addiçaõ , 
ou fubtracçaô de alguma das par- 
tes componentes; e aílim quando 
fe diz que hum elemento (ó produz, 
he porque em fi mefmo tem mate- 
rias heterogeneas de que pofla re- 
fultar efa producçaô. De forte,que 
fe confiderarmos hum elemento no. 
maior grao de pureza que póde ter, 
e que naô contenha em fi abfoluta- 
mente materia alguma que naô Íeja 
o mefmo elemento , nefte eftado. 
he incapaz de produzir, nem de 
compor: porém elemento puro na- 
quelle grao , fó metaphyficamente 
o podemos confiderar ;. porque de 
faéto , ou phyficamente nado ha; 
ao menos na atmofphera, e globo 
que habitamos, é 
Civ A agoa 


Pio) “Problema 


À agoa (empre tem em fi hum 
certo gluten, a que devemos jufta- 
mente attribuir a maior, e melhor. 
parte das fuas producçoens: talvez; 
que efte mefmo gluten feja o Oc- 
cultus vita cibus , de que fazem al- 
guns Philofophos mençaô ; etalvez 
que feja o unico e verdadeiro efpi= 
rito vegetante, animante, e mine- 
neral. Acha-fe (ao meu parecer) na 
agoa, porém de hum modo invifis 
vel, e inapprehenfivel; e pormais 
que anciofamente eu pretendeíe 
feparallo, nunca o pude confeguir ; 
e por io pollo com razaô dizer : 


Puder beu inmutiliter elapfi tem- 
poris ; pudet fudii , laborisque 
perpelh Per tot annorum curri- 
cula quefivi illud rerum omnium 
umiverfale fomen; mibi femper 
negatum , aliis fortalfe conceljum. 

Cogno- 


De ArchirebharáCiuil. 4a» 


Chgnovi 'equidem quod babitaret 
in aqua illud ipfam.,. quod folicite 
quefieram ; apprebendere nequivi; 
obfBarant fata” noétes imfomnes » 
Jaboriofwe dies profuerant mibil; 
infelix artifes ; infeliz opus » 
mibs delufo nunquam fuccaffir. ex: 
perimentum. Sed quid. fortuna in- 
cnfem ? infcitico fatius eff invides 
re : Jimitata fcientia limitatum 
eruétavir arsificem , curverahef- 
cam: comfireri ? Humana: imndaga- 
tioni -terminos pafuit: Deus Om: 
nspotens »:qui preteriri non pofs 
Juntpvolentr ultra progrediintel- 
teétus obnmbedtar ;" mentistacies 
“obregitur caligine , . quafs mebala 
terribilis in cacumine montis, quaji 
fulgur obfinpefiens voculos; nz 
grefius. ix tamplumr; ubi feder im 
gloria irradians. fapientia, mobis 
non ef? datus; fat ef? quod: in 


atrio 


42 Problema 


atrio exoremus bumiliter. Pro- 
phani viderunt mumqnam fanétua- 
vii vdocumr, mec, tetigerunt..ua- 
qua, corn altaris ; Jalutarunt 
a longe. 


Por muitos experimentos fe demo(- 
tra que a agoa tem em fi aquel!e 
certo-"gluten. invifivel, e fabrica- 
dor .das. mais admiraveis produc- 
cosas: da. natureza ; «porém. de tal 
fartennido à melma'agoa, que por 
modo algum fe naô póde extrahir 
nem feparar della; fó por alguns 
dos-feus effeitos.fabemos. que ex- 
ifte na verdade. Qualquer vpanno 
molhado, depois de Íecco ; fica per- 
dendo a flexibilidade que de antes 
tinha ;.e fica acquisindo huma ef- 
pecié de rijeza, ow afpereza im- 
propria, como fe houvefle paflado 
por huma cola. 

Que 


De Archietlura Civil. 43 


Que pouco fe tem advertido 
naquelia circunftancia ! Que pouco 
conhecemos de donde vem aquella 
tal rijeza, ou afpereza que fobre- 
vem ao panno depois de molhado , 
e fecco! Nefte vulgariflimo phenó- 
meno deixou o gluten impreflo o 
feu caraéter, fazendo-fe palpavel 
de alguma forte, mas nunca appre- 
tenfivel; taô efcondido na agoas 
Jua primeva ; e propriiílima matriz, 
como no panno em que'fe mani» 
feita accidentalmente. : Mofira-fe 
alli, mas fem permitir o feparar- 
de; ou difinguir-fe;: como. hum 
efpirito, cuja exiftencia fe conhece , 
mas naô fetoca. Os licores todos 
tem 4'melma. propriedade ; como 
de todo o corpo liquido: fole, e 
talvez he, o verdadeiro iman do 
gluten invifivel. 

À terra em pó he divifivel , = 

eftá 


44. Problema 


eftá dividida em todas as fuas par. 
tes, e-fe*ha de aflim mefmo .con- 
fervar fempre ;' porém fe a agoa 
de todas aquellas partes minutiffi- 
mas:fizer. hum corpo fó , efte to- 
ma huma dureza;competente, lo» 
go que a agoa fe aparta delle. Se 
magoa foi unicamente a que ajun- 
tou.,; ou conglabou entre (i tadas 
as particulas darterra, porqueinad 
tornaô eftas: ao eftado pulverulen+ 
to quando ..a agoa fe evapora to- 
talmente ? À razaô.he; porque, ain- 
da quel a; agoa fe,evapore (inteira- 
mente, ogluten, que continha, naô 
he evaporavel; e fica unido á-terra, 
£ lhe faz conferyar a uniad das fuas 
partes ; e nefte -eftado divifiveis -fó 
por força , ou por impulfo exterior, 
porém voluntariamente naô. 
Mas porque naô fuccede aquil- 
lo mefmoa reípeito dos metaes em 
PU s 


De ArchitetiuraCivil. 4s 


pó, nem a reípeito da pedra , ou 
de outros corpos femelhantes quan- 
do eftaô pulverizados? Se o gluten 
da agoa he fempre o melmo , e 
tem a mefma propriedade, porque 
razaô naô faz o meímo effeito em 
todos os corpos divididos , ou re- 
duzidos em pó? E de faéto vemos, 
“que fe do ouro em pó fizermos, por 
meio da agoa, huma maça Íó, ex- 
halada a agoa, fica o ouro defuni- 
do , tornando a reaflumir a divifad 
das fuas partes. O mefmo fuccede 
á pedra, áarêa, ao vidro, ea ou- 
tros corpos taes. 

A razaô de diferença he, que 
para as partes divididas fe unirem 
de algum modo por meio da agoa, 
ou de outro qualquer menítruo Ii- 
quido , he neceflario que as partes 
do corpo dividido , fejao diflolu- 
veis no menítruo que os deve unir; 


porque 


46 Problema 


porque. de outra forte naô tem o 
gluten, de que fallamos , acçaô al- 
guma nas porçoens do corpo fum- 
mamente attenuado , ou reduzido 
em pó; vifto que a coagulaçaõ das 
partes , prefuppoem a difloluçaô 
dellas em dilolvente proprio. Poí- 
to huma vez efte principio , já fe 
deixa ver que o pó do ouro, da 
pedra, ou do vidro, naô fe redu- 
zem em maça firme por meio da 
agoa, porque eíta os naô diflolve, 
e he incapaz de os diflolver ; por 
iflo , exhalada a agoa, fica o pó da- 
quelles corpos com a mefma divi- 
faô em que feachavad. 
Aquella regra fe verifica com 
a difloluçaô dos faes em qualquer 
agoa. Se o fal commum fe decre- 
pitar, ou fe reduzir em pó de ou- 
tra qualquer forte, fendo depois 
diflolvido na agoa , exhalada eita, 
naô 


De Archisettura Civil. 47 


naô fica o fal em pó, mas reduzi- 
do em maça folida , frangivel, e 
compatta. Ifto vem pelo funda- 
mento expofto , de que para a uniad 
das partes divididas, he precifo que 
ellas fe diflolvad no liquido em que 
tem mais analogia, À agoa he o 
verdadeiro diflolvente dos faes to- 
dos ; por iflo tem. nelles acçaô o 
gluten da mefma agoa : os metaes, 
e as pedras fó faô difloluveis nos 
menítruos corrofivos, e faô impe- 
netraveis à agoa fimples. O vidro 
em nenhum menftruo fe diflolve. 
Vejamos ainda no capitulo feguin- 
te a faculdade que tem aquella in- 
cognita materia, 


CA- 


48 Problema 


CAPITULO IV. 


A Acçaô de vegetar nad pro- 


vém da parte fimplesmente 
aquola, ou phlegmatica da agoa ; 
mas da parte glutinofa della: a pri- 
meira facilmente fe evapora, e ef- 
caflamente refifte a qualquer im- 
pulío do calor; a fegunda naô he 
evaporavel, fe naô com a mefma 
agoa , e tem de mais o tomar O 
genio da materia a que fe acha uni- 
da; de forte, que fe a materia he 
volatil, tambem o gluten com ella 
fe volatiliza; fe he fixa, permane- 
ce immobil contra todo o ardor do 
fogo ; mas fempre infeparavel do 
lugar em que fe acha, e fempre in- 
apprehenfivel. Efta meíma proprie- 
dade 


De Árcbiteéiura Civil. 49 


dade tem o vento , que por mais 
que o confideremos como hum cor- 
po difpoíto para mover-fe , e fazer 
mover outros corpos, nem por io 
o podemos reduzir a materia vifi- 
vel, e apprehenfivel ; porque de 
faéto naô he mais do que hum ar 
impellido de huma parte para outra 
com mais, ou menos força , fegun- 
do a caufa que o poem em movi- 
mento. 

Os animaes recebem o alimen- 
to vital daquella mefma parte glu- 
tinofa ; o que he agoa fimpleímen- 
te naô ferve mais que de Íujeito; 
em que o gluten eftá fempre como 
em infufaô. E com effeito a agoa 
he fómente fueito portativo , e 
naô qualificativo ; nem fe conver- 
te in fubftantiam aliti; he a que 
conduz, e diftribue a materia do 
nutrimento , naô a que o faz; he 


Part. II, D a que 


so Problema 


aque o leva, e infinua por todos 
os meatos mais reconditos do cor- 
po; e oque he puramente aquofi- 
dade ejicitur foras. Por iflo quan- 
do a obítrucçaõS , ou conftipaçad 
dos poros, ou tambem de alguma 
das partes interiores, impede a ex- 
clufaô da fuperfluidade aquola , ou 
de outra qualquer, tumultas fit in 
corpore; e fe a arte auxiliando a 
natureza naô remove o impedimen- 
to para lançar fóra aquelle hofpede 
importuno , e inimigo, a infermida- 
de creíce, er lento , aut celeri gradu 
mors ipfa fubfequetur. De que fe fe- 
gue que do meímo principio, de que 
depende a vida, refulta a morte. 
“Tudo eftã no cafo das porçoens, e 
proporçoens; porque a mefma ma- 
teria que nos faz viver, nos faz mor- 
rer, e morremos igualmente tanto 
por indigencia de materia vital, co- 

mo 


De Árchiteétura Civil. sr 


mo por abundancia. Naô fei como 
chegamos a viver hum dia. 

Produz pois a agoa admira- 
veis frutos nos tres reinos da natu- 
reza; em algumas deflas mefmas 
producçoens entra fó fem a con- 
currencia, (ao menos demonftra- 
vel) dos outros elementos, e fem 
fer adminiculada por algum delles ; 
porque em fi mefma tem, e acha 
tudo o que lhe póde fer precifo 
para a formaçaô defte , ou daquel- 
le corpo; falvo fe em fi tem infe- 
paravelmente unida a parte mais 
fubtil, e concentrada de todos os 
elementos. Ecom effeito o Divino 
Creador naô dotou nenhum dos 
outros elementos com aquella gra- 
ga, e favor efpecial, com que fe- 
cundou as agoas. Eftas forad pri- 
vilegiadas logo depois da fua crea- 


çaô , como fe os outros elementos. 
D u ficaf- 


sá Problema 


ficaffem fubordinados a aquelle ele- 
mento fantificado. E verdadeira- 
mente a agoa concilia os outros 
elementos, e ferve para concordar, 
e unir as qualidades repugnantes , 
e contrarias de cada hum; e iífto a 
fim que da mutua concurrencia , va- 
riavel em infinito nas proporçoens, 
venha a relultar a immenfidade de 
compoltos, de que o globo terra- 
queo fe compoem. 

A arêa porém ( que he o ob- 
jeto da raléntê difeuflas como 
hum dos precifos materiaes na arte 
de edificar ) he hum corpo folido , 
fufivel, e criftallino, fendo exami- 
nada pelo microfcopio; he verda- 
deira producçaô da agoa, para 
que naô intervém algum outro cor- 
po manifefto ; por 1flo donde ha 
agoa , tambem ha commumente 
aréa. Nas praias do mar, e nas 

mar- 


De Architebtura Civil. 43 


margens dos rios a arêa he infalli- 
vel; e ifto naô fó porque as tor- 
rentes a conduzem para aquellas 
partes, mas tambem porque neítas 
meímas fe fórma a arêa, como fe 
fórma em todo o ambito da terra , 
donde as agoas continuamente dei- 
xaô huma efpecie de fermento la- 
pidifico, que com o calor do Sol, 
ou da meíma terra fica converíivel , 
e fe converte em arêa verdadeira. 
Nos lugares fubterraneos, em que o 
calor he forte, e na fuperficie da 
terra, donde o Sol he mais intenfo, 
ahi fe fórma a arêa abundantemen- 
te; porqué todas as materias femi- 
naes, e productrizes neceflitaô do 
calor para terem lugar as acçoens 
que lhes faô proprias; e regular- 
mente fem calor matura torpet; e 
nos compoítos artificiaes , guid- 
quid fit » igne fit. He certiflimo axi- 

Part. Ji. D ai oma: 


54 Problema 


oma: Iy Sole, é fale nature funt 
omnia. 

Daqui vem que nos lugares 
profundamente Ífubterraneos o que 
fe encontra (empre he agoa, mi- 
neraes, arêa , e raramente alguma 
terra como a que vemos na fuper- 
ficie. Os que mineraô naquellas 
partes, para extrahirem mineraes, 
faes, metaes, ou a agoa os emba- 
raça totalmente,ou o calor demazia- 
do lhes faz o trabalho infupportavel. 
Temos o exemplo nas minas de 
Polonia, de que já fizemos men- 
çãô aílima, de donde fe extrahe 
huma quantidade inexhaurivel de 
fal gema. Os operarios trabalhaõ 
alli por breves intervallos ; porque o 
calor os aflige e defeípera; e o 
mefmo halito ou vapor fulphureo , 
que fempre circulaô nos lugares 
fubterraneos, muitas vezes os firf- 
focaõ, Aquel- 


De Árchitetlura Civil. ss 


Aquella mefma cola, de que 
falamos; ou gluten, que a agoa 
tem, e que por meio do calor, e 
fucceflaô do tempo he tranfmu- 
-tavel em arêa, tambem he a pri- 
meira caufa, ou origem primitiva 
de toda a vegetaçaô, como temos 
dito ; por iflo todos os lugares, em 
que as agoas empoçaô, e em que 
eftaô como dormentes algum tem- 
po, e até que o calor do Sol, e 
da eltaçaõ as faça exhalar inteira- 
mente , efles taes lugares , ou alveos 
interinos de agoas em defcanfo , 
fempre faô muito fecundos ; naô 
porque as torrentes invernofas con- 
duzaô , e arraftem para elles os na- 
teiros das terras por onde paflaô , 
como fe entende vulgarmente, mas 
fim porque as agoas em repoufo 
deixaô cahir ao fundo hum fedi- 
mento glutinofo que fertiliza a ter- 

Div rã, 


56 Problema 


ra, e lhe dá força para vegetar 
vigoro[amente, 

Que coufa ha, que pareça me- 
nos propria para a vegetaçaô do 
que a arêa pura, cuja improprie- 
dade fe verifica no proverbio que 
diz: Árene femina mandas? Porém 
efla meíma arêa efteril , e infecun- 
da, quando fe naô move, fe tem 
tempo para formar-fe na Íua Íuper- 
ficie huma pellicula vifcofa , .fica 
habil para vegetar, e produzir 
abundantemente. Naquella pellicula 
fuperficial vai a agoa depondo fuc- 
celivamente a parte vegetante, & 
produétiva , de que refulta a ferti- 
lidade. E com effeito feria a arêa 
o lugar mais appropriado para to- 
da, e qualquer vegetaçaô , fenad 
tivefle a circunftancia oppoíta de 
tranícolar-fe por ella promptamen- 
te a agoa. Sendo que ha muitas 
à terras 


De ÁrchiteéturaCivil. 47 


terras, que por ferem compaétas de- 
maziadamente , e Íujeitas a endu- 
recerem com o calor do Sol, fica 
nellas a femente entorpecida , e fem 
acçaô por caufa da dureza que a 
mefma terra acquire, e que impe- 
de o fer penetrada das raizes. Nel. 
te calo a arêa heutil, e he o uni- 
“co remedio que aquellas terras tem 
para poderem fertilizar ; porque a 
arêa ferve para fazer divifiveis as 
partes da terra, e impedir-lhe a 
-conglutinaçaô. Aflim o entende o 
mellifluo Mantuano , quando diffe : 


Quaque pharetrare vicinia Per- 
fidis urget , 

Es viridem “Egyptum nigra fie- 

- cundat arena, 

Es diverfa ruens feptem difcurriz 
m ora 

U/que coloratis amnis devexus ab 
Iudis — Omuis 


38 Problema 


Omnis in bac certam regio jaces 
arte falutem. 


À agoa fó he a que fórma a arêa, 
como temos dito ; e por hum novo 
experimento parece fe demoftra 
aquella propofiçao. 'Tome-fe huma 
quantidade arbitraria de agoa do 
mar, e efta recolhida em parte 
donde a agoa feja pura; e para 
mais certeza filtre-fe exaftamente. 
Nefte eftado fe ponha em vidro tal, 
que depois de bem tapado, e pof- 
to em calor mediocre , pofla a 
agoa circular no vafo livremente. 
Depois de paflar alguns dias, e 
que aagoa já naô fobe ao colo do 
vidro circulatorio , achar-fe-ha no 
fundo huma materia albicante, e 
quafi criftallina, a qual depois de 
fecca he arêa verdadeira com to- 
das as qualidades, e propriedades 

de 


De Architetlura Civil. so 


de outra qualquer aréa. Aflim fe 
moftra que toda a arêa provém da 
agoa, e que fó deíta procede fem 
dependencia, nem intervençaô de 
corpo algum terreftre. E por mais 
que nos pareça que a terra he a 
bafe fundamental, de que a natu- 
reza fórma a arêa, com tudo naô 
fe póde verificar que aflim feja por 
modo algum; da mefma forte que 
por nenhum artifcio he demof- 
travel que na creaçaô fubterranea 
dos metaes entre terra o 
ou feja mercurial, ou fulphurea , 
como Bechero, e outros quizerad 
entender. 


CA- 


6o Problema 


a eee eee eee e rm rem rem 


CAPITULO VV. 








S Egue-fe agora o vermos para o 
noflo intento principal, fe toda 
a aréa he propria para edificar, e 
para que os muros fiquem taô foli- 
damente conítruidos, que nem a 
agoa os poíla penetrar, nem o ar 
os poíla desfazer ; e por confequen- 
cia, para que fiquem adquirindo 
huma fortaleza tal, que pola refif- 
tir quanto he poflivel ao impulfo , 
ou movimento irregular dos terre- 
motos. Efta queítao deve intrepi- 
damente refolveríe feguindo a par- 
te negativa; ifto he, que nem to- 
da aarêa he propria para com ella 

fe fabricar feguramente. 
E com effeito , aflim como nem 
toda 


De Sribitettura Civil. 61 


toda a pedra he capaz para aquelle 
minifterio , tambem nem toda a 
arêa tem a qualidade, e bondade 
neceflaria; porque aílim como ha 
muitas pedras que ainda naô adqui- 
riraô a perfeiçaô, e dureza com- 
petente, e que além deíta, no feu 
Interior tem varias veas de terra 
ainda naô petrificada , e introduzi- 
da nellas viciofamente ou fuper- 
fluamente, e por iÃlo forad fempre 
reprovadas com razaô; tambem na 
arêa fe encontraô as mefmas imper- 
feiçoens, ou indigeftoens; e tal- 
vez que feja de mais importante , 
e mais perniciofa confequencia. E 
aílim he na realidade; porque na 
conftrucçad do muro, a cal, e a 
arêa fervem de ligar as pedras hu- 
mas com as outras; e de preencher 
os efpaços vazios que entre ellas ha 
precifamente ; fervem como de cola 

arti- 


6» Problema 


artificial para ajuntar, e unir os 
extremos indefinitos das mefmas 
pedras; e com a circunftancia de 
que aquella cola deve de algum 
modo tranfmutarfe, ou tomar a 
fubftancia da coufa colada; ifto he, 

deve petrificarfe de alguma forte. 
O faibro, commumente afim 
chamado , he huma arêa imperfei- 
ta, cuja bafe he huma terra del- 
gada com femelhança de arêa > mas 
nunca com a natureza de arêa ver- 
dadeira. Efta deve fer indiffoluvel 
na agoa, e deve precipitarfe logo 
ao fundo della, deixando a meíma 
agoa clara, e fem fedimento ter- 
reo na fua parte fuperior. Defte 
modo fe conhece facilmente a arêa 
pura; porque a terra derrete-fe de 
alguma forte na agoa , deixandoa 
turva por algum efpaço , imprimin- 
dolhe a cor que lhe he propria, até 
que 


De Arcbiteciura Civil. 63 


que fazendo aflento fobre à arêa, 
moftra diftinétamente o que he ter- 
ra na parte Íuperior; .e na parte in- 
ferior o que he arêa. Efta como 
mais pezada affenta logo; a outra 
como mais leve fultenta-fe mais al- 
gum efpaço incorporada na agoa , 
até que tambem fe precipita fobre a 
arêa, em fórma de polme, ou li- 
mo “terreo. 
mA arêa nunca muda de figura , 
nem de confiftencia na agoa ; as 
fuas particulas naô fe dividem, e 
fempre confervaô a fua meíma fór- 
ma, e naô occupaõ, mais nem me- 
nos efpaço de lugar ; naô endure- 
cem fó por fi, ainda depois de 
exhalada a humidade toda. Em lu- 
gar que a terra admitte huma tal, 
ou qual confiftencia dura, por meio 
de hum calor proporcionado; mas 
nunca dureza lapidífica, como fuc- 
cede 


64 Problema 


cede á arêa depois de unida com a 
cal por meio da agoa , e fem in- 
tervençaô de calor externo artificial. 
Daqui vem que a terra depois de 
endurecida fica confervando a ap- 
tidad para embeber a agoa , e pa- 
ra a reter em fi; a arêa pelo con- 
trario, depois de endurecida com a 
cal, fica impenetravel á agoa, e 
a repelle vigorofamente, como fe 
fofle hum corpo fem póros , ou com 
póros taes, em que a agoa fe naô pó- 
de introduzir com facilidade. 
Além difto, a terra depois de 
amaçada com aagoa exaétamente, 
qualquer calor a faz abrir, e de tal 
forte, que já mais fe póde fazer obra 
com a terra Íó por fi; porque ou 
ella fende logo com o calor do ar, 
ou na fornalha, em que fe coze, 
faz aberturas fem remedio; por if- 
fo aarte de trabalhar o barro con- 


fifte 


De Architelura Crvil. 65 


fifte no temperamento , ou na mif- 
tura das terras areofas ; porque a 
arêa ferve de as ligar, e impede de 
algum modo a divifaô das fuas par- 
tes; e ainda neíte eftado he pre-: 
cifo fempre que o calor, que as fec- 
ca, feja muito moderado no princi- 
pio, e que a humidade fuperflua fe 
evapore antes que a obra receba na 
fornalha o (eu ultimo cozimento. 
Nas terras fortes dos campos, 
e dos montes, tambem fe obferva 
o mefmo inconveniente ; o calor do 
Sol intenfo faz elas profundas 
aberturas ; de que refulta menos 
fertilidade ; porque pelas mefmas 
aberturas fe exhala a maior parte 
da humidade que deve fervir de 
nutrimento ás plantas. Daqui vem 
que o bem inftruido agricultor naô 
coftuma cavar femelhantes terras 
em annos feccos , fó por naô dar 


Part. IH. E lu- 


66 Problema 


lugar a que mais facilmente fe dif 
fipe a humidade , ou gluten nu- 
tritivo; de que provém ficarem rai- 
zes aridas , e delcobertas , e por 
confequencia mais expoftas aos ar- 
dores da atmofphera. Nefte cafo, 
a concreçaô , ou codea compacta 
que fe fórma na fuperficie daquel- 
las terras , ferve para reter a fref- 
eura , ou lentura , que ellas con- 
tém no feu interior ; e impede a to- 
tal diflipaçaô da humidade glutino- 
fa, e vegetante, 
Bem he verdade que he preci- 
Ío cavar a terra, para que neíta fi» 
tuaçaô pofla receber melhor a mef- 
ma humidade de que toda a vege- 
taçaô depende , e fem a qual toda 
a terra he como morta, e infecun- 
da. Porém efta regra geral ( como 
todas as outras ) padece largas li- 
mitaçoens. À eftaçad , e tempera- 
tura 


De Archizeélura Cívil. 67 


tura do anno, a qualidade da ter- 
ra, fazem que o agricultor mude 
de fyftema a cada paflo. O racio- 
cinio Phyfico naô confifte fó em 
feguir as regras univeríaes , mas 
tambem em fe afaftar dellas quan- 
do a occafiaô o exige ; por iflo mui- 
tas vezes acerta mais quem fabe 
menos. A natureza quafi fempre fe- 
gue as fuas regras , naô as que os 
homens lhe querem pôr; eftes per- 
turbaô-lhe as fuas producçoens 
quando entendem que as melhoraô. 
O beneficio da cultura ás vezes he 
perniciofo ; porque no tempo naô. 
ha regulaçaô , nem principios cer- 
tos, mas fempre incertos , e falli- 
veis. 
Quem diflera que o promover 
a fertilidade por meio de materias 
putrefactas , he prejudicial ás ar- 
vores quafi todas, e príncipalmen- 
E u te 


68 Problema 


te às vinhas? eftas que fem contra- 
dicçaô fazem hum dos mais ricos 
prefentes que a natureza nos faz 
abundantemente, defgoltad-fe da- 
quelle modo de as incitar para pro- 
duzirem mais; e quando por aquel- 
le modo produzem com mais for- 
ça, o fruto fempre vem degenera- 
do em qualidade, e os vinhos in- 
fipidos , e fem graça confervaô fem- 
pre huma certa propenfad para mu- 
darem , e para tomarem hum fa- 
bor eftranho , e defagradavel. Quem 
diflera que a abundancia de vigor 
efteriliza as arvores de fruto, e que 
para as fazer fruétificar he precifo 
diminuirlhes. o vigor, diffipando as 
raizes principaes ? Ex abundantia 
vigoris inopia fruétus. Inopem me 
copia fecit. Que outra coufa faz a 
fabia Medicina em muitos , e di- 
veríos cafos, fe naô diminuir o de- 

mazia- 


De drchiteciura Civil. 69 


mafiado alento do homem egrotan- 
te, por meio da fangria indicada 
quafi fempre; feguindo o axioma, 
ou aphorifmo verdadeiro, de que 
he melhor diminuir as forças, do 
que-deixar morrer o enfermo com 
todas ellas? .E aflim naô he parado- 
xo o fuftentar, que para confervar 
a vida, he necellario tirar alguma 
porçaô della. CNAS 
—  Diffemos aíflima que o faibro 
he huma, arêa imperfeita que tem 
portbafe hum certo genero de ter- 
ra, Ífegundo a qualidade de que o 
faibro he ;:e por iflo todo o faibro 
he. improprio. para” a. conftrucçaõ 
dos muros. Efta propofiçaô fe, ve- 
rifica pela propenfad que o faibro 
tem para vegetar todas:as vezes 
que a agoa tem nelle accéflo livre. 
Ifto obfervamos bem vifivelmente 
em quafi todos os telhados; os 
Part. II. E ui quaes; 


ÁS) Problema 


quaes, paflado algum tempo de- 
pois de fabricados , entrad a vegetar 
diverfas hervas, de que commumen- 
te os telhados fe cobrem dentro de 
alguns annos. Aquella vegetaçaõ 
denota a exiftencia actual de huma 
verdadeira terra introduzida no fai- 
bro, ou na arêa com que a cal foi 
amaílada. As mefmas hervas dei- 
tando raizes fubtiliflimas , e fortes, 
apartaô a mafla de cal, e arêa, 
fazendo nella varias aberturas por 
onde paflaô livremente deftruindo , 
ou arruinando aflim a mefma maça 
que ferve de conter as telhas, e 
de as ter em modo que façaô co- 
bertura regular. 

As paredes fabricadas com 
aquelle faibro, ou com qualquer 
arêa terroza , tambem vegetaõ nas 
Íuperficies que ficaô expoftas ao ar, 
e à humidade exterior, brotando 

huma 


De Archizetura Civil. Z1 


huma efpecie de mufgo pardo, ou 
verde efcuro que as faz deformes, 
e mal configuradas. Nas partes po- 
rém , donde coltuma fabricarfe com 
arêa pura, qual he a que fe tira 
das margens ou alveos dos rios, 
depois que as agoas feccad, ou di- 
minuem, nunca fe haô de ver nos 
telhados dos edificios femelhantes 
vegetaçoens: por iflo as cafas de 
campo (aô duraveis commumente, 
ainda aquellas que faô menos habi- 
tadas; e ifto naô fó porque a cal 
fempre he desfeita, e amaçada 
com agoa doce naquellas partes , 
mas tambem porque as aréas cof- 
tumaô fer mais puras. 

Bem fei que ha faibros excel- 
lentes, e que tem os mefmos do- 
tes que a melhor arêa ; porém faõ 
rarillimos os que fe encontraô da- 
quella qualidade; porque o mais 

E iv com- 


72 Problema 


commum he ferem affociados com 
mais ou menos porçaô de terra; e 
fegundo as proporçoens defta, e 
fegundo a fua indole, e cor, re- 
fulta a diferença que ha na cor, e 
qualidade particular de cada hum 
dos faibros. Aquelle, que tiver mais 
terra, he certamente o mais im- 
proprio; o que tiver menos , he 
menos mao; e o que tiver muita 
he reprovado totalmente. Já difle- 
mos que o méthodo breve , e facil 
para examinar a aréa , confiftia 
fimplefmente em a deitar na agoa ; 
e que aquella que logo defce ao fun- 
do, fem deixar tintura alguma na 
agoa; nem fedimento terreo, era 
a melhor; e à proporçaô da mais 
ou menos cor que a agoa recebe 
logo; e juntamente do mais, ou 
menos fedimento terreo que reful- 
ta, he que deve julgarfe da bon- 

dade 


De Árcbitelura Civil. 3 


dade efpecifica da arêa; eiflo pelo 
principio certo, de que a arêa pura 
nem deixa fedimento algum, nem 
imprime na agoa a menor tintura, 
Todos os architeétos conhe- 

cem bem efta verdade pratica; po- 
rém nem todos podem ufar della ; 
porque fabricad à vontade do pro» 
prietario, e naô á fua: entendem 
perfeitamente o que he melhor ; 
porém o feu entender he tomado 
-ás vezes por hum efcrupulo pouco 
neceflario , e impertinente: o pro- 
-prietario fempre quer a arêa que 
leve menos cal; e quer aquella cal 
que he de menos preço; e que os 
materiaes fejad aquelles que eitaô 
“perto, e de que o traníporte feja 
menos difpendiofo. Eftas condições 
raramente fe conciliaô com a bon- 
dade, e fortaleza da obra; e como 
eita naô falla fenaô depois de arrui- 
nada, 


z4 Problema 


nada, fó entaô conhece o fenhor 
della a trifte confequencia de huma 
mal difpofta economia. 

Nas cidades populofas, e ma- 
ritimas, os fornos da cal ordinaria- 
mente fe conftruem á borda do 
mar; eaagoa, com que alli fe der- 
rete a cal, ouhe a meíma do mar, 
ou de poços de agoa falobra, que 
naquellas vizinhanças fe encontraô 
facilmente. A conducçaô dos ma- 
teriaes precifos para. aquella fabri- 
ca, e principalmente a lenha ne- 
ceflaria, faz efcolher aquelles lu- 
gares com pteferencia a outros qua- 
efquer; porque tudo o que fe póde 
tranfportar por rios, ou por mar, 
he fem duvida mais facil, mais 
breve, e de menos cufto. 

Ifto obfervamos todos nos for- 
nos aflentados junto ao mat ; à 
agoa, com que nelles fe pulveriza a 

pedra 


De Architeétura Civil. 75 


pedra depois de calcinada , ou he 
falgada inteiramente, ou he falo- 
bra. Que edificio fe póde fabricar 
com femelhante cal , ou que per- 
manencia póde ter o muro em que 
o fal entra por aquelle modo ? Cor 
mo fe ha detirar o fal depois de 
entranhado intimamente na parede? 
E defta que duraçaô ha de efperar= 
fe, fe o fal he hum dos feus in- 
gredientes ? 

Logo aos primeiros dias, de- 
pois de levantado o muro, vemos. 
ao pé delle cahida a cal, e aarêa 
que eftavaô mais fuperficiaes; efta 
he a primeira prova do defeito, e 
que para manifeftar-fe nad neceffi- 
ta muito tempo. À cal falgada, e a 
arêa barrenta nunca podem unir- 
fe, nem fazerem corpo fubfiftente; 
e todas quantas vezes aguelles dous 
materiaes fe puzerem nas fuperfi- 

cies 


76 Problema 


cies lateraes do muro, tantas ve- 
zes os havemos de ver cahidos, e 
eftendidos fobre o chad em todo o 
prolongo delle. sado 

A mefma defuniad, que fe dá 
naquelles materiaes quando eftaô 
nas fuperficies das paredes , tam- 
bem fe encontra no interior dellas. 
E com efeito: fe fe defmanchar. al- 
gum pedaço de huma tal parede , 
havemos de achar a cal, e arêa fem 
uniaô alguma ; faceis em fe desfa- 
zerem entre os dedos , e fem pro» 
penfaô para aquella efpecie de pe- 
trificaçaô , que devem adquirir na- 
turalmente para poderem ligar, e 
conter fortemente as pedras en- 
tre fi, 

Aquella defuniaô de partes fe 
obferva bem,ainda que infauftamen- 
te, nas occafioens dos terremotos ; 
porque o impulfo da terra , que pe 

a 


De Architetura Civil. 57 


la primeiramente os muros , moe a 
cal, e aarêa comprehendidos nel- 
les; e quando o muro fe precipita, 
vê-fe huma nuvem efpefla, e bran- 
ca compofta da mefima cal, e arêa, 
que reduzidos em pó Íubtil pelo 
movimento extraordinario, cobrem, 
e offuícad o ambito do ar vizinho: 
Tudo denota imperfeiçad na cal, 
e imperfeiçaô na arêa; porque ef- 
tes dous materiaes, fendo como de- 
vem fer., depois de eftarem uni- 
dos algum tempo , tomaô huma 
dureza quafi lapidifica , e naô ad- 
mittem facilmente o ferem reduzi- 
dos em pó ; antes ( como aílima 
já diflemos ) quando fe quer rom- 
per o muro, he mais facil confe- 
guillo quebrando as pedras, do que 
defapegando dellas a arêa , ea cal 
que as liga; e fea parede cahe por 
algum movimento eftranho , e vio= 

lento ; 


78 Problema 


lento, nunca a cal, ea aréa fe pul- 
verizaô totalmente, mas cahem co- 
mo fe foflem tambem porçoens de 
pedra , e fem deixarem o ar inficio- 
nado de huma poeira importuna , e 
muitas vezes foffocante. 

Devemos pois formar-nos 
huma idéa , ou fyítema certo, de 
que nenhum muro póde fer dura- 
vel, e em fórma que pofla refiftir 
mais algum tempo ao movimento 
irregular da terra, fe na fua conf 
trucçaô entra fal por algum modo; 
ou tambem fe de alguma forte en- 
tra terra , ou barro : efítes mixtos 
faô contrarios á intençaô de quem 
fabrica; porque em entrando qual- 
quer delles, a maça que refulta ha 
de fer precifamente fragiliffima , 
pouco compacta , e pulverizavel fa- 
cilmente; qualquer deítas circunítan= 
cias induz fraqueza , e debilidade 
no compofto. Te- 


De Archirectura Civil. 9 


Temos dito que nos fornos; 
em que a pedra fe calcina, e que 
fubfiftem junto ao mar, coftumad 
os operarios pulverizarem a pedra, 
depois de calcinada, com agoa do 
mefmo mar, ou com agoa de po- 
ços falgados, que fempre fe defco- 
brem, e fe achaô em fe abrindo 
qualquer poço junto ao mar. Por 
razaô defte meímo aflumpto , naô 
ferá fóra de propofito o do nef- 
te lugar alguma digreílaô a refpei- 
to de alguns poços, e fobre mate- 
ria ainda naô obfervada , e naô tos 
cada talvez pelos Efcritores. 


CESAR ATE TEES eccpeteaão [EE O 
[TR 


CAPITULO VL 
N Efta Inclyta, e Real Cidade 


de Lisboa , e vizinhanças da 
rua 


80 Problema 


rua das Janellas Verdes, achad-fe 
alguns poços cavados na rocha que 
difcorre pela parte fubterranea da- 
quelle deftriéto todo, os quaes to- 
maô agoa abundantemente à pro- 
porçad que a maré vaza; e perdem 
a mefma agoa á proporçad que a 
maré enche. Efte phenómeno he 
hum facto permanente que póde 
fer examinado , e vifto todos os dias 
naquelle fitio ; de forte, que da exif- 
tencia delle naô fe póde duvidar ; 
a duvida fó eftá na caufa de que 
procede hum phenómeno taô raro. 
Que os poços, que ficaô junto 

ao mar, fe regulem pelas marés pa- 
ra terem agoa quando a maré en- 
che, e para a naô terem, ou te- 
rem menos, quando vaza, parece 
que he coufa natural, e em que 
naô ha razaô alguma que deva cau- 
far admiraçaô , porque facilmente 
pode- 


De Architelura Civil. 81 


podemos perceber que as agoas 
do mar fobindo occupaô os meatos 
da terra, de donde (e communiquem 
ao vaô dos poços , maiormente fen- 
do immenfa a força daquellas agoas 
tanto na acçaô de fobir, como de 
baixar. Porém o Íucceder o contra- 
rio pofitivamente ; ifto he, que os 
poços tomem agoa quando a maré 
vaza, e que fiquem fem ella quan- 
do a meíma maré enche , he calo 
raro, que merece indagaçaô. 

He de advertir mais que aquel- 
les poços naô tomaô, nem largaõ 
a agoa, que recebem , fubitamente, 
mas lentamente , e fempre á pro- 
porçaô que a maré vai enchendo , 
ou vai vazando : os poços, que faô 
profundos confideravelmente, nunca 
fe feccaô de todo , e ficaô confervan- 
do nos Ífeus fundos huma tal, ou 
qual porçaô de agoa ; os que tem 

Part. II. F huma 


82 Problema 


huma cavidade ordinaria , feccad» 
fe inteiramente quando a maré che 
ga ao preamar. Pela regra com- 
mua, e obfervada commumente, to- 
dos os poços , que tem communica» 
çaô com o mar, tem mais agoas no 
preamar , e muito menos no bai» 
xamar , e neíte faô menos falo- 
bras as fuas agoas , e naquelle 
faô mais falgadas. Aquelles pos 
ços porém, de que falamos , fe» 
guem conftantemente hum movie 
mento contrario. “ 

Accrefce que na occafiad do 
terremoto'do primeiro de Novem- 
bro de 1754. ouvia-fe, em che- 
gando a aquelles poços, hum rugi- 
do continuo, e elpantofo , que fa- 
zia promptamente retirar aos que 
eftavaô junto a elles; e ainda no 
tempo , em que aterra naô tremia, 
perfiftia o mefmo rugido fubterra- 

neo ; 


De Architeetura Civil. 83 


neo, porque naô tinha intermiflad; 
e ilto á maneira do eftrepito que 
coftuma fazer hum mar tempeítuo- 
fo: o Poeta o defcreveo em outro 
calo ; quando diffe : 


Tremere omuia vifa repente » 
Liminaque, laurusque Dei; totus- 
que moveri 
Mons circum , ds mugire aditis cora 
tina reclufis 


Ecce autem primi fab lumina folis ds 
ortus 

Sub pedibus mugire folum, & juga 
capta movers 

Sylvarum » vifegue cones ululare 
per umbras. 

Sape cavas motu terre mugire ca- 

vernas, 


F u De- 


84 Problema 


Depois que a terra ceflou de tre« 
mer inteiramente, tambem veio a 
ceflar o medonho eftrondo daquel- 
les poços , tornando a entrar regu- 
larmente na acçaô de receberem 
agoa á proporçaô que a maré vaza, 
e de a perderem quando enche. 
Naô fe obfervou porém, ( que eu 
faiba) fe o eftrondo referido prece- 
deo ao terremoto , ou fe fó lhe fuc- 
cedeo depois ; porque, fe obferva- 
da foíle, e bem verificada a prece- 
dencia , teriamos hum fignal certo, 
ou ao menos provavel, para conhe- 
cer, ou prognoíticar hum terremo- 
to futuro, e imminente. Os homens 
feriaô mais felices nefta parte , fe 
podeffem de algum modo vaticinar 
os feus perigos ; e nefte calo ca- 
da hum daquelles poços feria hum 

oraculo verdadeiro, e natural, 
No Molteiro de Odivellas da 
Ordem 


De Architeétura Civil. Bs 


Ordem de S. Bernardo, fe adver- 
tio , que na veípera do fobredito 
terremoto feccou a agoa, que vin- 
do de fóra encanada corre em hum 
magnifico lago que aquellas Reli- 
giofas tem na Íua cerca, (obra da 
muito religiofa Madre Dona Luiza 
Maria de Moura, tres vezes Ab- 
badefia naquelle efclarecido, e Real 
Motteiro ; as fuas virtudes Ífaô co- 
nhecidas nefte Reino, e o feu no- 
me he digno de que aqui fe faça 
memoria delle ) e depois de haver 
eftado dous dias fem correr , come- 
çou a vir muito pouca agoa, até 
que fe poz na quantidade coftuma- 
da. Efte faéto foi notorio, e ob- 
fervado por muitas Religiofas , por 
fe fervirem , e ufarem daquella agoa 
continuamente. Daqui fe infere, 
que algumas vezes podemos predi- 
ger algum fucceflo impremeditado , 

F iu eraro, 


86 Problema 


etaro, mas (empre por anteceden- 
cias naturaes, e por fignaes conhe- 
cidos, e obfervados antes. 

Porém com que principio phy- 
fico havemos de explicar a natu- 
ralidade de que hajaô poços jun- 
to ao mar, que tomem agoa nas 
vazantes, e a larguem nas enchen- 
tes? Por mais que queiramos idear 
meatos fubterraneos', proprios para 
aquelle fim , nenhum poderemos 
facilmente excogitar, do qual re» 
fulte hum tal efeito: tudo quan- 
to imaginarmos , ainda com vio- 
lencia, ou repugnancia do entendi- 
mento, naô nos ha de perfuadir, 
nem contentar; nem ainda admit- 
tindo as fuppoliçoens mais força- 
das, e menos bem fundadas. Con- 
duétos extraordinarios, tubos ca- 
vernofos, agoas da terra encontra- 
das com as do mar , impulfaô de 

humas , 


De Árchiteclura Civil. 87 


humas., e repulfaô de outras, na- 
da difto ha de fazer que os poços 
tomem agoa nas vazantes, e a vaô 
perdendo à proporçaô que as agoas 
do mar. fobem. O faéto porém he 
certo; e tambem he certo que ha 
huma razaô , ou principio phyfico, 
porque aílim Ífuccede, e de que 
procede naturalmente. . 
Aquelle principio ou razaõd 
phyíica depende de mais larga, e 
mais difcutida explicaçaô ; porque ; 
fabida a caufa daquelle phenómeno 
dos poços, tambem ficará fabido 
(ao meu parecer ) qual he a caufa 
dos terremotos ; qual he a caufa 
do fluxo , erefluxo do mar ; e qual 
he a caufa dos ventos. Cada huma 
deftas tres queítoens (que tanto 
tem exagitado os maiores enge- 
nhos fem terem achado ainda al- 
guma demoftraçaô palpavel, com 
Iv que 


88 Problema 


que fazerem provaveis, e intelli- 
giveis os feus fyftemas) talvez ne- 
ceflitavad da exiftencia de hum fa- 
éto permanente, e bem verificado 
para darem o verdadeiro conheci- 
mento daquelles tres problemas in- 
trincados. 

E com effeito a caufa dos ter- 
remotos, a caufa do fluxo, e re- 
fluxo do mar, e a caufa dos ven- 
tos, tem fervido de tormento a 
todos os Philofophos; porém tudo: 
quanto vemos expendido , faô con- 
Jecturas confufas, e fuppofiçoens 
admittidas, e naô provadas; fen- 
do que todo o fyftema he incerto, 
é duvidofo em lhe faltando o requi- 
fito da clareza ; e efta deduzida em 
fórma, ou fundada em prova taô 
natural, e facil de perceber, que 
o entendimento fe convença della, 
eareceba fem força ; mais por ap- 

pro- 


De Architeélura Cívil. 89 


provaçaô, intelligencia , e acquieí- 
cencia propria, que por fe fubmet- 
ter à authoridade do author que 
ideou o fyftema. Algum dia (fe a 
vida lá chegar ) moftrarei com 
aquella evidencia de que a materia 
he fufceptivel, a razaô porque as 
agoas do mar fe movem; a razaô 
porque ha ventos; e a razaô por- 
que a terra treme. 


ER Trem | 
ce te me 





PERO [O CR pre 
——— as mem a 


CAPITULO VIH. 


Ornando ao modo de edificar 
(que he o noflo principal af- 
fumpto 3 já diflemos que nenhum 
muro póde fer folidamente fabrica- 
do, fe na fua primeira compofiçaô 
entrar terra, barro, ou fal. E com 
eífeito eftes tres ingredientes faô 
os 


9o Problema 


os inimigos capitães da perfei- 
çaô de qualquer obra, nad fó 
quando todos fe achaô conjunta- 
mente, masainda feparadamente , 
e cada hum por fi: e quando to- 
dos os tres fe encontraô , he inutil 
o efperar duraçaô alguma no edi- 
ficio. O fal, de qualquer genero que 
feja, fempre tende a humedecer ; e 
a terra, ou barro, ainda fem fal 
que os humedeça, e ainda que fa- 
çaô hum corpo duro quando fec+ 
cad, qualquer movimento os pul- 
veriza; e nunca podem reduzir-fe a 
aquella efpecie de petrificaçaõ , que 
he donde refulta a fortaleza das 
paredes. 

Tambem diflemos que a pe- 
dra depois de calcinada deve fer 
desfeita com agoa doce , e naô fa- 
lobra; nem do mar (como ordina- 
riamente fe coítuma ) cuja opera- 

a 
çaõ 


De Árchiteétura Civil. 91 


çaôd deve fer feita por hum aéto 
continuo , e como repentino ; por- 
que a pedra de cal, desfeita por fi 
mefma ao ar, ou por huma afper- 
faô de agoa efpaçofamente prati- 
cada, fica fendo hum pó inerte, 
fem efpirito, nem vigor para po- 
der petrificarfe com a arêa, e unir- 
fe eftreitamente com a pedra crua 
de que o muro fe compoem : nem 
he para admirar que aquella opera- 
çaô fe deva fazer fucceflivamente , 
e fem mais interpolaçaô de tem- 
po, que oque he precifo para: fe 
hir pulverizando a pedra calcinada; 
porque outras muitas operaçoens 
ha que dependem da meíma prom- 
ptidaô, e que deita refulta o ef- 
feito procurado ; é naô correfpon- 
dem à intençaô do artifice, fe fe 
lhes applica huma acçaô vagarofa ; 
ou hum tempo de defcanfo. 

Pelo 


92 Problema 


Pelo contrario tambem ha ou- 
tras operaçoens, que exigem ne- 
ceflariamente defcontinuaçaô. A 
fermentaçaô v. g. de todos os lico- 
res fermentaveis querem defcan- 
fo, e immobilidade. Ifto fe vê no 
moito , o qual quando as fuas par- 
tes entraô na acçaô de fermentar, 
he precifo naô as mover, e deixal- 
las fó com o movimento inteftino 
que naturalmente tem; outro qual- 
quer movimento exterior , e Íuc- 
ceflivo impede a fermentaçaô , e a 
producçad de elpiritos inflamma- 
veis, 

A corrupçaô dos vegetaes 
tambem fe faz em focego, e len- 
tamente ; por iflo toda a quantida- 
de de hervas, ou arvores verdes, 
accumuladas humas fobre as outras, 
vaô apodrecendo de vagar; porém, 
fe as moverem de huma parte para 

outra 


De Architekiura Civil. w% 


outra continuadamente , céfla a pu- 
trefacçaô ; porque o ar, que fe in- 
troduz entre ellas, ao mefmo tem- 
po que as fecca diflipando a hu- 
midade Ífuperflua, tambem diflipa 
todas as partes aétuolas , e putrefa- 
étiveis. 

Daqui vem que o trigo, e 
“outras fementes vegetaes neceflitad 
de movimento para fe conferva- 
rem; o defcanfo, ou:immobilida- 
de brevemente os corrompe , e 
altéra: A humidade, e o calor 
faô os dous principios de corrup- 
çaô. O movimento externo, ein- 
troducçad do ar Íuffoca aquelles 
dous agentes. Ainda as partes dos 
animaes mortos, prefervao-fe al- 
gum tempo de corrupçaô, quando 
fe expoem na fituaçad de hum ar 
fecco, e ventilante; o fumo os pre- 
ferva da mefma forte ; menos na 

a 


94 Problema 


fal acido volatil que exhalad os ves 
getaes queimados, e que infeítad 
os olhos dos que fe expoem a elle, 
que pela qualidade que o fumo tem 
para feccar, e apertar. E aílim 
hum ar fem movimento corrompe., 
e hum ar com mobilidade preferva ; 
he o mefmo ar, porém a acçaô 
delle naô he a mefima. | 

- —Aquellas alteraçoens fazemfe 
progreíliva , e lentamente, naô 
com precipitaçad ; porque (como 
fica dito ) a natureza naô fe ferve 
de huma ordem fó de obrar; em 
cada coufa obferva hum certo mo» 
do, e hum certo tempo; em hu- 
mas neceflita prefla, em outras va» 
gar; em humas quer interpolaçaôs 
em outras a mefma interpolaçaô lhe 
ferve de impedimento. Os metaes; 
e mineraes, para fe formarem, ne- 
ceílitaô Íeculos; os vegetaes em 
pouco 


De drcbitetura Civil. os 


poucô tempo recebem a fua ultima 
perfeiçao; os animaes nad tem o 
caminho taô curto, e querem an- 
nos. Os mefmos orbes celeftes nad 
abfolvem os feus periodos igual» 
mente; huns caminhaô mais de pref- 
fa, outros mais lentamente. Satur- 
no percorre o giro da fua orbita 
em trinta annos; Jupiter em doze ; 
Marte em dous; Venusiem oito 
mezes; Mercurio em tres, feguin- 
do a direcçaô do Occidente para 
o Oriente. 

Os corpos;! que exigem mais 
tempo para fe acabarem de formar 
inteiramente, faô os que perma- 
necem mais. O ouro, a prata, as 
pedras preciofas, eas que faô con- 
fideravelmente duras, requerem fe- 
culos para ficarem perfeitamente 
formadas : por iflo Ífaô poucas 
aquellas producçoens ; porque Fe 

o 


vó “Problema 


do quanto a natureza cria lentai 
mente he raro; e he mais com- 
mum tudo o que produz em menos 
tempo ; porém ficaô incorruptiveis, 
e capazes de durar , talvez até o 
fim do mundo. Os animaes, que re- 
querem annos , no eípaço de al- 
alguns annos fe corrompem. Às ar- 
vores duraô mais, ou menos tem- 
po» á proporçaô daquelle que gaf- 
taô em crefcer : os cedros do Liba- 
no vegetaô de vagar, mas por iflo 
duraô muito mais do que o falguei- 
ro viçofo , e apreílado. As flores, 
que nafcem quafi de repente, tam- 
bem quafi de repente acabaô, Em 
tudo fe acha huma certa compen- 
façaô entre o nafcer, e o acabar; 
entre a facilidade de exiftir, e en- 
tre a dificuldade de permanecer. 
Só o vidro, fendo aliàs obra 
do artifício, em poucos dias fe faz, 
e póde 


De Architeétura Civil. 97 


e póde durar tanto como as mef- 
mas pedras preciofas ; e como os 
dous mais folidos metaes. Quem 
diflera que hum artifício taô facil, 
e de compofiçao taô prompta po- 
dia fer tad permanente , e podia 
refiftir a toda.a maior aétividade 
doselementos! Nem a agoa , nem 
o ar, nem a terra , nem o fogo 
mais violento podem caufar altera- 
çaô no vidro para o deftruir , ou 
para mudar-lhe a contextura : os 
licores mais fortes , e corrofivos, 
naô tem acçaô em qualquer mate- 
ria vitrificada , antes efta ferve de 
os guardar, e confervar. . 

- - Quem differa que hum fal al- 
chalino fixo , difpofto fempre ace. 
der ao ar, e à agoa , poderia em 
poucas.horas tomar hum corpo conf- 
tante , e inalteravel ! À polvora, 
e o vidro fados dous compoítos ad- 


Part. II. G mira- 


98 Problema 


miraveis , que fe naô foffeim vifz 
tos, e taô vulgarmente conhecidos, 
todos lhes negariaô a poflibilidade 
da exiftencia. Por iflo o Philofopho 
prudente , nunca nega abfoluta- 
mente que huma coufa pofla fer, 
por mais extraordinaria que pareça; 
porque para negar-fe a exiftencia 
defta, ou daquella coufa, he ne- 
neflario faber até donde chega o 
que a natureza póde; e elle limi- 
te de poder , fó Deos o fabe co- 
mo Author da meíma natureza. Os 
homens difcorrem fegundo algumas 
regras , ou principios de que tem 
noticia ; porém naô podem difcor- 
rer fobre outros muitos , de que naô 
tem conhecimento , ou o tem er- 

rado. aà 
Depois do artefa£to do vidro; 
eoda polvora , feguem-fe outros 
menos efpantofos, que fazendo-fe 
em 


De Archiveetura Civil. 99 


em pouco tempo , duraôd, ou po- 
dem durar muito , e ainda que de 
algum modo caufem menos admi- 
raçaô , naô faô porém menos ad- 
miraveis, fe confiderarmos attenta- 
mente as fuas propriedades. O fuc- 
co das uvas, a que chamamos mo(- 
to, he hum liquido doce, e fumma- 
mente phlegmatico , inerte , e fem 
efpirito : depois de fermentado per- 
de o fabor que tinha, mudado efte 
em outro mui diverfo ; adquirin- 
do abundantemente os efpiritos in- 
flammaveis ;'os quaes , depois de 
feparados por meio da deftillaçaõ , 
conftituem hum licor clarifimo , ar- 
dentiflimo , e diáphano ; e efte fen- 
do reétificado , ou deftillado fegun- 
da, e terceira vez, fica taô Íubtil, 
e concentrado, que perdendo o feu 
pezo efpecifico , fica já taô leve, 
que nada fobre o azeite ; e fobre el- 

Gii le 


ICO Problema 


le fe fuftenta fem miftura, ou con- 
fufaô. 

Nefte eftado , ou nefte grao 
de pureza , e exaltaçaô , chamaôd 
os praticos ao efpirito de vinho Al- 
chool. Efte he o menítruo univer- 
fal em que fe diflolvem as gommas ; 
e rezinas, e em que fe diflolvem 
tambem os oleos eflenciaes das plan- 
tas. Que differença notavel entre o 
mofto fimples, e o alchool ! À fer- 
mentaçaô foi o unico artifice da 
mudança ; a deftillaçaô naô fez mais 
do que feparar o licor inflammavel 
da maça do vinho que o produzio, 
E aflim fe vê que do moífto doce, 
glutinofo , e turvo vem a relultar 
hum liquido diáphano , qual he o 
vinho ; e deíte procede outro li- 
quido ainda mais diáphano , eain- 
da mais prompto a inflammar-fe , 
que he o efpirito do vinho ; ficando 

no 


De Architettura Civil, Tor 


no valo deftillatorio outro liquido 
infulfo, e phlegmatico em que re- 
fide o tartaro (a que chamamos 
farro ) corpo opaco, e fixo depois 
de calcinado. x 

Todos aquelles liquidos com 
qualidades diferentes, e contra- 
nas entre fi, achaô-fe potencialmen- 
te no fimpliflimo liquido do mofto; 
no qual o ultimo grao de mudança 
he aquelle em que fica reduzido a 
hum licor quafi corrofivo, que he 
o vinagre; e neíte eftado veio a 
perder inteiramente naô fó o fabor 
de moífto, e vinho, mas tambem 
ficou perdendo todos os efpiritos 
inflammaveis que continha. 

E com effeito do vinagre ne- 
nhum efpirito fe extrahe que feja 
capaz de fe accender ; antes o vina- 
gre todo fe compoem de proprie- 
dades oppoftas ao moíto, e vinho; 


Part. II. Gui prin- 


102 Problema 


principalmente na aptidaô que tem 
para produzir, e confervar em fi 
huma multidaõ innumeravel de ani- 
malculos invifiveis, e fó percepti- 
veis por meio do microfcopio , os 
quaes fe achaô como nadando em 
todo o liquido acetolo , como em 

elemento ou efphera propria. 
Quem diflera que hum licor 
quafi corrofivo, qual he o vinagre, 
era a verdadeira matriz de huma 
certa efpecie de animaes, que alli 
naícem , e alli vivem em continua 
agitaçaô , de que o microfcopio 
fez a primeira defcoberta! Quem 
diflera que efteve a pratica medeci- 
nal entendendo tantos annos que o 
vinagre era o anthelmitico mais fe- 
guro, fendo que naô ferve para 
deftruir a eftirpe verminofa, mas 
fim para a produzir! Muitas cou- 
fasha, que paffaraó fempre por no- 
civas 


De drchiseeturá Civil. 103 


civas, e depois veio a conhecerfg 
ferem faudaveis, et vice ver/a. 
Porém aquella metamorpho- 
fe, ou aquella mudança de hum li- 
cor para outro diferente, e de 
hum liquido com certas qualidades 
para outro liquido com qualidades 
contrarias, humas vezes faz-fe len- 
tamente, e outras com vagar; por 
graos) imperceptiveis, mas fempre 
fucceflivos ; porque a natureza , 
naô defeanfa, nem remitte a lua 
acçaô, :ou feja para formar ,: ou 
feja para transtormar ; e ainda quan- 
da nos parece que ella pára, ou fe 
fuípende, entaô trabalha mais ; por- 
que o trabalho vifivel, e mamfef- 
to talvez que naô feja o mais act» 
vo, !e forte. À quiefcencia; ou 
langor das partes, procede da mu- 
tua, e igual refiftencia das meímas 
partes entrefi; de forte, que o def- 
Giv canfo 


104 Problema 


canfo parece naô refulta da inac- 
çaô, mas da igualdade de acçoens 
oppoftas : aflim como duas forças 
iguaes quando mutuamente fe en- 
contrad, e refiftem, perde cada 
huma dellas o feu movimento ap- 
parente, mas (empre perfiftem na 
agitaçaô, ou força de reziftir. 

A luz nunca eftá em hum 
mefmo fer a noíTo reípeito, e tam- 
bem trabalha fempre; porque ou 
vai crefcendo, ou vai diminuindo ; 
porém taô infenfivelmente, que 
naô podemos perceber, nem o 
augmento, nem a diminuiçao ; e 
quando percebemos , he já depois 
de ferem paflados infinitos graos de 
mais ou menos luz. E com efleito 
na fombra póde haver fignal, na 
luz naô. Da mefma forte crefcem, 
e decrefcem as agoas; e commu- 
mente o que caminha de hum e 

o 


De Árchiteétiira Civil. ves 


fo lento, e fummamente igual, 
parece immobil; e o movimento , 
ou mudança de lugar Íó fe diftingue 
pelos termos, ou balizas que co- 
nhecidamente fe naô movem. Fal- 
tanos a paciencia para notar a ace 
çaô , e reacçaô dos corpos que fe 
movem muito lentamente. Obferva- 
mos melhor , e com mais certeza 
o que obfervamos comparadamente, 
ilto he, a mobilidade de hum cor- 
po pela immobilidade de outro ; 
o fabor de hum pelo femfabor de 
outro ; a dureza de hum pela bran- 
dura de outro; a fenfibilidade de 
hum pela infenfibilidade de outro ; 
o luminofo de hum objeéto pelo 
opaco de outro. 

Affim fe vê que a natureza 
commumente em tudo, o que pro- 
duz, vai lentamente, e por iflo 
faô perfeitas as Íuas nd 


106 Problema 


A arte he mais apreílada, e por 
iffo naô acerta fempre; e ainda 
obrando fegundo as regras de pro- 
porçoens e medidas conhecidas,mui- 
tas vezes erra, e fe deívia do in- 
tento procurado : fim faz quafi de 
repente o vidro, mas que importa 
fe o faz fragil, etaô facil de que- 
brar? Sendo que nem fe poderia 
fazer fem fer por aquelle modo ; e 
como de repente, e accelerada- 
mente , porque o fogo devendo fer 
violento , nefte eítado naô have- 
riaô vafos que podeflem conter a 
materia vitrificavel fem fe vitrifica- 
rem tambem; de que refultaria in- 
troducçaô de fragmentos heteroge- 
neos no corpo do meímo vidro , 
milturados confufamente;com o que 
ficaria imperfeita a maffa vitrifica- 
da, fem adquirir duétilidade no 
eftado de fundiça 6. 

O ferro 


De drckiteéiurá Civil. Goy 


O ferro, o cobre, couro, a 
prata faô metaes que fe naô fun- 
dem fem calor grande, e eíte de- 
ve fer adminiftrado como de repen- 
te; porque fendo pouco aétivo, ain- 
da que dure por efpaço mais conti= 
nuado , naô fe fundem os metaes; 
em lugar que baftaraô poucos mi- 
nutos para fe fundirem, quando o 
calor he tal, que póde duvidir ou 
desfazer o nexo que une as partes 
metallicas entre À, e as tem como 
encadeadas, e intimamente chega- 
das humas com as outras. Porém 
naô haô de baftar feculos para fa- 
zer aquella defuniaô, quando o fo- 
go naô adquire o grao precifo de 
calor; ou quando efte naô perfifte 
fucceflivamente no meímo ponto de 
actividade. Os mefinos metaes de- 
pois de excandecidos obedecem ao 
martello facilmente , mas he por im- 

pulfos 


108 Problema 


pulfos apreflados , e repetidos fem 
defcanfo ; porque em o ar frio fe 
introduzindo no corpo do metal, 
fica efte adquirindo mais dureza, e 
tornando a tomar toda aquella que 
deve ter naturalmente. 

De tudo , o que fica expofto , 
devemos inferir que entre os phe- 
nómenos naturaes huns ha , que fe 
formaô de vagar, e que fem hum 
certo tempo naô alcanfad aquella 
perfeiçaô, ou aquelle fim para que 
os deítina a natureza; e pelo con- 
trario ha outros (ainda que em me- 
nos numero) que exigem prompti- 
daô, eque fem efta naô correfpon- 
de nelles, nem fuccede o efeito 
que fe efpera. Nefta clafle entra a 
cal, que fe prepara para a conftruc- 
çaô dos edificios. 

Supponhamos cozida , ou cal- 
cinada a pedra de que a cal fe faz; 

de- 


De drcbiseciura Cívil, 109 


depois deve fer reduzida a pó pela 
aíperfao fuccefliva da agoa pura 
fobre a mefma pedra: porém efta 
afperfaô deve começar-fe, e aca- 
barfe fem que fe metta muito tem- 
po em meio. "Tambem naô deve 
fer tanta a quantidade de agoa , 
que poíla reduzir a pedra em pol- 
me, ou maíla; porque neite efta- 
do fica como fem fubítancia a cal, 
e inhabil para qualquer obra. 

À razaô he, porque (como já 
diflemos) a força da cal toda con- 
fite nos efpiritos igneos concen- 
trados na pedra pela acçaô do fogo, 
e introduzidos intimamente nos in- 
teríticios della. Aqueles efpiritos 
naô fe podem confervar todos ; 
mas he precifo confervaremfe os 
que póde fer : nefta hypothefe fuc- 
cede que a reducçaô em pó pela 
aíperfaô da agoa, ainda que al- 

guns 


IO Problema 


guns efpiritos fe diffipem , outros 
fe confervaô, Porém fe a agoa for 
demaziada, e em quantidade tal 
que reduza a pedra em mala, ou 
polme, os efpiritos igneos todos fe 
diflipaô, e a maíla, que fica, he 
inerte, e fem calor. 

Na arte da Agricultura fe co- 
nhece aquella verdade phyfica ; por- 
que em muitas regioens coftumad 
fecundarfe com cal os campos; e 
ilto naquellas partes em que a cal 
fe fabrica com difpendio pouco ; 
tanto por fer abundante a lenha, 
como por haver pedra propria para 
aquelle minifterio. Para o dito fim 
naô fe pulveriza a pedra , mas logo 
ao fahir do forno he conduzida para 
as terras que fe querem fecundar ; 
e alli fe poem dividida em porçoens, 
ou monticulos diverfos, cobertos 
eftes com barro bem amafado, 

para 


De ArchitecluraCivil. 111 


para que o calor da cal fe naô dif. 
fipe de repente pela acçaô do ar, 
depois de eftar pulverizada pela hu- 
midade do chaô : entad a repar- 
tem igualmente pela terra; ficando 
efta recobrando de algum modo 
o vigór perdido , e animada por 
aquelle calor artificial, para pro- 

duzir abundantemente. 
Se porém aquella pedra for 
reduzida em mafla, deitandolhe 
agoa em quantidade tanta, quea 
mefma pedra: fe derreta , ou desfa- 
ça em polme, efle-fica inhabil, -e 
totalmente :improprio para o inten- 
to; porque os efpiritos igneos, que 
involvidos com a terra lhe conci- 
haô fecundidade, diflipad-fe por 
meio de huma exhalaçaô promptas 
e violenta. Sim he precifoque em 
parte fe diffipem ; porque ; eftando 
todos, ou eftando a pedra de cal 
com 


II> Problema 


com toda a fua força, ferve mais 
de cauítico deftruente , que de au- 
xilio vegetante. 

Todas as producçoens, ou fe- 
jaô vegetaes, animaes, ou mine- 
raes , exigem hum certo grao de ca- 
lor proporcionado a cada huma ; 
porque fe o calor he mais intenfo , 
deftroe; fe he mais remiflo , do que 
deve fer, naô excita. Os animaes 
querem hum grao de calor que fe 
fente apenas, e por iflo fe chama 
natural. O feto tem no utero ma- 
terno hum liquido em que eftá 
como nadando em banho menos 
que vaporofo. Os vegetaes amaô o 
calor de huma atmoÍphera tempera- 
da; e como nefte ha mudanças in- 
finitas, dahi vem a variedade no 
modo de vegetar. Os mineraes faô 
os que fe formaô por meio de ca- 
lor maior; por iflo muitas pedras 


fe 


De Árcbiteetura Civil. 113 


fe calcinaô pelo calor da-meíma 
terra; e da melma forte que a cal 
fe faz artificialmente , como fe ob- 
ferva no geílo, e em outras feme- 
lhantes pedras, nas quaes fe acha 
a propriedade da cal, ainda que 
em grao, ou força algum tanto in- 
ferior. 

E a razaô, porque a cal fecun- 
da a terra, naô vem fó do calor 
que em fi contém, mas porque 
aquelle meímo calor attrahe a humi- 
dade nutritiva efpalhada em todo o 
ambito do ar. E com efleito fem 
calor, e humidade naô fe dá ve- 
getaçaô vegetal, animal, nem mi- 
neral, "Todos os corpos vegetaõ, 
fegundo a indole que lhes he pro- 
pra. Os meímos metaes achados 
no lugar, em que fe formaô, moftrad 
muitas vezes configuraçoens, ou 
delineamentos vegetantes. 


Part. II. H Cada 


114 Problema 
Cada hum dos faes affe&a hu- 


ma figura propria, e infeparavel de 
cada hum; e quando a perdem, 
mudaô de natureza, e já naô faô 
os meímos. Tudo fe move:, po- 
rém fem calor tudo entorpece. A 
fufpenfaô de acçad he morte. A 
humidade he receptaculo dos efpi- 
ritos feminaes ; eftes naô fe alteraô 
fem calor; e excitados huma vez, 
tendem a bufcar inceflantemente a 
fua propenfaô , ou genio natural. 
Em quanto o calor fubfifte, profe- 
guem na fua operaçaõô ; fe o calor 
fe extingue, ficaô no ponto em 
que fe achavad, e fe deíviaô do 
caminho começado. Daqui reful- 
taô effeitos raros, e partos monf- 
truozos. 

No concurfo porém da hu- 
midade, e do calor, ainda fe naô 
fabe qual deítes dous agentes he 

o prin- 


De Arcbiteétura Civil. 115 


o principal, ou qual delles entra 
em mais porçaô na compoliçaõ dos 
mixtos. À humidade parece que 
conftitue o corpo, e o calor dif. 
poem a organizaçaõ ; aquella faz 
a mala, efte a figura; ou huma a 
materia, e outro a forma: fendo 
que hum, e outro faô infeparaveis; 
porque verdadeiramente naô há hu- 
midade fem calor, nem calor fem 
humidade. Iíto parece hum para- 
doxo, mas naô he o que parece ; 
porque a agoa quando perde o ca- 
lor em hum certo grao, fica corpo 
duro, e folido, como fe obferva 
bem no gélo: o calor quando per- 
de totalmente a humidade, fica 
tambem perdendo o movimento ra- 
pidiflimo em que confifte a fua na- 
tureza ; nefte eftado fe extingue in- 
fallivelmente, como no fogo vulgar 
fe ve; O qual, em lhe faltando a 

Hi com- 


LIÓ Problema 


communicaçaô do ar (que he don 
de recebe a humidade 3 apaga-fe ; e 
quando fe lhe introduz mais humi- 
dade por meio do afloprar de hum 
folle, crefce em força; e aétivi- 
dade. 
- Quem differa que a humida- 
de, ea agoa tambem fabem accen- 
der o fogo da meíma forte, que o 
fabem apagar? De que o fabem 
apagar, todos o vemos commu- 
mente, e naô he neceflario prova, 
nem demonítraçad ; porém de que 
o accendem, naô he menos certo ; 
e ainda que o vemos, he fem ad- 
vertir, e fem reparo; porque tudo, 
quanto vemos fem advertencia nem 
ponderaçaô , he como fe o naô vil- 
femos. É com efeito a humidade , 
e aagoa, em quanto eltaô em fub- 
ftancia liquida, fuffocad , e apa- 
gaô o fogo promptamente ; porém 
aflim 


De Archiseclura Civil 117 


aflim que fe reduzem a fubftancia 
vaporola, e halituofa , entaô en- 
tretem o fogo, e lhe fazem dobrar, 
e ainda triplicar os graos de aéti- 
vidade , e força. 

Ito fe conhece por meio do 
inftrumento chamado eolipilo, com 
que a phyfica experimental def- 
cobrio; e demoftrou aquella verda- 
de phyfica. Naô he o ar impellido 
do vacuo do folle o que augmen- 
ta o calor do fogo, mas he a hu- 
midade defle meífmo ar rareficada 
a que augmenta, e faz creícer pro- 

orcionalmente o movimento rapi- 
do daquelle fubtiliflimo elemento. 
Aflim o moftra o eolipilo em hum 
inftante. Os licores fermentados , e 
inflammaveis accendemfe, ainda ef- 
tando em fórma liquida ; porém, 
lançados fobre o fogo, naô o fa- 
zem mais aétivo : efta propriedade 
Pare. IL H im fó 


118: Problema 


fó tem a agoa ou humidade , re- 
duzidas em vapor, e dirigidas com 
violencia para a parte do fogo, que 
fe quer fazer mais forte. 

Os metaes ( exceptuando a 
chumbo e eftanho ) naô fe fundem 
fem que a humidade do ar avive o 
fogo; e por mais que os queira- 
mos fundir.por meio de materias 
refinozas ,' como faôd o pinho, o 
alcatraô, ou outros femelhantes 
mixtos oleozos, naô he poflivel 
que fe fundad; por mais tempo 
que queiramos confomir na opera- 
çaô. O ferro funde-fe no enxofre 
derretido, e acefo, mas naô he 
pelo calor do enxofre , mas porque 
efte fe une intimamente com o fer- 
ro, e porque o acido do melmo 
enxofre val o mefmo que hum li- 
cor corrofivo em que aquelle metal 
fe funde ;'e principalmente porque 

a ho- 


De ArchitecturaCivil. 119 


a homogeneidade de principios he 
caufa das difloluçoens dos corpos 
huns nos outros; a heterogeneida- 
de os faz indifloluveis : por iflo al- 
guns repellemfe reciprocamente , 
outros attrahemfe. A impulfaô, e 
repulfaô parece que vem da Te. 
e e diverfidade. sos! 
ns A pedra iman ( chamada de 
cevar) Íó attrahe o ferro, e nada 
mais; porque entre o ferro, e 
aquella pedra vai pouca “differén- 
ça; Os principios, de que fe com- 
poem, Ífaô quafi os mefmos. :Hu- 
ma porçaô de ouro fundido jun- 
ta-fe com a prata na mefma: fundi- 
çaô, e formaô hum'fó corpo , por- 
que os principios: faô os meímos 
na razaô de metaes ; porém melhor 
fe funde com outra por çaô tambem 
de ouro ;: porque naô fó faô unifor- 
mes na razaó generica de metaes, 
H iv mas 


120 Problema 


mas tambem na razaô de hum tal 
metal, Para haver entre partes 
uniaô intrinfeca , e perfeita, he ne- 
ceffario que fejaô femelhantes no 
genero da qualidade, ainda que fe- 
jaô diverfas no numero da efpecies 





meça meters eee dep ee mete te 


CAPITULO VII. 





sã que em humas com- 
pofiçoens era precifo vagar, 
e em outras preíla; e que humas 
deviaô fer preparadas lentamente 
e outras como repentinamente , 
e fem difcontinuar ; porque a hu- 
mas perde huma maô accelerada , 
e prompta, e a outras diflo mef- 
mo depende o Íuccederem bem. 
Tudo ilto he para moftrar que a 
pulverizaçad da pedra calcinada 

pela 


De Archiseélura Civil. 121 


pela afperfaô da agoa deve prati- 
carfe por hum aéto Íucceflivo, e 
naô interpolado.” Ifto exemplifica- 
mos com a fundiçaô de alguns me- 
taes, os quaes naô cedem fem lhes 
fer adminiftrado hum calor aétivo , 
e fucceflivo; para cujo fim he ne- 
ceflario que o fogo feja incitado 
pelo ar exterior introduzido nelle 
com violencia, como fe obferva na 
agitaçaô do fole, artificio ideado ; 
e achado para aquelle intento. 
Porém que-folle ha que excite 
o fogo nos incendios que a'conte- 
cem algumas vezes , nos quaes fe 
achaô os metaes fundidos fem de- 
pendencia de artifício algum ? A 
efta objecçaõ facilmente fe refpon-- 
de Ífó com advertir que he “raro 
o grande incendio, em quê o vento 
naô feja o que o defperte'; e no 
mefmo vento temos hum fole, e 
fem 


722 Problema 


fem artifício algum , e ainda mui- 
to mais aétivo ; porque o folle naô 
incita o fogo fe naô naquella par- 
te, para donde fe dirige a fua ac- 
gaô; em lugar que o vento por to- 
das as partes avivaa chama, por- 
«que a comprehende toda ; por iffo 
ie fundem os metaes dificeis de fun- 
dir ; porque:naquelle fogo achaô 
o mefmo , ou maior grao de calor 
«om que fe fundem com effeito. 
Ainda temos outro fundamen- 
tos de que procedem o fundirem-fe 
os metaes em todos os Incendios, 
ainda quando naó ha vento ; e vem 
a fer, que ha' certas fituaçoens 
que por fi melmas attrahem o ar 
vigorofamente , e o dirigem por ef- 
paços determinados ; porque, fe ob- 
fervarmos bem , veremos que aquel- 
las portas; que eftaô fronteiras, por 
ellas pala conhecidamente o ar, 
“ainda 


De Archiseitura Civil. 123 


ainda em-eftaçaô ferena. E regu- 
larmente, fe em hum efpaço gran- 
de, fó lhe:dermos huma falida 
eftreita, e hmitada , nefta veremos 
que o,ar paíla com mais força, e 
fe faz perceber fenfivelmente. Por 
eita regra fe inventarad varios mos 
dos de fornalhas , fegundo .ôs ufos 
mechanicos, para que eraô necef, 

farias. 
Além difto nos incendios en- 
contraô-fe commumente ceftanho, 
o chumbo , o bronze. Aquelles dous 
metaes» fempre faô fufiveis , e fe 
fundem com effeito em calor remif- 
fo , ou branda ; fe entre elles: fe 
acha algum ouro, ou prata”; eftes 
metaes , que aliás exigem.! maior 
fogo, fem efte chegaô a fundir-fe 
afim. que.tocad no teftanho:, ou 
chumbo derretido .; afim como fe 
desfazem , ouamalgamaó no azou- 
gue s 


124 Problema 


gue,ainda fem calor algum. Ifto vem 
pela razaô que já diffemos , de que 
hum metal fundido faz fundir fa- 
cilmente outro , pela analogia que 
tem huns com os outros , fégundo 
a qual hum metal fundido penetra 
eoutro, e o faz fundir tambem. 
Daquella miftura , ou confu- 
faôd entre o ouro, e prata fundi- 
dos com o eftanho, ou bronze , re- 
fulta difficuldade quando he quef- 
taô de feparallos ; porque em quan- 
to eftaô confulos , nem o ouro, 
nem a prata tem valor determina- 
do, e certo, porque eftaô incapa- 
zes de fervirem , e faô totalmente 
inhabeis para ufo algum ; viíto que 
o bronze , e o eftanho induz fragi- 
lidadade em cada hum dos dous 
metaes, e quebraô facilmente ao pri- 
meiro golpe do martello. Por io 
a feparaçaô , ou affinaçaô he in- 


difpen- 


De Architethura Civil. 1 24 


difpenfavel, e deve procurar-fe pe- 
los meios mais feguros, e compe- 
tentes , com tanto que fe pratique 
em fórma, que fó fe deftrua o ef- 
tanho , ou bronze , fem fe diffi- 
par alguma parte do ouro , ou 
prata. 

Nefte cafo recorrem os ar- 
tifices aos meios fabidos de affinar; 
porém eftes meios fabidos naô faô 
os que. convém , porque mais con- 
duzem para perder parte do ouro; 
ou prata, que para os aproveitar. 
O primeiro meio , que lhes lembra, 
he aquelle que chamaô de cupella; 
mas efte tambem he o primeiro 
oe naô ferve ; porque. a cupella 
ó deve ter lugar quando aquel- 
les dous metaes fe achaô miftura- 
dos com ferro , ou cobre ; e naô 
quando a miftura he de eftanho, 
ou bronze ; porque o eftanho pe- 

netra 


126 Problema 


netra a cuppella entranhando-fe 
nella com parte de ouro, ou pra- 
ta, até que a rompe. O fegundo 
meio , a que recorrem , he o anti- 
monio ; porém efte mineral vola- 
tiliza à prata ; e tambem o ouro 
quando acha eftanho nelle. O ter- 
ceiro meio , de que alguns ufaõ , he 
o do folimaô ; porém efte, em achan- 
do eftanho , ou bronze incorpora- 
do no ouro , ou prata , faz exha- 
lar o eftanho , e efte leva comfi- 
go huma grande parte da mefima 
prata, ou ouro, fazendo huma ef- 
pecie de butyrum que fe diflipa no 
ar, e juntamente os metaes de que 
o mefmo butyrum fe fórma. 

O quarto meio,a que recorrem, 
he o do falitre; porém efte tem os 
mefmos inconvenientes ; porque, em 
achando eftanho, ou bronze , faz 
com eftes metaes aquella detona- 

çaõ 


De Architectura Civil. 127 


çaô a que os Chimicos chamaô fi)- 
men Sovis , na qual o eftanho fe 
evapora , e tambem baftante parte 
do metal a que eftá conjunêto , dif. 
fipando-fe hum, e outro no mef, 
mo inftante em que o nitro chega 
a penetrallos. O artifice naô conhe- 
ce o que perdeo de prata , ou ouro 
que affinou por aquelle modo ; e o 
pezo , que lhe falta no metal affina- 
do, parecelhe que foi metal im- 
puro que o falitre confomio: po- 
rém engana-fe ; porque naquelle 
cazo o falitre naô Íó confome o ef 
tanho , ou bronze que o metal tem; 
mas tambem parte defle mefmo me- 
tal que fe quizer afinar por aquelle 
méthodo. 

Para prova do referido, to- 
memos v.g. huma porçaô arbitra- 
ria de ouro, ou prata; efta feja de 
doze dinheiros, e o ouro da lei 

de 


128 Problema 


de vinte e quatro quilates. Eftes 
dous metaes poftos naquellas leis, 
naô pódem quebrar depois de fun- 
didos, fe na operaçaô naô houver 
erro. Ifto fuppoíto como princi- 
pio certo, fundamos hum daquel- 
les metaes em hum cadinho, e 
nefte mefmo lhe deitemos huma 
igual porçaô de eftanho , ficará 
huma maífa compofta de ouro, e 
eftanho; ou de prata, e eftanho. 
Aquella maffa , fe a quizermos affi- 
nar, ifto he, fe quizermos feparar 
do ouro, ou da prata o eftanho 
que em fitem, e para iflo nos fer- 
virmos do falitre, veremos infalli- 
velmente que efte fal, em chegando 
á mafla fundida , e fundindofe tam- 
“bem , faz com oeftanho, a que fe 
une, o chamado fulmen Fovis. Aca- 
bada a operaçaô, e pezando o ou- 
to, ou prata que continha a maíla, 

entaô 


De Architettura Civil. 129 


entaô acharemos bem vifivelmente 
o quanto na operaçaô fe perdeo de 
prata, ou ouro. 

Quando a affinaçaô , praticada 
por aquelle modo, fe faz em por- 
çoens grandes, naô he facil de dif- 
tinguir a perda que nella houve ; 
porém póde fazer-fe a conta por ef- 
te modo; dizendo: Por cem mar- 
cos de ouro no eftado , em que fe 
achava, davaô-me, ou poderme- 
hiaô dar tanto ; aquelles cem mar- 
cos; depois de affinados , ficarãô re- 
duzidos a oitenta v. g.; por eftes 
oitenta marcos de tal lei devem 
darme tanto ; efte tanto abatido do 
total, que me davaô pelo ouro an- 
tes de affinado , a quantia, que fo- 
brar naquelle total, he a que per- 
di na aflinaçaô; a cuja perda devo 
accrefcentar mais a importancia do 
falitre, e todas as mais deípezas 

Part, JE I feitas 


130 Problema 


feitas na meíma affinaçaô. 
Aquella mefma conta, feita em 
porçaô grande, pode fazer-fe tam- 
bem em porçaô pequena quutatis 
mutandis , dizendo : Por efte marco 
de ouro de tal lei devem darme 
tanto; o meífmo marco depois de 
affinado ficou reduzido Ífómente a 
tantas onças ; por eftas devem dar- 
me tanto; efte tanto abatido da 
quantia que me davaôd pelo marco 
de ouro no eftado em que fe acha- 
va, o que falta para completar 
aquella quantia, que me davaô, he 
juftamente o que perdi; a cuja per- 
da devo da mefma forte accrefcen- 
tar a importancia do falitre, e to- 
das as mais que fiz na aflinaçaô. 
Naô he menos para notar 
que o ouro, ou prata antes de af. 
finados perfeitamente, naô fe po- 
dem enfaiar , nem faber as Íuas 
Jeis ; 


De AÁrcbiteélura Civil. 3x 


leis; e fe de faéto fe enfaiad, faô 
errados os enfaios infallivelmente : 
e aquelles metaes fe dizem affina- 
dos, quando acquirem a ductilida- 
de neceflaria; porque em quanto 
quebraõ ao golpe do martello, ou 
em quanto quebraô no paflar pe- 
las fieiras; he fignal certo de con- 
terem materia eftranha que os faz 
precifamente quebradiços: e entaô 
fe diz naô eftarem affinados, ecom 
effeito naô eftaô; porque a duéti- 
lidade he circunítancia indifpenfa- 
vel em cada hum daquelles dous 
metaes : o falitre fim os faz duéti- 
veis em certos cafos; mas quando 
contém eftanho , ou bronze, a du- 
étilidade , procurada por meio do 
falitre, he muito à cuíta dos mef- 
mos metaes , porque huma parte 
delles fe perde na operaçaô ; fe 
bem que a perda verdadeiramente 

— Ti he 


132 Problema 


he do fenhor, naô dos metaess 
nem do artifice que os prepara; e 
efte fempre faz a conta em fórma, 
que o fenhor do metal naô perce- 
ba a fua perda; eelta fó quem he 
da mefma profiflaô a póde facil. 
mente diftinguir. 

Porém já diffemos aíflima que 
regularmente a imperícia naô he 
culpa. Hum artifice fatisfaz quando 
fabe o mefmo que os outros da Íua 
profiflaô fabem. O cafo dos incen- 
dios (que he quando coftuma ha- 
ver confufaôd , ou miftura de me- 
taes ) he cafo raro, para o qual ne- 
nhum artifice póde eftar aparelha- 
do , nem ter feito eftudo para fe- 
parar metaes EE raras vezes fe 
achaô juntos. Mas fempre pelo que 
fica dito ficará fabendo que aquel- 
la feparaçaô:naô deve fazer-fe por 
meio do falitre.; e que he neceíla- 

rio 


De Architelura Civil. 133 


rio bufcar outro caminho para fe- 
parar-fe o eftanho; e.o faber que 
hum caminho naô he bom , he meio 
para bufcar outro melhor: eu o def- 
crevera aqui fem fazer diflo my(- 
terio , nem fegredo;; porém naó 
devo entrar em huma digreflad, que 
faria perder de vifta o noflo ponto 
principal. 


CAPITULO IX. 





T Inhamos dito, (e era o ponto 
M em que ficâmos ) que a pul- 
seRRaçaE da cal pela aífperílaô da 
agoa Ífobre a pedra calcinada , de- 
via fer por hum aéto continuado , 
e naô deixado , e tornado a praticar 
por intervallos. Em prova difto fi- 
zemos mençaô de alguns exemplos; 

Part. II, Iii e te- 


134 Problema 


e temos outro na fermentaçaô de 
todas as farinhas de que eloa o 
paô; nas quaes a agoa ; com que 
fe amaífaô , deve fer lançada de 
vagar , mas fuccellivamente por 
hum aéto continuo , e naô inter- 
polado. Se a agoa he em menos 
porçaô , fica imperfeita a fermen- 
taçaôd; fe he em demazia , o que 
provém , he hum polme glutinofo , 
q indigefto : e em lugar de huma 
mafla fermentada, o que procede 
he huma efpecie de bitume vifco- 
fo, e fem fabor. 

Ito he afim; porgue naô ha' 
fermentaçaô perfeita , fem que as 
partes fermentaveis , trabalhem 
igualmente ; e para aflim fer ne- 
ceflitaô huma porçaô de agoa com-. 
petente: quando he muita, as par- 
tes achad-fe taô foltas, ou diluídas, 
que nenhuma tem acçaô para mo- 

ver-fé, 


De Architeélura Civil. 135 


ver-fe, nem fazer mover as oui 
tras; e quando he pouca , ficad co- 
mo prezas entre fi, e fem pode- 
rem entrar em reciproco movimen- 
to. He porém precifo que o paô 
fe coza logo, que a fermentaçad 
célla , e antes quafi no fim , que 
depois que ella tem ceflado intei- 
ramente; porque neíte eftado já naô 
creíce o pãô, nem acquire mais vo- 
lume, que o que tinha a maífa ao 
entrar do forno. Em conhecer aquel- 
le certo ponto , confifte aquella 
arte, : | 
O mefmo fuccede na fabrica- 
çaô , ou pulverização, da cal. À aí- 
perílao da agoa fobre a pedra cal- 
cinada a reduz em pó : alguma 
parte da mefma agoa fe evapora , 
e com ella alguns efpiritos igneos 
que a reduzem em vapor ; outros 
ficad concentrados no pó! e'fad 
Liv os 


136 Problema 


os que fazem aquella efpecie de pe- 
trificaçaô que fe obferva nos mu- 
ros antigos, e que fervem de mof- 
trar que foraô fabricados com bons 
materiaes. E com effeito o muro, 
que demolido efpalha no ar huma 
poeira fubtil, e como branca , dá 
indício certo de haver fido conftrui- 
do com materiees improprios ; por- 
que fendo fabricado com cal, e arêa, 
depois de paflar hum certo tempo; 
fica taô folido ; e compaéto, que 
quando fe desfaz cahe em pedaços 
unidos , e apenas faz huma poeira 
pezada, que fe naô póde Íultentar 
no ar, nem póde fubir a grande al- 
tura , mas logo fe precipita , fem 
o offufcar confideravelmente. 

Outro indicio verdadeiro de 
que os materiaes de huma parede 
foraô efcolhidos fem regra, e in- 
advertidamente , he que quando a 

pare- 


De Arcbiteélura Civil. 137 


parede.cahe, fica nas ruinas gran- 
de porçaô de pó chamado caliça 
vulgarmente, em: lugar que quando 
os materiaes faô bons , a caliça he 
pouca ; e para fe haver quando he 
precifa, neceílita pizarem- fe os pe-. 
daços da parede demolida. Porém 
como naô ha coufa no mundo, que 
em alguma occafiaô naô tenha al- 
guma ferventia, a caliça provinda 
do muro feito com materiaes im- 
proprios ferve a varios uíos, para 
que naô póde fervir a que provém 
de parede feita com bons materiaes. 
Ito fe obferva tambem na Agricul- 
tura ; porque os campos fe fecun- 
daô por meio de huma caliça impu- 
ra, principalmente quando a terra 
eftá cançada com as repetidas pro- 
ducçoens; porque eftas com effei- 
to elterilizad a terra , como enten- 
deo Marcial quando difle : p 
Ter 


138 Problema 


Ter centum Lybici modios de mefje 
coloni 

Sume , fuburbasus ne moriatur 
ager. 


A mefma caliça, que provém de 
materiaes irregulares, ferve para a 
fabricaçaô do falitre artificial, por- 
que nella fe acha o acido do fal 
commum , que coftuma fervir de 
bafe ao nitro, camo fe vê quando 
o falitre fe purifica ; porque depois 
de repetidas criftallizaçoens daquel- 
le fal aereo, no fim fe acha hum 
verdadeiro fal commum , que já fe 
naóô criftalliza como o nitro. Daqui 
vem que a agoa forte feita com fa- 
litre bruto naô he taô propria pa- 
ra diflolver a prata; porque , con-. 
tendo alguma parte do acido com- 
mum, efte tem a propriedade de 
diflolver o ouro, e a prata naô. 
Para 


De Architeétura Civil. 139 


Para nenhum dos referidos mi- 
nifterios ferve a caliça que provém 
de materiaes finceros ; porque nem 
para fecundar os campos , nem 
para as fabricas do falitre póde fer 
conveniente ; e vem a fer o mefmo 
que huma pedra moida, e efteril 
totalmente para aquelles ufos. Por 
iflo muitas vezes naô fuccedem bem 
alguns experimentos, fendo prati- 
cados (ao parecer ) com os mefimos 
ingredientes; porque qualquer cir- 
cunitancia baíta pára que oartifiz 
ce humas vezes configa o feu in- 
tento, e outras nãô ; é para qué 
trabalhando da mefina foge, e fe- 
guindo o meftno méthodo , nad al- 
canfe o que procura. 

* Ecom efeito quem ha de di. 
zer que entre as caliçás haja tanta 
diferença? e queicom huítas fé 
faça o que fe nad póde fazer com 

ou- 


140 Problema 


outras? Iíto mefmo fe obferva em 
outros muitos artefactos, v. g. fe 
deitarmos a diffoluçaôd da prata em 
agoa da mais pura fonte, logo a ve- 
remos turvar-fe, e tomar a cor de 
leite :. porém a agoa da mefma fon- 
te, fe for primeiro deftillada , naô 
veremos nella tal mudança , e ha 
de ficar taô diáphana como era, e 
a veremos milturar com aquella dif- 
foluçaô , fem perder a fua tranípa- 
rencia natural. A agoa pura depois 
de deftillada parece que naô ad- 
quirio, nem perdeo nada, por on- 
de ficafle mais pura do que tinha fi- 
do; e ifão porque a tranfparencia 
ou claridade he a mefma; o pezo 
efpecifico,obfervado antes da deftil- 
laçaô, tambem he o mefmo; e fe 
ha differença alguma de pezo a pe- 
zo, he certamente imperceptivel, 


Porém o contrario moftra a 
diflo- 


De Architecturá Civil. 141 


difloluçaô da prata, porque logo 
fe precipita em toda, e qualquer 
agoa , e ainda na da chuva (toma- 
da em parte livre) que fem duvida 
he a mais pura , e como tal mais 
leve que todas quantas agoas ha ; 
e Íó na agoa deftillada naô fe preci- 
pita aquella: difloluçaô, nem con- 
«cilia cor alguma ; o que he fignal 
clariflimo , e infallivel de que as 
agoas , por mais puras que pare- 
çaôd, com tudo naô o Ífaô ; por- 
que fempre contém porçaô acida 
ou alchalina , imperceptiveis total- 
mente á vifta , e totalmente in- 
fenfiveis ao fabor, e em pezo mi- 
nutiflimo , que naô póde perceber- 
fe, nem ainda por inftrumento al- 
gum hydraulico; de que refulta a 
precipitaçaô da prata; cuja diflo- 
Juçaô no efpirito do nitro he a pe- 
dra de toque para examinar-fe a 

ulti- 


142 Problema 


ultima regularidade , e precizãô , 
a qualidade de todas quantas agoas 
ha no mundo ; e para diftinguir in- 
fallivelmente o grao de pureza, ou 
impureza dellas, fegundo a quan- 
tidade de prata que nellas fe pre- 
cipita, e fegundo a turvaçad lactea 
que Ífuccede (empre. 

Daqui poderiamos inferir, e 
naô fem provavel fundamento, que 
a agoa deftillada feria a melhor pa- 
ra beber, e mais faudavel, viito fer 
de todas a mais pura, e por con- 
fequencia a mais leve, por naô con- 
ter (ou conter imperceptivelmente) 
particulas acidas , ou alchalinas , 
que introduzidas nos vafos; em que 
a circulaçaõ fe faz, podem fer caufa 
primeira de muitas obítrucçoens , e 
coagulaçoens que naquellas partes 
fe fórmaô pela fucceflaô do tempo , 
e incuraveis quafi fempre, ou, ao 

menos 


De Árchitetlura Civil. 143 


menos, difficeis de curar. Com tu- 
do, naô obitante o que temos di- 
to, e ferem com effeito as agoas 
deftilladas as mais puras, e mais. 
ligeiras, nem por 1flo faô proprias 
para fe beberem ; eiftohe tanto af- 
fim, que ainda os que ufaô de 
agoa morna em tempos frios, (o 
que aliás he mui conveniente ) nad 
a devem beber amornada toda, mas 
fim deftemperarem (como fe diz) 
a agoa fria com agoa morna, e 
naô amornada toda ao calor do 
fogo. 

“A razaô de diferença, ou a 
razaô, porque aquillo deve fer af- 
fim, exigiria hum difcurfo dilata- 
do, e proprio para hum profeilor 
de Medicina » à quem compete co- 
mo privativamente tudo o que ref- 
peita ao corpo humano, ou feja 
para curar a enfermidade, ou Íeja 

para 


144 Problema 


para a precaver, fegundo o axio- 
ma certo em que fe diz: 


Principiis obfra, fero medicina pas 
ratur 

Cum mala per longas invaluere 
moras. 


E fuppofto que he permittido a to- 
dos o difcorrer em algumas partes 
daquella nobiliflima (ciencia, e au- 
gmentar os feus thefouros com ob- 
fervaçoens proprias, (porque ella 
mefma deíta forte começou, e te- 
ve a Ífua origem de obfervaçoens 
particulares ) com tudo , iflo deve 
proceder quanto à narraçaô ou ex- 
pofiçaô de hum faéto fimplefmente 
expoíto, e naô quando fe trata dos 
porquez , ou razoens phyficas, de 
que o mefmo faéto veio a refultar. 
Neite cafo o profeílor tem mais 

autho- 


De Architettura Civil. 14s 


authoridade , ou deve faber mais 
do que outro qualquer : fe bem que 
tudo, quanto heutil, todos tem di- 
reito, ou obrigaçaô para o dizer ; 
pre a utilidade publica deve 
preferir a toda, e qualquer confi- 
deraçaô ; por iflo nefte Tratado , 
ou Problema de Architeétura, dif- 
corro eu fobre profifloens que naô 
profeílo, e muitas vezes me aparto 
do intento principal, Íó por naô 
omittir o que tem com elle alguma 
relaçaô, e de cuja expofiçaô póde 
refultar alguma utilidade. Além 
difto , profeflor da arte naô he 
fó quem a exercita, mas tambem 
todo aquelle que de algum modo a 
fabe. Tornemos á caliça. 
Pelo que fica aflima referido 
fe verifica bem que a differença 
notavel que ha, e que obfervamos 
com effeito nas caliças , denota a 


Part. II, K diffe- 


146 Problema 


differença que ha tambem nos mu 
ros, de que foraô extrahidas ; naô 
fó a refpeito do tempo em que fo- 
raô conftruidas , mas a refpeito dos 
materiaes com que foraô fabricados. 
Os muros , de que provém muita ca- 
liça depois de demolidos ; e aquel- 
les, que no inftante da ruina elpa- 
lhaô no ar huma grande porçaô de 
poeira fubtil, e importuna , e que 
em eftaçaô ferena fe conferva mais 
efpaço Íufpenfa no mefmo ar , mof- 
traô com certeza que forad Fabri» 
cados com materiaes incompeten- 
tes. 

Aquelles muros porém , que 
quando cahem efpalhaô huma te- 
nue porçaô de pó » e que efte em 
eftaçaô igual naô fe fuftenta mui- 
to no ar que offufca ( porque he 
mais pezado, emenos fubtil) dad 
niílo mefmo prova certa de que 

forad 


De Archiseltara Civil. 147 


foraô fabricados com regularidade, 
ifto he, com bons materiaes: e 
ifto porque os pança: naô fe 
havendo unido bem os feus princi= 
pios, confervad aptidaô para fe 
dividirem em partes minutiflimas ; a 
que chamamos pó : os fegundos por- 
que havendo uniaô eftreita entre os 
Ífeus materiaes , ficaô eftes mais pe- 
zados, e 'difficilmente fe feparaõ ; 
e ainda quando fe dividem , he em 
particulas maiores; e poriflo, pe- 

zando mais, logo fe abatem. 
Segue-fe pois do que fica 
expoíto ,- que a pedra de cal logo 
ao fahir do forno deve fer pulve- 
rizada por meio da agoa lançada 
fucceflivamente , e de vagar, mas 
fem mais interpolaçaô de tempo 
que aquelle que he precifo para fe 
moverem de huma parte para ou 
tra as pedras:que fe vaô pulverizan- 
FT do 3 


148 Problema 


do, até que toda a pedra fique 
igualmente reduzida em pó; eain= 
da depois defta reducçaô , deve 
continuar-fe o mefmo movimento , 
para procurar-fe a igualdade necef- 
faria, e para que naô hajaô porçoens 
pequenas menos bem pulverizadas 
e naô de todo defunidas. Todos os 
artifices fabem efta pratica, mas 
talvez que naô conheçaô a impor- 
tancia de que he, 





meme remo meme me maça mt era meme 





CAPITULO X. 


Elo modo acima deduzido te- 
mos a cal propria para o ulo 
deftinado : mas a cal Íó por fi naô 
faz a obra; nem eftando Íó fe pe- 
trifica, por mais bem que feja pre- 
parada; neceílita aréa pura, e fi» 
na. 


De Architeélura Civil. 149 


na. Eltes faô os dous ingredientes, 
que eftando exactamente miftura- 
dos por meio da agoa competente, 
e em proporçoens devidas, unem- 
fe de tal forte, e taô intimamente, 
que delles refulta huma efpecie de 
lapidificaçaô ; ficando habeis em 
pouco tempo, para refiftirem á ac- 
çaô dos elementos, e principal- 
mente à acçaô da agoa ( que he 
contra quem fe dirige o intento 
principal da obra) e para conterem 
apertadamente as pedras cruas, de 
que os muros fe compoem, fazen- 
do com ellas hum corpo congluti- 
nado, e fó defunivel por huma 
grande força, ou por hum grande 
movimento. 

A pureza da arêa naô confif- 
te em outra coula mais, do que 
em fer fômente arêa, fem outro 
algum corpo junto : fe contiver al- 

Part. TI. K ui guma 


ISO Problema 


guma porçaô de terra, ou barro, 
Já fica fendo arêa impura, e total- 
mente impropria para a conftruc- 
çaô dos muros; porque a terra ou 
barro, de qualquer genero que fe- 
jaô, impedem a cal para naô li- 
gar-fe, nem petrificar-fe com a 
aréa; e ifto como fe fofle hum in- 
termedio que retunde a acçaô da 
cal na aréa, e a deíta tambem na 
cal; da mefma forte que as mate- 
rias oleofas enervaô os efpiculos fa- 
linos de todos os corrofivos, ou fe- 
Jaô naturaes, ou artificiaes. 

O barro milturado, e amal- 
fado com arêa, faz hum pó folido , 
depois de eftar fecca a compofiçad, 
como fe ve no tijolo, e telha, e 
«em outros artefaétos femelhantes , 
fegundo o ufo cominum, para que 
fe fazem. Porém fe ao barro junto 
com a arêa lhe múlturarmos cal, 


Já 


De Architeilura Civil, agi 


já fe naô faz nem telha , nem tic 
jolo; porque ertaôd a cal he o in- 
termedio que impugna a liga exa- 
ca entre aarêa, e o barro. 

O barro ainda he mais impro- 
prio, do que a terra fimples; por- 
que efta, ainda que propenda a def- 
unir-fe em eftando fecca;; e que 
aquelle mais fe incline a fazer cor- 
po quando endurece; com tudo o 
barro fempre he mais unétuofo , do 
que a terra; e aquella meíma un- 
etuofidade ( quali faponacea ) lhe 
interrompe o poder ligar-fe com ou- 
tros corpos que «naô fejaô da-fua 
natureza. Por-iflo na fabricaçaô da 
telha, ou do tijolo , efcolhem-fe 
barros; differentes , para que o que 
huns tem de fortes, e queros faz 
abrir quando vaô feccando, fique 
temperado com os que faô delga- 
dos, os quaes faô areolos commu- 

K iv mente, 


152 Problema 


mente. Nefta eleiçaô, ou compofi- 
çaô de barros de diverfas qualida- 
des entre fi, confifte a arte a que 
os Latinos chamaô figulina. 

A mefma impropriedade tem 
o faibro ou terra aflim chamada, de 
que os artifices fe fervem muitas 
vezes em lugar de arêa na conf- 
trucçaô dos muros. He improprio 
naô Ífó pela razaô fabida de fer fó- 
mente huma efpecie de arêa mif- 
turada com terra ; mas tambem por- 
que a terra, que contém, pende 
para oleofa ; e de tal forte , que até 
he impropria para a producçaõ dos 
vegetaes : em lugar que outra qual- 
quer arêa, em cuja natural compo- 
fiçaô entra alguma porçaô -de ter- 
ra pura, naô deixa de fer fecun- 
da, e nella fe daô muitos vege- 
taes, e algumas vezes ainda me- 
lhor do que em outra qualquer 
terra. E 


De Archiretlura Civil. 153 


E com effeito a arêa com cer- 
ta porçaô de terra fimples he don- 
de as vinhas fruéhficad mais, e 
donde o vinho he mais feleéto. A 
aquella arêa chamaôd os agriculto- 
res arêa com fubltancia ; e efla 
confifte na porçaô que tem de ter- 
ra vulgar. Hum chaô defta qualida- 
de (a que chamaô tambem terra 
delgada ) he mais fecundo; porque 
as raizes das plantas achaõ nella 
mais facilidade para fe eftenderem, 
tanto lateralmente ', como profun- 
damente ; e deíta facilidade depen- 
de muito a vegetaçaô; porque quan- 
do as raizes naô podem romper a 
terra , ou achaô nella refiftencia, 
a vegetaçaô Íuccede menos feliz- 
mente. Defte principio certo reful- 
tou oarado , e outros inftrumen- 
tos ideados para fazerem a terra 
mobil, e penetravel aos primeiros 

rudi- 


I54 Problema 


rudimentos das plantas, quando 
entraô a vegetar. Aflim o indicou 
o Poeta quando diffe : 


Multum adeo rafris glebas qui 
frangit inertes , 

Vaimineasque trabit crates , juvar 
arva; neque illum 

Flava Ceres alto nequicquam fpe- 
étar Olympo : 

Es qui profeo que fufcirat equo- 
re terga , 

Rurfus in obliquam verfo per- 
rumpit aratro, 

Exercetque frequens tellurem. 


Segue-fe pois que nenhuma ter- 
ra, ou barro, deve entrar na conf- 
trucçaô dos muros ; porque eftes 
fempre ficaô imperfeitos, à propor- 
çaô da terra, ou barro que contém; 
e nunca podem adquirir aquelle grao 
de 


De Architectura Civil. ass 


de fortaleza , que adquitem com ef- 
feito » quando na fua compofiçaô 
naô entra outra coufa mais do que 
acal, e a aréa. Eftes dous mate- 
riaes lapidificad-fe de algum mo- 
do, eltando fós , e fem outro in- 
grediente algum. Outro qualquer 
mixto junto perturba , e impede 
totalmente aquella petrificaçaô ar- 
tificial, 

Nas entranhas da terra., ou 
ainda na fuperficie della, fuccede 
o mefmo; porque nem toda a qua- 
lidade de terra fe converte em pe- 
dra, nem chega a ter a dureza del- 
la ; porque nem em toda a parte 
acha a natureza os ingredientes pro- 
prios para formar a pedra: em huns 
lugares faô os ingredientes menos, 
e em outros mais. Por ifloa natu- 
reza ou naô produz a pedra, ou, 
fe a produz, naô he toda da mefi 

ma 


156 Problema 


ma qualidade ; huma he branda, 
outra he rija ; huma tem efta côr, 
outra tem côr diverfa: tudo mof- 
tra que os materiaes forad diveríos, 
ou que houve diverfidade no modo 
de compór. 

He fem duvida que tudo quan- 
to a natureza fórma, ou o artifice 
compoem , exige certos materiaes, 
e em porporçaô certa. Se os mate- 
riaes faô mais , ou menos; fe naô 
faô precifamente os que devem fer; 
ou fe a proporçaô delles he erra- 
da, fica a natureza errando , e o 
artífice tambem ; ifto he , naô fe 
fegue, ou naô fe faz o que hum, 
ou outro pretendia: fegue-fe hum 
monftruofo parto ; ou hum aborto. 
Ito fe verifica fem prova, e a no- 
çaô, e conhecimento vulgar, que 
todos temos, nos perfuade ; por- 
que ha muitas propofiçoens que nad 

necefli- 


De Archite&tura Civil. sm 


neceflitaô de demonftraçaô; e quan- 
do fe demonítraô , he mais para ex- 
ercitar a regra , do que para fazer 
patente a coufa demonitrada ; afim 
como quando a Geometria prova 
que dous , e dous faô quatro ; ou 
que dous, e dous naô faô finco. 

E com effeito da femente de 
certa planta , naô provém outra 
planta diferente. Cada raiz pro- 
duz o fruto que lhe he proprio, e 
naô outro ; fendo que a arte de 
inocular ( a que chamamos enxer- 
tar ) nos moftra as largas excep- 
çoens, que aquella regra tem, por 
mais univerfal que nos pareça. Ena 
verdade, quantos troncos , e raizes 
vemos obrigados a nutrir frutos 
alheios ; defconhecendo as fuas mef- 
mas producçoens , fupente natura 
ipfa? e para mais admiraçaô, fen- 
do taô facil, e taô breve o artifi- 

cio: 


158 Problema 


cio : efte he o que metaphoricamen- 
te fe chamou: Mrborum adulterium. 
O Poeta o deu entender afim : 


Nec modus inferere , atque oculos 
imponere fimplex ; 

Nam qua fe medio trudunt de 
cortice gemma » 

Et tenues rumpunt tunicas, an- 

 guftus in ipfo 

Fit nodo finus: buc aliena ex ara 
bore germen 

Includunt , udoque docent inolefce- 
re libro. 

“Aut rurfum enodes trunci refe 
cantur » & alte 

Finditur in folidum cuneis via : 
deinde feraces 

Plante immittuntur. Nec longum 
tempus, d ingens 

Exiit ad colum ramis felicibus 


arbos » 
Mira- 


De Archireétura Civil, 159 


Miraturque novas frondes , de 
non Jua poma. 


Naô he porém, geral a excepçad 
de que hum tronco fe accommode 
a produzir frutos eftranhos , dege- 
nerando por aquelle modo para 
contentar o avaro agricultor; por- 
“que a maior parte das plantas, que 
conhecemos, he tenaz , e fe nega 
inteiramente ao artifício que lhe 
quer mudar a indole primeira. Ou- 
tras facilmente chegaô a vencer-fe; 
e deixando a fua verdadeira, e na- 
tural inclinaçaô , fujeitad-fe a fe- 
guir a intençaô que lhes prefcreve 
o que devem produzir. Quem dif- 
fera (fe o naô ville) que ha arte 
para mudar a natureza ; ou para fa- 
zer que hum tronco veja nos feus 
ramos flores, que naô conhece , e 
frutos que nunca vio? 

CA- 


160 Problema 








COESO Ce 
eta e re met cerne e e ter term 


CAPITULO X. 


Di de verificado o quanto 


importa fer a arêa pura para 
fazer duraveis os edificios ; e de- 
pois de havermos viíto que a ter- 
ra, ou barro, de qualquer forte que 
fe tomem , fempre faô ingredientes 
oppoftos a aquelle intento ; fegue- 
fe outro requifito nad menos im- 
portante, e quafi fempre defpreza- 
do por todos aquelles que edificaõ; 
e com tanto deícuido neíta parte, 
que já mais lhes vem ao penfamen- 
to a circunftancia neceflaria de fer 
aarêa fina. E com effeito todos nos 
defcuidamos , e raramente fe en- 
contra algum de nós, que faça re- 
paro em fer a arêa fina, ou por 
as 


De drcbiteetura Civil. 161 


fa; em fendo arêa, he o que baf- 
ta; e julgamos que o volume de ca- 
da huma das fuas partes he mate- 
ria indiferente , e de entidade pou- 
ca. Porém he engano manifefto ; 
porque a cal amaflada com arêa 
grofla em nenhum tempo póde fa- 
zer perfeita liga, como moftra a ex- 
periencia, e a razaô o diéta, com- 
provada por muitos experimentos 
certos. 

Os metaes ( exceptuando o 
ferro ) unem-fe perfeitamente , e 
intimamente com o azougue ; e nef. 
te liquido metallico fe diflolvem , ou 
derretem quafi da mefma forte, 
que 0 fal fe derrete na agoa. Po- 
rém para efla difloluçaô , ou amal. 
gamaçaô ( como fe explicad os ar- 
tiítas ) exige-fe que os metaes fejaô 
limados, e reduzidos primeiro em 


particulas menores. Daqui vem, que 
Part. IL L fe 


162 Problema 


fe fe deitar huma barra de ouro, ou 
prata fobre qualquer quantidade de 
mercurio, as barras haô de conter- 
var a figura folida que tem, fican- 
do fómente quebradiças, e brancas 
nas fuas fuperficies; e ainda que o 
azougue as penetre interiormente, 
nunca as fuidifica, pela razaô cer- 
ta de as achar em maíla groíla, 

Ao eftanho , e chumbo fucce- 
de o mefmo : e fuppofto que eftes 
dous metaes fejaô facilmente com- 
binaveis com o azougue , e com 
elle fe incorporad , fempre exigem 
tenuidade para É amalgamarem 
bem, e fem iflo ficad em mafia fo- 
lida, (ainda que fragil) na fuper- 
ficie” » ou parte fuperior do azou- 
gue. O cobre refifte mais à intro- 
ducçaô daquelle femimetal ; por- 
que ainda limado requer trituraçaô 
violenta para fe unir com elle. O 

ferro 


De ArcbiteékuraCivil. 163 


ferro naô admitte aquella focieda- 
de, e fempre fe conferva intaéto 
fobre o azougue , fem ficar fragil, 
nem mudar a cor exterior, e ain- 
da que limado, ou dividido efteja 
em pó ligeiro. 

Os outros metaes porém em 
tendo a aptidaô precifa, ifto he, 
em eftando limados, ou reduzidos 
em pó, logo fe incorporaô com o 
azougue , e fe unem taô eltreita- 
mente , que fó o fogo os póde fe- 
parar de todo. O mefmo fal, que 
de todos os corpos conhecidos he 
o que tem mais propenfad , e pro- 
pençaô inevitavel para derreter-fe 
na agoa, e para cahir em deliquio, 
como os artiftas dizem , cuja fa- 
culdade naturaliflima fe naô póde 
impedir, fem deftruir de alguma 
forte o fal, e fem fe lhe mudar a 
fua propria contextura ; com tudo 

Lii em 


164 Problema 


em quanto eftá em maffa firme re- 
fifte algum tanto mais à acçaô da 
agoa, e à doar; e quando fe dif- 
Íolve nella, he lentamente: porém 
aflim que o fal feacha em pó, ou 
reduzido em porfoens menores, de 
improvifo fe derrete, e ainda fem 
indigencia de calor. 

Ito procede certamente pela 
razaô univerfal, de que toda a com- 
pofiçaô , em que de varios mixtos 
deve refultar hum corpo folido , exi- 
ge que cada hum dos feus ingredi- 
entes fe reduza primeiro em par- 
tes minutifimas por meio de hu- 
ma trituraçaô exacta. Elta prepa- 
raçaô antecedente he [empre ne- 
ceflaria naquelles cafos , e fem ella 
nunca fe confegue hum corpo, ou 
hum compofto bem unido, antes 
fica fempre defunivel, á propor- 


çaô que as partes componentes , 
faô. 


De Architeétura Civil. 165 


fao mais; ou menos denfas. 

E aflim deve fer; porque a 
uniaô de diverfos corpos, de que 
deve refultar hum fó, fuppoem hum 
contaéto immediato, ou huma in- 
tima miftura entre todos elles ( fem 
a qual nenhum perde a Íua forma- 
tura antiga, e natural) para tomar 
outra moderna , e artificial. O vi- 
dro compoem-fe (como temos di- 
to) dearéa, e de fal alchalino fi- 
xo; porém eftes dous ingredientes 
primeiro fe pulverizaô , e mifturad 
o mais perfeitamente que he poffi- 
vel, e fem iflo naô póde relultar 
hum perfeito vidro; e efte fica mui- 
to mais fragil, do que coftuma fer 
ordinariamente ; além de naô po- 
der adquirir por nenhum modo hu- 
ma grande tranfparencia , ou cla- 
ridade. 

Em outras muitas compofi- 

Part. II. Lai çoens 


165 Problema 


çoens vulgares fe obferva o mel 
mo. De todos os metaes fundidos 
entre fi refulta huma mala fó, à 
que alguns chamaô eleétrum mine- 
rale. Efta compofiçaôd , ou uniad 
metallica fuccede afim , porque ca- 
da metal no eftado de fundido fi- 
ca como fe eftivelle feito em pó, 
vifto que o fogo defune de tal for- 
te as fuas partes integraes, que as 
faz fluidas , correntes, e fepara- 
veis: daqui vem o ficar liquido o 
metal; porque o fogo, que entra , 
e occupa os feus interíticios todos , 
faz que cada huma das fas par- 
tes femova, por caufa de eftarem 
feparadas entre fi, e agitadas pelo 
movimento rapido do fogo. Efte he 
o eftado de maior divizaô, a que o 
metal póde chegar : e por iflo mef 
mo, fe o fogo fe modera , ou cel- 
fa, as particulas metallicas defuni- 

das; 


De ArchisecturaCrvil, 167 


das, tornad a ajuntar-fe, e formad 
hum corpo Íolido , e compaéto. 

O mefmo fe vê nas fementes 
farinofas de que o paô fe faz, as 
quaes naô podem fervir para aquel- 
le minifterio, fem que primeiro fe 
reduzaô a pó fubtil : entad. ficad 
habeis, e difpoítas para fermenta- 
rem, depois de amafladas com agoa 
fufficientemente , e para formarem 
huma maffa cozida, alimentofa, e 
por confequencia digerivel. Se as 
fementes porém fó fe quebraõ, e 
naô fe moem, naô procede a fer- 
mentaçaô perfeitamente; porque as 
partes da maíla naô fe ligad entré 
fi, de que refulta o ficar infalutife- 
ra, afma, e de hum fabor ingrato: 
Se ifto aflim procede a reípeito do 
paô, que alias fe compoem de hu- 
ma Íó materia , ou ingrediente, qual 
he cada huma das fementes vege- 

Liv taes, 


168 Problema 


taes, de que aquelle artifício util 
fe fabrica, com quanta mais razaô 
naô ferá o mefimo em outras com- 
pofiçoens, cujos ingredientes faô di- 
verfos, e naô hum Íó, e exigem 
ferem preparados , para poderem 
produzir hum efeito deftinado ? 

A Pharmacia contém grande 
numero de mifturas, de que os feus 
medicamentos fe compoem : porém 
as partes dos mefmos medicamen- 
tos, que fegundo a arte delles de- 
vem fer moidas , efte preceito fe ob- 
ferva fielmente ; porque , fe os mix- 
tos medicamentofos , e pulveriza- 
veis, naô faô moidos , efta circunf- 
tancia defprezada , faz que o reme- 
dio ou naô produz effeito algum, 
ou o que produz he contrario ao 
que fe efpera delle; e qualquer fal- 
ta no modo de preparar qualquer 
remedio , he o de que procede mui- 

tas 


De Arcbiteélura Civil. 169 


tas vezes a Íua inefficacia ; porque 
naô fó relulta a falta de huma qua- 
lidade procurada , mas tambem lhe 
muda , ou perverte aquella que já 
tem naturalmente. 

Às pedras preciofas faô mui- 
tas vezes indicadas na pratica da 
Medicina ; porém devem fer moi- 
das exactamente;porque fendo pou- 
co, ou mal moidas, nefte cafo he 
nocivo o ufo dellas; porque os an- 
gulos, ou pontas agudas, e deli- 
cadas , com que ficaô, fervem para 
lacerar todas as partes, por onde 
paffaô. Foi abufo antigo o enten- 
der-fe que o pó do diamante era 
perniciofo , naô o fendo na verda- 
de. Efta pedra quando eftá moida 
em pó fubtil naô tem propridade 
alguma má; porém quando o pó 
he groffeiro, e mal moido , entaô 
as pontas imperceptíveis, que con- 

ferva, 


170 Problema 


ferva, faô as que fazem todo o 
dano: e aflim o pó do diamante 
he nocivo fó pela figura, e acci- 
dentalmente , e naô pela fubltan- 
"Clãs 
O mefmo Íuccede a reípeito 
de todas as mais pedras preciofas ; 
e a refpeito de todo , e qualquer 
vidro : efte, que tambem paílou por 
fufpeitofo , he innocente na verda- 
de; e fe faz mal, he porque foi 
moido mal; porém depois de eftar 
moido exactamente, naô póde com 
effeito fazer mal, nem bem. E de 
faéto nem o vidro, nem as pedras 
preciofas tem qualidade activa , que 
introduzida nos folidos, ou fluidos 
de qualquer corpo , poíla fufpen- 
der-lhes, ou accelerar-lhes o mo- 
vimento ; e fe fazem prejuizo, he 
por razaô do pezo , ou impaítaçad, 
mas naô que fubltancialmente con- 
tenhaô 


De Arcbiteélura Civil. am 


tenhaô a mais leve porçaô de qua- 
lidade intrinfecamente má. Muitas 
coufas fe fuppoem nocivas, fem o 
ferem ; e outras tambem fe fup- 
poem innocentes com pouco funda- 
mento ; tanto em humas, como em 
outras feguimos a precccupaçad 
vulgar : a antiguidade as introdu- 
zio fem exame , e nós tambem fem 

exame as confervamos ainda. 
Temos outro exemplo na pol- 
vora. Efta ( como todos fabem ) 
compoem-fe de falitre, carvad, & 
enxofre. Eltes tres ingredientes pri- 
meiro fe pulverizaô ; depois miftu- 
raô-fe, depois granulad-fe, e ulti- 
mamente feccad-fe. Porém primei- 
ro que tudo, cada hum daquelles 
ingredientes fe reduz em pó lub- 
til; para cuja reducçaô tem inven- 
tado a experiencia varios modos ; e 
os que fe praticaôd por meio da agoa 
corren- 


172 Problema 


corrente faô os mais promptos, e 
menos diífpendiofos. A melhor pol- 
vora he a que he mais fina; e efta 
circunítancia lhe provém da fubti- 
leza, ou pulverizaçao dos feus ma- 
teriaes, e tambem das proporçoens 
reciprocas entre os mefmos mate- 
riães. 

E com effeito a bondade, e 
actividade da polvora naô podem 
verificar-fe, fe ofalitre, o carvaô , 
e o enxofre naô fad moidos per- 
feitamente, e naô faô bem miltu- 
rados; porque naô ha miftura per- 
feita entre partes mal moidas. O 
falitre he o principal agente naquel- 
la compofiçaô , vifto que de fer o 
falitre mais, ou menos purificado , 
e de entrar em maior, ou menor 
porçaô ( fem exceflo porém na ra- 
zaô da quantidade ) depende a per- 
feiçaô , ou imperfeiçao da polvora. 


De Architeélura Civil. 173 
A qualidade do enxofre, e do 


carvaô naô he materia indifferen- 
te ; porque o enxofre, para fazer 
perfeita a compofiçaô , deve fer re- 
duzido a flor por meio da fublima- 
çaô. Nefte eftado naô fó perdeo 
o enxofre alguma parte do feu fal 
acido, mas tambem fica pulveri- 
zado pela mefma operaçad. O fal 
acido attrahe avidamente a humi- 
dade do ar; poriflo a polvora fa- 
bricada fem aquella circunítancia 
he mais fujeita a humedecer; por- 
que o fal acido Íulphureo attrahe 
com effeito a humidade , ainda com 
mais força do que o mefmo fal ni- 
trofo. 

Naô fei fe os artífices obfer- 
vaô aquella pratica ; e fe a naô ob- 
fervad, experimentem, e veraô a 
differença que vai da polvora fabri- 
cada com enxofre fimples , ou fei- 

ta 


174 Problema 


ta com enxofre florificado. Daqui 
vem que algumas polvoras em me- 
nos quantidade fazem mais effei- 
to, do que outras em maior. Tudo 
he polvora ; mas nem toda tem a 
mefma actividade; huma he debil, 
e outra he forte. Do enxofre vem 
a fulminaçaô ; e do falitre o impe- 
to, ou elafticidade. 

A qualidade do carvaô tam- 
bem he requifito neceflario, e im- 
portante; porque nem todo o car- 
vaô he proprio; e alguns ha que 
faô ineptos, e que naõ fó nad pro- 
movem a acçaô do falitre, e en- 
xofre, mas antes a impedem de al- 
gum modo. A habilidade do artifi- 
ce eftá em faber diftinguir, e co- 
nhecer os materiaes de que fe fer- 
ve ; porque de huma eleiçaô bem 
entendida depende a bondade da 
obra, ainda mais que da manipu- 

laçaô, 


De Architelura Civil. 1975 


laçaô, ou formaçaô material, Se- 
gue-fe depois a miltura exacta da- 
quelles ingredientes , fem a qual 
naô fe póde efperar o effeito que 
coftuma fazer a polvora. À miftura 
exige, e Ífuppoem que os mefmos 
ingredientes fe fubtilizem primeiros 
e fe moaô; porque fe naô faô moi- 
dos, e ainda fe o faô grofleiramen- 
te, a polvora fica fendo pouco vi- 
gorofa, e fó capaz para fazer hu- 
ma detonaçad , ou deflagraçad ir- 
regular. 

Aflim fe faz aquelle eftupen- 
diflimo artefato , cujos efeitos, ou 
a razaô, porque fuccedem , ainda fe 
naô fabe , nem fe explicou bem, e 
talvez que feja hum dos que nunca fe 
haô de faber, nem explicar: tudo, 
o que a refpeito delle fe tem dito, 
fó fatisfaz a quem he bom de con- 
tentar; mas nad a quem nas mate- 

ras 


176 Problema 


rias Phyficas naô fe fujeita facil- 
mente à incerteza dos fyítemas. 
Nefte cafo parece que he melhor 
fufpender a conclufaô , ifto he, nad 
determinar a caufa,de que hum phe- 
nómeno provém. Devemos conten- 
tar-nos com a coufa, fem entrar a 
decidir a razaô della ; bafta que 
faibamos que coufa he, ainda que 
naô faibamos o como , nem o por- 
que he. 

À intelligencia dos effeitos he- 
nos mais util, que a das caufas. 
Aflim como fabemos que o Iman, 
ou pedra de cevar, attrahe o fer- 
to, e que faz que a agulha nauti- 
ca, (e ainda outra qualquer ) mof- 
tre os polos do Norte, e Sul. Sa- 
bemos que c opio Oriental (e ain- 
da o de outras partes ) ferve para 
calmar, e moderar a agitaçaô dos 
efpiritos irritados , por huma quali- 


dade 


De Architeilura Civil. 177 


dade que fe diz narcotica, ou fo- 
porifera. Sabemos que o extraéto 
do açafrad excita alegria , e rilo. 
Sabemos que o regulo de antimo- 
nio ; he hum vomitivo perigofo, 
Sabemos que a planta chamada fen- 
fitiva, por fi fe move todas as ve- 
zes que lhe tocaô. Ignoramos os 
principios de que refultaô aquelles, 
e outros effeitos admiraveis. Porém 
que importa que os ignoremos? o 
conhecimento dos effeitos he fem- 
pre proveitolo; o das caufas tal- 
vez que Íó feja curiofo. 

De tudo, o que fica expoíto , 
podemos inferir que a arêa, que 
houver de entrar na conftrucçaô dos 
muros, deve fer fina para fe incor- 
porar bem, e mifturar com a cal, 
e agoa com que fe amafla; porque 
fó de huma miftura igual, e per- 
feita, he que póde refultar a inti- 

Part. II. M ma 


178 Problema 


ma adhefaô daquelas partes entre 
fi Só entaô he que provém aquella 
eípecie de petrificaçaô artificial, que 
ferve de unir as pedras divididas, e 
de as conter juntas, e ligadas; fa- 
zendo ( como temos dito ) de mui- 
tas pedras feparadas hum corpo 
continuado , e forte. Nelte eítado 
fica fendo o muro huma mafla fo- 
lida, capaz para refiflir á introduc- 
çaô da agoa, e á acçaô do ar. E 
com efeito a agoa naô fe póde in- 
troduzir em huma tal parede para 
defunir as fuas partes; e da mefma 
dorte o ar naô tem vigor para a 
penetrar, nem pulverizar as fuper- 
ficies exteriores que ficad mais ex- 
poftas ao movimento perpetuo da- 
quelle fubtililimo elemento. 

Naô he porém precifo que fe 
môa a arêa para a fazer exacta- 
mente fina; e iflo feria quafi im- 

pra- 


De Architetlura Civil. 179 


praticavel; mas bafta que fe efco- 
lha aquella que he fina naturalmen- 
te. Defta qualidade coftumaõ fer 
todas as arêas que fe achao nos al- 
veos dos rios, e juntamente aquel- 
las que os meímos rios lançaô para 
as fuas margens : eftas naô Ífó tem 
o grao de fineza fufficiente , mas 
tambem faô izentas commumente 
dos principios heterogeneos , e con- 
trarios a toda a fabricaçad dos mu- 
ros; iftohe, aterra, o barro, eo 
fal. Todos eftes a mefma agoa cor- 
rente os leva: o fal vai derretido 
nella; e a terra, oubarro, ainda 
que fe naô derretaô , (empre a agoa 
os amollece , e divide em fórma, 
que os fufpende em fi, e os vai co- 
mo arraftando fuccellivamente; em 
lugar que a arêa, fendo mais peza- 
da, e por iflo naô podendo fuf- 
tentar-fe na agoa , ptrecipita-fe ao 

ti fundo 


180 Problema 


fundo della , e vai ficando pelas 
margens, de donde depois fe tira, 
quando as agoas diminuem, ou fe 
tira tambem dos alveos nas partes ; 

em que os rios feccaô totalmente. 
Daqui vem que os edificios ruf-. 
ticos coftumaõ fer muito mais du- 
raveis do que os urbanos ; porque 
naquelles ordinariamente a arêa 
tira-fe dos rios, ou daquellas par- 
tes, por onde paíflaô de inverno 
muitas agoas, e depois fe feccaô. 
À cal tambem nelles he mais pura, 
porque fe naô fabrica junto ao mar, 
e he fempre desfeita , e amaflada 
com agoa doce, e naô falgada, nem 
falobra. Nãô he porém regra ge- 
ral que todos os edificios rufticos 
fejaô mais fortes, e duraveis; por- 
que ainda que Íejaô conftruidos com 
materiaes melhores, fuccede mui- 
tas vezs ferem inferiores os feus 
arti- 


De Aribiteeiura Civil, 18r 


artífices; de forte , que O que ga- 
nhaô na materia, perdem no arti» 
ficio. 

Verdade he, que fendo a arêa 
fina, e pura, exige maior porçaô 
de cal, e por efte modo vem a fer 
a obra mais difpendiofa. Aflim he 
fem duvida ; porém o noílo inten- 
to naô he de economizar a eltru- 
Etura do edificio , mas fim propor 
o meio de c fazer duravel: o cuf- 
tar pouco he materia diftinéta do 
prefente aflumpto. Muitos meios ha 
para que qualquer obra cuíte me- 
nos; porém para que dure mais ha 
hum meio fó, e efte confifte prin- 
cipalmente na bondade dos feus ma- 
teriaes. À vida dos edificios ( diga- 
mos afim ) depende daquella cir- 
cunftancia. A quem lhe naô impor- 
ta que a obra dure mais ou me- 
nos, tambem lhe naô deve impor- 

Part. II. M in tar 


182 Problema 


tar nada do que fica dito: para ef- 
fes naô efcrevo, 

Todos, os que edificaô , tem 
hum certo fim, ou certo penfamen- 
to que os dirige; e quando o pen- 
famento naô vai longe , ifto he, 
quando quem edifica ; fó fabrica 
para fi, parece-lhe efculado o fer 
efcrupulofo no modo de fabricar : 
fendo que fuccede algumas vezes. 
crefcer a vida, e faltar a obra; en- 
taô he que parece mal o naô haver 
fido efcrupulofo ; e muitas vezes 
efle mais, que fe difpende, confif- 
te em taô limitado objeéto, que a 
penas tem deículpa quem edifica 
mal. Porém fó cada hum fabe o 
que póde; e quem naô póde mais, 
defculpa tem : a indigencia tem 
muitos privilegios , e aquelle he 
hum delles. 

E aflim feja como for a ref- 

peito 


De Architeélura Civil, 183 


eito do edificio particular: aquel- 
A porém, em que o publico fe in< 
tereíla, naô deve fer feito eftreita- 
mente, porque vai muita differen- 
ça de hum cafo ds O outro, co- 
mo já diflemos. É verdadeiramente 
o edificio particular faz-fe para 
hum; o publico para todos : nefte 
parece que todos tem direito de inf- 
pecçaô ; naquelle a razaô de cen- 
for fó compete a hum: o primeiro 
ferve para ornar o mundo ; o fe- 
gundo para abrigar hum homem ; 
por iflo o edificio particular nad 
he mais do que domicilio ; e o edi- 
ficio publico he como patria com- 
mua ; aqueile coftuma ver o Ífeu 
principio, e fim; eíte he feito pa- 
ra ver o fim de tudo. 


Miv CA- 


184 Problema 








meme mma et res rem ts er re mt 


CAPITULO XI. 


T Emos difcorrido fobre a preci- 
faô dos materiaes , e qualida- 
des que devem ter, para que del- 
les refulte a firmeza , e duraçaô dos 
edificios. Agora fegue-fe o dizer 
que naô he menos importante o 
faber mifturallos com arte; porque 
todo o compofto exige certa pro- 
porçaô entre as partes que o com- 
poem a fem a qual nunca corref- 
ponde o effeito à juíta intençaô do 
artífice. Se a aréa he muita, e à 
cal pouca, ou muita a cal, e pou- 
ca a arêa, naô póde haver uniad 
forte entre huma coufa, e outra; 
e nada havendo, fempre ficaô divi- 
fiveis, e mal ligadas; e tanto dano 

faz 


De Arcbitelura Civil. 18g 


faz à falta de hum material, como 
a fuperabundancia delle: Tudo ne- 
ceffita porçaô determinada , para 
que naô haja exceílo nem no mais, 
nem no.menos. 

Ito mefmo fe obferva em to- 
dos quantos artefactos ha; e com- 
mumente aquelles, que naô operaô 
como fe pretende , ou como tem 
operado outras muitas vezes , he 
porque houve deícuido , ou erro nas 
proporçoens de cada huma das fuas 
partes. Por iflo hum mefino artifice 
humas vezes trabalha com Íucceflo, 
outras naô. Muitos experimentos 
fingulares fuccederad bem a pri- 
meira vez, e depois, fendo repeti- 
dos , faltaraô ; porque a primeira 
vez por acafo fe acertarad as pro- 
porçoens. E com effeito tem havi- 
do inventos admiraveis que fó fe 
viraô huma vez; e tornando ares 

petite 


186 Problema 


petir-fe , já mais fe poderaô en- 
contrar ; como fe a fortuna tambem 
tiveíTe arbitrio nas experiencias phy- 
ficas, concedendo alguma vez aquil- 
Jo mefmo que outras denega. 
Porém a verdade he que a for- 
tuna em nenhum cafo influe, nem 
“tem poder algum. À razaô , porque 
hum experimento humas vezes fuc- 
cede , e outras naô, he provavel- 
mente porque huma longa opera- 
çaô diverte, ou confunde o artifta 
para naô ter lembrança certa nem 
do modo , com que trabalhou, nem 
das proporçoens de que fe fervio; 
e aflim quando encontra o que naô 
bufcava , fe quer retroceder para 
repetir, e ver o mefmo que já vio, 
raras vezes acha o caminho por on- 
de ahdou; até que de canfado de- 
fifte, e larga a empreza , impacien- 
te de naô defcobrir o que enten- 


deo 


De Árchivetlwra Civil. 187 


deo ter deícoberto. Daqui vem que 
alguns artiftas menos inftruidos che» 
garaô a affirmar que haviaô du- 
endes invejofos, e malignos , que 
mudando , ou pervertendo os feus 
ingredientes, faziaô fallir qualquer 
operaçaô. Porém o verdadeiro du- 
ende fempre confiftio em fer mal di- 
rigido o experimento ; na falta das 
juítas proporçoens ; e no erro em 

o medo de operar. 
Ifto he como o que alguns Au- 
thores efereveraô quando dizem que 
nas cavernas mineraes , donde os 
metaes fe tiraô , ha efpiritos mal in+ 
tencionados , que perturbaô aos mis 
neiros , e efeondem os metaes pa- 
ra naô ferem extrahidos ; appare- 
cendo algumas vezes em fórma, ou 
figura de Religiofos Capuchinhos , 
trabalhando com os mefmos minei- 
ros; porém efcondendo fempre os 
metaes 


188 Problema 


metaes mais preciofos , e fazendo 
com que fe naô achem Elta opiniaô 
fuftentou o famofo Agricola nas fuas 
obras, em que ex profefjo tratou 
da extracçaô de todos os metaes. 
ConfeiTo que efte Author he gra- 
ve, e foi o mais experiente na ma- 
teria, e efcreveo nella com pro- 
funda erudiçaô , como as fuas mel- 
mas obras manifeftaô ; porém quan- 
to dos Capuchinhos cfpirituaes , 
fides fit penes Authorem ; falvo fe 
eflas taes intelligencias exiltem Í1ó 
nas minas de Alemanha , que he 
donde o referido Author fez todas 
as fuas obfervaçoens ; porque nas 
minas da America nap coníta que 
hajaô vifoens algumas. 

Porém para conciliar-fe a ver- 
dade (ao menos apparente neíte ca- 
fo ) daquelle illuíftre Author , de- 
vemos confiderar que as minas de 

Ale- 


De Architeéturá Civil. 189 


Alemanha , Polonia , Suecia , e ou- 
tras , todas faô commumente fub- 
terraneas, difcorrendo por baixo da 
terra efpaços grandes , nos quaes 
fe naô vê a luz do dia, mas o tra- 
balho fe faz com luzes artificiaes. 
Concorre maisa circunftancia de fe- 
rem aquellas minas ordinariamente 
fulphureas , e fempre inficionadas 
de hum halito, ou vapor de enxo- 
fre, que inunda todos aquelles ef- 
paços fubterraneos ,e mineraes, co- 
mo affirmaô todos os Efcritores que 
fazem mençaô dellas. Ifto fuppotto, 
fica fendo verofimil que as Ífom- 
bras das meímas luzes artificiaes , e 
os vapores denfos que os mineraes 
exhalaô, fazem illufad aos olhos, 
figurando reprefentaçoens phantaf- 
ticas, como fuccede aos febricitan- 
tes, a quem os vapores halituofos, 
que o fangue circulando defordena- 

damente 


190 Problema 


damente fuggere ao cérebro,ou idéa 
mental, donde com efeito fe fór- 
maô configuraçoens diverfas, ou 
imagens efpanto(as. 

Nas minas da America naô 
fe encontraô taes vifoens, porque 
fe naô encontraô tambem as mef- 
mas circunítancias de que podem 
refultar aquellas illufoens ; e he cer- 
to que nas minas , de que fe extrahe 
a prata, ou ouro , naô fe daô va- 
pores fulphureos , e arfenicaes, co- 
mo fe verifica pelos mefmos metaes 
extrahidos ; porque regularmente 
fe acha a prata pura, e com a fua 
meíma cor, por onde fe diftingue; 
em lugar que donde ha vapor de 
enxofre , precifamentc a prata he 
denegrida , nem fe póde nunca unir 
ao azougue para por meio defte fe 
feparar da terra, ou pedra em que 
fe acha, fendo efte hum dos me- 

lhores 


De Architetlura Civil. 91 


lhores argumentos contra os que en- 
tenderad que na formaçaô natu- 
ral daquelles dous metaes entrava 
o enxofre como parte efliciente, 
Ântes he provavel que aquelle mi- 
neral indigefto, e corrofivo, he 
contrario a toda a producçaô da 
prata, e ouro. 

E aflim naô ha nas minas Ame- 
ricanas as mefmas vifoens, ou illu+ 
foens que fe diz haver nas minas 
Septentrionaes; porque naquellas 
os vapores mineraes fad outros ; 
nem faô taô profundos , e caverno- 
zos os meatos fubterraneos , donde 
habrtad (por aflim dizer) o ferro, e 
o cobre, como fe vê principalmente 
nas dilatadas minas de Suecia , don- 
de fe achaô abundantemente o an- 
timonio, o Arfenico, o Bifmuth , 
o. Zync, e outros mineraes noci- 
vos, que com efeito perturbaô a 

facul- 


192 Problema 


faculdade imaginativa, e tambem 
a vifivel dos mineiros que trabalhaô 
nellas. 

Ito naô he dizer (nem ainda 
imaginar ) que deixem de haver ef- 
piritos malignos, que de facto, e 
verdadeiramente infeftem os minei- 
ros, aílim como infeftaôd a todos os 
mais homens todas as vezes que 
podem, e tem permiflaô para o fa- 
zerem; mas fim he ponderar que 
aquellas illufoens podem fucceder 
naturalmente , e pelo modo referi- 
do ; e he certo que em quanto hum 
faéto póde ter lugar naturalmente, 
naô o devemos entender , como 
procedido de cauía fobrenatural : e 
pelo que parece, tanto he erro at- 
tribuir hum faéto a caufa fobrena- 
tural, naô o fendo ; como attribuir a 
caufa natural aquella, que verda- 
deiramente he fobrenatural. A 

natu- 


De Architeélura Civil. 193 


natureza tem limites determinados; 
e tudo, o que os excede, naô he 
obra fua mas fim de hum agente ex- 
terno, immaterial, intelligente. 
Aquella digreflaô talvez foi 
ociofa , por naô ter competente 
connexad com o ponto principal, 
de que tratamos. Porém feja ociofa 
embora, com tanto que o conhe- 
cimento della poíla fer conveniente 
alguma vez. Qualquer livro , ainda 
que pequeno , he como hum erario 
publico, em que póde recolher-fe , 
ou depofitar-fe tudo ; quanto póde 
fer publicamente util. A noticia 
dos phenómenos mais raros em 
toda a parte tem lugar; e aquelle 
mefmo , de que alguns homens nad 
tem curiofidade , outros fe interef- 
faô muito, e querem ver tratada 
huma materia , ainda que feja alheia 
da materia, de que fe trata, Quanto 
Pact. II. N mais, 


194 Problema 


mais, que no mundo ha poucas 
coufas, que deixem de conter al- 
guma connexaô humas com as ou- 
tras; e efta talvez he a catena 
aurea de que faz mençaô Homero. 
As artes, e Íciencias todas tem 
entre fi affinidade conhecida, e de 
tal forte, que huma Íciencia ou ar- 
te, mal póde eftabelecer-fe fó , 
fem a concurrencia, e afliftencia de 
outras ; todas faô igualmente de- 
pendentes. 





ES 1 ren 
e eee meme mega a 


CAPITULO XII 





Inhamos expendido, que a 
cal, e arêa deviaô miiturar- 

fe em proporçoens devidas, e naô 
fem regra , e como tumultuariamen- 
te. Lito comprovámos com alguns 
exem- 


De Árchisetlura Civil. 195 


exemplos; e além de outros muitos, 
temos hum no regulo de antimonio 
marcial. Efte compoem-fe de ferro, 
de antimonio , e de falitre. Se o fer- 
ro he em porçaô maior , refulta 
hum regulo de Marte em lugar de 
regulo de antimonio. Se o falitre 
he em porçaô demaziada , confome 
o antimonio, e ferro, e naô fucce- 
de regulo de antimonio , nem de 
Marte, Tudo requer proporçaô con- 
veniente , fem a qual nenhuma ope- 
raçaô fuccede bem ; porque naô 
eftá fó em juntar os materiaes pre- 
cifos, mas devem fer juntos em pre- 
cifa quantidade. À diminuiçaô , ou 
o exceílo de cada hum desfaz a 
obra, ou a naô faz ; e detal Ífor- 
te, que de hum compofto medici- 
nal refulta muitas vezes hum com- 
poíto virulento. 
Ito fe vê claramente no an- 
N ii timo- 


196 Problema 


timonio ; porque fe algumas das 
Ífuas partes faô feparadas delle por 
meio de porçaô mediocre de falitre, 
ou de qualquer fal alchalino fixo 
que as abforbe , refulta hum me- 
dicamento emetico de approvado 
ufo; porém fe as partes fulphureas 
fe feparaô com maior quantidade 
de cada hum daquelles faes, o eme- 
tico, que provém, he violento, e 
nefte eftado naô he medicamento, 
mas fim hum vomitivo formidavel, 
e reprovado. Quantas mil vezes te- 
rá tomado a morte o traje de reme- 
dio! E quantas mil vezes os reme- 
dios preparados com menos atten- 
çaô fervem mais para tirar a vi- 
da, que para a confervar ! Por if 
fo ao Medico perito cufta mais li- 
vrar ao infermo do remedio , que 
do mal ; fendo que a defordem , que 


procede do remedio , quafi fempre 
he 


De Architeélura Civil. 197 


he incuravel; porque fe attribue á 
qualidade do mal o que fó foi qua- 
lidade do remedio. Difiite fcren- 
tiam moniti. 

He neceflario pois que haja 
certa proporçaô entre a arêa , e 
cal, para que eítes dous materiaes 
fe petrifiquem de algum modo, e 
adquiraô dureza lapidifica ; efta 
nunca adquirem, fe a obra fe faz ne- 
gligentemente , e fem regra nas 
porçoens dos mefmos materiaes. Hu- 
ma parede he como hum compof- 
to de varios ingredientes , da regu- 
laridade dos quaes depende a regu- 
laridade do compoíto. Naô eftá fó 
em fazer direito o muro , e bem 
perpendicular ao orizonte ; tam- 
bem deve imaginar-fe , que para 
confervar-fe naquella fituaçaô , he 
precifo que as fuas partes tenhaô 
difpofiçaô para fe endurecerem lo- 


Part. II. N ii go; 


198 Problema 


go; porque, de outra forte, a pare- 
de, que no feu principio ficou di- 
seita, vem depois a inclinar-fe fa- 
cilmente, e bafta qualquer inclina- 
çaô e a para que naô 
pofla fuftentar o Ífeu proprio pezo; 
e ainda menos para refiftir a qual- 
quer movimento irregular da terra. 
E com efeito tudo depende 

de juftas proporçoens, fem as quaes 
naõ fe confegue o fim que fe procura; 
e quando naô ha certeza das pro- 
porçoens , que devem concorrer em 
qualquer experimento, efte, fe al- 
guma vez fuccede bem , outras 
muitas falta ; e de tal forte, que hum 
mefmo experimento feito , fe fe tor- 
na a repetir , Ífuccede mal, ou to- 
talmente naô fuccede. A famofa 
Palingenezia das plantas tem occu- 
pado infinitos curiolos ; porém faô 
raros os que a viraó , fó por naô 
haver 


De Árchiteétura Civil. 199 


haver regra ainda fabida nas por: 
çoens que devem intervir em cada 
huma das partes de que fe com- 
poem : fim fe fabe quaes faô os 
Íeus materiaes, mas ainda fe igno- 
ra quaes devaô fer as Íuas pro- 
porçoens. 

Chamaô Palingenezia huma 
efpecie de relurreiçao de qualquer 
planta depois de queimada, e re- 
duzida em cinza; efta fe miftura 
com fal armoniaco , efpirito de vi- 
nho tartarizado,e outros mais ingre- 
dientes , cuja compofiçaô accom- 
modada em hum vidro efpherico, e 
tapado hermeticamente, e poíto em 
hum calor que imite aquelle que o 
Sol tem no mez de Março com pou-+ 
ca differença , depois de paílados 
alguns dias, entra a ver-fe no con- 
cavo do valo huma verdaderra re- 
prefentaçaô da planta , de que pro- 

Iv veio 


200 Problema 


veio a cinza. Nifto confifte a tal 
Palingenezia , a qual chegou a 
moftrar no feu laboratorio o infig- 
ne Monfieur Groflée Academico da 
Real Academia de Íciencias de Pa- 
riz. Porém aquelle mefmo Author, 
( cujo nome he conhecido no mun- 
do litterario ) afirmou tambem fin- 
ceramente que Íó huma vez pôde 
confeguir aquella rara curiofidade, 
por naô poder acertar nunca nas 
mefmas proporçoens , de que tinha 
ufado já fem fazer lembrança del- 
las. 

Naô fó nos materiaes ha , e 
devem haver certas , e determina- 
das proporçoens ; mas tambem as 
devem haver nos liquidos que fer- 
vem de os unir: porque ainda fup- 
pondo que as porçoens de arêa , e 
cal fejaô bem difpoíftas, com tu- 


do, fe for exorbitante a quantida- 
de 


De drcbiteélura Civil. 201 


de de agoa com que aqueiles dovs 
materiaes fe amaflaoO, já fe naô pó- 
de efperar delles o effeito que de- 
vem produzir, ficando como iner- 
tes, e affogados em hum liquido 
exceflivo , e fem poder refultar del- 
les huma maíla Íolida , e compa- 
ca. H 
O mefmo fe obferva na fer- 
mentaçaô do paô ; porque, fe a fa- 
rinha he amaílada com agoa em 
demazia, as partes da farinha fi- 
caô taô oltas, e diluídas, que per- 
dem a acçaô , ou difpofiçaô que 
tem para fermentar; e a fermenta- 
çaô » que depois refulta, he quafi 
corruptiva, e putredinofa. Da mef- 
ma forte, fe a agoa he em menos 
quantidade que a que deve fer, a 
fermentaçaô, que provém,he imper- 
feita, e defigual; e nefte cafo a maíla 
da farinha conftitue hum corpo fer- 
mentan- 


202 Problema 


mentante, e naô fermentado; con- 
trahindo fempre hum (abor de fer- 
mento, e naô de paô; azedo em 
todas as Íuas partes, e ferindo o 
olfato com hum cheiro ingrato, e 
defagradavel. 

A compofiçaô natural do fan- 
gue, exige tambem huma certa 
porçaô de liquidos diferentes, de 
que o mefmo fangue fe compoem. 
Efta porçaô , ou proporçaô fó a 
natureza o fabe; porque a fangui- 
ficaçaô he obra toda fua, nem ha 
arte alguma que a poíla imitar de 
alguma forte. He como hum cafo 
refervado, cuja Íciencia, ou co- 
nhecimento fó para fi refervou a 
natureza; nenhuma arte, por mais 
fublime que feja, ou pofla fer , po- 
derá fabricar nunca huma Íó gota 
de fangue verdadeiro. Bem fabe- 
mos que dos alimentos ordinarios fe 

fórma 


De Arckiteélura Civil. 203 


fórma aquelle liguido vital; temos 
os materiaes fabidos; porém igno- 
raremos fempre a ordem de os dif- 
por, de os ajuntar, e proporcio- 
nar. À fuperabundancia, ou indi- 
gencia de algum dos liquidos, de 
que aquelle liquido principal fe faz, 
ou arruina o que eftá feito, ou naô 
faz o que eftá por fazer ainda; e 
aflim naó fe fórma hum liquido bal- 
famico , glutinolo , activo, mas 
fim hum que he languido, corru- 
ptivel, tumultuolo, e fem vigor. 
Que differença notavel ! e que dif- 
ferenças fe naô oblervad em todos 
os fangues que fe examinaõ ! fendo 
que os materiaes faô os mefmos 
commumente , e Ífaôd as mefmas as 
officinas em que fe fabrica aquelle 
licor efpirituofo: porém, faltando 
acontextura regular, e defordena- 
da a ordem dos inftrumentos , e 

vicia- 


204 Problema 


viciado o movimento delles, nad 
faô as meímas as proporçoens ; ilto 
bafta para fazer fulpender , retar- 
dar, ou impedir aquella acçaõ fin- 
gular da natureza. 

O fogo tambem he hum ligui- 
do; mas em fummo grao de fe- 
quidaô , de lubtileza, e força : as 
compufiçoens, que neceffitaô delle , 
e que por meio delle fe fabricaô , 
exigem hum fogo proporcionado ; 
o que he violento, he deftruétivo, 
e improprio para certos ufos; o que 
he baftantemente moderado, ás ve- 
zes naô chega a dar a excitaçaô 
precifa nos materiaes de algum 
compoito ; e neíles cazos naô fer- 
ve abfolutamente nem o fogo bran- 
do, nem o forte; em hum fobra a 
força, e em outro falta; e afim 
vem a faltar as verdadeiras e juítas 
proporçoens. O artefacto do vidro 

pede 


De Arcbiteliura Civil. ox. 


pede hum fogo o mais intenfo : 
a deftillaçaô da rofa quer hum ca- 
lor remiflo, mas igual; e em che- 
gando a exceder, o corpo da rofa 
fica reduzido em cinza, e em lugar 
de hum liquido fragrante, o que 
provém he hum defagradavel , em- 
pireumatico , e nauzeozo. Naô hou- 
ve proporçaô no fogo; ficou per- 
dida a obra, e o trabalho ficou def- 
vanecido. 

Os metaes naô fe fundem por 
hum mefmo grao, ou proporçaô de 
fogo: huns em hum fogo fortifimo 
fe apuraô, ou purificad ; outros 
qualquer fogo-hum pouco aftivo os 
deftroe , e vitrifica: huns fuppor- 
taô todo o ardor fem perder nada 
do feu pezo; outros, em fendo o 
calor maior, entraô a exhalar huma 
grande parte da fua fubltancia, e a 
mudar inteiramente a figura de me- 

tal. 


206 Problema 


tal. Para os mineraes tambem na 
fogo ha graos de proporçaô ; por- 
que em alguns, em o fogo fendo 
mais ardente, diflipaô-fe de todo em 
fumo ; outros reduzem-fe a huma 
efcoria, ou fedimento terreo. O 
enxofre (de que participaô quafi to- 
dos os mineraes) conferva-fe fundi- 
do em hum calor debil; e em efte 
fe augmentando , o enxofre fe in- 
flamma , e exhala totalmente, per- 
dida a proporçaô do calor a que po- 
dia refiftir. 

Até no tempo ha juífta propor- 
çaô a refpeito daquelle,em que hum 
compofto deve adquirir a (ua per- 
feiçaô; porque quando o fogo en- 
tra como parte que ferve a endure- 
cer a mafla, ou corpo do compo(- 
to, deve fer o fogo proporcionado 
a elle naô fó na actividade , mas 
tambem no tempo, ou efpaço E 

ua 


De Architeciura Civil. 207 


fua duraçaô ; de forte que alguns 
mixtos podem foffrer mais tempo de 
calor; outros ficaô perdidos , fe o 
calor permanece mais. O cobre v. g. 
depois de eftar fundido, fe o mef- 
mo grao de calor fubíifte por ef- 
paço de tempo mais continuado , ul- 
timamente perde a fufaô em que fe 
achava, e fica como reduzido em 
terra. As materias oleofas o fogo 
as clarífica, e as poem em melhor 
eftado , diflipando a parte puramen- 
te aquola ; porém fe o calor he mais 
perfeverante do que deve fer, aquel- 
las materias ou fe inflammad, ou, 
ficando mais denfas , perdem a lim- 
peza , ou claridade que devem ter 
naturalmente, E aflim ha com effei- 
to proporçoens naô Íó no pezo, e 
quantidade ; mas tambem no tempo. 


CA- 


208 Problema 





CEEE Ca TE smesam Tctorreimm 
e eee ema pe e meme eim 


CAPITULO XIV 


Proporçaô , que deve haver 

entre acal, eaarêa para o 

fim de fabricar huma parede, naô 
he facil de determinar , nem fe pó- 
de dar regra certa , por onde fe des 
va definir ; porque he materia de 
fi mefma variavel , e toda depen- 
dente da qualidade efpcifica daquel- 
les dous materiaes. À arêa quanto 
mais pura, e fina he, mais cal exi- 
ge; ea cal da melma forte pede 
mais arêa , quando he mais forte , e 
mais activa ; porque a cal, que de fa- 
éto he debil, e ifto porque ou o 
tempo a tem enfraquecido , diffi- 
pando-lhe os efpiritos igneos , que 
he donde confifte toda a fua for- 
taleza » 


De Árchiteétura Civil. 209 


taleza, ou porque a pedra, de que 
foi feita era branda, e poriflo me- 
nos apta para receber , e concen- 
trar em fi huma grande porçaô da- 
queiles mefmos efpiritos de fogo; 
nefte cafo deve fer a arêa menos. 
Tudo quer huma combinaçaô bem 
entendida. A cal forte fupporta com 
effeito mais arêa ; e menos a que he 
fraca: a arêa fina pede mais cal; e 
a que he grofla menos. Neítas pro- 
porçoens , ou quantidades ; eftá to- 
da a dificuldade. O Poeta o deu a 
entender aflim : 


Alter onus quantum fubeas, quan- 
tumque laborem 

Impendas craffam circa molem ac 
rude pondus. 


E na verdade habilem reddere map» 
Jam, boc opus , bic labor ef. Por if- 
Parc. UI. O fo 


210 Problema 


fo a arte da miftura , ou de pro- 
porcionar a quantidade relativa de 
cada hum dos materiaes, naô deve 
eftar, nem ficar no arbitrio do fer- 
vente inexperto , ou aprendiz ; an- 
tes deve fer a occafiad, em que o 
proprietario , o meftre, ou o archi- 
tecto, fe apure mais, como em hum 
dos objectos de confequencia gran- 
de, em que confifte a melhor, e 
mais bem dirigida fortificaçad , e 
fem a qual naô podemos efperar 
que a obra chegue a vencer huma 
grande antiguidade, antes, qual- 
quer tempo que vença, fempre ha 
de fer como obra moderna nos ef- 
feitos. 
Temos hum exemplo vulgar , 
e bem fabido na liga do ouro, e na 
liga tambem da prata. Eftes dous 
metaes, eftando no ultimo grao de 
fineza, a que podem chegar natu- 
ralmen- 


De Archite&tura Civil. 11 


ralmente, e a que a arte os póde 
reduzir, faô totalmente ineptos pa- 
ra delles , ou com elles fe formar 
alguma obra; porque naquelle ef- 
tado de pureza faô taô brandos, 
e malleaveis, que com pouca for- 
ça fe dobraô; de forte que huma 
barra de ouro , ou prata , e de grof- 
fura confideravel , a maô a póde 
dobrar com facilidade. Para evitar 
aquelle inconveniente junta-fe por 
meio da fundiçaô huma certa por- 
çaô de cobre a cada hum dos dous 
metaes ; e fegundo a porçaô do co- 
bre, adquirem maior rijeza, e Íó 
entaô ficaô capazes para ferem tra- 
balhados, e para refiftirem a qual- 
quer força exterior ; e por aquelle 
modo fe concilia a dureza compe- 
tente a aquelles dous metaes, que 
por fi faô exceflivamente brandos, 
e dobradiços : a maior , ou me. 

H nor 


212 Problema 


nor porçaô de cobre he juítamente 
o de que refulta mais ; ou menos 
fortaleza no metal, e o de que pro- 
vém o ferem mais, ou menos mal- 
leaveis. 

A fabricaçaô do bronze naô 
confifte em mais do que na confu- 
zaô, ou fundiçaô de metaes diver- 
fos, e unidos todos em hum corpo 
fó. Porém, fe a miftura fe faz fem 
regra, ou proporçaô de cada hum 
dos metaes fundidos, a maíla que 
refulta naô he bronze , mas fim 
hum compofto, ou corpo fragil ao 
menor impullo, e que com effeito 
quebra, e fe defpedaça em fendo 
tocado rudemente; e nefte eftado 
naô tem ufo, ou ferventia alguma ; 
porque os metaes foraô unidos em 
fórma , e irregularidade tal, que 
o feu meímo pezo baíta muitas ve- 
zes para os dividir, perdendo aílim 

qual- 


De Archiseélura Cívil. 213 


ualquer configuraçad , ou figura. 
Porgje ainda que naô ha bronze 
que naô feja quebradiço , com tu- 
do a fragilidade fumma he total- 
mente oppofta á intençaô , para que 
o mefmo bronze fe fabrica. 

A compofiçaô metallica, de que 
fe fazem os finos , commumente 
tambem exige proporçaô , ou quan- 
tidade certa entre cada hum dos me- 
taes de que aquella compofiçaô fe 
fórma ; e fem efta circunítancia, ou 
os finos quebraô logo, ou ficaô fem 
difpofiçaô para fazerem no ar aquel- 
la vibraçaô de que o fom depende. 
Por io alguns finos fe quebrad fa- 
cilmente por haverem fido menos 
bem difpoítas as proporçoens dos 
feus metaes ; outros ficaô com hum 
fom groffeiro , e pouco harmoniofo. 
De forte,que aquella arte confifte na 
ordem da miftura, e nas juítas pro- 

Parc. II. O iii por- 


214 “Problema 


porçoens-dos feus ingredientes ; if- 
to he, dos. metaes diverfos de que 
a mafla metallica fe fórma. Daqui 
vem que dous finos de iguál gran- 
deza, e de pezo igual ,-e tambem 
de huma figura femelhante ; nem 
por alo tem o mefmo fom.; .e ef- 
te indica pela differença de hum; 
e outro, a differença, proporcional 
entre os metaes: de-que; faô com- 

poftas. | 
Na compofiçaô das tintas fe 
obferva o memo vulgarmente; por- 
que das porçoens dos. mixtos, de que 
as mefmas tintas fe compoem, re- 
fulta eíta, ou aquella cor; o bran- 
co, e o preto ferve muitas vezes de 
bafe a outras muitas cores ,'' fegun- 
do a miftura, ou modulaçaô de 
alguns dos mixtos de que as mef- 
mas cores vem a proceder; e ifto 
por meio da paflagem , ou tranf; 
miflaô 


DeArchitectnra Civil. arg 
miffãô da luz, que he à fonte óri- 
ginal de todas quantas cores ha. A 
purpura, a que os ântigos chamarad 
de Cartago ( por: fe fabricar perfei- 
tamente naquela ififéliciflima Ci- 
dade) naô podia, fer outra coufa , 
fe naô 'o ouro diflolvido”, e preci- 
pitado” pelo eftariio ; 'de que com 
effeito provém huma cor de purpu- 
rá excellente ;'a qual he mais ou 
menos fobida , e forte; fegundo a 
proporçaô: do -diflolvente ; e:tam- 
bem' fégundo a quantidade de efta- 
nho que precipita o ouro. 

O admyravel: artifício dos ef- 
máltes he outro exemplo” conhe- 
cido; compoem-(e de huma verda- 
deita vitrifitação ; porgiie todo o 
verdadeiro: efmalte-he vidro; a cor; 
que felheimprime, ven: dos mixtos 
vitrificaveis , a que he própria efta; 
ou aquela. cor.. Do celebre bifi 

Oiy muth; 


216 Problema 


muth, mineral nativo de Polonia, 
fe extrahe a cor azul, cujo ufo he 
taô commum; porém fempre de- 
pendente das proporçoens do fal 
que fe lhe junta para o fazer vitrifis 
car; deíta addiçaô refulta a fua 
cor , mais ou menos clara , ou mais, 
e menos agradavel; a arte eftá nas 
quantidades da miftura, e tambem 
na bem difpofta adminiftraçaô do 
fogo, que ferve fó para reduzir em 
vidro huma materia por fi mefma 
vitrificavel, mas naô vitrificada ain- 
da; com difpofiçaô para exaltar 
aquella cor, que eftava como fopita, 
ou efcondida no bifmuth. Efte mi- 
neral contém propriedades raras, 
mas pouco inveltigadas; a que fa- 
bemos com certeza , e de que ufa- 
mos commumente, he a cor azul 
conhecida em toda a parte; os do- 
tes ulteriores , que o mefmo mineral 

encer- 


De Architettura Cívil. 21% 


encerra, refervarad para fios Alchi- 
miftas, (fegundo o que elles que- 
rem dar a entender) porém receio 
que os que intentaô achar alli os 
mais reconditos fegredos , percaô 
o trabalho, e o fuor. 
No fabor temos outro exem- 
plo manifefto. A lingoa fente a 
impreífaô que nella faz tudo quanto 
he azedo; ou doce: mas de que 
procederá differença taô notoria ? 
Os fães faô a caula certa, ou prin- 
cipio verdadeiro, de donde fe deri- 
vaô os fabores diferentes; o azedo 
eftimula a lingoa, fazendo nella a 
fenfaçao que he propria a cada 
hum dos faes; eftes mefmos fe fe 
juntaô a huma materia volatil, e 
unétuola , já naô fazem a fenfa- 
çaô do azedo , mas fim de doce: 
nas proporíoens de huma materia 
volatil, e oleofa conflte o artifi- 
cio 


218 Problema 


cio paturãl de hum corpo azedo, 
ou doce; deforte, que fegundo à 
quantidade , 'e qualidade de hum 
corpo acido , e outro oleofo , reful- 
taô aquellas duas fenfaçoens con- 
trarias; porque toda, e qualquer 
materia -oleofa , ou unétuofa retun- 
de vigorofamente os efpiculos fali- 
nos de hum fal acido, ou fimplef- 
mente azedo ; e confórme a pro- 
porçaô ,.ou porçaô de qualquer del- 
les, procede o mais ; ou menos aze- 
do ; e por confequencia o mais, ou 
menos doce. 

“À arte; que em muitas cou- 
fas imita a naturezá , .perfeitamen- 
te a imita na fabrica do fabor. O 
vinagre 'he hum licor acido, e efta 
qualidade fe exalta ás vezes tanto, 
que fica fendo o-vinagre "hum li- 
córacidiflimo , penetrante, e forte; 
porém fe lhe juntarmos huma por- 

çaõ 


De Architelwra Civil. 219 


çaô de chumbo , efte metal vola- 
til, e unêtuolo diflolvido no vina- 
gre , retundindo-lhe os efpiculos, 
brevemente o muda, fazendo de 
hum licor picante, e auítero ou- 
tro totalmente doce, a que os ar- 
tiftas chamaô Sacharum Saturai , ou 
aflucar de chumbo , conhecido vul- 
garmente por aquelle mefmo titu- 
lo. O mais , ou menos doce provém 
do mais , ou menos chumbo diflol- 
vido; e quanto mais o vinagre he 
forte , tanto mais doce he o cha- 
mado aflucar de Saturno. Aquelle 
mefmo licor, que de acidifimo que 
era velo.a ficar doce, em fe evapo- 
rando delle a parte mais phlegma- 
tica, fica o alfucar tomando hum 
corpo folido , e perdendo o liqui- 
do que tinha ; e da melma forte, 
e pelo mefmo modo que o aflu- 
car natural fe fórma. 


Às 


219 Problema 


Às proporçoens das partes o- 
leofas , e falinas, e reacçaô que 
fuccede entre ellas , foi o artífice 
da mudança. O mefmo aflucar na- 
tural , em fe feparando delle as par- 
tes oleofas de que refulta o fabor de 
doce , fica reduzido a hum licor fa- 
lino , e quafi corrofivo ; da mefma 
forte, que fe fepararmos o chumbo 
daquelle aflucar artificial , torna o 
vinagre ao feu primeiro eftado , 
perdendo totalmente a doçura ad- 
venticia a que eftava reduzido , e 
tornando a reaflumir o meímo fa- 
bor acido que tinha naturalmente. 
Affim fe fórmaô, etransfórmaõ al- 
guns corpos. Em fe fabendo a orga- 
nizaçao das partes que os compoem, 
e a fórma com que a natureza fe 
comporta , facilmente imitamos a 
mefma natureza , e ás vezes em 
menos tempo ; porque a arte he 

mais 


De 4rchiteélura Cívil. 221 


mais precipitada, e ablolve os feus 

eriodos em mais breve eÍpaço. 
Tudo eftá na applicaçaõ de certos 
materiaes, e de certas, ou deter- 
minadas proporçoens ; fem eftas, 
nem a arte,'nem a natureza po- 
dem fazer nada; e o que fazem 
he como cegamente , e fem inftin- 
Eto; e por illo fazem erradamente , 
e imperfeitamente, 

Vemos que he azedo hum fru- 
to verde; e tambem vemos que he 
doce depois que madurece : huns 
fempre ficaô fendo azedos , e a 
madureza naô lhes muda o fabor 
ingrato: outros adquirem á doçura 
à medida que vaô fendo já madu- 
ros; e-outros depois de eftarem do- 
ces, e maduros , fem tornarem pa- 
ra o eftado da verdura , por hu- 
ma nova acçaô tornaô a fer aze- 
dos. Que mudanças exquifitas ! 


Que 


222 Problema 


Que inverfoens de qualidades! que 
retrogradaçoens de naturezas, e 
que differenças totaes nos acciden- 
tes! Que diftancia naô vai do mol- 
to turvo, fem graça, e fem fabor 
conftante, ao vinho claro, faboro- 
fo, e agradavel | Se virmos em 
hum mefmo campo muitas flores 
diferentes, naô teremos razaô 
para admirar-nos; porém em hum 
mefmo liquido vermos taô dif- 
tinétas apparencias, naô deve dei- 
xar de fazer reparo; tem difculpa 
a nofla admiraçaô ; e as attençoens 
mais vivas devem occupar-fe al- 
guma vez, naô para difcorrer in- 

fallivelmente, mas provavelmente. 
Se quizermos perícrutar as ra- 
zoens phyficas daquelles phenóme- 
nos admiraveis, acharemos que o 
fruto verde he fempre azedo em 
quanto naô chega a huma perfei- 
ta 


De Architeétura Civil. 223 


ta madureza ; porém efte funda- 
mento naô defcobre a razaô, que 
procuramos ; e fó he refponder á 
difficuldade , propondo o mefmo 
cafo della: a repoíta deve fer , que 
no fruto verde naô eftaô ainda bem 
unidos os principios de que hum 
tal fruto ha de compôr-fe ; aquel- 
la uniaô perfeita he a que faz a 
digeftad do mefmo fruto; na ma- 
dureza podemos confiderar digeri- 
das as fuas partes, e eftas nunca fe 
unem , ou digerem , fem que as 
fuas proporçoens fe encontrem de- 
vidamente. He precifo que o aci- 
do vegetal fe ache defvanecido , 
e abforbido pelas partes oleofas : fó 
entaô fe diz maduro ofruto, e en- 
taô he que o fabor acerbo recebe , 
ou adquire a doçura natural. 


CA- 


224 Problema 





[E Emas 


mma mr cem me 


CAPITULO XV. 


Inda duraô hoje alguns dos 
amphitheatros, que a fober- 

ba Romana edificou para divertir 
hum povo foberbiílimo. Ainda fe 
moítrad os veltigios das eftradas fa- 
mozas , que fahindo da Cidade ca- 
pital daquelle Imperio , hiaô ter a 
outras capitaes da Íua vaíta domi- 
naçaô. Ainda exiftem as mageíto- 
zas piramides do Egypto. A vora- 
cidade dos feculos naô tem podi- 
do anihilar tantos illuftres monu- 
mentos ; antes guardaô nas ruinas 
hum authentico fignal da fua gran- 
deza ; como fe naquelles triftes ref- 
tos quizeflem competir com o tem- 
po em duraçaô ; ou como fe o tem- 
po 


De drcbiteélura Civil. as 


po naô tiveffe força para os deftruir, 
nem actividade para os acabar. Fe- 
lices edificios, cujos fragmentos 
deftroçados fervem para confervar 
inteira a memoria da fua pompa : 
e aílim, que importa que a vicifli- 
daô das coufas lhes tenha feito 
perder o efplendor primeiro, fe 
ainda fem ulo, e depois de extin- 
Eto o fim para que foraô levantados, 
tem no mefmo abatimento tudo o 
que baíta para infundir refpeito ; 
fendo maravilhas raras, ainda no 
eftado inutil em que fe achaô, e 
fendo admiraveis nefle pouco que 
agora faô, independentemente do 
muito que já forad? 

Porém porque fubfiftem hoje 
aquelles infignes monumentos, que 
a douta antiguidade nos deixou 
para modelos? Será , porque fo- 
raô fabricados fem regra, fem pro- 

Part. II. P por- 


226 Problema 


porçaô, femarte? Naô, antes he 
certiflinio o contrario. Entaô flo- 
recerad architeétos excellentes; e 
a Architeétura naô conhifte fó na 
apparatoza figura do edificio, nem 
na regularidade vifivel de cada 
huma das fuas partes; mas tambem 
na juíta eleiçao dos feus materiaes , 
e na próporçaô reciproca que entre 
elles deve haver. Daqui vem a for- 
taleza de toda, e qualquer obra, 
eefte he o penhor feguro que ccr- 
tifica a fua duraçaõ. 

De que ferve a magnificencia 
em hum corpo debil', ou de que 
val a fumptuozidade em hum edifi- 
cio infermo? Ninguem fabrica para 
hum dia, nem para hum anno fó ; 
porque naturalmente nos parece que 
havemos de durar muito. Devemos 
pois edificar com fegurança , ainda 
“quando edificamos fó para a nofla 

vida, 


De Architeétura Civil. az 


vida. Naô digo que tenhamos no 
fentido o-fim univerfal, nem que 
prefumamos feriamente que os nof- 
fos edificios podem chegar a efle 
tempo ; mas ao menos edifiquemos 
para aquella pofteridade que fe ha 
de feguir logo depois de nós , à 
maneira de hum contrato feito-pa- 
ra fubfiftir em duas, ou- tres vidas. 
Naô tenhamos inveja aos-que had 
de vir; preparemos-lhes a habita- 
çaô , allim como elles prepararad 
efta em que nós eítamos: exerci- 
temos efta efpecie de Iiberalidade 
a refpeito dos vindouros ; e feja- 
mos defta forte liberaes, já que a 
efle tempo naô o-havemos poder 
fer por outro modo. Duremos na 
duraçaô da obra; já que em nós 
mefmos he taôd: pouco o que dura- 
mos. Façamos de conta que o edi- 
ficio he huma parte nofla ; e que 

Pi nefta 


228 Problema 


nefta parte exterior , afaítada , e in- 
fenfivel, podemos permanecer fem 
fuftos , fem tribulaçoens, fem do- 
res. Em fim fupponhamos que tam- 
bem alli fe continua a nofla def. 
cendencia , e que efta ainda que 
feja immobil, e fem acçad, com 
tudo he, e ha de fer fempre in- 
nocente , por força da fua mefma 
inacçaô , e immobilidade, incapaz 
de merecimento , e de virtude, 
mas tambem incapaz de vicio, e 
culpa. 

Se bem confiderarmos, acha- 
remos que os Varoens illuftres da 
fabia Grecia feguirad aquelle pen- 
famento , e que ennobrecendo a 
terra de nobres edifícios, perpetua- 
raô nelles a gloria dos feus nomes, 
fem temer que a fama delles cadu- 
cafle involvida nas revoluçoens do 
mundo. Olhemos para a nofla Ma- 

fra, 


De Architeétura Civil. 2219 


fra, em cujos obelifcos , porticos 
e colunas , ficou comos em hierogli- 
phico o fiel, e immortal retrato 
do Augufto Rey D. Joaô, que 
ainda choramos, quinto no nome, 
primeiro na grandeza : alli parece 
que o vemos refpirar ainda; e que 
o feu gloriofo efpirito recebe o tri- 
buto voluntatio das noflas lagrimas, 
o incenfo dos noflos votos, e as 
oblaçoens da noíla faudade : pe- 
queno obfequio para taô alto ob- 
jeéto. Ditofos bronzes, marmores 
venturo(os, em que as idades mais 
remotas , fem dependencia de ci- 
fras, e caraéteres , haô de ler co- 
mo em emblema a hiftoria memo- 
ravel daquelle Monarcha generoflo; 
cujas acçoens heroicas fó foraô 
dignas delle para as obrar ; e Íó 
feriaô dignas de hum Homero pa- 
ra as efcrever. Em outro fagrado, 

Part. HI, P in e mag- 


230 Problema 


e magnifico lugar defcançaô as fuas 
Reaes cinzas: lá recoftada a Lufi- 
tania fobre a veneravel urna abra- 
ça religiofamente aquellas mefmas 
cinzas para as animar com o feu 
pranto; invoca como Nume tute- 
lar o feu efclarecido nome ; e fe- 
gura na fé do amor , eftá vendo 
em vaticinio que do tumulo fecun- 
do haô de renaícer os verdes lou- 
ros para coroar tropheos , felicida- 
des, e triumphos. 





mms entes eee amem ee rea ee meme 


CAPITULO XVL 


E precifo pois huma certa 
proporçaõ entre cada hum dos 
materiaes de que os muros fe com- 
poem. O architeéto experiente 
nunca ignora aquella regra, antes 
nella 


De Architetura Civil. 231 


nella poem o Ífeu primeiro, e prin- 
cipal cuidado. Fortificando princi- 
pia, e ornando acaba. O ornato 
póde vir em qualquer tempo , a 
fortificaçad ha de fer logo ; por- 
que aquele faz-fe para o agrado da 
vita , e efta para fubfiftencia da 
coula. O edificio póde fubfiftir fem 
ornato algum , mas naô fem toda 
a fortificaçaô ; póde fer tofco na 
apparencia fuperficial, mas naô na 
fua fubftancia interior. 

Aquella porçaô porém (co. 
mo já diflemos ) naô admitte re- 
gra invariavel, nem póde regular- 
fe de huma fó maneira ; porque hu- 
ma cal neceflita mais arêa do que 
outra ; e da mefma forte huma 
arêa requer mais , ou menos cal. 
Com tudo algum meio deve haver 
para fazer-fe aquella diftinçaô , e 
para explorar-fe exactamente quaes 

Piv devad 


asa Problema 


devaô fer as verdadeiras propor- 
çoens; porque, de outra Íorte , edi- 
ficariamos cegamente , e fem mais 
certeza que a de hum arbitrio in- 
certo , e vago. Aquelle meio, ou 
aquelle conhecimento baíta que fe 
tire, e faiba 4 pofteriori, como os 
Philofophos fe explicaô ; e que pro- 
venha de experiencia certa, como 
logo havemos de moftrar em be- 
neficio dos que querem fabricar com 
arte, e que defejaô a duraçaô da 
obra, 

He muito de reparar, que fen- 
do a fortaleza do edifício o primei- 
ro objeéto a que devemosattender, 
raras vezes nos occupamos em or- 
denar as porçoens juítas de que ha 
de compôr-fe a mafla que ferve de 
ligar as pedras humas com a ou- 
tras. No que confideramos mais, 


he, que a obra efteja bem delinea- 
da 


De Architeélura Cívil. 233 


da no papel, e que nefte efteja 
bem difpoíta a ordem da profpe- 
étiva , a correfpondencia das en- 
tradas , a diftribuiçao das ferven- 
tias, a divifad das Ífuas partes , a 
introducçaô da luz em cada huma 
dellas , e finalmente a fymmetria em 
todo o corpo do edifício. À fegu- 
rança das paredes entra como cou- 
fa menos importante. A qualida- 
de dos materiaes, e as proporçoens , 
em que devem concorrer, tambem 
he como materia fuppofta , para 
que fe olha pouco ; e como tal, 
commumente fe entrega aos primei- 
ros ferventes que a noticia da obra 
convocou. Naô fe inquire quaes 
faô os materiaes melhores , e mais 
proprios, mas fim quaes faô os que 
eftaô mais perto, e donde fe haô 
de haver com menos defpeza. Nef- 
ta economia confifte o maior def 

velo 


234 Problema 


velo de quem dirige a obra. Naô 
fe examina como foi feita, e des- 
feita a cal; e da melma forte naô 
fe experimenta a arêa, para fe fa- 
ber fe contém barro, ou terra; fe 
he falgada , ou fem fabor ; fe he 
grofla, ou fina. 

Aflim vai logo crefcendo a 
obra mas imperfeita, e defeituofa 
defde o feu principio. Naô fe paf- 
faô muitos dias que fe naô veja hir 
cahindo a cal juntamente com a 
arêa, defamparando as partes fu- 
perficiaes, e lateraes do muro. Os 
artifices que o vem , nunca lhes im- 
porta o indagarem a razaô porque 
aflim fuccede; e fe forem pergun- 
tados , raramente acertaráô com 
a caufa de que procede ; bufcan- 
do fundamentos menos verdadei- 
ros, a que erradamente attribuad 
aquelle facto. Os que edificad por 

aquel- 


De Architectura Civil. 23% 


aquelle modo , talvez entenderãõ 
que o mundo tem já pouco que du- 
rar; e que por ponco que a obra 
dure , fempre chegará até o tem- 
po, em que haô de acabar todas 
as coufas, Hum Philofopho aflim o 
entendeo tambem , quando diffe, 
fallando do mundo : Yam jam fe- 
pulcrum premiz. Porém efta porten- 
tofa machina , parece que naô foi 
feita fó para Ífeis mil annos.Al- 
guns dos que quizerad computar as 
femanas de Daniel, fizerad calcu- 
los menos acertados ; porque fe fof- 
fem certos , já teria acabado o 
mundo. O Divino Architefto do 
Univerfo , relervou fó para fio 
tempo em que a fua obra ha de 
ter fim: fó elle podia dizer Fiat, 
e fó elle fabe quando ha de dizer 
Intereat. 
Para conhecer-fe pois quaes 
fad 


236 Problema 


faô as proporçoens, em que devem 
concorrer aquelles dous materiaes, 
he neceffario , antes que a obra prin- 
cipie , fazer alguns experimentos 
em porçoens pequenas: em humas 
v. g. em que fe juntem iguaes par- 
tes, ifto he, tanto de cal, co- 
mo de aréa: em outra em que fe 
junte parte e meia de arêa con- 
tra huma de cal: em outra em que 
fe juntem duas partes de arêa con- 
tra huma de cal: em outra em que 
fe juntem duas partes e meia de arêa 
contra huma de cal ; e em outra 
em que fe juntem tres partes de arêa 
contra huma de cal. 

Feitas eftas mifturas feparada- 
mente, e poítas ao ar cada huma 
de per fi, ( depois de amafladas 
bem com a agoa neceflaria, e da 
meíma com que fe ha de fabricar 
a obra) entaô fe verá como fica 

cada 


De Arcbiteétura Civil, 237 


cada huma daquellas compofiçoens: 
a que feccar com effeito em menos 
tempo, e que endurecendo mais de 
preíla , fuítentar a agoa que por 
fima fe deitar , fem a extravazar, 
nem amolecer a fua fubftancia , he 
a melhor , e em que as proporçoens 
dos materiaes forad acertadas. En- 
taô fe fará o amafladouro em gran- 
de; obfervando as mefmas propor- 
çoens fabidas pela experiencia an- 
tecedente. 

O que fica dito, he fuppondo 
fempre ferem bons os materiaes que 
ferviraô para a experiencia; por- 
que fe a arêa tinha terra, oubarro; 
fe era grofla damaziadamente ; fe 
continha fal de qualquer genero que 
fofle: e da mefma forte, fe acal 
foi feita com pedra branda ; fe foi 
desfeita ao ar, oucom agoa falga- 
da, e ainda falobra ; de femelhan- 

tes 


238 Problema 


tes materiaes, nunca podemos ef- 
perar que refulte hum corpo folido; 
tanto em grande, como em peque- 
no; e por mais bem ordenadas que 
as proporçoens fe encontrem entre 
aatéa,e a cal, 

Talvez que aquelle fofle o 
fimplicifimo, e faciliífimo fegredo 
de que ufavaô os antigos, quando 
edificavad , fegurando-fe por aquel- 
Je modo das jutas proporçoens que 
deviaô praticar; e por cujo meio 
confeguiad o fazer tad fortes as pa- 
redes, que quando queriaô demo- 
Hr-fe para alguma nova obra , era 
menos cultofo que ebrar as pedras pe- 
lo meio dellas , do que dividillas pe- 
las fuas juntas; como vemos ainda 
hoje. em todas as paredes de edi- 
ficios antigos. Sendo tambem para 
notar, que aquelles edificios tinhad 
as paredes comumente menos grof- 

fas; 


De Arcbitectura Civil. 239 


fas; e ainda aflim fuftentavaõ pe- 
zos exorbitantes, fem ceder a elles; 
e aflim mefmo duravad muitos fe- 
culos fem o menor defeito; em lu- 
gar, que as grofluras das paredes 
nos edificios modernos fendo mui- 
tas vezes exceilivas , nem por if- 
fo faô mais fortes , nem promet- 
tem duraçaô maior: de forte que 
nos primeiros a arte;com que os mu- 
ros fe formavaôd , e a bondade, e 
Juítas proporçoens nos feus mate- 
riaes, Íuppria a falta das grofTuras; 
e nos fegundos as groíluras ex- 
ceflivas naô podem fupprir a irre- 
gularidade de cada hum dos mate- 
riaes'; e Íuas devidas proporçoens. 


CA- 


240 Problema 





“E CT O ra rr 
—me ma 


CAPITULO XVI 


| TE seg a fortaleza dos edi- 
ficios depende da miftura regu- 
lar daquelles materiaes, de que as 
paredes fe compoem ; porque da 
cal, e da arêa mal juntas, ou amaí- 
fadas mal, nunca póde refultar hu- 
ma liga forte. Do contaéto imme- 
diato provém a uniaô perfeita; e 
fem efta naô póde haver indura- 
çaô; de forte, que os ingredientes, 
depois de mifturados mal , ainda 
confervad alguma parte da divifad 
que tem naturalmente. Quantas ve- 
zes vemos que no inftante em que 
a obra principia, nefle mefmo inf. 
tante fe prepara a cal, e fe junta 
com aarêa? E tudo taô precipita- 

damen- 


De Architeliura Civil. 24x 


damente que o intento do artifice 
parece encaminhar fe fó a fazer 
de preíla , e nad a fazer bem. A 
natureza naô faz, nem fabe fazer 
milagres ; por iflo nada faz fem 
tempo. O prudente agricultor pri- 
meiro prepara a terra, e neíta pre- 
paraçaô impende o maior traba- 
lho: efpera a fezaô propria ; obfer- 
va algumas vezes as phafes da lua 
nova, ou chea ; efcolhe o dia fe- 
reno, e claro, eentaô femêa. Neí- 
te ponto começa a natureza a Íua 
obra , e a vai continuando lenta- 
mente até que em efpaços certos à 
conclue. 

Tudo , o que fe faz de repen- 
te, tambem de repente acaba. Às 
coufas que fe fazem de vagar , e 
com premeditaçad, faô as que du- 
raô mais. Aflim faô os edificios ; 
para eítes he primeiro nec eflario 


Part. II. Q que 


242 Problema 


que a materia fe difponha , ifto he, 
que os materiaes recebaô aquella 
elaboraçaô primeira, por meio da 
qual fe fazem habeis para produ- 
zirem huma acçaô determinada. Ne- 
nhum artefaéto ha, que naô necef- 
fite preparaçoens antecedentes. Só 
o que he feito de huma fó coufa 
neceflita menos, (fe he que póde 
haver alguma coufa que provenha 
de huma coufa 16.) Aquillo po- 
rém , em que entraô muitas , e 
diverfas entidades , cada huma 
dellas exige hum modo de prepa- 
rar diverío; porque a perfeiçaô de 
hum compofto Ífuppoem necefla- 
riamente a perfeiçaô das partes que 
o compoem. 

Quem fouber que o vidro fe 
faz comarêa, e fal, nem por iflo 
o ha de faber bet, fe igualmen- 
te naô fouber o como fe preparaô 

para 


De Architettura Civil. 243 


para, aquelle effeito o fal, e mais 
a arêa. Quem fouber que o ver- 
melhaô fe faz com enxofre, e azou- 
gue , nem por iflo o ha de fazer 
nunca , fe ignorar a preparaçaô de 
cada hum daquelles dous ingredi- 
entes; porque naô baíta o conhe 
cimento abítraéto ; mas he necef- 
fario arte na execuçaô. Todos vem 
que a folha, chamada de Flandres , 
he fabricada com eftanho ,; erla- 
minas de ferro; mas nem aflim fa- 
zem todos aquela folha, por naô 
eftar vulgarizada a preparaçaô an- 
tecedente de hum e outro metal 
para aquelle util minifterio. 
Muitos fegredos fe perderads 
fem que a noticia fe. perdefle dos 
feus materiaes; mas porque fe per- 
deo o modo de os preparar. Raros 
faô os que naô conhecem quaes 
faô as partes, ou ingredientes, de 
Qii que 


244 Problema 


que fe faz a compofiçad metallica, 
chamada Electro Mineral ; porém 
efte faô rariflimos os que o fabem 
fazer , porque o ufo de difpôr 
aquellas partes naô he commum. 
A arte tem Íeus materiaes, e tam- 
bem a natureza ; defta os mate- 
riaes faô os quatro vifiveis ele- 
mentos. Só a natureza fabe obrar 
com elles; porque fó ella os fabe 
preparar. À arte prefupppoem 
aquellas preparaçoens anteriores , 
que fó a natureza Ífabe dar. 

E com effeito o que a arte faz 
he tudo por meio dos corpos já 
feitos, ou formados pela natureza; 
e eíta o que produz he por meio 
de elementos ainda nad corporiza- 
dos ; porém fem miftura , nem a 
natureza, nem a arte podem pro» 
duzir. Huma miítura defigual, ou 
negligente, o que faz he hum monf- 

tros 


De Architetlura Civil, 245 


tro, ou hum aborto. Ha fortes cor- 
rofivos , a que huma miltura di- 
ligente-dulcifica ; e a leve, ou pou- 
co cuidadofa , naô tira a qualida- 
de cauítica. O Mercurio , a que cha- 
maô doce , póde fervir de exem- 
plo. Commumente provém de hu- 
ma trituraçaô conftante ; fem a 
qual naô perde o fublimado Mer- 
curial, a corrofaô , ou cauíticidade 
que lhe he propria. 

A Pharmacia toda fe reduz a 
trituraçoens , ou mifturas differen- 
tes; da exactidaS deftas depende 
abfolutamente a fingularidade dos 
remedios. O artifice impaciente ra- 
ras vezes foi util ao infermo; an- 
tes quafi (empre lhe caula prejuizo 
irreparavel; porque a precipitaçaô, 
com que a receita fe prepara , ou 
faz o remedio inutil, ou faz o uío 
delle perigofo. Tudo aquillo, em 

Part. II. Q in que 


246 Problema 


que entraô partes diverfas , para 
de todas refultar hum (ó compof- 
to , he fempre neceffario ( como 
já diflemos tantas vezes) que ef- 
fas mefmas partes fe mifturem bem; 
e nenhuma miftura fe faz perfeita- 
mente fem paciencia, e tempo. E 
aílim, que importa que o artifice co- 
nheça a ley, ou proporçaô das 
quantidades , fe ao tempo da mif- 
tura ou fe efquece della, ou a 
trata comb ponto menos importan= 
te, e pouco eflencial ? 
Naô he porém aíflim ; por- 
que fe a cal, ea arêa fe naô in- 
corporaô bem por meio de huma 
miltura diligente, e rigorofa, nuns 
ca daquelles dous ingredientes ha 
de refultar hum corpo Íó ; antes 
cada hum confervando tenazmen- 
te afua natural propriedade ha de 
ficar habil fempre para feparar-fe 


- € para 


De Architeétura Civil, 247 


e para tornar ao eftado de divifaõ, 
que de antes tinha ; e com efeito 
de huma tal compofiçad , ou de hu- 
ma miftura fuperficial, e negligente, 
nunca póde refultar huma concre- 
çaô laprdifica , forte, e perduravel. 

Sendo pois certa, e bem fabi- 
da aquella propofiçaô ; e proce- 
dendo geralmente em todas quan- 
tas compofiçoens fe fazem ; ainda he 
mais conftante, e invariavel na quel- 
taô de que tratamos ; porque as 
paredes nad fe fazem para Ífuften- 
tarem fó o feu proprio pezo; mas 
tambem , e mais principalmente pa- 
ra fuftentarem todo o pezo de to- 
das as partes do edificio ; e ifto nad 
para hum dia, ou para hum anno 
fó , mas para muitos. Por io quan- 
to menos obfervancia ha na exa- 
étidaô das regras, tanto menos he 
duravel o edifício. 


Qiv Ne- 


248 Problema 


Neceílitamos de huma efpe- 
cie de liga , ou cola preparada de 
tal forte, e com arte tal, que en- 
dureça logo , e depois de endure- 
cida fe petrifique com o tempo ; pa- 
ra que nelfte eftado poíla refiftir à 
agoa , e aoar: á agoa, para que 
a naô penetre; eao ar, para que a 
naô faça em pó. Nos edificios an- 
tigos obfervamos muitas vezes que 
corroendo o ar o corpo Íolido das 
pedras, naô póde fazer a mefma 
corrofaô na cal e arêa com que 
foraô fabricadas as paredes. Iíto 
procede aflim pela razaô de have- 
rem fido aquelles dous materiaes 
efcolhidos prudentemente, e amaf- 
fados bem, de forte que nem a agoa, 
nem o ar os poderaô deftruir ; e 
foi naquella parte mais douta a ar» 
te, que preparou os materiaes, do 
que a natureza que fez as pedras; a 

lo 


De ArcbiteéluraCivil. 249 


io eftas refiftirad menos á impreflaô 
diuturna daquelles elementos; em lu- 
gar que os materiaes depois de uni- 
dos, ficara totalmente impenetra- 

veis, e daqui procedeo a duraçaô. 
E aflim he neceffario que os 
materiaes fe mifturem bem , e que 
neíta preparaçaô fe occupe o tem- 
po que for precifo : porém como 
em tudo póde haver exceflo , e efte 
em tudo he ruinofo, commumente 
tambem o póde haver no vagar de- 
maziado, com que fe proceda-na mif- 
tura; porque diílo refultaria o mef- 
mo, ou maior erro. À força da cal 
depende inteiramente dos efpiritos 
igneos que contém ; e fem os quaes 
nenhuma preparaçad , ou tritura- 
çaô póde fer fufficiente para fup- 
prir , e emendar aquella falta. Tf- 
to Íuppofto , já fe vê que huma 
preparaçaô efpaçofa ou prolongada, 
lenta- 


250 Problema 


lentamente faz diflipar huma grande 
parte daquelles memos efpiritos 
que devemos confervar; e que faô os 
primeiros » e verdadeiros agentes da 
pemificaçaô artificial que procura- 
mos, e que he com effeito o fim a 
que a obra da parede fe encaminha. 
A expofiçaô da cal ao ar por 
muito tempo, faz perder-lhe a for- 
ça; porque no mefmo ar fe diffi- 
paô os efpiritos, em que toda a for- 
ça eftá. Iíto fuccede à cal, naô ló 
quando eftá folitariamente ; mas 
tambem depois de mifturada com à 
aréa, e no intempeftivo tempo da 
miftura; porque nefle meímo fe 
perdem tambem os feus efpiritos 
mais fortes, e aétivos. Temos o ex- 
emplo em todos os licores inflam- 
maveis ; os quaes eftando algum 
tempo expoftos ao ar livre, perdem 
infenfivelmente o força , a qual 
confif- 


De Árcbitebtwra Civil. asa 


confiftindo nos efpiritos mais pu» 
ros, eítes fe diflipaô; eo que fica 
do licor, he a parte-mais:aquofa , 
e menos inflammavel. “O ;mefmo 
fuccede a todos os efpiritos volas 
teis dos animaes, e vegetaes; por 
illo os valos, em que:feguardad ; 
devem elftar'tapados fempre ,'co- 
mo enfina a pratica vulgar ; e quan» 
to mais fubtis ; e efprrituofos faô, 
tanto mais neceflitaô. aquelle: ref- 
guardo , £ providencia; 

: A mefma agoa fimples»conti- 
nuamente fe evapora, e vai per- 
dendo alguma parte da fua melhor 
fubftancia , como a diminuiçao mof 
tra; e fe evapora totalmente em 
tempo-campetente; e a parte; que 
vai ficando, (empre he a mais den- 
fa, emenos pura; tornando por ef- 
te modo a entrar na vaíta regiad do 
ar, que he de donde as ig 

as 


as Problema 


das vem. Entre os efpiritos vola- 
teis alguns ha com tanta força , 
que com difficuldade fe confervad, 
por mais que vedadamente eftejaô 
refguardados ; porque, franqueando 
os vafos mais feguros;, recobraô a 
perdida liberdade, illudindo a pou- 
ca vigilancia do artifta inexperto , 
e defcuidado. 

Deve pois a preparaçaô, ou 
miftura dos noflos materiaes , fer 
regularmente praticada , impenden- 
do-fe o tempo neceflario , mas naô 
com tal exceílo , que a força da 
cal, que devemos confervar, fe ve- 
nha a perder por efle meio. Fefti- 
sa lente , como diz o proverbio 
conhecido. À prudencia deve pref- 
crever as regras neceflarias , ifto he, 
o tempo que ha de gaftar-fe na mil- 
tura, para que efta naó fe faça pre- 
cipitadamente , nem tambem com 

mais 


De Architeliura Civil. 253 


mais vagar do que aquelle que he 
precifo. Affim teremos os dous ma- 
teriaes taô juftamente preparados , 
que venhaô a fervir de huma liga 
forte, que contenhaô os muros dos 
noílos edificios ; e aflim veremos 
que os edificios antigos nunca fo= 
raô mais duraveis , doque os noflos 
haô de fer. Que os elementos fe 
conjurem, e que a terra trema, ve- 
remos as noflas habitaçoens refife 
tirem mais , naô cedendo ao pri- 
meiro impulfo , mas aos impulíos 
repetidos de hum tremor mais vio- 
lento , e extraordinario ; porque 
defte naô ha arte humana que pof- 
fa defender. 

Aquella he a refoluçao do nof. 
fo Problema. Os edificios antigos 
duravad mais , e refiftiaô algum 
tempo mais aos movimentos Íub- 
terraneos ; porque foraô fabricados 

com 


254 Problema 


com mais regularidade. Alguns dos 
noílos, e modernos edificios refif- 
tem menos, e tem menos duraçaô; 
porque fe fabricaô com menos at- 
tençaô , e fem intençaô de dura- 
rem muito : de que fe fegue que naô 
he para admirar que os vejamos 
durar pouco. Nifto naô digo eu 
nada de novo; lembro aquillo mel- 
mo que todos fabem. O mais, que 
fiz , foi verificar aquella verdade 
conhecida , com experimentos phy- 
ficos igualmente conhecidos. Para 
os architeétos naô era precifo di- 
zer nada; porque fabem melhor do 
que eu todos os preceitos de huma 
profiflaô , que naô he minha. 
Naô affirmo porém que to- 
dos os noílos edificios fejaô fabri- 
cados com menos fegurança ; por- 
que alguns eftamos vendo que com 
effeito fe fabricaô com a mais fe- 
véra 


De Arcbite&lura Civil. ass 


véra exactidad. “Temos huma pro- 
va memoravel: no Arfenal famofo, 
donde a arte mais efcrupulofa ex- 
ercita as regras mais fublimes pa- 
ra formar hum edifício fumptuofo, 
que ha de ficar fervindo de indicar, 
como Padraô Real, o auguito nos 
me do Monarcha Inviéto que o pro- 
tege; do fabio Minifterio que o pro- 
move; e do nobre Magiftrado que 
o dirige. Alli veraô os feculos vin- 
douros o quanto póde em hum Prin- 
cipe o cuidado Paternal; em hum 
Miniftro ozelo ardente; eemhum 
Corpo refpeitavel a prompta exe- 
cuçaô. Que duraçaô naô devemos 
eíperar de hum admiravel edificio, 
cujos fundamentos faô eftabelecidos 
naquelles generofiflimos motivos ? 
As pofteridades o haô de ver du- 
rar, e perfflir na mefma pompa 
contra todo o rigor dos elementos; 

nelle 


256 Problema 


nelle haô de achar como em livro 
vivo e permanente, os melhores do- 
cumentos para edificar com forta- 
leza: enós obfervando o methodo, 
com que aquelle edificio fe levanta 
felizmente , nelle acharemos tam- 
bem os preceitos regulares para pra- 
ticar em pouco efpaço , a mefma fe- 
gurança que alli vemos praticada 
em grande. 


FIM. 





pis 


PROTESTATIO. 


I aliquid in hoc Civilis Architefturz 
Problemate, me início , elapfum fit, 
quod Catholic Fidei, aut bonis moribus 
aliquatenus adverfetur, id omne non di- 
étum nec feriptum volo; & facrofanttx 
Romanz Ecclefiz cenfurz , aut alicujus 
in Phyficis melius fentientis correétioni 
fubjicio ; ex debito voveo , ex animo li- 

benter amplector. 
IN 


TA 


INDEX, 
OU EXPLICACGAO 


de alguns termos proprios , de 
que no Problema de Archite- 
Cura Civil fe faz mençaô. 


Cido alcalico:fal alcalino fixo. 
A Todos eftes termos fe appli- 
cad a aquelles faes que fer- 
mentaô entre fi;naô porque haja en- 
tre elles huma verdadeira fermenta- 
çaô; mas huma efpecie de combate, 
ou ebulliçaô em que o acido perde a 
natureza de acido ; e da mefma 
forte o alcalino perde a natureza 
alcalica. O acido porém fempre fe 
manifeíta em hum fabor pungente, 
ou amaricante, como fe nota no fal 
commum, no nitro, no vitriolo, e 
em outros muitos faes , aflim mi- 
Part. II. R nêraes, 


258 Index do Problema 


neraes, como vegetaes; em lugar 
que os alcalinos tambem fubliftem 
fem fabor algum; em cuja ordem 
entra a terra vulgar, todas as for- 
tes de cal, e outros muitos corpos; 
os quaes faô alcalinos, fem conte- 
rem aliás fabor algum. E por ef- 
te principio o fal acido he fempre 
difloluvel na agoa ; porque ainda 
aquelle, que eíta junto intimamen- 
te a hum corpo indifloluvel, em fe 
feparando delle logo fe diffolve ; 
em lugar que osalcalinos , nem to- 
dos fe diflolvem na agoa ; porque 
a terra, acal, as cônchas do mar, 
e outros muitos corpos , naô obitan- 
te o ferem alcalinos, nunca fe dife 
folvem. Os faes alcalinos fixos, ef- 
fes todos fe diflolvem na agoa 
promptamente , e a humidade do 
ar bafta para os diflolver perfeita- 
mente, Todo o fal, que fe acha 

nas 


De drchiteélura Civil. 259 


nas cinzas dos vegetaes queimados, 
he hum verdadeiro fal alcalino fixo; 
e da mefma forte ofal, que exifte 
no farro do vinho queimado, he 
hum falalcalino fixo, e o mais for- 
te de todos os daquella natureza. 

O conhecimento dos acidos, 
e alcalicos , he o mais precifo no 
ufo da Medicina , e fem aquelle 
conhecimento exaéto nad póde ha- 
ver perfeito Medico ; porque ape- 
nas ha doença, ou mal algum que 
fe pola explicar diftinétamente , 
nem conhecer o feu principio, fem 
recorrer a hum acido predominan- 
te, ou a hum degenerado alcalico: 
os remedios commumente tendeim 
oua moderar, e extirpar hum aci- 
do abundante , ou a moderar , e 
extirpar tambem hum alcali efcor- 
butico , e corrofivo. À razad he; 
porque a fabrica vivente em todos 


Ri os 


260 Index do Problema 


os animaes toda fe compoem de 
liquidos diverfos que circulaô , e de 
cuja circulaçad depende a contex- 
tura, e ordem natural: viciada, ou 
embaraçada de algum modo a cir- 
culaçaô, logo eftá prefente o mal 
que ha de vir precifamente. Iíto 
fuppofto , he certo que dos aci- 
dos; e alcalicos provém ordinaria- 
mente as concreçoens , coagula- 
çoens , e indigeítoens que perver- 
tem a economia circular no corpo 
dos animaes; e pervertida a circu- 
laçaô, diflo vem a refultar a eftag- 
naçaô de hum liquido , e deite a 
de todos os mais progreflivamente 
Janguis tibi figna dabis. 

E com effeito os acidos, e al- 
calicos faô os promotores das def- 
ordens principaes que o corpo fen- 
fitivo experimenta ; porque a al- 
guns dos liquidos attenuaô exceffi- 

vamen- 


De Architectura Civil. 261 


vamente, ea outros engroflaô, fa- 
zendo a huns mais fluidos do que 
devem fer, e a outros mais denfos; 
e por eíte modo ou fe fuípende a 
circulaçao , ou fe defordenaô as 
funçoens vitaes. Naô fe fegue da- 
qui que todos os acidos e alcalicos 
fejad morbofos fempre ; antes a to- 
tal exterminaçaô delles he nociva: 
huma jufta porçaô , e proporçaô 
deve intervir; o mal eítá no excef- 
fo , e efte confifte ou na quanti- 
dade , ou na qualidade. O acido 
exceílivo , predominante nas pri- 
meiras vias, he commumente o fa- 
bricador , e confervador das varias 
eípecies de lumbricos inteftinaes. 
Daqui vem que, azedando o leite 
no debil eftomago das crianças, alli 
fe converte em eftirpe vermino(fa ; 
e defta refultad os funeftos acci- 
dentes, de que a maior parte das 

Part. II. Ri crian- 


262 Index do Problema 


crianças morre. Os lumbricos , 
(ou lumbrigas ) caufaô convulfoens 
horriveis; e nefte calo , fe a cura 
fe dirige a outro motivo, a morte 
he infallivel. Effa verdade prati- 
ca conhecem perfeitamente os Me- 
dicos ; mas naô fei fe todos co- 
nhecem o remedio mais perfeito. A 
tintura azul he remedio efficaciffi- 

mo. Quis potef? capere capiat. 
Alchool , ou efpirito de vinho 
recbificado, ou tartarizado. Álchool 
fe chama o efpirito do vinho fum- 
mamente deflegmado , e pofto no 
ultimo grao da pureza que póde 
ter. Aquella depuraçao fe faz por 
meio de qualquer fal alcalino fixo, 
ou por meio do tartaro queimado ; 
porque todo o fal alcalino fixo attra- 
he a fia humidade aquofa , e dei- 
xa intacta a oleofa, O efpirito do 
vinho, privado inteiramente de hu- 
mida- 


De Architeétura Civil. 263 


midade , he o diffolvente proprio 
de todas as gomas , e rezinas , e 
geralmente de todos os corpos re- 
zinofos. Por meio daquelle mefmo 
efpirito fe extrahem as tinturas de 
todos os vegetaes; e os remedios 
mais exquifitos commumente exi- 
gem o alchool; porque o efpirito 
do vinho em quanto contém hu- 
midade aquofa, e em quanto naô 
eftá reduzido ao que chamamos al- 
chool, naô tem a força neceflaria 
para diflolver alguns corpos , ou 
extrahir algumas tinturas , que Íó 
cedem ao alchool , e refiftem ao 
efpirito do vinho. Efpirito reétifi- 
cado he aquelle que, deftillando-fe 
varias vezes, vai deixando no fun- 
do do vafo deftillador a parte aquo- 
fa que continha , recebendo-fe fó 
a que primeiro fahe , e entra no 
valo recipiente ; porque os primei- 

iv ros 


264 Index do Problema 


ros efpiritos que fobem faô os mais 
puros, e os que contém menos aquo- 
zidade ; porque efta, como mais pe- 
zada, e menos efpirituola , naô fo- 
be fe naô no fim da operaçaô, e 
quando o fogo adminiftrado a inci- 
ta com mais força; por iflo repc- 
tindo-fe muitas vezes a operaçaõ, 
e tomando Íó os primeiros vapores 
que fe levantaô, vem a adquirir-fe 
hum efpirito oleofo em todas as 
fuas partes, e proprio para os ufos 
deftinados. O mefmo efpirito tarta- 
rizado he hum puriflimo alchool ; 
porque o fal fixo do tartaro quei- 
mado embebe em fi a humidade 
fuperfua, e fó deixa livre a parte 
oleofa , e efpirituofa ; e ifto pelo 
principio commum , de que os ef- 
prritos fermentados, fó embebem a 
aquofidade , e naõ penetraô, nem 


diflolvem fal algum, 
O al 


De Árchitetlura Cioil. 265 


O alchool tem ufos excellen- 
tes nos experimentos phyficos ; e da 
mefma forte na Pharmacia, Medi- 
cina, na Cirurgia, e na Anatomia. 
A manufactura dos vernizes ; a ex- 
tracçaô de tinturas mineraes , ve- 
getaes ; e medicinaes; e fabrica dos 
termómetros, ou conhecimento exa- 
éto dos graos do frio, e do calor 
em todas as eltaçoens do anno; a 
confervaçao de algumas figuras 
monftruofas animaes ; a cura de 
muitos males; a reprefentaçaô vi- 
fivel dos liquidos que circulaô nas 
arterias, e nas vêas; tudo depen- 
de do alchool; e fe efte he depu- 
rado menos bem, fuccedem mal os 
experimentos que com elle fe pra- 
tica. E com effeito o alchool, que 
contém ainda humidade aquofa, 
diflolve fó groffeiramente as go- 
mas , € rezinas de que os vernizes 


fe 


266 Index do Problema 


fe compoem” naô moftraô exacta- 
mente os differentes graos de frio, 
e de calor; por iffo ha poucos termó- 
metros que fejaô bem exaétos em 
moftrar aquellas differenças ; por- 
que faô rariflimos os que tem o al- 
chool perfeito: da meíma caufa vem 
o naô fe confervarem fempre as 
partes animaes que fe devem pre- 
fervar de corrupçaô : a tintura do 
coral naô fe extrahe como deve fer, 
quando o alchool he menos defleg- 
mado ; e a outras muitas tinturas 
fuccede o mefmo por hum funda- 
mento igual. 

Na Cirurgia deve fer muito 
circunípeito o ufo do alchool; por- 
que efte efpirito concentrado , he 
menos proprio naquella arte; a Íua 
meíma pureza , e fortaleza faz mui- 
tas vezes paralytico o membro a que 
fe applica, tirando-lhe o fentimen- 


De drchbiteélura Civil. 267 


to, ou fazendo-o infenfivel, e fem 
acçaô vital ; principalmente nas 
partes nervofas, as quaes de algum 
modo eftupifica. Naô fei fe os pra- 
ticos conhecem bem efta verdade, 
e a importancia della: fe bem que 
efte cafo he menos perigofo , por- 
que raramente fe encontra hum al- 
chool verdadeiro, e puro: porém 
ainda o mefmo efpirito de vinho he 
fufpeitofo; porque coagúla o fan- 
gue: a agoa ardente commua he 
mais proveitofa , e mais fegura no 
tratamento das feridas; porque cu- 
ra fem mortificar, ou fopitar os ef- 
pititos animaes. Os remedios for- 
tes faô infiéis as mais das vezes; 
com os brandos fe confórma a nã- 
tureza; com os outros fe exafpera, 
e perde o alento curativo que em fi 

tem naturalmente, 
O alchool naô fó provém do 
efpi- 


168 Index do Problema 


efpirto vinofo, mas tambem de 
todos os licores fermentados , co- 
mo faô os que produz otrigo , a 
cevada, o milho, e outros muitos 
vegetaes que fermentaô da meíma 
forte: de todos elles fe tira hum ef- 
pirito em tudo femelhante , e fem 
differença alguma ; porque todos 
fad inflammaveis igualmente ; e fe- 
guindo o mefmo methodo , de to- 
dos fe confegue hum puriffimo al- 
chool, e proprio para os meímos 
ufos, e experimentos. 
“Amalgamar. Amalgamar fe 
diz da miftura que fe faz do azou- 
gue como ouro, ou prata, e com 
os mais metaes , exceptuando o fer- 
ro, porque fó elte naô admitte o 
mifturar-fe com o azougue. Aqguel- 
la acçaô , por onde o azougue inti- 
mamente fe miftura com o ouro, 
ou prata, tem ulos fingulares em 
varias 


De Architeiura Civil. 269 


varias artes. Os chimicos novatos, 
quando vem que o corpo compa- 
étiflimo do ouro recebe avidifh- 
mamente em fi o azougue, e nelle 
de algum modo fe derrete , logo 
entendem que aquelle femimetal he 
o diflolvente natural do ouro, e 
que he o de que falla o Conde Ber- 
nardo Treviflano ; e julgaô fer 
aquella a fonte parabolica do mef- 
mo Conde : fundados nefta idéa 
entraô a intentar experimentos ra- 
ros com a miftura do azougue ; e 
ouro ; e entre elles faô rariílimos 
os que depois de muitos annos de 
trabalho conhecem a illufaô , e fe 
affaftaô della. 

Porém naô tem fido inuteis 
aquelles inutilifimos trabalhos ;'e 
indagaçoens infruétuofas ; porque 
dellas provierad inventos admira- 
veis, de que as artes fe eftaõ fer- 

vindo 


270 Index do Problema 


vindo hoje. Os melhores praticos 
tem efcrito largamente experien- 
cias feitas por meio do amalgama 
do ouro com o azougue ; nelles fe 
haô de achar experimentos exqui- 
fitos, e curiolos, O que eu obfer- 
vei naquella metallica miftura , foi , 
que os metaes naô recebem igual- 
mente a meíma porçaô de azou- 
gue; porque huns recebem nos Íeus 
póros maior porçaô , outros menor: 
o ouro v. g. amalgama-fe com deza- 
feis partes de azougue ; a prata com 
oito , e a efta proporçaô os mais 
metaes Ífendo de advertir ; que 
quando o ouro fe amalgama com 
o azougue , exhala no tempo da 
miítura hum fétido urinofo. Efte 
phenómeno » por mais Ífimples que 
pareça , naô deixa de fer muito ob- 
fervavel; porque da uniaô daquel- 
les corpos naô devia provir fe- 

melhan- 


De Architeétura Civil. 291 


melhante fenfafaô : outros mais ex- 

perientes delcobrirãô a caufa. 
Athanor he huma efpecie de 
fornalha , fabricada de tal forte, 
que ocarvaô, que contém na parte 
chamada torre, vai cahindo de 
vagar , e fuccellivamente no lugar 
da fornalha em que o fogo eftá. 
Serve efte inftrumento para con- 
fervar hum fogo moderado ; e igual; 
fem fer precifo deitar-lhe carvad 
todos os dias; "por illo lhe chama- 
raô tambem P;ger Henricus. E com 
effeito o athanor he hum dos inftru- 
mentos neceflarios , de que hum 
bom laboratorio deve eftar provi- 
do: por meio delle fe fazem as ob- 
fervaçoens mais fingulares ; os lt- 
cores que devem circular baftante 
tempo; as digeftoens que fe fazem 
lentamente , e outras muitas ope- 
raçoens de experimentos naô vul- 
gares ; 


272 Index do Problema 


gares ; tudo neceffita hum = 
igual, fucceflivo, e moderado : o' 
athanor fatisfaz a todas eftas in- 
tençoens. 

Butyrum. Aflim fe diz de a 
ma materia unétuola que os artif- 
tas extrahem de alguns corpos que 
tem aptidad para a produzir , fen- 
do dirigidos de hum certo modo ; 
a materia unétuola he da meíma 
forte congelada por fórma de man- 
teiga, e porillo lhe chamaô buty- 
rum. Do antimonio , do eftanho, 
do vitriolo fe extrahe hum buty- 
rum criftallino ; os quaes ainda que 
faô famigerados no ufo da Me- 
dicina , e fejaô tidos por reme- 
dio heroico, com tudo, fe eu fo- 
ra Medico, nunca o applicara in- 
teriormente , por mais correãto , e 
cicurado que aquelle remedio fof- 
fe ; por fer hum indomavel cor- 

rofivo. 


De drchitectura Civil. 273 


rofivo. , À Medicina chimica he 
fufpeitola ; e quem fe ferve della, 
eu he Medico inexperto , ou chi- 
mico menos inítruido. O corpo 
humano naô he feito para fe fa- 
zer nelle experiencias , e anatomias, 
fe naô depois de morto. Os chimi- 
cos jaétaô muito os feus remedios, 
e confiaô delles muito; porém os 
veteranos chimicos , de todos os 
feus remedios defconfiaô. A Chimi- 
ca deve fer confiderada como fcien- 
cia phyfica, mas naô medicinal, De 
alguns corpos vegetaes fe extrahe 
hum butyrum feguro, como he o 
da cera v. g. aquelles que provém 
dos mineraes , e que delle fe ex- 
trahem com maisarte, e mais tra- 
balho, faô infiéis, e perigolos fem- 
pre. Os Medicos peritos conhecem 
bem efta verdade. À verdadeira man- 
teiga , que provém do leite , he hum 

Part. II. Ss vers 


274 Index do Problema 


verdadeiro butyrum natural : efte 
he nutritivo , e anodino ; porém 
naquelles, que tem por bafe os faes 
mineraes, Jatet auguis in berba. 
Calcinaçaô. Todo o corpo fo- 
lido , que eftando expofto ao fo- 
go, perde inteiramente a parte hu- 
mida que tem, fica calcinado , if- 
to he , reduzido em pó, ou em 
hum eftado de divifaô, que facil- 
mente fe reduz em pó, Hto he ao 
que fe chama calcinar, e calcina- 
çaô. Porém nem todos os corpos 
fe podem calcinar ; porque muitos 
ha em que de nenhuma forte pó- 
de ter lugar a calcinaçaõ. O vidro 
v.g. nunca fe calcina, porque nel- 
le o que o fogo faz, he reduzillo em 
vidro corrente , mas naô por fi 
meímo reduzivel em pó. O ouro, « 
a prata tambem naô admittem 
aquella acçaô; porque o fogo os 
funde, 


De Árchiteélura Croil. 275 


funde, mas naô os pulveriza. Al 
gumas vezes fe diz impropriamen- 
te que hum corpo eftá calcinado., 
fó porque efteve algum tempo ao 
fogo ; porém naô he iflo verdadei- 
ra calcinaçaO; porque o ouro; ou 
prata , ainda que efteja a hum fo- 
go violento, nunca fe calcinaô, e 
ficaô taô fufiveis como eraô, fem 
perder porçaô alguma da fua fubf- 
tancia. À propria calcinaçaô fup- 
poem deperdiçaô , e mudança de 
fubftancia, 
c Concentrado. Todos os efpirt- 
tos, € licores reduzidos por qual- 
qualquer modo a hum eftado de 
mais força, e mais pureza, fe di» 
zem concentrados. O modo mais or» 
dinario por onde os efpiritos , e li 
cores fe concentraô, he a diftilla- 
çaô; porque por meio della fe fes 
para a parte menos forte, e pura- 
S ii mente 


276 Index do Problema 


mente phlegmatica , ou aquofa , da- 
quella que Íó fe compoem das par- 
tes mais aftivas, e efpirituofas. O 
efpirito do fal v.g. na fua primei- 
ra extracçaô, he compofto de tu- 
do quanto tem o fal commum de 
mais volatil, e que com mais faci- 
lidade póde fer extrahido daquel- 
le fal. Porém repetindo-fe depois 
a mefma operaçaô ( fegundo a in- 
tençaô do artifta, e fegundo o grao 
de força , e de pureza que fe procu- 
ra) entado licor, que fica no vafo 
deftillatorio, he juftamente o licor, 
a que fe chama concentrado, e nef- 
te eftado tem propriedades, e vir- 
tudes mais efpeciaes, provindas uni- 
camente da força maior que tem. À 
agoa ardente he o liquido que fe 
extrahe na primeira diftillaçaô do 
vinho; porém fe a melma opera- 
çaô he mais vezes repetida , rece- 

bendo- 


De Árchiteclura Cívil. 277 


bendo-fe fó os primeiros vapores, 
ou os primeiros efpiritos que fe le- 
vantaô, e entraô no valo recipien- 
te, já entaô fe nad diz agoa arden- 
te, mas efpirito de vinho ; e fe 
com efte fe torna , ou continiia a 
repetir a mefma operaçaô receben- 
do-fe fó os primeiros efpiritos que 
fe volatilizad em fentindo o calor 
do fogo, já fe naô chama efpirito 
de vinho , mas efpirito concentra- 
do. O mefmo Íuccede a todos os 
efpiritos corrofivos , como faô os 
do fal commum, o do nitro, o do 
vitriolo , e o do enxofre; porém 
com a differença , de que nos lico- 
res inflammaveis ( como faô os da 
agoa ardente , do efpirito do vi- 
nho , do efpirito concentrado, e 
“outros ) a parte mais forte , e vi- 
gorola , he (empre a mais volatil, 
'e a que primeiro fahe ; em lugar 
Parte II. S iu que 


278 Tudex do Problema 


que nos efpiritos corrofivos a par- 
te, que primeiro fe volatiliza , he a 
menos forte; ea que cede em ulti- 
mo lugar á acçaô do fogo, e que 
exige mais actividade de calor, he 
fempre a mais vigorofa , eforte, e 
por io fe diftingue com a qualida- 
de, e denominaçaõ de concentrada. 
Criftallizar. Criftallizaçao. Só 

os faes, ou materias falinas fe crif- 
tallizaô; porém criftallizaçaô per- 
feita fó fe obferva nos faes puros. 
A agoa do mar evaporada lenta- 
mente ao fogo , ou ainda pelo ca- 
lor do Sol intenfo , depois de fe 
exhalar a maior parte da agoa, em 
que o fal eftá , e depois que a agoa 
reftante tem unicamente aquelle fal 
que póde conter diflolvido em fi, 
logo na fuperficie della entra a for- 
mar-fe huma pellicula , ou côdea 
criftallina , a qual ferve de final 
de 


De Architebiura Civil. 279 


de que a agoa tem mais porçaô de 
fal, do que aquelle que póde em 
fi conter: entaô fe retira do fogo 
o valo, em que a evaporaçaõ fe faz; 
mas (empre com a cautela de o ti- 
rar em fórma que a agoa fe naõ 
mexa , eifto para que o fal fe naô 
perturbe, e tome a fua mefma , e 
natural figura: o valo retirado af- 
fim logo fe poem em parte fubter- 
ranea , ou em outra qualquer que 
feja fria , ou ao menos frefca : à 
agoa aílim que começa a esfriar , 
logo começa tambem a expellir de 
fi o fal demaziado que em fi tinha; 
e depois que esfria totalmente, vai 
acelerando a expulfaô do fal, até 
que, fendo paífado o tempo necef- 
fario, todo fal que naô póde fub- 
fiftir diffolvido na agoa , entra a to- 
mara Íua fórma , ou figura propria. 
Io he ao que chimicamente fe cha- 

S iv ma 


280 Ludex do Problema 


ma criltallizar , ou criftallizaçao. 
Só os faes, como fica dito, fe 
criftallizaô. E o que tem de nota- 
vel efta acçaô da natureza (que a 
arte fabe promover perfeitamente ) 
he que por meio della cada hum 
dos faes toma infallivelmente huma 
certa fórma, ou figura determina- 
da que affeéta fempre ; porque huns 
tomaô a figura cúbica, pyramidal, 
outros a octogona , &c, de forte 
que fó pela figura podemos laber 
diftintamente o genero de fal cril- 
tallizado : e aílim que virmos hum 
fal com perfeita figura cúbica, lo- 
go fabemos com certeza que he o 
fal do mar, ou ontro qualquer fal, 
que tenha a fua mefma natureza, 
como he o falgema. Nenhum ou- 
tro fal toma aquella figura regu- 
lar; e da mefma forte os outros 
faes, que tambem affectad fempre 
as 


De Architetura Civil. 281 


as figuras , ou aquelles delineamen- 
tos que lhes faô proprios. Que or- 
dem conflante em tudo quanto a 
natureza cria, e que uniforme re- 
gularidade fujeita a huma mefma , 
e invariavel difpofiçaô ! Para evitar 
a confufaô difpoz o divino Archi- 
teéto do univerlo que todos os 
corpos fe diftinguiflem entre fi, 
naô fó pelas qualidades , ou pro- 
priedades interiores , e fubltanciaes, 
mas tambem por huma fórma exte- 
rior, e vifivelmente conhecida; e nad 
fó pela parte eflencial, e invifivel ; 
mas por huma fimple fmente configu- 

rada, material, e perceptivel. 
Aquella fórma , ou configu- 
raçaô conftante , a natureza ob- 
ferva exaétamente em todos os tres 
Reinos da fua vafta Monarchia. Os 
animaes vegetaes, e mineraes, to- 
dos tem figuras difiintivas ; e quan- 
do 


182 Index do Problema 


do algum dos individuos fe aparta 
confufamente da regra configurati- 
va, entao relulta o monítro; e ain- 
da neítes a natureza he admiravel. 
A criftallizaçaô he a que moftra ; 
e poem patente a figura indicativa 
do fal criftallizado ; e parece que 
tambem no fal dos animaes , e ve- 
getaes , he donde refide o efpirito 
informante , ou formador. E com 
effeito em todos os corpos conhe- 
cidos a parte aétiva eftá nos faes ; 
-deftes mais , ou menos exaltados , 
em mais, ou menos acçaô depen- 
de a efpecifica virtude dos corpos 
mineraes , animaes , e vegetaes; 
todas as mais partes, de que aquel- 
les corpos fe compoem , ou faô 
phlegmaticas inertes, ou terreftres 
inactivas; o fal he a parte que con- 
figura. Daqui vem que, fe extra- 
hirmos de algum dos mixtos o fal 

chama- 


De 4rchiteluraCivil. 283 


chamado juftamente effencial, o 
mixto fica fem virtude , e como fem 
alma , e eftupefaíto. Da qualidade 
do fal refulta a qualidade do mix- 
to que o contém; porque na com- 
pofiçaô natural dos corpos, a ter= 
ra naô ferve mais que de recepta- 
culo ; o movimento naô póde vir 
fe naô do elemento igneo , e efte 
fó nos faes tem aflento firme , e 
corporizado ; a acrimonia delles, 
moftra a prefença actual de hum ele- 
mento efpirituofo, fubtiliílimo , e 
rapidiflimo. Os mefmos faes dulci- 
fórmes Ífaô originariamente acri- 
moniofos , e picantes ; a miftura, 
ou temperança de partes oleofas, 
lhes muda o fabor auítero para 
outro, em que o paladar encontra 
mais agrado. 
E verdadeiramente parece que 
a configuraçaô dos corpos procede 
dos 


284 Index do Problema 


dos feus faes particulares ; porque 
fó nos faes fe achaô configuraçoens 
certas , e conftantes; tudo o mais 
he materia indigeíta, e rude; dif- 
poíto fó para fer formado , e naô 
para formar ; para receber figuras 
diferentes, e naô para as fazer , nem 
dar. Hum fal puro quando fe crif- 
talliza, toma unicamente a figura 
que lhe he propria; porém fe ao 
mefmo fal fe aggregaô outras par- 
tes de hum diferente fal, ou de 
algum corpo terreítre oleofo ; me- 
tallico, ou vegetal , já entaô naô 
provém na criftallizaçaô a figura 
propria de hum fal determinado , 
mas outra diverfificada , e differen- 
te. O fal domar, v.g. fendo pu- 
ro, fe fe criltalliza , fempre toma 
a fórma cubica; porém fe aquelle 
meímo fal tiver unido a fi outro 
genero de fal, ou algum corpo 

metal- 


De Architetlura Civil. 285 


merallico , animal, ou vegetal, já 
entaô naô fe criftalliza em fórma 
cubica , mas em outra diferente, 
fegundo a indole da materia aggre- 
gada a elle. Da mefma forte o ni- 
tro fe fe criftalliza eftando puro af- 
feQta a fórma pyramidal ; mas fe ef- 
tiver aflociado a outros corpos fa- 
linos ; ou terreftres, já naô torna 
aquella fórma, mas outra mui di- 
verfa. De quantas combinaçoens 
naô faô fuíceptiveis os faes feme- 
lhantes, e variaveis diverfamente! 
Decrepitar. De todos os faes, 

que conhecemos ,. Íó o fal do mar 
decrepita; porque deitado fobre o 
fogo , entra a eftalar fucceflivamen- 
te, eaefta acçaô fe chama decre- 
pitar: de forte que todo o fal, que 
deitado fobre o fogo decrepita por 
aquelle modo , he fal do mar in- 
fallivelmente , ou tem a fua mef- 
ma 


2186 Index do Problema 


ma natureza , como he o fal que 
chamamos gema. Tambem de al- 
gumas plantas fe extrahe hum fal 
commum; da mefma forte que de 
algumas fe extrahe hum verdadeiro 
nitro. 

Duétilidade. Só nos metaes 
fe acha verdadeira duétilidade , por- 
que fó elles fe eftendem ao martel- 
lo fem quebrar ; a eita proprieda- 
de, que nos metaes fe encontra , fe 
chama duétilidade. Porém nem to- 
dos os metaes faô duétiveis igual- 
mente; alguns foffrem huma fum- 
ma attenuaçao , porque faô fum- 
mamente duétiveis. O ouro recebe 
huma attenuaçaô , ou eftupenda de- 
licadeza fem quebrar ; depois fe fe- 
gue a prata, e ultimamente o fer- 
ro: mas ifto fe entende fó dos me- 
taes puros ; porque os que tem 
miltura de algum fal, ou mineral, 

facil- 


De Árchiteilura Civil. 287 


facilmente fe quebrad ao primeiro 
impulío do martello.O azougue nad 
tem duétilidade alguma ; porque 
naô he metal, mas hum principio, 
ou rudimento de metal. 

Eolípilo. He hum inftrumen- 
to de cobre, feito em fórma oblon- 
ga, tendo fó hum collo algum tan- 
to retorcido, e eftreito, de tres, ou 
quatro linhas na:abertura, ou bo- 
ca delle. Para introduzir-fe neíte 
inftrumento a agoa , primeiro fe 
poem fobre hum fogo moderado ; 
eíte expelle o ar incluido dentro ; 
depois pegando-fe o inftrumento 
com huma tenaz , (ou por outro 
qualquer modo ) expondo-fe a aber- 
tura do colio em agoa fria , efta fe 
introduz na cavidade à proporçaô 
que o inftrumento esfria. Por meio 
do Eolipilo vifivelmente fe explicaô, 
e demonftrad varios phenómenos 

natu- 


188 Index do Problema 


naturaes , que de outra forte fad 
mais difficeis de explicar, e menos 
faceis de entender. O que o enten- 
dimento alcança por fi mefmo, e 
fem algum foccorro exterior, he 
mais confulo , e pouco intelligivel; 
porém o que alcança auxiliado pe- 
los olhos , he claramente percebi- 
do , e mais de prefla , fegundo o 
metrico proverbio : Segnius irritant 
animos dxc. 

Efpiculos falinos. Os chimicos 
confideraô os faes todos configu- 
rados em pontas agudifimas nas 
Ífuas extremidades ; a eftas taes pon- 
tas agudas chamaô efpiculos. Po- 
rém naô he bem conftante, ainda 
que com effeito os faes fejaô con- 
figurados por aquella fórma; nem 
que della refulte o fabor pungen- 
te, ou acrimonia propria a cada 
hum dos faes. Naô tem havido mi- 

crolcos 


De drchitectura Civil. 189 


crolcopio , por onde fe obfervaffem 
aquellas extremidades , ou pontas 
agudiflimas que nos faes fe confi- 
deraô: o fyítema daquella tal con- 
figuraçaô . ainda fe naô acha de- 
monitrado ; porém fempre o fegui- 
mos, e fuppomos fer aflim para me- 
lhor nos explicarmos ; de forte, que 
os efpiculos falinos , ainda que ver- 
dadeiramente naô exiftaô por aquel- 
la fórma, com tudo fempre nos fer- 
vem de termo explicativo , como 
outros muitos que introduzio a phy- 
fica moderna para mais bem fe 
enunciar.: 

Espíritos inflammaveis. Alim 
fe chamaô alguns efpiritos , e lico- 
res em que o fogo péga , como em 
outra qualquer materia combufti- 
vel. A agoa ardente he hum -da- 
quelles taes licores ; e da mefma 
forte o efpirito. do vinho. “Todos os 


Part. II. T lico= 


290  Tadex do Problema 


licores que fe inflammaô faô oleo- 
fos; porque os que faô puramen- 
te aquofos ; em lugar de admitti- 
rem qualquer inflammaçaô , aex- 
tinguem facilmente. O fogo com- 
munica-fe de prefla a tudo quanto 
he oleo , ou feja liquido, ou em 
fubftancia illiquida, e corporal; e 
da mefma forte a todas as rezinas, 
gomas , ou materias gomofas , e 
rezinofas; porque as gomas , e re- 
zinas faô partes oleofas vegetaes 
em que o fogo tem natural appre- 
henfaô. O enxofre he hum oleo mi- 
neral, condenfado , ou corporizado 
pelo acido vitriolico que contém ; 
e por razaô do mefmo acido faô 
os vapores fulphureos, nocivos , e 
Ífuffocantes , como experimentaõ os 
que trabalhaô em minas femelhan- 
tes; os quaes padecem muitas ve- 
zes os efeitos mortaes de hum va- 

por 


De Architeétura Civil. 291 


por arfenical fulphureo. O petro- 
leo he tambem hum oleo fubterraneo 
mineral , porém em fórma liquida, 
e fem eftar aflociado ao acido vi= 
triolico, por iflo naô produz cor= 
rofivas fuffocaçoens. É 
Todos os oleos de guie 
genero , ou feja vegetal, animal, 
ou mineral, tem a natureza de en+ 
xofre; fó com a diferença de fes 
rem. líquidos, e naô concretos. O 
acido «vitriolico junto a qualquer 
oleo , faz hum enxofre verdadeiro; 
porém que oleo tem o ar, para que 
nelle fe fórme o enxofre de queo 
raio fe compoem? No ar naô dei- 
xa de haver humainfinidade de va+ 
pores oleofos , aos quaes juntan> 
do-fe;'o acido vitriolico, de'que o 
mefmo ar he abundante, faz hum 
enxofre aftivifimo , o qual tem em 
grao fuperior ás mefmas Pre a 
H es 


194 Index do Problema 


des do enxofre mineral. Daqui vem 
que nas partes em que cahe oraio, 
eíte deixa fempre hum infupporta- 
vel fétido de enxofre. A mefma at- 
mofphera contém hum verdadeiro 
enxofre, e deíte he de que reful- 
taô todos os meteóros inflammados. 
E com efleito nenhuma inflamma- 
çaô fe fórma fem a prefença actual 
de huma materia fulphurea , oleo- 
fa, unétuofa , rezinofa , ou bitu- 
minofa. O que arde em tudo aquil- 
lo que fe queima , he a materia 
oleofa que contém ; porque tudo 
quanto he puramente aquo(fo fe dif- 
fipa em fumo, e o que he terreítre, 
ou de natureza terrea, fica reduzi- 
do em cinza. 

Alguns fazem mençaô de hum 
oleo incombuítivel , ao qual attri- 
buem effeitos fingulares ; porém naô 
fe: que oleo efte pofla fer; e a po- 

der 


De Architeélura Cívil. 293 


der exiltir huma tal materia, tam- 
bem exiftiria a agoa fecca , de que 
os alchimiítas fallaô ambiguamen- 
te. Naô duvido que dealgum modo 
fe pofla extrahir do oleo a qualida- 
de combuftivel, mas entaô já nad 
he oleo ; tirada a infammabilida- 
de de hum corpo combuftivel, já 
naô he o mefmo corpo , mas outro 
mui diverfo. Tambem de qualquer 
fal fe póde tirar a qualidade pun- 
gente , ou acrimoniofa que em fi 
tem naturalmente; porém naóô fica 
fendo fal. E da mefma forte quem 
tirar de hum corpo Íalino a pro- 
priedade que tem de diflolver-fe na 
agoa , já naô he fal , mas outro 
corpo differente ; porque, deftruida 
a qualidade eflencial , ou caracter 
proprio, já naô fica a mefma cou- 
fa. Daqui provém que quem privar 
o ouro da côr efpecifica que tem, 


Part. II. Tau e do 


294 Index do Problema 


e do pezo , e duélilidade que deve 
ter no eftado natural, já o que fica 
naô he ouro. Todos os corpos fe 
diftinguem pelas fuas qualidades 
primitivas; e quando algumas def- 
tas fe deftroe (ou porarte, ou por 
fi mefmas) logo fica deftruida to- 
da a natureza de hum tal corpo. 
A materia da luz, Ífó nos cor- 
pos oleofos, e inflammaveis he vi- 
fivel , em todos os outros efta co- 
mo fopita, e fem acçaô ; por 
HTo em toda a parte da atmofphera, 
donde ha vapores oleofos , eltes por 
fi memos fe inflammaô muitas ve- 
zes , ainda fem haver fogo actual. 
Sobre os cemiterios fe tem viíto 
humas luzes volantes que a efcu- 
ridade da noite faz vifiveis: a igno- 
tancia da caufa , de que procedem, 
fez que muitos entendeílem que 
aquellas luzes erad os efpectros dos 
cada- 


De ArchiteéturaCivil. 295 


cadaveres enterrados ; naô fendo 
aliás outra coufa mais do que os va- 
pores oleofos exhalados dos mefmos 
cadaveres putrefactos, cujos tenuif- 
fimos, e mobiliflimos vapores por 
fi mefmos fe inflammaõd , moven- 
do-fe de huma parte para a outra, 
fegundo a direcçaô, ou movimen- 
to doar em que fubfiftem. Aquil- 
lo mefmo fuccede em alguns luga- 
res em que naô ha, nem houverad 
cemiterios ; e baíta que a qualidade 
da terra feja unctuofa , ou bitumi- 
nofa fummamente , para que aquel- 
las luzes volateis fe percebaô , e 
naô fem fuíto, e medo de quem as 
vê fem faber o principio de que re- 
Íultaô, Aflim fe tem introduzido 
no mundo varios erros, e pavores 
populares, fó porque fe ignoraô as 
caufas naturaes. A phyfica efpecu- 
lativa nunca bafta para diftinguir 

Tiv alguns 


296 Index do Problema 


alguns phenómenos , por mais com- 
muns que fejaô , e elia mefma fe 
allucina algumas vezes ; porque a 
fua jurifdicçaô naô he praticamen- 
te demonftrativa, mas argumenta- 
tiva. À phyfica chimica he a quem 
compete o refolver huns tantos ca- 
fos , que fó chimicamente fe fa- 
zem demonftraveis. Hum eclipfe do 
Sol fazia antigamente horror , e 
infundia nos animos hum horrorofo 
eípanto; porém depois que a Af- 
tronomia começou a vulgarizar-fe, 
Já todos vem fem medo efcurecer- 
fe o difco total do Sol, e perder 
a Lua toda a fua claridade; haven- 
do para iflo hum motivo , ou ra- 
zao intelleétiva, e naô apparente. 
Na mefma phyfica chimica ha mui- 
tos calos refervados, de que nem 
todos os artiftas fabem delcobrir a 
origem. Às licenças naô fe conce- 

dem 


De Architetura Civil. 297 


dem a todos igualmente : os que ef- 
tudaô mais, faô os que mais fabem: 
aquelle he o preço, porque fe com- 
praô as artes, e as Íciencias. 

Nos corpos inflammaveis, he 
donde refide a materia luminofa ; 
efta neceflita hum fogo actual pa- 
ra acender-fe , e depois de aceza 
fe propága facilmente até que fe 
extingue pela extinçad do corpo 
combuítivel. Porém fuccede algu- 
mas vezes inflammar-fe huma ma- 
teria , fem preexiftencia de outra 
materia inflammada já. Os meteó- 
ros ardentes por fi mefmos fe in- 
flammaô , fem dependencia de in- 
flammaçaô anterior; o como aílim 
fuccede , naô eftá bem entendido 
ainda. O movimento rapidiflimo , 
e contaéto immediato entre dous 
corpos, dos quaes ambos , ou al- 


gum delles feja combuftivel, baíta 
para 


298 Index do Problema 


para produzir o fogo, fem haver 
outro fogo antecedente;de (orte,que 
fem aquelle movimento nenhum fo- 
go fe produz; porque o fogo em 
fi meímo parece que naô he outra 
coufa mais, do que a materia da 
luz excitada , ou movida rapidiffi- 
mamente. À materia porém da luz 
naô he ardente , nem tem ardor 
fenfivel, fe naô quando muitos raios 
fe unem em hum ponto; nefte fica 
fendo abrazavel a luz ; porém os 
raios (difperíos naô abrazao , illu- 
minad , e aquecem , mas naô fe 
inflammaô ; a eíte eftado chega, 
quando trabalha por confumir hum 
corpo combuftivel: huma certa re- 
nitencia, ou oppofiçaô no mefmo 
corpo combuítivel, he o que excita 
a luz para augmentar-fe , e tomar 
hum grao de ardencia a que cha- 
mamos fogo. 

A” ma- 


De Adrchisetlura Cruil, 299 


A” materia lucida todos cha- 
maô propriamente etherea ; mas 
naô Íei fe todos advertiraô que 
aquella mefma materia naô eftá 
no mefmo movimento em toda a 
parte: daqui deve provir o maior, 
ou menor calor ; porque donde he 
remiflo o movimento ha luz, mas 
naô ha calor. Daqui procede o 
phofphoro artificial, e tambem o na- 
tural. Alguns peixes na efcuridade 
luzem, e alguns paos apodrecidos 
tambem tem huma luz tibia ; efte 
he o phofphoro natural: outros mui- 
tos phenómenos, que vemos, fem 
arder tem hum certo luzimento. He 
muito de notar que a materia da 
luz he globulofa ; porque o feu mo- 
vimento rapido gira efphericamen- 
te, e naô por outro modo : a fi- 
gura efpherica do Sol (que he de 
donde a luz provém ) he prova ma- 

nifefta; 


300  Iadex do Problema 


nifefta : nifto confie a differença 
grande , ou excepçaô do movimen- 
to ; porque fegundo a regra Ma- 
thematica , todo o corpo que fe 
move, ou he poífto em movimen- 
to, tende a defcrever huma linha re- 
éta; porém na materia da luz, naô 
he aflim; porque efla naturalmen- 
te tende a formar raios, ou linhas 
circulares; e a luz começa a enfra- 
quecer, quando as Íuas partes vaô 
deixando aquella direcçaô. 

Os corpos, em que a materia 
da luz he abundante, todos fe com- 
poem de corpuículos ligados , ou 
como encadeados entre fi; mas 
fempre perfeitamente efphericos , 
ainda que em fumma tenuidade de 
materia : na agoa temos hum ex- 
emplo conftante ; poréi: ainda mais 
obfervavel no Mercurio ; o qual 
com effeito fe compoem de boli- 

nhas 


De Architettura Civil. 301 


nhas infinitamente pequenas ; mas 
cada huma dellas em perfeita re- 
dondeza. Porém fe a luz he glo- 
bofa , e efpherica, como vemos 
que huma luz aceza fórma hu- 
ma figura oblonga que acaba em 
ponta? À efta objecçaô naô fei o que 
os outros dizem; o que eu digo he 
que a materia da luz he compofta 
infallivelmente de corpuículos re- 
dondos, porém efla mefma mate- 
ria he amais fubtil; e menos pe- 
zada do que o ar da atmofphera 
que a circunda , por iflo tende a 
Jubir , e nefta tendencia affefta a 
figura oblonga. Por efte mefmo , 
e identico principio, todo o fumo 
Ífobe , porque tem menos pezo, 
e he mais fubril do que o ar em 
que fe acha: pela meíma razaô 
as materias oleofas bufcaô a fuper- 
ficie do liquidos aquofos , porque 

tem 


302 Index do Problema 


tem menos pezo do que a coluna 
do liquido que as fuftenta. Na luz 
aceza a fórma piramidal com- 
poem-fe de huma infinidade de cor- 
puículos redondos; da mefma for- 
te que o Mercurio fendo compof- 
to de particulas globulofas toma a 
figura oblonga ( ou outra qual- 
quer) do vafo que o contém. To- 
dos os metaes no eftado de fundi- 
dos, fe fe deitaô fobre aterra pla- 
na, moftraô vifivelmente que todas 
as fuas partes faô efphericas , e glo- 
bulofas , e fó depois que esfriad, 
e endurecem tomaô a figura do lu- 
gar em que fe achaô; mas na fum- 
ma exiguidade das melmas partes 
fempre moftraô a figura efpherica 
que tem naturalmente, Daqui fe 
infere que a formaçaô dos metaes 
provém de hum liquido, e efte oleo- 
fo ; porque Íó defte principio re- 

fulta 


De drchiteitura Civil. 303 


fulta hum corpo lucido, e perfeita- 
mente e(pherico. 

Os corpos oleofos (como fica 
dito ) faô os que fe inflammaô ; mas 
he neceflario que contenhaõ huma 
certa parte de humidade aquofa ; 
porque fem efta nenhum corpo he 
combuftivel. A mais inflammavel 
das rezinas he o alcanfor ; porém 
efte em fe inflammando exhala hum 
fumo aquofo , abundantillimo , e 
nigerrmo : o mefmo enxofre com 
fer taó unêluofo » € taô contrario 
á humidade toda , contém radical- 
mente huma grande porçaô de hu- 
midade verdadeira, na qual refide 
o (eu acido fulphureo. De forte que 
hum corpo oleofo , e privado ab- 
folutamente da humidade, já nad 
he capaz de fe inflammar : ifto ve- 
mos no ouro, e mais na prata; ef- 
tes faô os dous unicos metaes, de 

que 


304 Index do Problema 


que a humidade aquofa foi abítra- 
hida totalmente; efta feparaçaô , he 
arte refervada á natureza; nós naô 
fabemos , e talvez nunca fabere- 
mos, porque modo fe poíla abítra- 
hir, ou feparar inteiramente a hu- 
midade aquofa de hum liquido 
oleofo. 

À agoa do mar he oleola , mas 
igualmente aquofa ; por iflo naô fe 
póde com ella extinguir o incendio ; 
antes aquella agoa o promove mui- 
to em certas circunítancias, Se dei- 
tarmos Ífobre qualquer fogo o fal 
commum , logo veremos accender- 
fe o fogo mais, e ficar muito mais 
activo; porque o ar elaítico do fal 
ferve de afloprar o fogo com vele- 
mencia mais intenfa do que hum ver- 
dadeiro folle. Além difto o fal do 
mar contém em fi hum enxofre pu- 
ro » como fe obferva na injecçad 

da- 


De Árchiteitura Civil. 308 


daquelle fal fobre o fogo ardente, 
em que logo exhala hum fétido Íul- 
phureo infopportavel. Naô fe fe- 
gue porém que a agoa do mar naô 
poíla apagar o fogo; porque de fa- 
&o o apaga fendo deitada em gran- 
de quantidade , e repetidamente ; 
quando naô he aflim , em lugar de 
o apagar , o acende mais , viíto 
que a agoa do mar naô he inflam- 
mavel por fi melma , ainda que em 
fi contenha huma certa parte que 
promove a inflammaçaô. 
Alguns experimentos ha, com 

que fe moftra que póde haver in- 
flammaçaô fem a prefença aétual 
do fogo. Efta propofiçaô feria util 
conhecer-fe bem, para acautelar al- 
guns incendios , que ásvezes póde 
fucceder por negligencia, ou falta 
«daquelle tal conhecimento. E com 
efeito a miftura, que provém do 
Part. II. V ferro 


306 Index do Problema 


ferro com outros ingredientes, em 
pouco tempo fe inflamma , e faz 
arder as materias combuftiveis. O 
efpirito puriflimo do vinho , ou ou- 
tro qualquer oleo effencial , em 
certas conjunturas , e por certo mo- 
do faz o meífmo; e da melma for- 
te o oleo da canela, e tambem do 
cravo. Do Phofphoro , chamado de 
Inglaterra » refulta o meímo. Na 
regiad fuperior do ar naô ha fo- 
go algum de que pofla dizer-fe que 
exite em aétual acçaô ; mas com 
tudo nella vemos que fe fórma o 
fogo aétual mais violento : huma 
forte compreflaô de corpos com- 
buítiveis bafta muitas vezes para 
excitar hum fogo aétivo. Hum mo- 
“vimento circularmente rapido tam- 
bem caufa o mefmo efeito. 
Expanfível. Todos os licores 
fao expaníiveis ; porque o calor lhes 
faz 


De Architeélura Civil. 307 


faz occupar maior efpaço, do que 
aquelle que occupaô naturalmente, 
Para hum corpo fer expaníivel he 
neceffario que feja volatil ; porque 
os que faô fixos naô podem ter ex= 
panfibilidade alguma. O ar he ex- 
panfivel; porque tambem fe dila- 
ta pelo calor , e occupa mais lu- 
gar; o frio o comprime, e o reduz 
a eípaço mais pequeno. Parece que 
o principio da volatilidade, ou ex 
panfibilidade dos corpos liquidos , 
e ainda de muitos folidos, he uni- 
camente o ar; e à proporçaô defte 
faô mais , ou menos volateis ; e 
por confequencia mais, ou menos 
expaníiveis. 

Fermentar. Fermentaçao. Fer- 
mentado. A doutrina da fermenta- 
çaô he valta, e contém obferva- 
çoens notaveis , das quaes fe po- 
dem fazer volumes grandes. Para 

Vi o nof- 


308 Tudex do Problema 


o noílo intento bafta que diga- 
mos que a fermentaçaô propria- 
mente he aquella acçaô em que a 
natureza por hum aéto continuado 
trabalha em mudar a indole de hum 
liquido fermentavel. O mofto quan- 
do ferve he hum exemplo bem fa- 
bido. De forte que todos os liqui- 
dos , de qualquer vegetal que fejaôd 
extrahidos , em fazendo aquella 
ebulliçaô , ou effervecencia entre 
as fuas partes todas, fermentaô, e 
eftaô na acçaô de fermentar. Entaô 
fe produzem os efpiritos inflamma- 
veis vegetaes, os quaes por arte al- 
guma fe podem produzir ; fe naô 
por meio da fermentaçaõ ; efta he 
a que reduz o mofto em vinho, e 
deíta refulta ao mefmo tempo o ef- 
pirito inflammavel do meímo vinho. 
Naô fó nos liquidos fe dá fermen- 
taçad; porque tambem muitos ve- 

getaes 


De Architelura Civil. 309 


getaes farinofos fermentad , como 
fuccede ao trigo , ao milho , e a 
outras mais fementes , as quaes, 
quando faó promovidas por certo 
modo, tambem dellas provém hum 
licor vinofo , e deíte tambem fe 
extrahem efpiritos inflammaveis, e 
com iguaes propriedades , que as 
que fe achaô nos que fe tiraô do 
verdadeiro vinho. E aflim fem fer- 
mentaça6 naô ha, nem póde ha- 
ver efpirito inflammavel vegetal. 
Filtrar. He termo chimico que 
vale o mefmo que cogr. Efte modo 
de coar naô he por pano , mas por 
hum papel a que chamaô empore- 
tico ; o qual, pornaô tercola, he 
muito mais pacento do que o outro: 
por elle fe coaô, ou filtraô todos 
os licores que naô faô corrofivos ; 
porque em o fendo , roendo toda 
a forte de papel, logo o desfazem, 
Part. II. Vau e rom- 


310 Index do Problema 


e rompem toda a Íua contextura ; 
e em lugar de ficarem os taes lico- 
res mais purificados , ficaô muito 
mais coinquinados, e mais turbos, 
porque tomaô em fi huma grande 
parte, ou fubltancia do papel; e 
entaô os meímos licores degeneraô, 
e perdem algum tanto a fua for- 
ga » ficando menos proprios para 
os ufos deftinados ; porque a ma- 
teria oleofa, de que fe compoem o 
corpo do papel , faz que o licor 
corrofivo fique de alguma forte iner- 
te, e fem o vigor que tinha ; e if- 
to pela regra geral, e fem limita- 
çaô, de que todos os corpos oleo- 
fos, ou que encerraô no feu inte- 
rior alguma unétuofidade , retun- 
dem, e enfraquecem tudo quanto 
he corrofivo. À filtraçao pelo pa- 
pel emporetico ferve infinitas ve- 
zes para aclarar , e purificar as 

agoas ; 


De Arcbiteétura Crol, qr 


agoas, € licores ordinarios , das 
partículas terreítres que fe encon- 
traô nelles commumente. Digo das 
particulas terreítres, porque fó ef. 
tas (ad as que por aquelle meio fe 
feparaô do licor, ficando fobre o 
papel por onde o licor paflou. 'To- 
dos os corpos porém , que fe achaô 
exactamente diflolvidos na agoa, 
ou no licor, efles naô fe feparaõ 
pelo filtro do liquido que os con- 
tém , e com elle paflaô fempre, 
por mais que a filtraçaô fe repita 
hum milhaô de vezes. O fal v.g. 
diflolvido na agoa, ou em qual- 
quer licor, com elle pafla fem nun- 
ca fe feparar. Ifto naô fó fuccede 
a refpeito defte , ou daquelle fal, 
mas tambem a reípeito de todos 
quantos faes o mnndo tem ; por- 
que em eftando diflolvidos perfeita- 
mente na quantidade de agoa, ou 

Viv de 


312 Index do Problema 


de licor fufficiente, com elle fe fil- 
traô, e vaô paflando inteiramente 
fem admittirem feparaçaô alguma. 
Naóô fó os faes fe negaõ á filtraçaõ; 
mas tambem aquelles corpos todos 
que exactamente fe diflolvem nos 
licores corrofivos. Supponhamos a 
prata diflolvida em agoa forte, ou 
no efpirito do nitro; fe efta dilo- 
luçaô fe diluir com agoa commua, 
para que naô poíla corroer o pa- 
pel emporetico , em fe filtrando fe 
ha de ver que a prata naô fe fe- 
para do liquido diflolvente , mas 
com elle pafla totalmente. Iíto mef- 
mo Ífuccede a todos os metaes quan- 
do eftaô diflolvidos nos menftros 
que lhes faô proprios. Daqui fe 
fegue que a filtraçaõ fó tem lugar, 
e fe pratica para feparar dos liqui- 
dos aquelles corpos , que naô po- 
dem diflolver-fe nelles. 

He 


De Architelura Civil. 313 


He porém de ponderar que 
o papel emporetico , por onde a fil- 
traçaô fe faz , em eftando embe- 
bido , ou molhado por algum li- 
quido oleofo, já por elle naô po- 
dem pallar, fe naô outros liquidos 
femelhantes; e da meíma forte quan- 
do eftá molhado , ou embebido por 
algum licor aquolo, já por elle naô 
pailaõ os oleofos. V g. o papel, por 
onde fe filtrou a agoa , já naô póde 
fervir para filtrar o azeite; e aquel- 
le, por onde primeiro fe filtrou o 
azeite, já naô póde fervir para fil- 
trar a agoa ; porque os póros do 
papel tomaraô a configuraçao do 
primeiro liquido filtrado, e depois 
de configurados ficaô-fe negando , 
e como impenetraveis a outro li- 
quido qualquer, fe he de differen- 
re natureza. Defta mechanica, ou 


principio certo, refulta huma gran-: 
de, 


314 Index do Problema 


de, e necellaria parte da economia, 
ou fabrica vivente de todos os ant- 
maes , fem exceptuar nenhum. E 
com effeito a organizaçaó do cor- 
po fenfitivo todo [e compoem de 
huma immenfidade de filtraçoens, 
e eltas taô naturaes, e regulares, 
que em ceflando alguma dellas, ou 
eftando impedida a filtraçaô dos l- 
cores animaes , logo vem a enfer- 
midade mortal, de que o animal 
acaba. A meíma cutis externa, e 
fuperficial, he hum filtro vapo- 
rofo , por onde a infenfivel tranfpi- 
raçaô fe faz ; a qual fe chega a 
fufpender-fe, ou a ceflar inteira- 
mente por algum accidente exter- 
no, ou interior, o animal naô pó- 
de permanecer ; porque os humo- 
res que deviaô exhalar-fe, ou dil- 
fipar-fe por aquelle modo , retro- 
cedendo , ou ficando eftagnados em 

varias 


De Árchiteétura Civil. 315 


varias partes , neítas fe pervertem, 
e corrompem , de que reíulta infal. 
Jivelmente huma multidaô de pro- 
greflos morbofos, e mortaes. 

No interior dos animaes fad 
immenfas as filtraçoens , das quaes 
ha muitas conhecidas , e outras 
muitas que ainda fe naô conhecem. 
Os vafos nao deixaô filtrar , fe naô 
alguns , e determinados liquidos. As 
vêas v.g. Íó daô paflagem ao hu- 
mor forofo, mas naô ao fangue; 
para efte naô faô as vêas permea- 
veis ; o fangue fe depura circu- 
lando, ena mefma circulaçaô dei- 
xa paflar pelo filtro natural das 
vêas tudo o que naô he proprio pa- 
sa reduzir-fe em fangue, Ifto he. 
no eftado natural: mas fe o fangue 
fe diffolve , perdendo a fua verda- 
deira confiftencia , já entaô póde 


paflar por aquelles filtros , ou po- 
rofida- 


316 Index do Problema 


rofidades por onde naô cabia: efte 
mal raramente he medicavel; por- 
que, em os liquidos perdendo o grao 
de elpeflidad, ou delicadeza que 
devem ter, ou fe trafcolaô indevi- 
damente, ou deixaô de trafcolar-fe 
como deviaô. E aflim fe confundem 
os humores, ou eftagnad em par- 
tes donde he nociva a perfiftencia. 
A eftruítura dos animaes requer 
que os liquidos fe contenhaô nos 
feus lugares proprios , e que delles fe 
diftribuaõ fem defordem , nem con- 
fufaô , até que fe difipem pelos 
filtros , ou conduétos ordinarios , 
para que outros femelhantes lhes 
fuccedaô. Delta ordem, e econo- 
mia regular depende a vida. 

Fixo. Fixo fe diz todo aquel- 
le corpo que expofto a hum fogo 
violento; naô fe exhala, nem per- 
de nada da Ífua fubftancia ; aílim 

como 


DeAtohiteélra Civil, 317 


como a terra pura, o ouro, a pra+ 
ta, as pedras preciofas, e todas as 
mais que refiftem a hum fogo ar- 
dente, fem que nenhuma das fuas 
partes fe diflipe. 
Fulmen Sovis. A cada hum 
dos metaes impozerad os antigos o 
nome de hum planeta : ao eftanho 
chamaraô Jupiter; por ilo a acçaõ, 
em que o eltanho arde com eitre- 
pito , e repentinamente, chamarad 
Fulmen Sfovis , alludindo á fabula 
de Jupiter que fulmina o raio, A 
operaçaô fe faz fundindo-fe o efta- 
nho, e fobre efte fazendo-fe a in- 
Jecçaô do nitro: no meímo inftan- 
te fe fórma a deflagraçad do mef- 
mo nitro,que confumindo o eftanho, 
com elle fe diflipa inteiramente á 
maneira de hum raio que apparece 
de repente , e da mefma forte aca- 
ba. De todos os metaes Íó do E 
nho 


318 Index do Problema 


nho refulta hum tal phenómeno: 
os outros, exceptuando o ouro , e 4 
prata, fim fe perdem pela addiçad 
do nitro, mas naô por aquelle mo- 
do, nem fulminantemente. Na arte 
metallica tem o Fulmen Sovis va- 
rios ufos ; e por meio delle fe fa- 
zem experimentos admiraveis. 
Fufivel. Chamaô-fe fufiveis to- 
dos aquelles corpos; que expoítos 
á acçaô do fogo fe derretem : e in- 
fufiveis aquelles todos que por ne- 
ahum modo permittem o derreter- 
fe ; fegundo a contextura , e na- 
tural compofiçaô de cada hum. A 
cera v. g. he de todos os corpos 
conhecidos o que mais de prefla 
fe derrete ; porque bafta o calor 
do Sol intenfo para a derreter. De- 
pois da cera feguem-fe as materias 
pinguedinofas, ou cebaceas , as 
quaes facilmente cedem ao calor 
mais 


De drcbiteeturaCivil. 319 


ais moderado. As gomas tambem 
faô corpos que fe fundem , mas naô 
em calor taô debil. O gelo por fi 
meímo fe derrete fem calor artifi- 
cial, e fó por aquelle que em fi 
tem qualquer clima temperado; e 
fe o clima he fummamente frio na 
eftaçaô do Inverno, em quanto o 
vento feptentrional fubfite, e em 
quanto a temperatura do ar naô 
muda , permanece o gelo em mafla 
Íolida, e naô chega a derreter-fe 
fem outro algum calor. Os faes to= 
dos faô fufiveis ; mas naô pelo mef- 
mo grao , e igualdade de calor ; 
porque o nitro bafta-lhe hum calor 
pouco activo; o fal commum naô 
fe funde fem calor forte; o vitrio= 
lo funde-fe facilmente , e da mef- 
ma forte o enxofre: os faes alcha- 
linos fixos tambem requerem calor 


forte. A cal com nenhum calor fe 
funde » 


320 Index do Problema 


funde , porque he corpo infufivel 
totalmente ; e todo o genero de cin- 
za, naô admitte fufao alguma , pe- 
la mefma razaô que a cal a naô ad- 
mitte. Ás terras Ífendo puras tam- 
bem fe naô fundem, e fó faô fu- 
fiveis pela miftura de alguns faes 
alchalinos fixos. A arêa funde-fe em 
calor forte, e fucceílivo; e os faes al- 
chalinos fixos a fazem fundir mais 
brevemente, como fe obferva em 
todas as fabricas do vidro. Os me- 
taes faô os que propriamente faô 
fifiveis ; e efta qualidade he de tal 
forte propria do metal , que fem 
ella naô póde haver, nem fubfiftir 
metal algum ; por io , em qualquer 
metal perdendo a qualidade fufivel, 
tambem ficou perdendo o fer me- 
tal: como Ífuccede ao chumbo , e 
ao eftanho , os quaes depois que 
a acçaô do fogo lhes diffipa a par- 

te 


De drchitetura Covil. 321 


te, a que chamaô phlogiftica , ficaô 
reduzidos em pó , e já nefte eftado 
naô fe fundem, fem que fe lhes tor- 
ne a introduzir aquella parte phlo- 
giftica de donde lhes provém a qua- 
lidade fufivel; e fe fe fundem pela 
miftura de algum (fal alchalino fixo, 
he tomando a Ífubftancia do vidro , 
mas naô a do metal. De todos os 
métaes o que exige mais calor pa- 
ra fundir-fe he o ferro; depois o 
cobre; a efte fe fegue. o ouro, € 
logo depois”a prata, e depois o ef- 
tanho , e ultimamente o chumbo ; 
efte he o que fe funde promptamen- 
te em hum grao moderado de calor. 
He porém para notar que quando os 
metaes faô puros, fundem-fe com 
mais difficuldade , e querem hum 
fogo mais aétivo ; e quando eftaõ 
aflociados huns com os outros, en- 
taô fe fundem facilmente. Defte 

Part. TI. x princi- 


322 Iudex do Problema 


principio vem que o ouro puro ne- 
celta hum fogo mais aétivo para 
fundir-fe, e o que tem liga, mais 
de prefla cede á acçaô do fogo; e 
fe tem grande porçaô de outro qual- 
quer metal, naô refifte muito a 
aquella acçaô: na prata Íuccede o 
mefmo : e defta regra refulta a com- 
pofiçaô , ou material com que os 
metaes fe foldad; porque a folda 
fempre he mais fufivel, do que o me- 
tal foldado. 

Hermeticamente. Hum vafo de 
vidro de longo collo, fe fe derrete 
ao fogo o Ífeuorifício, torcendo-o 
para ficar tapado com o mefino vi- 
dro derretido, he ao que fe chama 
tapar hermeticamente. Dizem que 
o inventor defte modo de tapar hum 
vidro, fora o famofo Rey Hermes 
Trifmegifo ; por io fe chama tam- 
bem a aquelle artifício , /g1//um ber- 

meti- 


DeArchitetturaCrvil. 343 


meticum. Duvido que o Rey Her- 
mes fofle o ;inventor do fello her- 
metico ; porque, me .parece que o 
artifício he mais moderno : 'nem fei 
fe no tempo de Hermes eftava já fa+ 
bida a invençaô do vidro; nem fe 
havia vidro artificial naquelle tem- 
po. He certo porém que naô ha 
modo de tapar taô exaíto como 
aquelle; porque os vidros tapados 
de outra qualquer forte, fempre 
daô paflagem a alguns licores for- 
tes; em lugar que o.fello herme- 
tico refifte a todos os licores, por 
mais fortes, e fubtis que fejaô, .. 
Hleterogencidade:) Vid. Hómo- 
geneidade. | 
Homogencidade. O corpo, em 

que fe naô defcobrem diverfas pár> 
tes componentes, ou que. he com- 
pofto de huma fó materia (ao pa- 
recer ) fe diz fer homogeneo. O 
Xu ouro 


324 Index do Problema 


ouro, epratav. g. faôchimicamen- 
te corpos hombgeneos:; porque nel- 
les (fendo puros) fenaô defcobre 
parte alguma , nem algum ingre- 
diente, que naô feja prata, ou ou- 
ro: os mais metaes Íaô corpos he- 
terogeneos , porque nelles fe ob- 
fervaô partes fulphureas,e terreítres, 
de que a natureza os fabricou. Os 
animaes todos faô corpos hetero. 
geneos, porque faô muitas, e di- 
verfillimas as partes de que :fe com- 
poem. À terra pura he hum corpo 
homogeneo ; porque nella: naô ha 
parte alguma que naô feja terra 
verdadeira: ifto fó fe entende da ter- 

ra exactamente pura. | 
Indiffoluvel. Indifloluveis fe 
dizem todos aquelles corpos que fe 
naô diflolvem, ou derretem. Aflim 
como v.g.-o fal he diffoluvel na 
agoa, e indifloluvel no azeite: o 
enxo- 


De Architeéhira Cróil. 325 


enxofre he difloluvel no azeite, e 
indifloluvel na agoa : a prata dif- 
folve-fe na agoa forte, mas naô na 
agoa regia ; e nefta diflolve-fe o 
ouro, ea prata naô. O azougue fe- 
gue a natureza da prata , porque 
na agoa forte he difloluvel , e in- 
difoluvel na agoa regia. O eftanho 
fegue a natureza doouro, porque 
fe diflolve na agoa regia , e naô 
admitte perfeita difloluçaô nã agoa 
forte. O ferro diflolve-fe em quafi 
todos os corrofivos; porém mais 
promptamente nos que faô mais 
brandos ,. e algum tanto refifte aos 
que: faô mais fortes; por iflo para 
bem fe diflolver na agoa forte, ou 
efpirito de nitro, he precifo que ef- 
te feja diluído , ou enfraquecido 
com agoa commua. O cobre na 
agoa forte fe diflolve facilmente, 
e na agoa regia com mais difficul- 

Part. 1 X ui dade 


316 Iudex do Problema 


dade he diffoluvel. O chumbo tam- 
bem fe diffolve no efpirito do nitro, 
e difficiimente na agoa regia. As 
gomas , e rezinas diflolvem-fe no 
efpirito do vinho, porém o fal naô 
admitte o diffolver-fe naquelle ef- 
pirito : o fal de tartaro Íó fe dif- 
folve na agoa fervendo, e na fria 
fica indiffoluvel: as materias oleo- 
fas , e unêtuolas diflolvem-fe nos 
liquidos alchalinos, e naô nos liqui- 
dos puramente aquofos. 

Todos os corpos tem hum dif- 
folvente proprio, em que fe diffol- 
vem promptamente ; e naquelles , 
que lhes faô improprios, ou refif- 
tem totalmente a elles, ou Ífó fe 
diflolvem muito imperfeitamente : 
alguns diflolvem-fe em diflolven- 
tes frios, outros fem calor naô fe 
diflolvem. De todas asgomas , ou 
rezinas, Íó o alcanfor le diflolve 

na 


De ArchitetturaCivil. 3x7 


na agoa forte ; e dos mixtos ani- 
maes , e vegetaes , nem todos fe 
diflolvem igualmente nos menftruos 
corrofivos, e a eftes refiftem alguns 
corpos, que naô refiftem , e logo 
cedem á agoa pura, No eftomago, 
ou ventrículo de todos os animaes, 
ha hum diflolvente natural , que 
diflolve a materia alimentola , o 
qual fendo benigno, e infenfivel, 
he forte na fua acçaõ. 

A perfeita diffoluçad he aquel- 
la, em que o corpo diflolvido fica 
invifivel no liquido diflolvente , e 
taô intimamente unido a elle, e 
com igualdade tal, que em fe fa- 
bendo a quantidade do corpo dif- 
folvido que contém huma parte , los 
go fe fabe a porçaô total de huma 
mafla grande, diflolvida em huma 
grande quantidade do licor que o 
diflolveo. Supponhamos v. g. hum 

X iv quin- 


328 Tudex do Problema 


quintal de prata diflolvida em dous 
quintaes de efpirito de nitro: fe do 
total defta difloluçaô examinarmos, 
e foubermos o quanto contém de 
prata huma oitava da mefma dif- 
Ífoluçaô, fazendo a conta ás oitas 
vas que ha no pezo de dous quin- 
taes , logo faberemos certamente 
o quanto tem de prata toda a dif- 
foluçaô inteira. Da mefma forte, 
e pelo mefmo principio , fe exami- 
narmos , e Ífoubermos quanto tem 
de fal huma parte cúbica de.agoa 
do mar , fazendo a conta a quan- 
tas femelhantes partes cubicas con» 
tém hum grande efpaço do mel- 
mo mar, logo faberemos o que 
tem “de fal. Ifto fó procede nas dif- 
Ífoluçoens perfeitas , como faô as 
do fal na agoa do mar, as da prata 
no efpirito de nitro , as do Mercu- 
rio na agoa forte , e outras muitas 

feme- 


De drchitebtura Cívil. 329 


femelhantes ; porém nas diflolu- 
çoens, que naô faô perfeitas, naô 
tem lugar aquella regra , e póde 
fer fallivel alguma vez. 

A razaô phyfica de todas as 
diffoluçoens , naô eftá demonftra- 
da ainda , e parece que nunca o 
ha de eftar. O faber-fe a natural 
mecanica porque a agoa forte dif- 
folve a prata, e deixa intaéto o ou- 
ro; e O porque a agoa regia dif- 
folve o ouro, e deixa a prata in- 
taéta, e outras femelhantes diflo- 
luçoens, he hum dos Problemas 
que ainda eítaô por refolver. À con- 
figuraçaô dos corpos , a analogia 
que entre elles ha , e os liquidos que 
os diffolvem, a impulfaô dos liqui- 
dos nos interíticios dos corpos fo- 
lidos, tudo faô fuppofiçoens , ou 
conjecturas improvaveis , e que por 
nenhum experimento fe verifica a 

reali 


330 Index do Problema 


realidade dellas. Vemos que huma 
maíla de ouro pezadiflima , fóli- 
da, e compalta , na agoa regia 
fe desfaz, e defapparece do meímo 
modo que a maíla de algum fal, na 
agoa tambem defapparece , e fe 
derrete, tomando na agoa a figu- 
ra invifivel que naô tinha, e eftan- 
do incorporada nella perpetuamen- 
te, fe o calor diflipando a agoa a 
naô retira, e a naô torna a mofi 
trar na fua verdadeira, e natural 
figura : he mais para admirar que; 
contendo o diflolvente em fi todo 
o corpo diflolvido , nem por iflo 
crefce de volume, fendo que algu- 
mas vezes recebe em fi outro tan- 
to , ou maior pezo que o que ti- 
nha; de forte que, crefcendo mui- 
to no pezo , naô fe augmenta nada 
no volume. 
E com effeito hum arratel de 
efpi- 


De Architettura Civil. 331 


efpirito de nitro póde diflolver ou: 
tro atratel de prata pura; e da 
melma forte hum atratel de agoa 
commua póde diflolver dous arra- 
tes de fal do mar; mas nem por ifi 
fo a agoa commua; nem o efpiri- 
to de nitro occupaôd mais efpaço, 
antes ficaô no melo efpaço que 
occupavaô, fem fazer, nem mof- 
trar maior volume. Em nada difto 
fe repata, Ífendo aliás de reparar; 
mas he porque nada do que ves 
mos commumente nos admita , fen- 
do que os phenómenos ordinarios, 
e communs, faô os que contém ás 
vezes muitas circunítancias admi- 
raveis. Para alguma coufa fer no- 
tavel para nós, he precifo que a ve- 
jamos raramente , ou que a naô 
vejamos nunca ; tudo o que facil- 
mente podemos obfervar, parece- 


nos que naô merece a noíla obfer- 
vaçaõ. 


332 Tudex do Problema 
vaçaô. À difficuldade de ver, he 


a que excita as noílas attençoens; 
a facilidade de preíla nos fatisfaz: 
cuidamos que o memo he ver que 
comprehender ; e julgamos que hu- 
ma coufa vifta, eftá tambem com- 
prehendida : mas grofleiramente nos 
enganamos, porque das coufas que 
vemos fempre, e que a cada paílo 
eftamos encontrando , fad muito 
poucas as de que podemos dar ra- 
zaô , nem dizer pofitivamente o 
como faõ , nem o como provém os 
feus effeitos. 

Dizem graviflimos Authores 
que ha hum diflolvente univerfal, 
de cuja compofiçaô fazem hum my f- 
terio occulto , ou hum arcaniflimo 
fegredo ; defcrevendo-o fó debai- 
xo de intricadilimos enigmas , e 
em metaphoricas parabolas. Porém 
he neceílario fé para crer que bum 

melmo 


DeArchirestiraCivil. 333 


mefmo diflolvente pola diffolver o 
ouro , a prata , o diamante , as 
pedras preciofas , e todos Os cor- 
pos vegetaes, e mineraes. Segun- 
do os principios conhecidos naô pó- 
de haver, nem exiftir hum diflol- 
vente tal: os que o buícaô parece 
que menos inftruidos naô fabem o 
que bufcaô , e naô advertem a im- 
plicancia que ha. para que. poífa 
achar-fe hum diflolvente verdadei- 
ramente univerfal. Efte, fe o ha, de= 
ve fer entendido: por outro modo, 
e naô materialmente como alguns 
artiftas fazem :-vejaô bem o que 
dizem os authores em que fe fun- 
daõ;' naô.figaô as palavras literal- 
mente; e entaô veraô ao que de- 
vem chamar diflolvente univerfal; 
tomem o que as palavras fignifi- 
cad , e nado que Íoad : naô re- 
montem tanto os voos: nem for» 

mem 


334 Index do Problema 


mem efperanças vãas: Medio tu- 
tiflimus sbis. 

Lapidificaçao. Alim fe chama 
aquella acçaô por onde a natureza 
fabrica a pedra; e por onde a ar- 
te, com alguma imitaçaô da mefma 
natureza, fórma huma materia du- 
ra, e bem compaéta , que parece 
pedra de algum modo. 

Lapidifico. Alim fe dizem os 
liquidos fubterraneos , que tem pro- 
priedade certa para reduzir em pe- 
dra, ou petrificar. Os natulaliftas, 
ou philofophos chimicos, todos fal- 
laô de hum Íucco /apidifico, de don- 
de dizem proceder todas as pedras 
que ha no mundo ; da mefma for- 
te que dizem haver na terra hum 
fucco metallizante de que procedem 
os metaes todos. Porém femelhan- 
tes fuccos ninguem os vio, nem 
obfervou ainda. Alguns authores 

tem 


De drchiteéiura Civil. 335 


tem difpofiçaô para crerem facil. 
mente o que naô viraô , nem ob- 
fervarad, fiados fómente na fé gra- 
tuita dos que efcreverad antes ; e 
tudo fem mais prova , que a de hu- 
ma antiguidade veneravel. Conve- 
nhamos que ha na terra alguma 
materia propria de que as pedras, 
e metaes fe formaô ; porém naô de- 
vemos aflentar fem duvida que 
aquella materia propria feja hum 
Ífucco mettallizante , ou Japidifico. 
E com effeito fe houvefTe hum fuc- 
co tal, alguma vez feria achado, 
e vifto; e quem o achaffe, com el- 
le formaria huma pedra , ou hum 
metal; e Íó afim haveria huma 
prova certa de huma exiftencia fe- 
melhante ; mas ninguem encontrou 
ainda aquelle fucco : e aílim pare- 
ce que devemos entender que naô 
ha na terra hum determinado li- 


quido 


336 Index do Problema 


quido que tenha aquella proprieda» 
de, mas fim que as pedras fe for- 
maô aílim como fe formaô os ve- 
getaes , e mineraes, fem que nós 
fabamos nem o como , nem de 
que. O haver nas entranhas da ter- 
ra hum fucco lapidifico he o mef. 
mo que fuppôr a exiftencia de hum 
corpo phyfico, que fó he confide- 
rado mentalmente; porque na ver- 
dade nunca foi vifto, nem achado. 
Além de que, fe ha com effeito hum 
Ífucco Japidifico, quem levou, ou 
como foi ao cume de altos montes 
donde vemos os rochedos ? Dirfe- 
ha que aquelle fucco foi, e efté nos 
lugares eminentes da mefma forte, 
que nos mefmos lugares fe encon- 
traô tantas agoas: porém efte ar- 
gumento naô conclue ; porque, as 
agoas faô corpos obfervaveis , e vil- 
tos a cada paílo, e tem origem ma- 

nifeíta; 


De drchiteiura Civil. 337 


nifefta ; e o Íucco Japidifico , nad 
fei que foffe vifto , ou achado al- 
guma vez. He certo haverem pe- 
dras, e por confequencia deve ha- 
ver huma materia petrificante, ou 
petrificavel; porém que efla talma- 
teria feja hum Íucco Japidifico , he 
Juftamente o que eu ignoro; por- 
que a exiftencia de hum corpo ma- 
terial , fó prova a fua exiftencia 
phyfica, mas naô prova que exif- 
te por efte, ou aquelle modo , ou 
fe fórme de hum Íucco determina- 
do. Nas pedreiras fe obferva quafi 
fempre que os bancos de pedra 
todos faô parallelos ao orizonte : 
efta circunftancia naõ tem fido bem 
examinada ainda, e talvez que def- 
te exame dependa unicamente oco- 
nhecimento de toda a petrificaçaõ. 
Maleavel. Maleabilidade. Vid. 
Ductilidade. 
Parc, IL, Y Mer- 


338 Index do Problema 


Mercurio. He ao que chama- 
mos azougue : os antigos lhe im- 
pozeraô aquelle nome ; porque en- 
tenderaôd que naquelle femimetal in- 
fluia o planeta de Mercurio. De- 
pois que a Phyfica fe inítruio me- 
lhor , ficarad todos conhecendo 
que nenhum dos planetas influe nos 
metaes, e que eftes faô corpos in- 
crpazes de influencia alguma : def- 
te principio veio a refultar o conhe- 
cimento certo de que algumas fi- 
guras que antigamente fe diziaô 
conffelladas , naô tem virtude algu- 
ma; a fuperítiçao da Gentilidade 
as introduzio ; a Phyfica inftruida 
as abolio. 

Microfcopio. Aflim fe chamaôd 
os inftrumentos feitos com tal arte, 
e com vidros figurados em fórma , 
que por meio delles fe defcobrem 
os objeétos ; parecendo eftes muitas 

vezes 


De Architeétura Civil. 339 


vezes maiores do que faô na reali- 
dade , e que fendo invifiveis pela 
fua fumma tenuidade , fó fe po- 
dem ver por hum artifício feme- 
lhante. E com effeito por meio do 
microícopio fe tem feito oblerva- 
çoens notaveis, deícobrindo-fe vi- 
fivelmente entidades invifiveis , e 
de que era impoflivel que os olhos 
deílem fé, fe naô foflem auxilia- 
dos por aquelle artifício facil ; e 
com tal certeza , que naô pode- 
mos duvidar da exiftencia phyfica 
de todos os objectos que o microf- 
copio nos faz ver. Os licores mais 
claros, e tranfparentes fuccede te- 
rem quantidade immenfa de ani- 
malculos viventes que nos meímos 
licores fubfiftem [empre em perpe- 
tua agitaçaô ; e he para admirar 
que em alguns licores corrofivos ; 
e que por efta qualidade pareciad 

7 inca- 


340 Index do Problema 


incapazes de conterem animaes vi- 
ventes , nelles fe encontraô infin:- 
tos , e taô indivifiveis, que para os 
olhos os diftinguirem he precifo 
que o microfcopio augmente mais 
de mil vezes o tamanho verdadei- 
ro de cada hum. No ar mais diá- 
phano, e mais puro, naô deixaô 
de haver femelhantes habitadores ; 
e deítes fe quer dizer que procede 
a pefte, quando Íuccede ferem de 
maligna natureza; poriflo toda a 
vifinhança de agoas corruptas faô 
infalubres commumente; porque o 
ar, em que circulaô humidades pu- 
tredinofas , precifamente ha de pro- 
duzir verminofas infecçoens: e de 
faito a fequidad total he incapaz 
de produzir ente algum; que te- 
nha vida ; porque fó a humidade 
póde circular, e fem circulaçaõ ne- 
nhum genero de animal naíce , nem 

fe 


De Architeflura Civil. 341 


fe cria: a organizaçaô de todos os 
viventes depende fempre da humi- 
dade ; porque eíta he converfivel em 
tudo quanto ha; em lugar que a fe- 
quidaõ total tem eftado permanen- 
te, e naô fe muda , nem conver- 
te em coufa alguma ; e he como 
o ultimo termo, a que hum corpo 
chega, do qual nunca faz mudan- 
ça, fem o concurfo de alguma hu- 
midade que fobrevenha. E já que 
o microfcopio nos conduzio a fallar 
da caufa de que-vem a pefte, tam- 
bem diremos , que os que opina- 
raô que aquelle mal terrrivel opro- 
cedia de bichos invifiveis de que na- 
quellas occafioens o ar eftá conta- 
minado , todos entenderad , e pror 
pozeraô varias provas : para fazer 
certa aquella opiniad ; porém.ne- 
nhum ( que eu faiba) fe fervio de 
huma prova natural, e bem conf. 
Part. TI, Yu tante, 


342 Index do Problema 


tante, com a qual fe verifica, ou 
ao menos fe faz muito provavel, 
que aquelle grande fyftema , ou 
conjectura he verdadeiro, e vem a 
fer ; que hum dos remedios mais 
promptos , e eflicazes para mode- 
rar a pefte , confifte commumente 
nos perfumes , ou nos fumos difte- 
rentes que fe mandaô exhalar nos 
lugares inficionados , por meio dos 
quaes o ar fe purifica de algum 
modo , e fica livre da infecçaô ma- 
ior. Porém ,-porque razaô fe puri= 
fica o: ar por aquelle modo , ou co- 
mo póde hum fumo paflageiro, e 
leve mudar o temperamento noci- 
vo da atmofphera, ou de hum ef 
paço de ar determinado? À folu- 
çaô da duvida confilte na mefma 
caufa de que procede a pelte ver- 
minofa ; porque quando aquelle 
mal provém de animalculos invifi- 

veis, 


De ÁrchitecturaCivil. 343 


veis, efpalhados no ambito defte, 
ou daquelle ar, entaô he certo que 
o fumo deve fer o remedio prin- 
cipal; porque todos fabem que o 
fumo bafta para fuffocar inteira- 
mente certos animaes ; e eftes quan- 
to mais pequenos, e invifiveis faô, 
tanto mais eftaô expoftos , e fentem 
mortalmente a fuffocaçaô do fumo; 
porque a mefma tenuidade das par- 
tes por onde a.refpiraçaô fe fórma, 
conduz para ferem pervertidas, fi- 
cando fem acçaôs e he certo, que 
ficando fufpendida , e retardada a 
refpiraçaô , morre,o animal infal- 
livelmente, e duraô mais, ou me- 
nos, fegundo a força que tem pa- 
rasrefifir a falta de refpirar. Ifto 
mefmo fe obferva em animaes vi- 
fiveis, e manifeftos, como fad os 
mofquitos v.'g. aos quaes he mortal 
todo o genero de fumo ; e da mef- 

Yiv ma 


344 Index do Problema 


ma forte a alguns infectos , aos 
quaes o fumo do enxofre derretido 
caufa o mefmo dano. Sabido elte 
principio, já fe moftra a precizad 
que ha, de que em doenças con- 
tagiofas , ou peftilenciaes , fe ufe 
abundantemente do remedio do fu- 
mo, praticado por muitas , e re- 
petidas vezes, fem que feja necef. 
fario que o fumo provenha de al- 
guma planta, ou herva efpecial; por- 
ue o fumo nad'extermina os ani- 
malculos do ar pela qualidade da 
herva de que refulta, mas untcamen- 
te por fer fumo. Daqui fe infere 
que ha muitas coufas que fe fabem, 
de que fe naô faz todo o cafo. que 
merecem; porque fe ignora o prin- 
cipio verdadeiro de que refultaô os 
feus effeitos. Efta digreflaõ foi a fa- 
vor do publico ; e o Medico pe- 
rito nao ha de deixar de fazer 
nella 


De Arcbitetiura Civil. 345 


nella alguma mais extenfa refle- 
xao. 

No ar naô tem podido o mi- 
crofcopio defcobrir vifivelmente a- 
quella feminal , ou verminofa ori- 
gem de contagio ; porque he de 
crer que ha muitas coufas de taô 
exquifita tenuidade , que nem por 
meio do microícopio as podemos 
ver. À natureza naô fó fe compoem 
de entidades immenfas no tamanho 
da grandeza , mas tambem na im- 
menfidade de huma monftruofa de- 
licadeza: em algumas póde o mi- 
crofcopio , accrefcentando muitas 
mil vezes o tamanho, e a figura, 
fazer com que poílaô fer viftas, e 
obfervadas ; em outras porém, por 
mais que o microfcopio faça agi- 
gantar os corpos, eftes nunca ficaô 
proporcionados aos noflos olhos 


para os podermos ver : a fumma exi- 
guida- 


346 Index do Problema 


guidade naô fe deixa vencer por 
algum engenho , ou arte. Todos 
fabem que ha efpiritos animaes, de 
que refulta a acçaô do movimento; 
porém eftes taes efpiritos , quem 
he que os chegou a ver, por mais 
que fe faba com certeza que tem 
a fua refidencia, e exitem corpo- 
ralmente nos liquidos dos mefmos 
animaes? Os efpiritos fabricadores 
da memoria , do entendimento , e 
penfamento , do vigor , ou força 
mufcular , e de outras muitas, e 
innumeraveis acçoens viventes, Íó 
fe manifeftaô pelos feus effeitos, e 
nunca por fi mefmos: os melhores 
microfcopios naô tem podido fazer 
efle milagre. O que tem feito he 
fazer ver nos orbes celeítes os fa- 
tellites de Jupiter, e Saturno mas 
naô as entidades corporaes que faô 
infinitamente pequenas , por mais 

que 


De Architettura Civil. 347 


que eftejaô chegadas aos noflos 
olhos; porque o corpo de todos os 
efprritos confifte em huma eftu- 
pendiílima , e como milagrofa exi- 
guidade. 
Nitro. He o mefmo que fali- 
tre, afim chamado vulgarmente 
Oleo de tartaro por deliquio. 
Tartaro val o mefmo que farro; 
efte provém fempre de todos os li- 
quidos que fermentad; e he huma 
concreçaô falina, e oleofa, que fi- 
ca encoltada na parte concava do 
vafo em que a fermentaçaõ fe fez, 
De todos os liquidos, depois que 
fermentaraô , provém aquelle farro, 
ou em mais, ou em menos abun- 
dancia, fegundo a qualidade do li- 
quido fermentado : porém quando 
fe dizo farro,ou tartaro fimplefmen- 
te, entende-fe o do vinho depois de 
fermentar o mofto na vafilha : def- 
ta; 


348 Index do Problema 


ta, ou da fua cavidade interior fe 
tira o farro chamado tartaro , O 
qual fe expoem fobre hum fogo 
ardente em que fe queima , exha- 
lando hum copiofo, e negro fumo, 
que he a parte oleofa que o mefmo 
fogo aparta da falina , ficando efta 
purificada por aquelle modo , e li- 
vre totalmente da parte oleofa com- 
buftivel: entaô expofto o tal farro 
queimado em hum vafo aberto, a 
humidade do ar penetrando o mef- 
mo farro, o humedece tanto , que 
o faz diflolver-fe todo, ficando li- 
quido, como qualquer fal diffolvi- 
do naagoa. Ifto he ao que fe cha- 
ma oleo de tartaro por deliquio ; 
porém do oleo verdadeiro naô tem 
nada , porque naô he inflammavel 
Já 5 mas chamafe-lhe oleo , porque 
he menos liquido do que a agoa, 
e tocado com a maô faz fenfaçaô 

de 


De Architeelura Civil. 349 


de hum liquido unêtuolo , naô 
contendo alias unétuofidade algu- 
ma. Efte memo chamado oleo , fe 
depois de filtrado fe expoem fobre 
hum fogo moderado para expellir 
delle a humidade toda, o que fica 
he hum verdadeiro fal, a que fe 
chama fal alcalino fixo; o qual pa- 
ra confervar-fe fecco, neceílita ef- 
tar tapado exactamente em vafo de 
vidro, ou bem vidrado ; porque , 
naô fendo afim, torna a humede- 
cer, ea deliquar-fe. O fal de todas 
as cinzas de vegetaes queimados 
contém hum fal da mefma nature- 
za, e com todas as melmas quali- 
dades, e daô igualmente hum fal 
alcalino fixo; porém o mais forte , 
e o mais recommendado no ufo de 
varias artes, he o que provém do 
farro do vinho , fabricado na fór- 
ma mencionada. 

Orbi- 


350 Tudex do Problema 


Orbita. He hum termo aftro- 
nomico : fignifica o caminho que 
os planetas defcrevem no feu giro. 
A orbita do Sol he o Zodiaco , por- 
que deíte naô fe aparta , e he o 
caminho que fe diz, que o Sol del- 
creve no feu giro annual. 

Pbhlogiftico. Aflim fe chama 
aquella parte que induz duétilidade 
nos metaes; porque extrahida del- 
les a parte Phlogiftica, já o metal 
nem fe funde fobre o fogo , nem 
tem ductilidade alguma , porque fi- 
ca reduzido em pó. Do ouro , nem 
da prata , naô fe póde extrahir a 
parte phlogiftica ; porque nem o 
fogo mais violento , nem os efpi- 
ritos fortes, e corrofivos podem fa- 
zer aquella tal feparaçaô. O efta- 
nho, e o chumbo, facilmente per- 
dem a fua parte phlogiftica, por- 
que poftos em fundiçaô continua- 

da 


De Árchiteétura Civil. 351 


da exhalaô hum fumo branco, em 
que a phlogiftica parte fe diflipa ; 
porém fe nefte eftado fe lhes jun- 
ta alguma materia oleofa , unétuo- 
fa, oucebacea, tornad a recobrar 
aquella parte perdida , e tornaô a 
ferem fuziveis , e duétiveis. Efta fin- 
gularidade tem fido obfervada pou- 
co; talvez que os que vierem fa- 
çaô nella mais profunda obferva- 
çaô; e deita , ao que eu entendo, 
haô vir a refultar utiliflimos effei- 

tos, e inventos admiraveis. 
Precipitar. He hum termo chi- 
mico , que val o meífmo que fa- 
zer cahir ao fundo do vafo o corpo 
diflolvido em algum liquido dif 
folvente. Iíto fe obferva na diflo- 
luçaô da prata em efpirito de ni- 
tro, ou agoa forte : fe nefta com 
effeito fe acha diflolvida a prata, 
enfraquecendo-fe com agoa com- 
mua 


352 Index do Problema 


mua a diffoluçaõ, e deitando- fe nel- 
la huma certa porçaô de cobre , eí- 
te novamente fe diflolve naquelle 
liquido , e faz cahir ao fundo do 
vafo a prata corporizada já , e li- 
vre da difloluçaô em que fe acha- 
va: entaô fica diflolvido o cobre 
no mefmo diflolvente ; e defte fe 
fe quer retirar o cobre diflolvido , 
Junte-fe á difloluçao huma certa 
porçaô de ferro, o qual fe diffol- 
ve, e faz cahir ao fundo o cobre, 
ficando fó diflolvido o ferro; e fe 
entaô fe junta á difloluçaô huma 
certa porçaô de pedra calaminar , 
efta da mefma forte fe diflolve, e 
faz cahir ao fundo o ferro; e fe fe 
Junta á mefma difoluçaô huma cer- 
ta porçaô de fal alchalino fixo, ef- 
te deftruindo o acido nitrofo , faz 
cahir ao fundo a pedra calaminar ; 
e o que entaô ultimamente fica, 

he 


De drchiteciura Civil. 353 


he hum fal neutro. Aquella acçaô 
de fazer cahir ao fundo do valo con- 
tinente o corpo diflolvido he ao 
que fe chama precipitar. 

À razaô,porque hum corpo dife 
folvido fe precipita quando vem ou- 
tro que fe diflolve, parece que pro- 
cede de huma efpecie de fympathia, 
ou analogia entre o corpo diflolvi- 
do, e o diflolvente; porque o ef. 
pirito do nitro , que fympathiza mais 
com o cobre do que com a prata, 
efta fe precipita por aquelle; por- 
que o efpirito de nitro, que tinha 
unido , e incorporado intimamente 
afia prata, logo a larga para to- 
mar o cobre , e a efte tambem lar- 
ga para tomar o ferro; e a efte 
faz o mefmo para fe unir com a pe- 
dra calaminar : efta he a que fica 
ultimamente diffolvida, e unida per- 
feitamente ao efpirito do nitro; até 


Part. II. Z que 


354 Index do Problema 


que hum fal alchalino fixo, deilru- 
indo o acido nitrofo , tira-lhe q 
vigor , “e força com que eltava 
para diflolver aqueltes corpos to- 
dos. 

Se no mundo ha fympathias, 
aquella he huma dellas ; e taô conf- 
tante entre o efpirito do nitro, e 
aquelles metaes todos , que feni 
que o efprrito fe deítrua , naô per- 
de aquella propriedade , ou incli- 
naçaô; amando a huns mais do que 
a outros ; e deixando huns por 
amor dos outros. Na difloluçaô do 
ouro na agoa régia fuccede o mef- 
mo, porque o ouro fe precipita por 
meio do eftanho , fazendo no liqui- 
do diflolvente raios purpurinos com 
viftofas apparencias ; e o eftanho 
diflolvido tambem fe precipita por 
meio de hum fal alchalino fixo. E 
aílim fe vê que aquelles diflolven- 

tes 


Dedrchitetura Civil. 35% 


tes repellem alguns corpos para in- 
corporarem a fi outros. Que outra 
coufa mais he a (ympathia fe naô 
aquillo mefmo? No Iman he mais 
vifivel huma femelhante propenfaô, 
e muito mais conftante , porque at- 
trahe oferro, enada mais; enaô 
fó fe manifefta quando fe dá a pre- 
fença immedita de hum , e outro; 
mas ainda eftando feparados em 
diftancia proporcionada aa vigos 
da pedra. Que admiraveis experis 
mentos ; e que effeitos utilifimos 
tem refultado felizmente daquelle 
amor reciproco, econftante! q 
Naô podemos pois negar a 
exiftencia perpetua de huma efpe- 
cie de fympathia entre aquelles cor- 
pos , fe he que naô he fympathia 
verdadeira, e rigorofa; e fe a ha 
entre os licores, e metaes ; e em: 
tre eftes, € os mineraes ; como a 
Zu naõ 


356 Index do Problema 


naô ha de haver entre os coraçoens 
dos animaes ? eftes fendo fenfiveis 
naturalmente, e fendo por fi mef- 
mos propenfos, e inclinados , co- 
mo póde deixar de haver entre el- 
les fympathia ? Todos fabem que 
o Mercurio fe incorpora intimamen- 
te ao ouro, e fe une como com af- 
feito irreprimivel ? em fegundo lu- 
gar faz o mefmo à prata, depois 
ao eltanho , ao chumbo , ao co- 
bre; mas em primeiro lugar ; e 
com mais vigor ao ouro, do qual 
fe naô fepara, fe o fogo o naô 
obriga a feparar. Porém naô fabem 
todos a juíta proporçaô em que O 
Mercurio póde unir-fe á aquelles 
metaes todos : eu a communiquei 
na palavra amalgamar. 

Alguns explicad as precipita- 
çoens, admittindo fyítemas , que 
ainda eftaô por demonítrar, e que 

faô 


DeArchiteltura Civil. 357 


faô mais difficeis de entender, do 
que a mefma queítad que fe quer 
explicar com elles. À razaó da fym- 
pathia , ou antypathia , he razaô 
reprovada hoje ; talvez que feja 
defprezada , fó por fer antiga; por- 
que aflim como em algumas cou- 
fas a antiguidade tem caracter ve- 
neravel , em outras a mefma an- 
tiguidade he fundamento defprezi- 
vel. A impulfaõ , e repul(aõ dos cor- 
pos , com que os Phyficos modernos 
pretendem explicar os phenómenos 
naturaes , naô daô explicaçaô al- 
guma ; porque a duvida fica fem- 
pre fubfiftindo , vifto que por aquel- 
le modo naô fe diz de que procede 
effa mefma impulfaô , e repulfaõ; 
e val o meímo naô explicar a cou- 
fa, que explicalla de buma forte, 
que a explicaçaô necelite fer ex- 
plicada. O dar à fympathia o.no- 


Part. II. Zn me 


358 Index do Probleina 


me de impulfaô, he dizer o mefmo 
por outra fórma ; e a differença nos 
vocabulos naô induz differença 
nas fubftancias. 

E aílim de que havemos de 
dizer que procede a precipitaçaõ 
de hum corpo diflolvido em hum 
liquido diffolvente? Digamos, fun- 
dados em hum principio certo, o 
qual he , que todos os diflolven- 
tes quantos ha, naô diflolvem 
igualmente os corpos difloluveis 
nelles; mas a huns diflolvem com 
mais facilidade do que a outros 
Iíto fe demonftra com a agoa com- 
mua , na qual muitos corpos fe 
diflolvem, mas nenhum com tan- 
ta facilidade como O nitro, ou o 
fal commum: e pelo mefmo fun- 
damento os diflolventes , a alguns 
corpos retém , e guardaô em (fi 
com mais innata propriedade , e 

perfif- 


De Architeciura Civil. 359 


perfiftencia do que a outros. Ifto 
fe demonftra tambem com a diflo- 
luçaô confufa de varios , e differen- 
tes faes na agoa commua. Diflol- 
vamos v. g. naquella agoa o fal do 
mar, onitro, e o fal extrahido de 
quaefquer cinzas. Nefta difloluçad 
confufa daquelles faes havemos 
de achar infallivelmente que en- 
trando a evaporar a agoa que os 
diflolveo até apparecer a pellicula 
falina que vem à fuperficie do dife 
folvente , pondo a eíte em lugar 
frio, depois de paflarem algumas 
horas, o primeiro fal que fe crif- 
talliza ; tomando fua propria, e na- 
tural figura , he o nitro ; o qual 
extrahido do diflolvente, fe a efte 
tornamos a evaporar até á forma- 
çaô da pellicula falina, e pondo-o 
da meíma forte em parte fria, de- 
pois de paflarem algumas horas, 

Z iv vere- 


360 Index do Problema 


veremos criftallizado o fal do mar; 
até que ultimamente fica no diílol- 
vente o fal das cinzas incriftalliza- 
vel, e fó feparavel por meio da 
evaporaçaô total da agoa, que ti= 
nha diflolvido aquelles faes. 

Por aquelle modo fe demonf- 
tra evidentemente que a agoa com- 
mua (que aliãs he como hum dif- 
folvente univerfal) nad diflolve os 
faes com a melma, e igual facili- 
dade; porque huns mais de prefla 
fe diflolvem nella, e em maior por- 
çad; e outros em porçaô menor , 
e com mais vagar : tambem fe vê, 
que a agoa commua naô larga de 
fi confufamente aquelles faes con- 
fufos, mas fim gradualmente; por- 
que o primeiro que larga , e fe crif- 
talliza, he o nitro; depois logo fe 
fegue o faldo mar; e ultimamente 


fica com tenacidade unido à agoa o 
fal 


De drchiseeinra Cívil, 361 


fal das cinzas, da qual fe naô fepa- 
ra fem que violentamente o fogo 
o faça feparar. E aflim fica mani- 
fefto que a agoa commua, o fal 
para que propende mais, e a que 
mais fe une he o das cinzas vege- 
taes; depois defteo fal, que retém 
mais, he o do mar; e depois def- 
te, o com que menos fe entranha, 
e incorpora , he o fal nitro. Pofto 
pois; e demonftrado efte principio, 
vamos ao que fe fegue. 

No exemplo de que fazemos 
mençaô aílima , vimos que , eftan- 
do a prata diffolvida na agoa forte, 
fe fe junta à difloluçaô o cobre, 
eíte faz precipitar a prata ; fican- 
do diffolvido o cobre ; efte preci- 
ta-fe pelo ferro; e eíte tambem pe- 
la pedra calaminar fe precipita; e 
á pedra calaminar fuccede o mef. 
mo pela juncçaô de hum (fal de 

no 


362 Index do Problema 


lino fixo. Se perguntarmos de que 
vem, oude que procedem aquellas 
regulares precipitaçoens ; diremos 
(fundados no principio pofto affi- 
ma) quea agoa forte diflolve com 
mais facilidade o cobre do que a 
prata, por iflo o acido nitrofo 
(que he em que refide a força dif- 
folvente) delampara a prata, pa- 
ra diflolver o cobre ; e neíta ac- 
çaô a prata livre já daquelle aci- 
do , a que eftava unida, cahe, ou 
precipita-fe ao fundo do vafo que a 
contém; e da melma forte aquel- 
le acido, que diflolve com mais fa- 
cilidade o ferro do que o cobre, na 
acçaô de diflolver o ferro, larga o 
cobre para fe unir, e diflolver o fer- 
ro; e por hum igual principio, 
aquelle acido , que mais facilmente 
diflolve a pedra calaminar do que 
o ferro , deixa a eíte para diflol- 

ver, 


De Architeilura Civil. 363 


ver, e fe unir á pedra calaminar ; 
eao mefmo tempo, para a diflol- 
ver, larga o ferro que entaô fe pre- 
cipita. Ultimamente fe fe ajunta a 
aquelle diflolvente qualquer fal al- 
chalino fixo, efte deftruindo o aci+ 
do, fa-lo incapaz de diflolver ou= 
tro corpo algum, porque a todos 
expelle, e precipita para fó elle fi- 
car unido ao acido , com o qual 
copoem hum novo genero de fala 
que chamaô neutro , porque nem he 
acido, nem alchalino, mas compofto 
de hum , e outro , por iflo alguns 
fallando daquelles dous faes unidos 
difleraôd: Erstis duo in carne una , fi- 
gurando em hum a qualidade maf- 
culina , e em outro a feminina, 

Se fe perguntar ainda porque 
razaô o acido nitrofo diffolve com 
mais facilidade huns corpos do que 
outros , diremos que dos primei 

ros 


364 Index do Problema 


ros principios naô fe faz queftad, 
nem fe pergunta a caufa; porque 
fe afim fofle , entrar-fe-hia em hum 
progreflo em infinito , inquirindo 
fempre qual he a caufa da caufa. 
Naô fe admite o queltionar-fe a 
razaô v.g porque a terra he com- 
paíta, e folida; nem a agoa por- 
que he fluida; nem o ar, porque 
he diáphano; nem o porque o fo- 
go tem calor. Podemos difputar fo- 
bre a natureza das coufas elemen- 
tadas; e naô fobre a natureza oria 
ginal dos elementos: bafta que dif- 
corramos Ífobre os effeitos fecunda- 
rios; porque o conhecer os effeitos 
primarios , ou caufas primordiaes , 
naô he para nós. E aflim quando 
dizemos que hum corpo diflolvido 
em hum licor fe precipita, porque 
o licor diffolve outro com mais fa- 
cilidade , demonitrando efte prin- 

cipio ; 


De Architeelwra Civil. 365 


cipio, temos fatisfeito. À humana 
indagaçaô tem limites certos, dos 
quaes fe naô póde paflar humana- 
mente. 

Sal commum. He o mefmo que 
fal do mar. 

Sal gema. Efte he o nome que 
em Latim , e em todas as lingoas 
Europeas,fe dá a hum genero de fal, 

ue he da mefma natureza que o 
fal commum , e que ferve para os 
ufos todos a que ferve aquelle fal, 
A figura do criftal brilhante lhe 
fez dar a denominaçaô de gema , 
ou pedra preciofa ; porque com ef- 
feito reprefenta huma pedra cubi- 
ca, eluítrofa. Defte fal querem di- 
zer que procede o fal do mar; por- 
que hum , e outro tem a meíma 
qualidade , e com elles fe fazem 
igualmente os meímos experimen- 
tos; Íó com a diferença , e 

a 


366 Index do Problema 


fal gema he mais puro do que o ou- 
tro, enas fuas operaçoens moftra 
fer mais forte, Se defte procede o 
fal do mar, he queítaô naô decidi- 
da ainda; porém o fer hum, e ou- 
tro da melma natureza em tudo, 
faz conjecturat provavelmente que 
do fal gema refulta o fal commum. 
Mas como havemos de entender, 
e perfuadirnos que as minas de fal 
gema que ha na terra fejaô baftan- 
tes para dar ás agoas do mar todo 
o fal que ellas contém ? Parece; 
que fe toda a terra fe convertefle em 
fal gema, nem aílim poderia fazer 
o mar falgado; porque fendo o ef- 
paço do mar muitas vezes maior do 
que o ambito da terra, fica fendo 
incrivel que o fal da terra diffolvi- 
do naqueilas agoas as fizeflem taô 
falgadas. Alguns quizerad que o 
mar foffe-falgada defde a fua crea- 

çaó: 


De drchireeturaCivil. 367 


gaô: efta opiniaô parece bem fun- 
dada , ainda: que feja improvavel 
por fi mefma. Os que differaô que 
a operaçaôd do Sol fobre as meímas 
agoas he de donde lhes procedeo, 
o fal, conjeéturaraõ fem fundamen- 
to racionavel ; porque naô fe via 
ainda que os raios do Sol fizeffem 
femelhante producçad em outras 
agoas nem ainda naquellas que fe 
naô movem , cuja circunftancia , ou 
falta de movimento deveria contri- 
buir eficazmente para a formaçaô 
do fal,fe ella em fi fofle poflivel;por- 
que todo o corpo, que fe naô mor 
ve, conferva mais aptidaô para 
receber impreíloens eftranhas. As 
palavras do fagrado Texto: Spiri- 
tus Domini ferebarur fuper aquas » 
parece que fe podem applicar ao 
fal: efte na verdade he hum corpo 
confervativo , e fempre foi fingu- 

lariza- 


368 Index do Problema 


larizado, ou efpecializado entre os 
outros corpos todos ; e o mefmo 
Salvador do mundo fallando delle , 
diffe aos feus Apoftolos: Vos eftis 
Jal terre. E com effeito o fal com- 
mum he o que conferva , e faz as 
agoas do mar incorruptiveis, ain- 
da mais do que o movimento del- 
las; por iflo póde chamar-fe ao fal 
Espirito do mar, porque a confer- 
vaçaô de todos quantos corpos ha 
depende da materia efpirituofa que 
elle tem , fem a qual tendem na- 
turalmente para huma infallivel cor- 
rupçaô. Lito fe comprova com infi- 
nitos experimentos ; e hum delles 
he o vinho, do qual fe fe lhe tira 
o efpirito inflammavel , logo dege- 
nera, e fe corrompe; e quando fe 
lhe introduz maior porçaô daquel- 
le meímo efpirito, fica o vinho in- 
corruptivel de algum modo ; por- 

que 


De drchitectura Civil. 369 


que fe o efpirito fó por fi naô ad- 
mitte corrupçaô , e-he totalmente 
incapaz della, antes ferve para pre- 
fervar de corrupçaõ , todos quan- 
tos corpos ha, e que faô corruptis 
veis de ft mefmos. Com tudo eu naô 
Julgo a queftaô , nem refolvo fir- 
mente fe o fal do mar provém do 
fal gema diflolvido nelle, ou fe as 
fuas agoas foraô falgadas deíde a 
fua creaçaô ; porque he melhor 
fique duvidofa , e irrefoluta , do que 
aflentir em hum fyftema igualmen- 
te duvidofo : na Phyfica , a prova 
conjeétural tem pouca , ou nenhu- 
ma authoridade ; porque em tudo 
o que he improvavel , ou em que 
naô ha nem podem haver provas 
evidentes, devemos refpeitar mais 
a indecifaô, do que a foluçaô; e 
efta quando eftá deftituida de evi- 
dencia , naô fó he defprezavel, mas 


Part. II. Aa tam- 


370 Index do Problema 


tambem influe delprezo na mate- 
ria decidida : a efcuridade total 
tem mais valor, do que huma cla- 
ridade fombria, e mal fegura, Ito 
deve proceder aflim em todas as 
queítoens da Phyfica; porque nel- 
tas naô ha obrigaçaõ » nem ne- 
cellidade de julgar ; naquillo po- 
rém, em que he precifo o decidir, 
Rad contentar-nos com as pro- 
vas que feachaõ, fem exigir maior 
clareza do que aquella que fe acha, 
e naô toda a que póde achar-fe : 

daqui naíce muitas vezes huma in- 
Juftiça neceflaria. 

Sal neutro. Alim fe chama o 
fal, que nem he acido , nem al- 
calico ; mas he formado de hum, 
e outro; por io fe chama neutro. 
Se faciarmos o efpirito do nitro 
com o'eo detartaro por deliquio; 


depois de feita a faturaçaô, reful- 
ta 


De drchitectira Civil. 371 


ta hum fal, que nem he acido, 
nem alcalino , mas compoíto de 
hum, eoutro. Na juncçaô daquel- 
les dous liquidos contrarios, o aci- 
do do nitro , penetrando logo o al- 
calico do tartaro, o deftroe; e da 
meíma forte o alcalico tartarofo pe- 
netrando o acido nitrofo tambem 
lhe tira, ou desfaz a corrofaôd , mu- 
dando-lhe inteiramente a indole. 
No corpo dos animaes Íuccede 
aquillo meímo; porque o que a ar- 
te fabrica aprefladamente , a natu- 
reza lentamente faz , e com mais 
feliz fucceílo quando a arte a foc- 
corre, e patrocina. 

Sal nitrofo. He o mefmo que 
falitre. 

Sublimaçao. Alim fe denomi= 
na toda aquella operaçaô, em que 
por meio do calor, hum corpo fu- 
blimavel fe levanta ao alto do vafo 


Aa nt fubli- 


372 Index do Problema 


fublimatorio , e aquillo mefmo que 
chamamos diftillaçao nos corpos 
liquidos , chamamos fublimaçaõ a 
reípeito dos corpos feccos ; os li- 
quidos fe diftillao, os feccos fe fu- 
blimaô eftes como naô faô taô ex- 
panfiveis como aqueles, naô paf- 
faô ao valo chamado recipiente, e 
fó ficaô juntos, ou pegados na ca- 
vidade fuperior, e interna do valo 
fublimatorio. Por efte modo fe fa- 
bríca o fublimado mercurial, e da 
mefma forte fe fabrica afim a flor 
do enxofre, o fal volatil armonia- 
co, e outras muitas compofiçoens. 
Porém nem todos os corpos feccos 
faô fublimaveis , porque fó o faô 
aquelles que faô volateis: os que 
faô fixos nunca por fi mefmos fe 
fublimaô, por mais que o fogo feja 
activo , e continuado ; e quando 


com efeito fe fublimaõô , he pela 
intima 


Dedrcbitetlura Covil, 373 


intima juncçaô de outro corpo vo- 
latil por fi mefmo. Nenhum me- 
tal ( exceptuando o azougue , 
que he fó femimetal) fe fublima; 
porém a conjuncçaô de hum corpo 
volatl faz que os metaes facil- 
mente fe fublimem. O fal armonia- 
co faz fublimar os metaes todos, 
unindo-fe eftreitamente a cada hum, 
e levando-os comigo ; por io à 
aquelle excellente fal chamaô os 
chimicos Áquila alba. O azougue, 
naô fó fe fublima eftando Íó, más 
tambem promptamente fe diftilla 
como qualquer liquido vegetal. 
Tartaro Vid. Oleo de tartaro. 
Vidro circulatorio. Todos os 
vidros, a que fe tapa o orificio, ou 
feja hermeticamente , ou por ou- 
tro modo algum , fe chamaô Circa- 
latorios. Nelles Circulaô com ef- 
feito os licores volateis, aos quaes 
Part. II. Aa mi fe 


374 Index do Problema 


fe quer conciliar mais eficacia, ou 
mais vigor; porque o calor do fo- 
go fazendo os fubir infinitas vezes 
ao alto do valo, de donde defcem 
para a bafe concava , aflim fe pu- 
rificaôd, e adquirem mais virtude, 
e propriedades differentes daquellas 
que tinhaô antes. Da czrculaçao con- 
tinuada muito tempo ; e com pa- 
ciencia refultaô effeitos fingulares , 
e muitas vezes inefperados ; o ar- 
tifta apenas póde perceber a razaô 
phyfica, porque fem additamento 
de materia, hum licor fimples, ou 
compofto ; produz mudanças ad- 
miraveis , fem intervir na opera- 
çaô mais circunítancia alguma do 
que a circulaçaô conftante, e repe- 
tida. Os licores que fe circulaô faô 
volateis, porque fó no que he vo- 
latil tem lugar a circulação; vitto 
que o licor deve Íubir ao alto do 

valo 


De Árchitettura Civil. 375 


vafo circulatorio, reduzido em va- 
por ; donde tornando a tomar a 
ua fórma liquida defce ao fundo, 
e daqui torna a Íubir, e a delcer 
infinitas vezes. Ifto he ao que Íe 
chama Circular. 

Hum dos fins, para que os 
licores fe fazem circular , he para 
os fazer menos volateis ; porque 
aquella acçaô continnada lhes ti 
ra a propenfaô de fe exaltarem , ou 
fubirem; e nefte eftado neceffitad 
mais calor para poderem circular ; 
até que com effeito difficultofamen- 
te fobem, perfiftindo immoveis na 
parte inferior do vidro circulato- 
rio: entaô fe fe adminiftra hum ca- 
lor mais forte do que aquelle que 
o licor póde fopportar, fubitamen- 
te arrebenta o vidro ; e fe he no 
tempo, em que o artifta o obferva, 
os fragmentos do mefmo vidro o 

Aa iv ferem, 


276 Index do Problema 


ferem, e muitas vezes o deixad fem 
poder obfervar mais nada ; por iÍ- 
fo dizia o Meftre: Cave oculis , au- 
ribus , maribus. E na verdade he 
perigofa a adminiftraçao de hum 
calor forte; porque naô Ífó fe cor- 
te o rifco de que o vidro repenti- 
namente defpedaçado offenda os 
olhos do artíta obfervador , mas 
tambem de que o vapor quente do 
licor que fe circula fuffoque ao mef- 
mo artiífta em hum inftante ; e quan- 
do o licor he corrofivo , o vapor 
delle defordena infallivelmente a 
fabrica vital da refpiraçaô , e efta 
depois de defordenada , e corroida, 
nem Efculapio poderia dar reme- 
dio. 

O oleo do vitriolo , que he 
volatil em hum vidro aberto , fe 
efte fe fecha, para que circule o 
oleo dentro, moíftra, e tem refif- 

tencia 


De drcbitetura Civil. 377 


tencia para Íubir; porque o feo pe- 
zo efpecifico , e maior que o de 
todos os mais licores, o faz refif- 
tir a hum calor commum ; e fe ef- 
te fe augmenta para fazer circular 
o oleo, o fogo intenfo , dando a 
aquelle oleo huma forçada volati- 
lidade, entaô o vapor ardente rom- 
pendo o clauftro do vidro circula- 
torio, em hum inftante o defpeda- 
ça; e enchendo hum grande efpa- 
ço do ar vifinho de hum halito cor- 
rodente , e cauítico, faz ulcerar to- 
das as membranas por onde a inf- 
piraçaô , e refpiraçaô fe fórma. O 
Mercurio que tambem coftuma cir- 
cular-fe para o reduzir em hum pó 
medicinal , exige igual cautela; 
porque o feu vapor naô deixa de 
fer nocivo, ainda que o mal que pro- 
cede delle, he menos prompto, e 
procede lentamente; mas por iílo 

meímo 


378 Index do Problema 


meímo he fummamente perigofo ; 
porque nunca fe attribue ao vapor 
mercurial o dano protrahido , e que 
quando fe manifeíta já naô lembra 
o vapor de que veio a refultar; en- 
taô naô fe conhece a enfermidade, 
e injuftamente fe bufca outro mo- 
tivo, fendo a caula do mal mui dif 
ferente , do que aquella de que 
fe entende proceder. 

A razaô da volatilidade dos li- 
cores, que circulaô, ainda naó ef- 
tá bem conhecida ; as conjecturas 
que temos nefte ponto faô pouco 
ponderaveis; porque as provas em 
que fe fundaô fatisfazem pouco. 
Ha porém alguns experimentos, 
em que fe naô tem feito o reparo 
neceflario ; nem fer fe os meímos 
experimentos faô vulgares , ou fe 
faô fó meos ; porque naô vi que 
ninguem os obfervafle , nem fizeí- 

fe, 


De Architectura Civil. 3:79 


fe, ou os efcreveíle. O chumbo, 
e o eftanho fabem todos, que em 
eftando fundidos em qualquer vi= 
dro aberto , e em hum grao de ca- 
lor determinado, logo entraôd a ex- 
halar hum fumo branco ; porém he 
menos obfervada a circunftancia de 
que o mefmo eftanho , ou chumbo 
que eítando fundidos em vafo deí- 
coberto , exhalaô aquelle vapor 
denfo ; e branco; fe fe poem em 
vidro circulatorio; em que o orifi- 
cio fe tapa exactamente, já entaô 
nenhum vapor exhala , nem Íobe 
ao alto do valo que o contém ; e 
de tal forte, que refiftem ao fogo 
mais activo , fem que o vidro fe 
defpedace , ou arrebente. O mef- 
mo fuccede ao Bifmuth que he hu- 
ma elpecie de eltanho artificial, e 
quebradiço. O enxofre fendo hum 
mineral muito volatil, e inflamma- 

vel, 


330 Index do Problema 


vel , eftando derretido em vidro 
aberto, fe o poem no vidro circu= 
latorio, nem fe exhala, nem fe in- 
flamma, nem quebra o vidro que 
o encerra, por mais que feja forte 
o fogo que o derrete, e por mais 
que a operaçaô fe continue. À cau- 
fa defte phenómeno indagaraô ou- 
tros; e eu por hora bafta que pro- 
ponha o experimento , e defte co- 
nheceráô os operarios de varias at- 
tes, a importancia de que he o ef- 
tarem tapados, ou defcobertos os 
vidros, ou os vafos de que fe fer- 
vem, fegundo as intençoens dos 

que dirigem alguma operaçaô. 
Naô he menos admiravel o fe- 
guinte experimento. Ponha-fe em 
hum vidro circulatorio qualquer 
porçaô de agoa commua; com tan- 
to que naô occupe mais do que a 
terceira parte, pouco mais, ou me- 
nos ; 


De Architetura Civil. 381 


nos, do efpaço efpherico do vidro; 
efte fe tape hermeticamente , e de- 
pois fe ponha ao calor moderado 
de huma luz, a cujo artifício cha- 
maô os Latinos : [gais lampadis ; 
e os Francezes tambem lhe cha- 
maô : Feu de lampe. Verfe-ha logo 
nos primeiros dias da operaçaô, 
entrar a agoa a circular, fubindo 
ao collo do vidro, e defcendo pa- 
ra a parte concava em figura de 
lagrimas criftallinas, fazendo hum 
apparato viltofo de globulos deca- 
dentes. Dura aquella Ícena alguns 
dias fucceílivos , confórme a por- 
çaô de agoa empregada nella: de- 
pois fó fe diftinguem algumas pin- 
gas da mefma agoa , porém já me- 
nos volateis : em fe augmentando 
a mefma qualidade de calor, torna 
a manifeftar-fe a circulação abun- 
dantemente , até que de todo fe 

fufpen- 


382 Index do Problema 


fufpende, e a agoa fica como im- 
mobil na parte inferior da efphera, 
Netfte eftado fe o calor fe augmen- 
ta mais, arrebenta o vidro , redu= 
zido em particulas infinitas : e quan- 
to mais o vidro he groflo , tanto 
mais he violenta a explofaô da agoa 
que continha. 
Algum incauto artifta fe vif- 
fe a agoa immobil no fundo do vi- 
dro circulatorio , e fem fubir ao al- 
to delle, naô obftante o calor ad- 
miniftrado , logo havia de enten- 
der que a agoa por meio da circu- 
laçaô eftava fixa, porém enganar- 
fe-hia, como muitos fe enganaraô 
em outros experimentos femelhan- 
tes. À razaô phyfica, porque aquel- 
la agoa fica immobil , provém de 
caufa fufficiente, e naô de fixaçaô; 
e vem a fer; que oar que a agoa 
tinha em fi, fahindo della por meio 
do 


De Arcbitellura Civil, 383 


do calor, occupou o efpaço inte- 
rior do valo circulatorio, de cuja 
occupaçaô veio a refultar que a 
agoa naô podeíle fubir , porque 
já naô tinha efpaço livre, por 
eltar todo cheio com o ar que o 
occupava ; da melma forte que 
hum cilindro cheio de ar com- 
prelo naô póde admittir outro 
corpo algum , em quanto a com- 
preflaô lubfifte; porque he faéto 
ciemonitrado vifivelmente , que pa- 
ra hum corpo entrar em algum. ef- 
paço determinado , ha de fer ex- 
pellindo o ar que contiver o corpo 
que houver de occupar aquelle ef- 
paço. E aflim o phenómeno que á 
primeira vifta admira , em fe fa- 
bendo o principio de que refulta , 
perde a notabilidade toda , e naô 

admira mais. 
Outro experimento bem fim- 
ples » 


384 Index do Problema 


ples, e naô advertido ainda, e 
que encontra hum dos principios 
certos em que a Phyfica fe funda 
muitas vezes, he hum com que fe 
póde demonftrar que a regra da 
dilataçaô, ou expanfibilidade do 
ar, naô fe verifica lempre, e tem ca- 
fo em que fe limita : o experimen. 
to he efte. Tome-fe hum vidro cir- 
culatorio, e feito por aquellla fór- 
ma a que os artiftas Francezes cha- 
maô Matraz ; deíte fe tape o ori- 
ficio hermeticamente fem que den- 
tro tenha licor , nem materia al- 
guma. Se oar, que elte vafo con- 
tém dentro , he expanfivel, e di. 
latavel pelo calor, em fe pondo o 
valo fobre hum calor forte, o ar 
que tiver dentro entrando a dila- 
tar-fe , ea occupar maior efpaço, 
precifamente ha de o valo reben- 
tar. Ito he o que devia fucceder, 

fegun- 


De.drchitehuira Civil. 384 
feguhdo a regra da dilataçaô ; ce 
expanfibilidade do ar. Porém naô 
fuccede aflim ; porque, ainda que o 
calor feja adminiftrado muito for- 
te , nem por iflo o valo fe deípe- 
daça , antes fica fempre illefo, e 
fem mudança. A razaô, porque 
aflim fuccede, depende de mais lar- 
ga difcuílao : eu indiquei o fa£to, 
outros difcorreráô Ífobreva canfa 
delle. .; 

- Naô fó provém Penis 
fingulares «das circulaçoens artifi- 
ciaes , mas parece que o mundo 
todo he huma circulaçad perpetua, 
e natural. No corpo dos animaes 
faô infinitas as circulaçoens ; por- 
que naô fó he o fangue o que cir- 
cula , mas todos os mais humores 
circulaô de algum modo , ainda 
que naô tanto fenfivelmente , nem 
com tanta regularidade, O repoulo 

Part. II Bb total 


386 Index do Problema 


total de qualquer liquido induz a 
corrupçaô , ou mais , ou menos 
prompta ; porque o liquido que 
naô f2 move perde os:feus efpiri- 
tos moventes , e progreflivamente 
degenera em humor inerte , con- 
creto , e muitas vezes purulento, 
Na meíma fubftancia interna, e fo- 
lida dos oflos, fe dá huma verda- 
deira , e regular circulaçaô , por 
meio da qual a unétuofidade pro- 
pria difcorre pela cavidade oflofa, 
e vat communicando aos mefmos 
oílos huma efpecie de alimento ef- 
pirituofo , de que depende a dure- 
za, e confiftencia delles; e quan- 
do lhes falta , ou fe acha perturba- 
da aquella nutriçaô ; logo fe fegue 
a debilidade, ou fragilidade aquele 

les folidos principaes. 
E com efeito fe por meio do 
fogo privarmos totalmente hum of« 
“ “Jo 


De drcbiteturaCivil. 387 


fo da unétuofidade , que tem co- 
mo ligadas, e juntas as Íuas partes, 
o oflo fica brevemente reduzido em 
pó. Da meíma forte fica fraétivel 
á maneira de hum corpo cafeofo ; 
todo , e qualquer oflo na machina 
Papiniana (aflim chamada do nome 
do feu Author) naõ obitante o nad 
ter o oflo naquelia machina hum fo- 
go immediato, mas feparado del- 
le, porque a fua acçaô he dirigi- 
da contra o bronzeide que a mef- 
ma machina fe fórma. Até nas plan- 
tas fe dá circulaçaõ ; porque em 
cada huma dellas, por mais minima 
que feja , circula o liquido vegetal; 
e tanto, que nas partes em que ef- 
tá retardada » ou embaraçada a cir- 
culaçaô , logo as mefmas partes 
feccaô , ficando fem vigor » € CO- 
mo mortas. Porque. razaô no'fim 
do Outono commumente as folhas 


Bbi de 


388 Index do Problema 


de quafi todas as arvores fe feccaô, 
ficando ellas como'em pafmo , ou 
lethargo? A caufa he, porque en- 
taô.o frio entorpece o liquido ve- 
getante, e faz que fique como dor- 
mente, e fem acçaô; porém aílim 
que a Atmofphera entra a recobrar 
algum calor, os efpiritos vegetaes 
fe animaô , e começaô novamen- 
te a circular. Algumas plantas, ou 
arvores refiftem ao rigor do Inver- 
no ; porque fendo rezinofas , e 
oleofas, efta-circunítancia as defen- 
de mais, e faz com que na efta- 
çaô do frio fe confervem frondo(as, 
mas naó frutuofas. 

E finalmente o mundo he hum 
valo circulatório; e elle mefmo cir- 
cula incellantemente. Os planetas 
giraô circulando; e o Firmamento, 
que fe move , infunde hum movi- 
mento perpetuo a todos os orbes 

celef- 


De Architebtura Civil. 389 


celeftes.: A vida eftá na agitaçaô 
dos corpos , e a morte no defcan- 
ço. He hum corpo morto todo 
aquelle, em cuja fabrica interior naô 
ha trabalho ; efte naô o fente, nem 
ainda quem o tem : a circulaçaõ' do 
fangue , e dos humores animaes ; 
fó fe percebem quando elles fe naô 
movem ; porque entaô a dor, que fe 
fegue logo , fenfivelmente nos ad- 
verte de.que o fangue naô circu- 
la, ou circula mal. 

“= Vitriolo. He ao que chama- 
mos commumente caparro(fa ; a qual 
naô he mais do que huma diflolu- 
çaô fubterranea do ferro, ou co- 
bre, feita no acido Íulphureo : 
aquella natural compofiçaô , ou dif- 
foluçaô , a arte a faz perfeitamen- 
te, emais brevemente a natureza 
a faz na terra; porém mais de pref- 
fa a arte, He hum corpo; de que re- 

fultad 


390 Index do Problêma 


fultaô effeitos admiraveis ; e bafta 
que mereceíle que o illuftre Ca- 
valleiro de Bethune trabalhaffe 
nelle fincoenta annos Íucçellivos: 
naô fei fe publicou as fuas obfer- 
vaçoens ; eítas continhaô phenó- 
menos rarifimos fobre aquelle mi- 
neral. 

Volatil. Volatil fe diz daquel- 
le corpo, que expofto ao fogo fe 
exhala ou inteiramente , ou par- 
cialmente , fegundo o grao de vo- 
latilidade , que he propria a cada 
hum ; porque os corpos naô faô 
volateis igualmente ; e huns para 
ferem volatilizados neceflitad maior 
calor; e outros menor ; e alguns 
ha que fe volatilizaô pelo ca- 
lor remiffo de huma atmofphera 
temperada ; e outros ha, que ain- 
da na eftaçaô fria fe diipaõ , ef- 
tando em vaíos deícobertos. O no- 

bre 


De Arcbiteélura Civil. 391 
4 


bre Roberto Boile tratou efta 
materia admiravelmente; e o que 
elle naô defcobrio , ninguem tem 
deícoberto ainda, 


FIM.